Gabriel Garca Mrquez 

Prmio Nobel de Literatura 

Cem anos de solido 


Traduo de ELIANE ZAGURY 

48 EDIO 
EDITORA RECORD 


RIO DE JANEIRO  SO PAULO 

Ttulo original: 

Cien Aos de Solead 

Copyright 
 1967 by Gabriel Garca Mrquez 


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Portugal adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSAS. A. 
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Obras do autor 

Cem anos de solido 
O amor nos tempos do clera 

A aventura de Miguel Littn clandestino no Chile 

Cem anos de solido 

Cheiro de goiaba 

Crnica de uma morte anunciada 

Do amor e outros demnios 

Doze contos peregrinos 

O enterro do diabo 

Entre amigos 

Os funerais da mame grande 

O general em seu labirinto 

A incrvel e triste histria da Cndida Erndira e sua av desalmada 

A m hora (O veneno da madrugada) 

Ningum escreve ao coronel 

Notcia de um seqestro 

Olhos de co azul 

O outono do patriarca 

Relato de um nufrago 

Textos do Caribe (2 volumes) 


CEM ANOS DE SOLIDO 

Gabriel Garca Mrquez 

*** 

O colombiano Gabriel Garca Mrquez (1928)  o ltimo grande contador de histrias 
do sculo XX  e, at prova em contrrio, da prpria literatura ocidental. Depois de cem 
anos marcados por revolues literrias radicais, no deixa de ser surpreendente que ele 
tenha conquistado tamanha notoriedade  nem o Nobel lhe falta ganhou-o em 1982  
enquanto tentava apenas imitar o tom com que sua avo materna lhe contava episdios mais 
fantsticos: sem alterar um s trao do rosto. 

Em nenhum outro livro Garca Mrquez empenhou-se tanto para alcanar aquele tom 
como em Cem anos de solido (1967). Assim, ao mesmo tempo em que a incrvel e 
triste histria dos Buenda  a estirpe de solitrios para a qual no ser dada uma segunda 
oportunidade sobre a terra  pode ser entendida como uma autntica enciclopdia do 
imaginrio, ela  narrada de modo a parecer sempre que tudo faz parte da mais banal das 
realidades.. 

Seria ingnuo procurar uma chave que explicasse toda a grandeza deste livro diante 
do qual o repertrio de adjetivos torna-se espantosamente ineficaz. Porm,  razovel atribuir 
parte do xito de Cem anos quela contaminao, pelo real, do universo maravilhoso da 
fictcia Macondo, onde se passa o romance. Aqui pesou muito a experincia jornalstica de 
Garca Mrquez. E tambm a sombra do tcheco Franz Kafka (foi depois de ler a primeira 
frase de A metamorfose que Garca Mrquez decidiu que seria escritor). 

Mas, para alm desses artifcios tcnicos e influncias literrias,  preciso que se diga 
que a atordoante sensaode realidade que transborda do livro deve-se ainda ao fato de que 
ele foi escrito, segundo o autor, para dar uma sada s experincias que de algum modo me 
afetaram durante a infncia. Tome-se, por exemplo, a primeira frase de Cem anos. Quando o 
escritor era pequeno, seu av, o coronel Mrquez, o apresentou mesmo, maravilhado, ao gelo, 
tal como Jos Arcadio Buenda faz com o filho Aureliano. Do mesmo modo que Jos Arcadio, 

o av de Garca Mrquez tambm carregava, na viglia e nos sonhos, o peso de um morto  o 
homem que havia assassinado. O coronel era marido de Tranquilina, aquela av que encheu os 
primeiros anos e o resto da vida do neto Gabriel de histrias bem contadas. 
Garca Mrquez costuma dizer que todo grande escritor est sempre escrevendo o 
mesmo livro. E qual seria o seu?, perguntaram-lhe. O livro da solido, foi a resposta. 

Apesar disso, ele no considera Cem anos sua melhor obra (gosta demais de O outono 
do patriarca, onde o tema tambm est presente). O que importa? O certo  que 
nenhum outro romance resume to completamente o formidvel talento deste contador de 
histrias de solitrios  que se espalham e se espalharo por muito mais de cem anos pelas 
Macondos de todo o mundo. 

Rinaldo Gama 
*** 


MUITOS anos depois, diante do peloto de fuzilamento, o Coronel Aureliano 
Buenda havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o 
gelo. Macondo era ento uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construdas  
margem de um rio de guas difanas que se precipitavam por um leito de pedras 
polidas, brancas e enormes como ovos pr-histricos. O mundo era to recente que 
muitas coisas careciam de nome e para mencion-las se precisava apontar com o dedo. 
Todos os anos, pelo ms de maro, uma famlia de ciganos esfarrapados plantava a sua 
tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroo de apitos e tambores,dava a conhecer 
os novos inventos. Primeiro trouxeram o im. Um cigano corpulento, de barba rude e 
mos de pardal,* que se apresentou com o nome de Melquades, fez uma truculenta 
demonstrao pblica daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos 
sbios alquimistas da Macednia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes 
metlicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeires, os tachos, as tenazes e 
os fogareiros caam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos 
parafusos tentando se desencravar, e at os objetos perdidos h muito tempo 
apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada 
turbulenta atrs dos ferros mgicos de Melquades. As coisas tm vida prpria, 
apregoava o cigano com spero sotaque, tudo  questo de despertar a sua alma. Jos 
Arcadio Buenda, cuja desatada imaginao ia sempre mais longe que o engenho da 
natureza, e at mesmo alm do milagre e da magia, pensou que era possvel se servir 
daquela inveno intil para desentranhar o ouro da terra. Melquades, que era um 
homem honrado, preveniu-o: Para isso no serve. Mas Jos Arcadio Buenda no 
acreditava, naquele tempo, na honradez dos ciganos de modo que trocou o seujumento e um rebanho de cabritos pelos dois lingotes imantados. rsula Iguarni sua 
mulher, a que contava com aqueles animais para aumentar o raqutico patrimnio 
domstico, no conseguiu dissuadi-lo. Muito em breve vamos ter ouro de sobra para 
assoalhar a casa, respondeu o marido. Durante vrios meses empenhou-se em 
demonstrar o acerto das suas conjeturas. Explorou palmo a palmo a regio, inclusive o 
fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o conjuro de 
Melquades. A nica coisa que conseguiu desenterrar foi uma armadura do sculo XV, 
com todas as suas partes soldadas por uma camada de xido, cujo interior tinha a 
ressonncia oca de uma enorme cabaa cheia de pedras. Quando Jos Arcadio Buenda 
e os quatro homens da sua expedio conseguiram desarticular a armadura, 
encontraram um esqueleto calcificado que trazia pendurado no pescoo um relicrio 
de cobre com um cacho de cabelo de mulher. Em maro os ciganos voltaram. Desta 
vez traziam um culos ao alcance e uma lupa do tamanho de um tambor, que exibiram 
como a ltima descoberta dos judeus de Amsterdam. Sentaram uma cigana num 
extremo da aldeia e instalaram o culo de alcance na entrada da tenda. Mediante o 
pagamento cinco reais, o povo se aproximava do culo e via a cigana ao alcance da 
mo. A cincia eliminou as distncias, apregoava Melquades. Dentro em pouco o 
homem poder ver acontece em qualquer lugar da terra, sem sair de sua casa. Num 
meio-dia ardente, fizeram uma assombrosa demonstrao com a lupa gigantesca: 
puseram um monto de seco na metade da rua e atearam fogo nele pela concentrao 

* 

No original manos de gorrin. Explicao do autor  tradutora: O importante da imagem  que esse 
pssaro tem patas de ave de rapina, mas  bom e inofensivo. Melquades tambm, por suas mos, e  primeira 
vista, podia parecer uma ave de rapina, mas no o era, como se viu mais tarde. 


dos raios solares. Jos Arcadio Buenda, que ainda no se consolara de todo do fracasso 
dos seus ms, concebeu a idia de utilizar aquele invento como uma arma de guerra. 
Melquades, outra vez, tratou de dissuadi-lo. Mas terminou os dois lingotes imantados 
e trs peas de dinheiro colonial em troca da lupa. rsula chorou de consternao. 
Aquele dinheiro fazia parte de um cofre de moedas de ouro que seu pai acumulara em 
toda uma vida de privaes e que havia enterrado debaixo da cama,  espera de uma 
boa ocasio para investi-las. Jos Arcadio Buenda nem sequer tentou consol-la, 
entregue que estava por inteiro s suas experincias tticas, com a abnegao de um 
cientista e at mesmo com o risco da prpria vida. Tentando demonstrar os efeitos da 
lupa na tropa inimiga, ele mesmo se exps  concentrao dos raios solares e sofreu 
queimaduras que se transfo rmaram em lceras e demoraram muito tempo para sarar. 
Diante dos protestos da mulher, alarmada por to perigosa inventiva por pouco no 
incendiou a casa. Passava longas horas no quarto, fazendo os clculos das 
possibilidades estratgicas da nova arma, at que conseguiu compor um manual de 
uma assombrosa clareza didtica e um poder de convico irresistvel. Enviou-o s 
autoridades, acompanhado de numerosos testemunhos sobre as suas experincias e de 
vrios apndices de desenhos explicativos, aos cuidados de um mensageiro que 
atravessou a serra, extraviou-se em pntanos desmesurados, subiu rios tormentosos e 
esteve a ponto de perecer sob o ataque das feras, o desespero e a peste, at encontrar 
um caminho que o levasse s mulas do correio. Embora a viagem  capital fosse 
naquele tempo quase impossvel, Jos Arcadio Buenda prometia tent-la logo que o 
Governo ordenasse, com o fim de fazer demonstraes prticas do seu invento diante 
dos poderes militares, e adestr-los pessoalmente nas complicadas artes da guerra 
solar. Durante vrios anos esperou a resposta. Por fim, cansado de esperar, lamentou-
se diante de Melquades do fracasso da sua iniciativa e o cigano, ento, deu uma prova 
convincente de honradez: devolveu-lhe os dobres em troca da lupa e deixou, para ele, 
alm disso, uns mapas portugueses e vrios instrumentos de navegao. De seu 
prprio punho e letra escreveu uma apertada sntese dos estudos do monge Hermann, 
que deixou  sua disposio para que pudesse se servir do astrolbio, da bssola e do 
sextante. Jos Arcadio Buenda passou os longos meses de chuva fechado num 
quartinho que construra no fundo da casa, para que ningum perturbasse as suas 
experincias. Tendo abandonado completamente as obrigaes domsticas, 
permaneceu noites inteiras no quintal, vigiando o movimento dos astros, e quase 
sofreu uma insolao, por tentar estabelecer um mtodo exato para determinar o meio-
dia. Quando se tornou perito no uso e manejo dos seus instrumentos, passou a ter uma 
noo do espao que lhe permitiu navegar por mares incgnitos, visitar territrios 
desabitados e travar relaes com seres esplndidos, sem necessidade de abandonar o 
seu gabinete. Foi por essa ocasio que adquiriu o hbito de falar sozinho, passeandopela casa sem se incomodar com ningum, enquanto rsula e as crianas suavam em 
bicas na horta cuidando da banana e da taioba, do aipim e do inhame, do car e da 
berinjela. De repente, sem anncio prvio, a sua atividade febril se interrompeu e foi 
substituda por uma espcie de fascinao. Esteve vrios dias como que enfeitiado, 
repetindo para si mesmo em voz baixa um rosrio de assombrosas conjeturas, sem dar 
crdito ao prprio entendimento. Por fim, numa tera-feira de dezembro, na hora do 
almoo, soltou de uma vez todo peso do seu tormento. As crianas haviam de recordar 
o resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sentou na cabeceira da mesa, 


tremendo de febre, devastado pela prolongada viglia e pela pertincia da sua 
imaginao, e revelou a eles a sua descoberta: 

 A terra  redonda como uma laranja.
rsula perdeu a pacincia. Se voc pretende ficar louco fique sozinho, gritou. 
No tente incutir nas crianas as suas idias de cigano. Jos Arcadio Buenda, 
impassvel, no se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de 
clera, destroou o astrolbio contra o solo. Construiu outro, reuniu no quartinho os 
homens do povoado e demonstrou a eles, com teorias que acabaram sendo 
incompreensveis para todos, a possibilidade de regressar ao ponto de partida 
navegando sempre para o Oriente. A aldeia inteira j estava convencida de que Jos 
Arcadio Buenda tinha perdido juzo, quando Melquades chegou para pr a coisa em 
pratos limpos. Ressaltou em pblico a inteligncia daquele homem que, por pura 
especulao astronmica, construra uma teoria j comprovada na prtica, se bem que 
desconhecida at ento em Macondo, e como uma prova da sua admirao deu lhe um 
presente que havia de exercer uma influncia decisiva o futuro da aldeia: um 
laboratrio de alquimia. 

Por essa poca, Melquades tinha envelhecido com uma rapidez assombrosa. 
Nas suas primeiras viagens parecia ter a mesma idade de Jos Arcadio Buenda. Mas 
enquanto este conservava a sua fora descomunal, que lhe permitia derrubar um 
cavalo agarrando-o pelas orelhas, o cigano parecia estragado por um mal tenaz. Era, na 
realidade, o resultado de mltiplas estranhas doenas contradas nas suas incontveis 
viagens o redor do mundo. Conforme ele mesmo contou a Jos Arcadio Buenda, 
enquanto o ajudava a montar o laboratrio, morte o seguia por todas as partes, 
farejando-lhe as calas, as sem se decidir a dar o bote final. Era um fugitivo de quantas 
pragas e catstrofes haviam flagelado o gnero humano. Sobreviveu  pelagra na Prsia, 
ao escorbuto no arquiplago da Malsia,  lepra em Alexandria, ao beribri no Japo,  
peste bubnica em Madagascar, ao terremoto na Siclia e a um naufrgio 
multitudinrio no estreito de Magalhes. Aquele ser prodigioso que dizia possuir as 
chaves de Nostradamus era um homem lgubre, envolto numa aura triste, com um 
olhar asitico que parecia conhecer o outro lado das coisas. Usava um chapu grande e 
negro, como as asas estendidas de um corvo, e um casaco de veludo patinado pelo limo 
dos sculos. Mas, apesar da sua imensa sabedoria e de sua aura misteriosa, tinha um 
peso humano, uma condio terrestre que o mantinha atrapalhado com os minsculos 
problemas da vida cotidiana. Queixava-se de achaques de velho, sofria pelos mais 
insignificantes prejuzos econmicos e tinha deixado de rir h muito tempo, porque o 
escorbuto lhe havia arrancado os dentes. No sufocante meio-dia em que revelou os 
seus segredos, Jos Arcadio Buenda teve a certeza de que aquele era o princpio de 
uma grande amizade. As crianas se assombraram com os seus relatos fantsticos. 
Aureliano, que naquele tempo no tinha mais de cinco anos, havia de recordar pelo 
resto da vida como o viu naquela tarde, sentado contra a claridade metlica e 
reverberante da janela, iluminando com a sua profunda voz de rgo os territrios 
mais escuros da imaginao, enquanto esguichava pelas tmporas a gordura derretida 
pelo calor. Jos Arcadio, seu irmo mais velho, havia de transmitir aquela imagemmaravilhosa, corno uma recordao hereditria, a toda a sua descendncia. rsula, 
pelo contrrio, conservou uma lembrana desagradvel daquela visita, porque entrou 
no quarto no momento em que Melquades quebrava por distrao um frasco de 
bicloreto de mercrio. 


  o cheiro do demnioela disse. 
 Absolutamente  corrigiu Melquades.  Est comprovado que o demnio 
tem propriedades sulfricas, e isto no passa de um pouco de sublimado corrosivo. 
Sempre didtico, fez uma sbia exposio sobre as virtudes diablicas docinabre, mas rsula no lhe deu a menor ateno e levou as crianas para rezar. Aquele 
cheiro acre ficaria para sempre em sua memria vinculado  lembrana de Melquades. 

O laboratrio rudimentar  no se falando na profuso e caarolas, funis, 
retortas, filtros e coadores  estava composto de uma tubulao primitiva; uma 
proveta de cristal, de pescoo comprido e estreito, imitao do ovo filosfico; e um 
alambique construdo pelos prprios ciganos, de acordo com as descries daquele de 
trs braos, de Maria, a judia. Alm destas coisas, Melquades deixou amostras dos 
sete metais correspondentes aos Sete planetas, as frmulas de Moiss e Zzimo para a 
duplicao do ouro, e uma srie de notas e desenhos sobre os processos do Grande 

Magistrio, que permitiam a quem os soubesse interpretar a tentativa de fabricao da 
pedra filosofal. Seduzido pela simplicidade das frmulas para duplicar o ouro, Jos 
Arcdio Buenda adulou rsula durante vrias semanas, para que lhe permitisse 
desenterrar as suas moedas coloniais e aument-las tantas vezes quantas fosse possvel 
subdividir o azougue. rsula cedeu, como acontecia sempre, diante da inquebrantvel 
obstinao do marido. Ento, Jos Arcdio Buenda jogou trinta dobres numa 
caarola e os fundiu com raspa de cobre, ouro-pigmento, enxofre e chumbo. Ps tudo 
para ferver em fogo forte, num caldeiro de leo de rcino, at obter um xarope espesso 
e fedorento, mais parecido com uma calda vulgar do que com o ouro magnfico. Em 
azarados e desesperados processos de destilao, fundida com os sete metais 
planetrios, trabalhada com o mercrio hermtico e o vitrolo de Chipre, e novamente 
cozida em banha de porco na falta de leo de rbano, a preciosa herana de rsula 
ficou reduzida a um torresmo carbonizado que no pde ser desprendido do fundo do 
caldeiro. 

Quando os ciganos voltaram, rsula j havia predisposto toda a populao 
contra eles. Mas a curiosidade pde mais que o temor, porque daquela vez os ciganos 
percorreram a aldeia fazendo um barulho ensurdecedor com todo tipo de 
instrumentos musicais, enquanto o pregoeiro anunciava a exibio da mais fabulosa 
descoberta dos nasciancenos. De modo que todo mundo foi  tenda, e com o 
pagamento de um centavo viu um Melquades juvenil, refeito, desenrugado, com uma 
dentadura nova e radiante. Os que recordavam as suas gengivas destrudas pelo 
escorbuto, as suas bochechas flcidas e os seus lbios murchos, estremeceram de pavor 
diante daquela prova decisiva dos poderes sobrenaturais do cigano. O pavor se 
converteu em pnico quando Melquades tirou os dentes, intactos, engastados nas 
gengivas, e mostrou-os ao pblico por um instante  um instante fugaz em que voltou 
a ser o mesmo homem decrpito dos anos anteriores  e botou-os outra vez e sorriu 
de novo com um domnio pleno da sua juventude restaurada. At o prprio Jos 
Arcdio Buenda considerou que os conhecimentos de Melquades tinham chegado a 
extremos intolerveis, mas experimentou um saudvel alvoroo quando o cigano lhe 
explicou a ss o mecanismo da sua dentadura postia. Aquilo lhe pareceu ao mesmo 
tempo tao simples e prodigioso, que da noite para o dia perdeu todo o interesse pelas 
pesquisas de alquimia; sofreu uma nova crise de mau humor, no voltou a comer de 
maneira regular e passava o dia dando voltas pela casa. Esto ocorrendo coisasincrveis pelo mundo, dizia a rsula. A mesmo, do outro lado do rio, existe todo tipo 


de aparelho mgico, enquanto ns continuamos vivendo como os burros. Os que o 
conheciam desde os tempos da fundao de Macondo se assombravam do quanto ele 
havia mudado sob a influencia de Melquades. 

No princpio, Jos Arcadio Buenda era uma espcie de patriarca juvenil, que 
dava instrues para o plantio e conselhos para a criao de filhos e animais, e 
colaborava com todos, mesmo no trabalho fsico, para o bom andamento da 
comunidade. Posto que a sua casa fosse desde o primeiro momento a melhor da aldeia, 
as outras foram arranjadas  sua imagem e semelhana. Tinha uma saleta ampla e bem 
iluminada, uma sala de jantar em forma de terrao com flores de cores alegres, dois 
quartos, um quintal com um castanheiro gigantesco, um jardim bem plantado e um 
curral onde viviam em comunidade pacfica os cabritos, os porcos e as galinhas. Os 
nicos animais proibidos no s em casa, mas tambm em todo o povoado, eram os 
galos de briga.

A diligncia de rsula andava de braos com a de seu marido. Ativa, mida, 
severa, aquela mulher de nervos inquebrantveis, a quem em nenhum momento da 
vida se ouviu cantar, parecia estar em todas as partes desde o amanhecer at a noite j 
bem avanada, sempre perseguida pelo suave sussurro das suas anguas de cambraia. 
Graas a ela, o cho de terra batida, os muros de barro sem caiao, os rsticos mveis 
de madeira construdos por eles mesmos estavam sempre limpos, e as velhas arcas 
onde se guardava a roupa exalavam um cheiro tnue de manjerico. 

Jos Arcadio Buenda, que era o homem mais empreendedor que se poderia ver 
na aldeia, determinara de tal modo a posio das casas que a partir de cada uma se 
podia chegar ao rio e se abastecer de gua com o mesmo esforo; e traara as ruas com 
tanta habilidade que nenhuma casa recebia mais sol que a outra na hora do calor. 
Dentro de poucos anos, Macondo se tornou uma aldeia mais organizada e laboriosa 
que qualquer das conhecidas at ento pelos seus 300 habitantes. Era na verdade uma 
aldeia feliz, onde ningum tinha mais de trinta anos e onde ningu m ainda havia 
morrido. 

Desde os tempos da fundao, Jos Arcadio Buenda construra alapes e 
gaiolas. Em pouco tempo, encheu de corrupies, canrios, azules e pintassilgos no s 
a prpria casa, mas todas as da aldeia. O concerto de tantos pssaros diferentes chegou 
a ser to aturdidor que rsula tapou os ouvidos com cera de abelha para no perder o 
senso da realidade. Na primeira vez que chegou a tribo de Melquades, vendendo bolas 
de vidro para dor de cabea, todo mundo se surpreendeu por terem podido encontrar 
aquela aldeia perdida no marasmo do pntano, e os ciganos confessaram que haviam se 
orientado pelo canto dos pssaros. 

Aquele esprito de iniciativa social desapareceu em pouco tempo, arrastado pela 
febre dos ms, pelos clculos astronmicos, sonhos de transmutao e nsias de 
conhecer as maravilhas do mundo. De empreendedor e limpo, Jos Arcadio Buenda se 
converteu num homem de ar vadio, descuidado no vestir, com uma barba selvagem aque rsula conseguia dar forma a duras penas, com uma faca de cozinha. No faltou 
quem o considerasse vtima de algum estranho sortilgio. Mas at os mais convencidos 
da sua loucura abandonaram o trabalho e a famlia para segui-lo, quando atirou ao 
ombro as foices e machados, e pediu a participao de todos para abrir uma picada que 
pusesse Macondo em contato com os grandes inventos. 

Jos Arcadio Buenda ignorava por completo a geografia da regio. Sabia que 
para o Oriente estava a serra impenetrvel, e do outro lado da serra a antiga cidade de 


Riohacha, onde em pocas passadas  segundo lhe havia contado o primeiro 
Aureliano Buenda, seu av  Sir Francis Drake era dado ao esporte de caar jacars a 
tiros de canho. Os bichos eram depois remendados, recheados de palha e mandados 
para a Rainha Elizabeth. Na sua juventude, ele e seus homens, com mulheres e crianas 
e animais e toda espcie de utenslios domsticos, atravessaram a serra procurando 
uma sada para o mar, e ao fim de vinte e seis meses desistiram da empresa e fundaram 
Macondo, para no ter que empreender o caminho de volta. Era, pois, uma rota que 
no lhe interessava, porque s podia conduzi-lo ao passado. Ao Sul estavam os charcos 
cobertos de uma eterna nata vegetal, e o vasto universo do grande pantanal, que, 
segundo testemunho dos ciganos, carecia de limites. O grande pantanal se confundia 
ao Ocidente com uma extenso aqutica sem horizontes, onde havia cetceos de pele 
delicada, cabea e torso de mulher, que perdiam os navegantes com o feitio das suas 
tetas descomunais. Os ciganos navegavam seis meses por essa rota antes de alcanar a 
faixa de terra firme por onde passavam as mulas do correio. De acordo com os clculos 
de Jos Arcadio Buenda, a nica possibilidade de contato com a civilizao era a rota 
do Norte. De modo que dotou de foices, faces e armas de caa os mesmos homens que 

o acompanharam na fundao de Macondo; ps numa mochila os seus instrumentos 
de orientao e os seus mapas, e empreendeu a temerria aventura. 
Nos primeiros dias, no encontraram nenhum obstculo aprecivel. Desceram 
pela pedregosa margem do rio at o lugar onde anos antes haviam achado a armadura 
do guerreiro e ali penetraram na mata por um caminho de laranjeiras silvestres. Ao fim 
da primeira semana, mataram e assaram um veado, mas se conformaram em comer a 
metade e salgar o resto para os prximos dias. Trataram de adiar com essa precauo a 
necessidade de continuar comendo azaras, cuja carne azul tinha um spero sabor de 
almscar. Em seguida, durante mais de dez dias, no voltaram a ver o sol. O solo 
tornou-se mole e mido, como cinza vulcnica, e a vegetao fez-se cada vez mais 
insidiosa, e ficaram cada vez mais longnquos os gritos dos pssaros e a algazarra dos 
macacos, e o mundo ficou triste para sempre. Os homens da expedio se sentiram 
angustiados pelas lembranas mais antigas, naquele paraso de umidade e silncio, 
anterior ao pecado original, onde as botas se afundavam em poas de leos fumegantes 
e os faces destroavam lrios sangrentos e salamandras douradas. Durante uma 
semana, quase sem falar, avanaram como sonmbulos por um universo de depresso, 
iluminados apenas por uma tnue reverberao de insetos luminosos e com os 
pulmes agoniados por um sufocante cheiro de sangue. No podiam regressar, porque 
a picada que iam abrindo em pouco tempo tornava a se fechar com uma vegetao 
nova que ia crescendo a olhos vistos. No tem importncia, dizia Jos Arcadio 
Buenda. O essencial  no perder a orientao. Sempre de olho na bssola, 
continuou guiando os seus homens para o Norte invisvel, at que conseguiram sair da 
regio encantada. Era uma noite densa, sem estrelas, mas a escurido estava 
impregnada de um ar novo e limpo. Esgotados pela prolongada travessia, penduraram 
as redes e dormiram profundamente pela primeira vez em duas semanas. Quando 
acordaram, j com o sol alto, ficaram pasmos de fascinao. Diante deles, rodeado de 
fetos e palmeiras, branco e empoeirado na silenciosa luz da manh, estava um enorme 
galeo espanhol. Ligeiramente inclinado para estibordo, de sua mastreao intacta 
penduravam-se os fiapos esqulidos do velame, entre a enxrcia enfeitada de 
orqudeas. O casco, coberto por uma lisa couraa de caracas e musgo tenro, estava 
firmemente encravado num cho de pedras. Toda a estrutura parecia ocupar um 


mbito prprio, um espao de solido e esquecimento, vedado aos vcios do tempo e 
aos maus hbitos dos pssaros. No interior, que os expedicionrios exploraram com 
um secreto fervor, no havia nada alm de um espesso bosque de flores. 

O achado do galeo, indcio da proximidade do mar, quebrantou o mpeto de 
Jos Arcadio Buenda. Considerava como uma brincadeira do seu destino travesso ter 
procurado o mar sem encontr-lo, ao preo de sacrifcios e incmodos sem conta, e tlo 
encontrado agora sem procur-lo, atravessado no seu caminho como um obstculo 
intransponvel. Muitos anos depois, o Coronel Aureliano Buenda voltou a atravessar a 
regio, quando j era uma rota regular do correio, e a nica coisa que encontrou da 
nave foi o esqueleto carbonizado no meio de um campo de amapolas. S ento 
convencido de que aquela histria no tinha sido fruto da imaginao de seu pai, 
perguntou-se como pudera o galeo penetrar at aquele ponto na terra firme. Mas Jos 
Arcadio Buenda no levantou esse problema quando encontrou o mar, ao fim de 
outros quatro dias de viagem, a doze quilmetros de distncia do galeo. Seus sonhos 
terminavam diante desse mar de cor cinza, espumoso e sujo, que no merecia os riscos 
e sacrifcios da sua aventura. 

 Porra!  gritou.  Macondo est cercado de gua por todos os lados. 
A idia de um Macondo peninsular prevaleceu durante muito tempo, inspirada 
no mapa arbitrrio que Jos Arcadio Buenda desenhou ao regressar da sua expedio. 
Traou-o com raiva, exagerando de m f as dificuldades de comunicao, como que 
para castigar-se a si mesmo da absoluta falta de senso com que escolheu o lugar. 
Nunca chegaremos a parte alguma, lamentava-se para rsula. Aqui haveremos de 
apodrecer em vida sem receber os benefcios da cincia. Essa certeza, ruminada por 
vrios meses no quartinho do laboratrio, levou-o a conceber o projeto de trasladar 
Macondo para um lugar mais propcio. Mas desta vez, rsula se antecipou aos seus 
desgnios febris. Num secreto e implacvel trabalho de formiga, predisps as mulheres 
da aldeia contra a veleidade dos seus homens, que j comeavam a se preparar para a 
mudana. Jos Arcadio Buenda no soube em que momento, nem em virtude de que 
foras adversas, seus planos se foram emaranhando numa teia de pretextos,
contratempos e evasivas, at se transformarem em pura e simples iluso. rsula 
observou-o com uma ateno inocente, e at sentiu por ele um pouco de piedade na 
manh em que o encontrou no quarto dos fundos comentando entre dentes os seus 
sonhos de mudana, enquanto colocava nas suas caixas originais as peas do 
laboratrio. Deixou-o terminar. Deixou-o pregar as caixas e pr as suas iniciais em 
cima com um pincel cheio de tinta sem lhe fazer nenhuma censura, mas j sabendo que 
ele (porque o ouviu dizer em seus surdos monlogos) que os homens do povoado no o 
seguiriam na empresa. S quando comeou a desmontar a porta do quartinho  que 
rsula se atreveu a lhe perguntar por que o fazia, e ele lhe respondeu com certaamargura: J que ningum quer ir embora, ns iremos sozinhos. rsula no se 
alterou. 

 Ns no iremos  disse.  Ficaremos aqui, porque aqui tivemos um filho. 
 Ainda no temos um morto  ele disse.  A gente no  de um lugar 
enquanto no tem um morto enterrado nele.

rsula replicou, com uma suave firmeza: 

Se  preciso que eu morra para que vocs fiquem aqui,eu morro. 

Jos Arcadio Buenda no acreditou que fosse to rgida a vontade de sua 

mulher. Tratou de seduzi-la com o feitio da sua fantasia, com a promessa de um 


mundo prodigioso onde bastava derramar uns lquidos mgicos na terra para que as 
plantas dessem frutos  vontade do homem, e onde se vendiam a preo de banana toda 
espcie de aparelhos contra a dor. Mas rsula foi insensvel  sua clarividncia. 

 Em vez de andar por a com essas novidades malucas, voc devia era se 
ocupar dos seus filhos  replicou.  Olhe como esto, abandonados ao deus-dar, 
como os burros. 
Jos Arcadio Buenda tomou ao p da letra as palavras da mulher. Olhou pela 
janela e viu os dois meninos descalos na horta ensolarada, e teve a impresso de ques naquele instante tinham comeado a existir, concebidos pelos rogos de rsula. 
Alguma coisa aconteceu ento no seu ntimo; alguma coisa misteriosa e definitiva que 

o desprendeu do tempo atual e o levou  deriva por uma inexplorada regio delembranas. Enquanto rsula continuava varrendo a casa que agora estava certa de 
no abandonar peio resto da vida, ele permaneceu contemplando as crianas com um 
olhar absorto, at que seus olhos se encheram dgua e ele os enxugou com o dorso da 
mo, exalando um profundo suspiro de resignao. 
 Bem  disse.  Diga-lhes que venham me ajudar a tirar as coisas dos 
caixotes. 
Jos Arcadio, o mais velho dos meninos, havia completado quatorze anos. Tinha 
a cabea quadrada, o cabelo hirsuto e o gnio voluntarioso do pai. Ainda que tivesse o 
mesmo impulso de crescimento e fortaleza fsica, j ento era evidente que carecia de 
imaginao. Foi concebido e dado  luz durante a penosa travessia da serra, antes da 
fundao de Macondo, e seus pais deram graas aos cus ao comprovar que no tinha 
nenhum rgo de animal. Aureliano, o primeiro ser humano que nasceu em Macondo, 
ia fazer seis anos em maro. Era silencioso e retrado. Tinha chorado no ventre da me 
e nasceu com os olhos abertos. Enquanto lhe cortavam o umbigo movia a cabea de um 
lado para o outro, reconhecendo as coisas do quarto, e examinava o rosto das pessoas 
com uma curiosidade sem assombro. Depois, indiferente aos que vinham conhec-lo, 
manteve a ateno concentrada no teto de palmas, que parecia estar quase desabandosob a tremenda presso da chuva. rsula no tornou a se lembrar da intensidade desse 
olhar at o dia em que o pequeno Aureliano, na idade de trs anos, entrou na cozinha 
no momento em que ela retirava do fogo e punha na mesa uma panela de caldo 
fervente. O garoto, perplexo na porta, disse: Vai cair. A panela estava posta bem no 
centro da mesa, mas, logo que o menino deu o aviso, iniciou um movimento irrevogvel 
para a borda, como impulsionada por um dinamismo interior, e se espedaou no cho.
rsula, alarmada, contou o episdio ao marido, mas este o interpretou como um 
fenmeno natural. Sempre fora assim, alheio  existncia dos filhos, em parte porque 
considerava a infncia como um perodo de insuficincia mental, e em parte porque 
estava sempre absorto por demais nas suas prprias especulaes quimricas. 

Desde a tarde, porm, em que chamou os meninos para. que o ajudassem a 
desempacotar as coisas do laboratrio, dedicou-lhes as suas melhores horas. No 
quartinho separado, paredes se foram enchendo pouco a pouco de mapas 
inverossmeis e grficos fabulosos, ensinou-os a ler e escrever, fazer contas, e falou das 
maravilhas do mundo, no s at onde chegavam os seus conhecimentos, mas forando 
a extremos incrveis os limites da sua imaginao. Foi assim que os meninos acabarampor aprender que no extremo meridional da frica havia homens to inteligentes e 
pacficos que nico entretenimento era sentar para pensar, e que era possvel 
atravessar a p o mar Egeu pulando de ilha em ilha porto de Salnica. Aquelas 


alucinantes sesses ficaram modo impressas na memria dos meninos, que muitos 
anos mais tarde, um segundo antes de que o oficial dos exrcitos regulares desse a 
ordem de fogo ao peloto de fuzilamento o Coronel Aureliano Buenda tornou a viver a 
suave tarde maro em que seu pai in terrompeu a lio de Fsica e ficou com a mo no 
ar e os olhos imveis, ouvindo a distncia os pfaros e tambores e guizos dos ciganos 
que uma vez chegavam  aldeia, apregoando a ltima e assombrosa descoberta dos 
sbios de Mnfis. 

Eram ciganos novos. Homens e mulheres jovens que s conheciam a sua prpria 
lngua, exemplares formosos de pele e mos inteligentes, cujas danas e msicas 
semearam nas ruas um pnico de alvoroada alegria, com as suas araras de todas as 
cores que recitavam romanas italianas,a galinha que punha uma centena de ovos de 
ouro ao som de um pandeiro, e o macaco amestrado que adivinhava o pensamento e a 
mquina mltipla que servia ao mesmo tempo para pregar botes e baixar a febre, e o 
aparelho para esquecer ms recordaes, e o emplastro para perder o tempo, e mil 
invenes to engenhosas e inslitas, que Jos Arcadio Buenda gostaria de inventar a 
mquina da memria para se lembrar de todas. Num instante transformaram a aldeia. 
Os habitantes de Macondo se encontraram de repente perdidos nas suas prprias ruas, 
aturdidos pela feira multitudinria. 

Levando um garoto em cada mo, para no perd-los no tumulto, tropeando 
com saltimbancos de dentes encouraados de ouro e malabaristas de seis braos, 
sufocado pelo confuso hlito de esterco e sndalo que exalava a multido, Jos Arcadio 
Buenda andava como um louco procurando Melquades por todas as partes, para que 
lhe revelasse os infinitos segredos daquele pesadelo fabuloso. Dirigiu-se a vrios 
ciganos que no entenderam a sua lngua. Por fim chegou ao lugar onde Melquades 
costumava plantar a sua tenda e encontrou um armnio taciturno que anunciava em 
castelhano um xarope para se fazer invisvel. Tinha tomado de um gole uma taa da 
substncia ambarina, quando Jos Arcadio Buenda abriu passagem aos empurres por 
entre o grupo absorto que presenciava o espetculo e conseguiu fazer a pergunta. O 
cigano o envolveu no clima atnito do seu olhar, antes de se transformar numa poa de 
alcatro fedorento e fumegante sobre a qual ficou boiando a ressonncia de sua 
resposta: Melquades morreu. Aturdido pela notcia, Jos Arcadio Buenda 
permaneceu imvel, tratando de vencer a aflio, at que o grupo se dispersou, 
reclamando por outros artifcios, e a poa do armnio taciturno se evaporou 
completamente. Mais tarde, outros ciganos lhe confirmaram que na verdade 
Melquades tinha sucumbido s febres, nas dunas de Cingapura, e o seu corpo tinha 
sido jogado no lugar mais profundo do mar de Java. Os meninos no se interessaram 
pela notcia. Teimavam para que seu pai os levasse para conhecer a portentosa 
novidade dos sbios de Mnfis, anunciada na entrada de uma tenda que, segundo 
diziam, pertenceu ao Rei Salomo. Tanto insistiram que Jos Arcadio Buenda pagou 
os trinta reais e os conduziu at o centro da barraca, onde havia um gigante de torso 
peludo e cabea raspada, com um anel de cobre no nariz e uma pesada corrente de 
ferro no tornozelo, vigiando um cofre de pirata. Ao ser destampado pelo gigante, o 
cofre deixou escapar um hlito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco 
transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaava em estrelas de 
cores a claridade do crepsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam 
uma explicao imediata, Jos Arcadio Buenda atreveu-se a murmurar: 

  o maior diamante do mundo. 

 No  corrigiu o cigano.   gelo. 
Jos Arcadio Buenda, sem entender, estendeu a mo para bloco, mas o gigante 
afastou-a. Para pegar, mais cinco, disse. Jos Arcadio Buenda pagou, e ento ps a 
mo sobre o gelo, e a manteve posta por vrios minutos, enquanto o corao crescia de 
medo e de jbilo ao contato do mistrio. 

Sem saber o que dizer, pagou outros dez reais para que os seus filhos vivessem a 
prodigiosa experincia. O pequeno Jos Aurlio negou-se a toc-lo. Aureliano, em 
compensao, deu um passo para diante, ps a mo e retirou-a no ato. Est fervendo, 
exclamou assustado. Mas o pai no lhe prestou ateno. Embriagado pela evidncia do 
prodgio, naquele momento esqueceu da frustrao das suas empresas delirantes e do 
corpo de Melquades abandonado ao apetite das lulas. Pagou outros cinco reais, e com 
a mo posta no bloco, como que prestando um juramento sobre o texto sagrado, 
exclamou: 

 Este  o grande invento do nosso tempo. 

 QUANDO o pirata Francis Drake assaltou Riohacha, no sculo XVI, a bisav 
de rsula Iguarn se assustou tanto com o toque de alarma e o estampido dos canhes 
que perdeu o controle dos nervos e se sentou num fogo aceso. As queimaduras 
converteram-na numa esposa intil para toda a vida. No podia sentar-se a no ser de 
lado, acomodada em almofadas, e seu andar deve ter ficado muito estranho, porque 
nunca voltou a caminhar em pblico. Renunciou a todo tipo de hbitos sociais, 
obcecada pela idia de que o seu corpo desprendia um cheiro de coisa chamuscada. A 
aurora a surpreendia no quintal, sem se atrever a dormir, porque sonhava que os 
ingleses, com seus ferozes ces de fila, entravam pela janela de seu quarto e a 
submetiam a vergonhosas torturas com ferros em brasa. Seu marido, um comerciante 
aragons com quem tinha dois filhos gastou metade da loja em remdios e 
divertimentos, procurando a maneira de aliviar os seus terrores. Por fim, liquidou o 
negcio e levou a famlia para viver longe do mar, aldeia de ndios pacficos na encosta 
da serra, onde construiu para a mulher um quarto sem janelas, para que os piratas dos 
seus pesadelos no tivessem por onde entrar. 
Na escondida encosta vivia h muito tempo um nativo plantador de tabaco, oSr. Jos Arcadio Buenda, com quem o bisav de rsula fez uma sociedade to 
produtiva que em os anos os dois juntaram fortuna. Vrios sculos depois, o tataranetodo nativo se casou com a tataraneta do aragons. Por isso, cada vez que rsula subia 
pelas paredes com as loucuras do marido, pulava por cima de trezentos anos de 
coincidncias e maldizia a hora em que Francis Drake assaltou Riohacha. Era um mero 
recurso de desabafo, porque na verdade estavam ligados at a morte por um vnculo 
mais slido que o amor: uma dor comum de conscincia. Eram primos entre si. Tinham 
crescido juntos na antiga encosta que antepassados de ambos haviam transformado 
com o trabalho e os bons costumes num dos melhores povoados da provncia. Apesar 
do casamento deles ser previsvel desde que vieram ao mundo, quando expressaram a 
vontade de se casar os prprios parentes tentaram impedir. Tinham medo de que 
aqueles saudveis fins de duas raas secularmente entrecruzadas passassem pela 
vergonha de engendrar iguanas. J existia um precedente tremendo. Uma tia dersula, casada com um tio de Jos Arcadio Buenda, teve um filho que passou toda ida 
de calas largussimas e frouxas, e que morreu de hemorragia depois de ter vivido 
quarenta e dois anos no mais puro estado de virgindade, porque nascera e crescera 
com uma cauda cartilaginosa em forma de saca-rolhas e com uma escova de plos na 
ponta. Um rabo de porco que nunca deixou visto por nenhuma mulher, e que lhe 
custou a vida quando um aougueiro amigo lhe fez o favor de cort-lo com a 
machadinha de retalhar. Jos Arcadio Buenda, com a leviandade dos seus dezenove 
anos, resolveu o problema com uma s se: No me importa ter leitezinhos, desde que 
possam falar. Assim, casaram-se com uma festa de banda e foguetes que durou trs 
dias. Teriam sido felizes desde ento, se a me de rsula no a tivesse aterrorizado 
com toda espcie de prognsticos sinistros sobre a sua descendncia, chegando ao 
extremo de conseguir que ela recusasse consumar o matrimnio. Temendo que ocorpulento e voluntarioso marido a violasse adormecida, rsula vestia antes de se 
deitar umas calas compridas rudimentares que sua me lhe fabricou com lona de 
veleiro e reforadas com um sistema de correias entrecruzadas, que se fechava na 
frente com uma grossa fivela de ferro. Assim estiveram vrios meses. Durante o dia, ele 
cuidava de seus galos de briga e ela bordava em bastidor com a me. Durante a noite, 
lutavam vrias horas com uma ansiosa violncia que j parecia um substituto do ato de 


amor, at que a intuio popular farejou que algo de irregular estava acontecendo, eespalhou o boato de que rsula continuava virgem um ano depois de casada, porque o 
marido era impotente. Jos Arcadio Buenda foi o ltimo a saber. 

 Est vendo, rsula, o que o povo anda dizendo disse  mulher com muita 
calma. 
 Deixe falar  disse ela.  A gente sabe que no  verdade. 
De modo que a situao continuou igual por mais seis meses, at o domingo 
trgico em que Jos Arcadio Buenda ganhou uma briga de galos de Prudencio Aguilar. 
Furioso, exaltado pelo sangue do seu animal, o perdedor se afastou de Jos Arcadio 
Buenda para que toda a rinha pudesse ouvir o que lhe ia dizer. 

 Voc est de parabns  gritou.  Vamos ver se afinal esse galo resolve o 
caso da sua mulher. 
Jos Arcadio Buenda, sereno, pegou o galo. Volto j, disse a todos. E logo, a 
Prudencio Aguilar: 

 E voc, v pra casa e se arme, que eu vou mat-lo. 
Dez minutos depois voltou com a lana ensebada de seu av. Na entrada da 
rinha, onde se havia concentrado metade do povoado, Prudencio Aguilar o esperava. 
No teve tempo de defender-se. A lana de Jos Arcadio Buenda, atirada com a fora 
de um touro e com a mesma mira certa com que o primeiro Aureliano Buenda 
exterminou os tigres da regio, atravessou-lhe a garganta. Nessa noite, enquanto se 
velava o cadver, Jos Arcadio Buenda entrou no quarto quando a sua mulher estava 
vestindo as calas de castidade. Brandindo a lana diante dela, ordenou: Tire isso. 
rsula no ps em dvida a deciso do marido. Voc ser o responsvel pelo que 
acontecer murmurou. Jos Arcadio Buenda cravou a lana no cho de terra. 

 Se voc tiver que parir iguanas, criaremos iguanas  disse  Mas no 
haver mais mortos neste povoado por culpa sua. 
Era uma bela noite de junho, fresca e com lua, e estiveram acordados e 
brincando na cama at o amanhecer, indiferentes ao vento que passava pelo quarto, 
carregado com o pranto dos parentes de Prudencio Aguilar. 

O caso foi classificado como um duelo de honra, mas em ambos ficou uma 
dorzinha de conscincia. Numa noite em que no conseguia dormir, rsula saiu para 
beber gua no quintal e viu Prudencio Aguilar junto  tina. Estava lvido, com uma 
expresso muito triste, tentando tapar com uma atadura de esparto o buraco da 
garganta. No lhe produziu medo, mas pena. Voltou ao quarto para contar ao esposo o 
que tinha visto,mas ele no ligou. Os mortos no saem, disse. O que acontece  que 
no agentamos com o peso da conscincia. Duas noites depois, rsula tornou a ver 
Prudencio Aguilar no banheiro, lavando com a atadura de esparto o sangue coagulado 
do pescoo. Outra noite, viu-o passeando na chuva. Jos Arcadio Buenda, irritado com 
as alucinaes da mulher, foi para o quintal armado com a lana. Ali estava o morto 
com a sua expresso triste. 

 V pro caralho!  gritou-lhe Jos Arcadio Buenda. Cada vez que voltar, eu o 
mato de novo. 
Prudencio Aguilar no foi embora, nem Jos Arcadio Buendia se atreveu a 
arremessar a lana. Desde ento no conseguiu mais dormir bem. Atormentava-o a 
enorme desolao com que o morto o havia olhado da chuva, a profunda nostalgia com 
que se lembrava dos vivos, a ansiedade com que revistava a casa procurando gua para 
molhar a sua atadura de esparto. Deve estar sofrendo muito, dizia a rsula. V-se 


que est muito s. Ela estava to comovida que, na vez seguinte que viu o morto 
destampando as panelas do fogo, entendeu o que procurava, e desde ento colocou 
para ele bacias de gua por toda a casa. Numa noite em que o encontrou lavando as 
feridas no seu prprio quarto, Jos Arcadio Buenda no pde agentar mais. 

 Est bem, Prudencio  disse-lhe.  Ns vamos embora deste povoado para 
o mais longe possvel e no voltaremos nunca mais. Agora v sossegado. 
Foi assim que empreenderam a travessia da serra. Vrios amigos de Jos Arcadio 
Buenda, jovens como ele, encantados com a aventura, desfizeram as suas casas e 
carregaram com as mulheres e os filhos para a terra que ningum lhes havia prometido. 
Antes de partir, Jos Arcadio Buenda enterrou a lana no quintal e degolou, um a um, 
os seus magnficos galos de briga, confiando em que dessa forma daria um pouco de 
paz a Prudencio Aguilar. A nica coisa que rsula levou foi um ba com as suas 
roupas de recm-casada, uns poucos utenslios domsticos e o cofrezinho com as peas 
de ouro que herdou do pai. No traaram para si um itinerrio definido. Apenas 
procuravam viajar em sentido contrrio ao caminho de Riohacha para no deixar 
nenhum rastro nem encontrar gente conhecida. Foi uma viagem absurda. Ao fim de 
quatorze meses, com o estmago estragado pela carne de mico e a sopa de cobras,
rsula deu  luz um filho com todas as suas partes humanas. Tinha feito a metade do 
caminho numa rede pendurada num pau que dois homens levavam nos ombros, 
porque a inchao lhe desfigurou as pernas, e as varizes arrebentavam como bolhas. 
Ainda que desse pena v-las de barriga vazia e olhos lnguidos, as crianas resistiram  
viagem melhor que os pais, e a maior parte do tempo acabou sendo divertido para elas. 
Certa manh, depois de quase dois anos de travessia, foram eles os primeiros mortais 
que viram a vertente ocidental da serra. Do cume nublado contemplaram a imensa 
plancie aqutica do grande pntano, espraiada at o outro lado do mundo. Mas nunca 
encontraram o mar. Certa noite, depois de andarem vrios meses perdidos entre os 
charcos, j longe dos ltimos ndios que haviam encontrado no caminho, acamparam 
s margens de um rio pedregoso cujas guas pareciam uma torrente de vidro gelado. 
Anos depois, durante a segunda guerra civil, o Coronel Aureliano Buenda tentou 
seguir aquela mesma rota para apanhar Riohacha de surpresa e aos seis dias de viagem 
compreendeu que era uma loucura. Entretanto, na noite em que acamparam junto ao 
rio, as hostes de seu pai tinham aspecto de nufragos sem escapatria, mas o seu 
nmero tinha aumentado durante a travessia e todos estavam dispostos a (e 
conseguiram) morrer de velhice. Jos Arcadio Buenda sonhou essa noite que naquele 
lugar se levantava uma cidade ruidosa, com casas de paredes de espelhos. Perguntou 
que cidade era aquela, e lhe responderam com um nome que nunca tinha ouvido, que 
no possua significado algum, mas que teve no sonho uma ressonncia sobrenatural: 
Macondo. No dia seguinte, convenceu os seus homens de que nunca encontrariam o 
mar. Ordenou-lhes derrubar as rvores para fazer uma clareira junto ao rio, no lugar 
mais fresco das margens, e ali fundaram a aldeia. 

Jos Arcadio Buenda no conseguiu decifrar o sonho das com paredes de 
espelhos at o dia em que conheceu o gelo. Ento acreditou entender o seu profundo 
significado. Parecia que num futuro prximo poderiam fabricar blocos de gelo em 
grande escala, a partir de um material to cotidiano, a gua, e construir com eles as 
novas casas da aldeia. Macondo deixaria de ser um lugar ardente, cujas dobradias e 
aldrabas se torciam de calor, para converter-se numa cidade invernal. Se no 
perseverou nas suas tentativas de construir a fbrica de gelo, foi porque no momento 


estava positivamente entusiasmado com a educao dos filhos, especialmente de 
Aureliano, que havia revelado desde o primeiro momento uma rara intuio alqumica. 
O laboratrio tinha ressurgido da poeira. Passando em revista as notas de Melquades 
agora serenamente, sem exaltao da novidade, em prolongadas e pacientes sesses,
tentaram separar o ouro de rsula do entulho aderido ao fundo do caldeiro. O jovem 
Jos Arcadio mal participou do processo. Enquanto seu pai s tinha corpo e alma para 

o laboratrio, o voluntarioso primognito, que sempre fora grande demais para a sua 
idade, converteu-se num adolescente monumental. Mudou de voz. O buo povoou-se 
de uma penugem incipiente. Certa noite, rsula entrou no quarto quando ele tirava a 
roupa para dormir, e experimentou um confuso sentimento de vergonha e piedade: era 
o primeiro homem que via nu, alm de seu marido, e estava to bem equipado para avida que lhe pareceu anormal. rsula, grvida pela terceira vez, viveu de novo os seus 
terrores de recm-casada. 
Naquela poca ia  sua casa uma mulher alegre, desbocada, provocante, queajudava nos trabalhos domsticos e sabia ler o futuro nas cartas. rsula falou-lhe do 
filho. Pensava que a sua desproporo era algo de to desnaturado como o rabo de 
porco do primo. A mulher soltou uma gargalhada estridente que repercutiu por toda a 
casa como um riacho de vidro. Pelo contrrio, disse. Ser feliz. Para confirmar o seu 
prognstico, trouxe o baralho  casa poucos dias depois, e se trancou com Jos Arcadio 
num depsito de gros contguo  cozinha. Colocou as cartas com muita calma sobre 
uma velha mesa de carpintaria, dizendo qualquer coisa, enquanto o rapaz esperava 
perto dela, mais chateado que curioso. De repente estendeu a mo e tocou. Que 
monstro disse, sinceramente assustada, e foi tudo o que pde dizer. Jos Arcadio 
sentiu que os seus ossos se enchiam de espuma, que tinha um medo lnguido e uma 
enorme vontade de chorar. A mulher no lhe fez nenhuma insinuao. Mas Jos 
Arcadio a continuou procurando toda a noite, no cheiro de fumaa que ela tinha nas 
axilas e que lhe ficou metido debaixo da pele. Queria estar com ela a todo momento, 
queria que ela fosse a sua me, que nunca sassem da despensa e que ela lhe dissesse 
que monstro! e que tornasse a toc-lo e a dizer-lhe que monstro!. Um dia no pde 
suportar mais e foi procur-la em sua casa. Fez uma visita formal, incompreensvel, 
sentado na sala sem pronunciar uma palavra. Naquele momento no a desejou. 
Achava-a diferente, inteiramente alheia  imagem que inspirava o seu perfume, como 
se fosse outra. Tomou o caf e abandonou a casa, deprimido. Nessa noite, no espanto 
da insnia, tornou a desej-la com uma ansiedade brutal, mas ento no a queria como 
era na despensa, mas como havia sido naquela tarde. 

Dias depois, de um modo intempestivo, a mulher o chamou  sua casa, onde 
estava sozinha com a me, e o fez entrar no quarto com o pretexto de ensinar-lhe um 
truque de baralho. Ento o tocou com tanta liberdade que ele sofreu uma desiluso 
depois do estremecimento inicial, e experimentou mais medo que prazer. Ela lhe pediu 
que nessa noite fosse procur-la. Ele concordou, para sair da situao, sabendo que no 
seria capaz de ir. Mas de noite, na cama ardente, compreendeu que tinha de ir procurla, 
ainda que no fosse capaz. Vestiu-se s tontas, ouvindo na escurido a repousada 
respirao do irmo, a tosse seca do pai no quarto vizinho, a asma das galinhas no 
quintal, o zumbido dos mosquitos, o bumbo do seu corao e o desmesurado bulcio 
do mundo em no tinha reparado at ento, e saiu para a rua adormecida. Desejava de 
todo corao que a porta estivesse trancada, e no simplesmente encostada, como ela 
lhe havia prometido. Mas estava aberta. Empurrou-a com a ponta dos dedos e as 


dobradias soltaram um gemido lgubre e articulado que uma ressonncia gelada nas 
suas entranhas. Desde o momento em que entrou, meio de lado e tratando de no fazer 
barulho, sentiu o cheiro. Ainda estava na saleta onde os trs irmos da mulher 
penduravam as redes em posies que ele ignorava e que no podia determinar nas 
trevas, de modo que lhe faltava atravess-la s cegas, empurrar a porta do quarto e 
orientar-se ali de maneira a que no fosse se enganar de cama. Conseguiu. Tropeou 
com os punhos das redes, que estavam mais baixas do que ele supusera, e um homem 
que roncava at ento mexeu-se no sonho e disse com uma espcie de desiluso: Era 
quarta-feira. Quando empurrou a porta do quarto, no pde impedir que ela roasse o 
desnvel do cho. De repente, na escurido absoluta, entendeu com uma irremedivel 
nostalgia que estava completamente desorientado. Na estreita pea dormiam a me, 
outra filha com o marido e duas crianas, e a mulher, que talvez no o esperasse. Teria 
podido se guiar pelo cheiro se o cheiro no andasse em toda a casa, to enganoso e ao 
mesmo tempo to definido como tinha estado sempre na sua pele. Permaneceu imvel 
um longo momento, perguntando-se assombrado como tinha feito para chegar a esse 
abismo de desamparo, quando uma mo com todos os dedos estendidos, que tateava 
nas trevas, tropeou-lhe na cara. No se surpreendeu porque, sem saber, tinha estado 
esperando por isso. Confiou-se ento quela mo, e num terrvel estado de 
esgotamento deixou-se levar at um lugar sem formas onde lhe tiraram a roupa e o 
trabalharam como a um saco de batatas e o viraram para o avesso e para o direito, 
numa escurido insondvel em que lhe sobravam os braos, e onde j no cheirava 
mais a mulher, mas a amonaco, e onde tentava se lembrar do rosto dela e topava com o 
rosto de rsula, confusamente consciente de que estava fazendo algo que h muito 
desejava que se pudesse fazer, mas que nunca havia imaginado que realmente se 
pudesse fazer, sem saber como estava fazendo porque no sabia onde estavam os ps e 
onde a cabea, nem os ps de quem nem a cabea de quem, e sentindo que no podia 
agentar mais o rudo glacial dos seus rins e o ar do seu intestino, e o medo, e a nsia 
aturdida de fugir e ao mesmo tempo de ficar para sempre naquele silncio exasperado 
e naquela solido terrvel. 

Chamava-se Pilar Ternera. Fizera parte do xodo que culminou com a fundao 
de Macondo, arrastada pela sua famlia, para separ-la do homem que a tinha violado 
aos quatorze anos e que a continuara amando at os vinte e dois, mas que nunca se 
decidira a tornar pblica a situao, porque tinha outro compromisso. Prometera 
segui-la at o fim do mundo, porm mais tarde, quando tivesse arrumado as coisas; e 
ela se cansou de esperar, identificando-o sempre com os homens altos e baixos, louros 
e morenos, que as cartas lhe prometiam pelos caminhos da terra e pelos caminhos do 
mar, para dentro de trs dias, trs meses ou trs anos. Tinha perdido na espera a fora 
das coxas, a dureza dos seios, o hbito da ternura; mas conservava intacta a loucura do 
corao. Transtornado por aquele brinquedo prodigioso, Jos Arcadio seguia as suas 
pegadas todas as noites atravs do labirinto do quarto. Certa ocasio, encontrou a 
porta trancada, e tocou vrias vezes, sabendo que, se tinha tido a ousadia de tocar a 
primeira vez, tinha que tocar at a ltima, e ao fim de uma espera interminvel ela lhe 
abriu a porta. Durante o dia, caindo de sono, gozava em segredo as lembranas da 
noite anterior. Mas quando ela entrava em casa, alegre, indiferente, desbocada,no 
tinha que fazer nenhum esforo para dissimular a sua tenso, porque aquela mulher, 
cujo riso explosivo espantava os pombos, no tinha nada que ver com o poder invisvel 
que ensinava a respirar para dentro e a controlar as batidas do corao, e lhe havia 


permitido entender por que os homens tm medo da morte. Estava to ensimesmado 
que nem sequer a alegria de todos quando seu pai e irmo alvoroaram a casa com a 
notcia de que haviam conseguido atingir o entulho metlico e separar o ouro de 
rsula. 

Com efeito, depois de complicados e perseverantes lances tinham conseguido.
rsula estava feliz, e at deu graas Deus pela inveno da alquimia, enquanto as 
gentes da aldeia se espremiam no laboratrio e lhes servia doce de goiaba com 
biscoitinhos para celebrar o prodgio e Jos Arcadio Buenda deixava ver o crisol com o 
ouro resgatado, como se acabasse de invent-lo. De tanto mostr-lo, terminou diante 
de seu filho mais velho, que nos ltimos tempos mal aparecia pelo laboratrio. Ps 
diante dos seus olhos o emplastro seco e amarelado, e lhe perguntou: Que tal te 
parece? Jos Arcadio, sinceramente, respondeu: 

 Merda de cachorro. 
O pai deu-lhe com as costas da mo uma violenta bofetada na boca, que lhe fez 
saltarem o sangue e as lgrimas. Essa noite, Pilar Temera ps compressas de arnica na 
inchao, adivinhando no escuro o frasco e os algodes, e fez-lhe todas as vontades 
sem que ele se incomodasse, para am-lo sem machuc-lo. Chegaram a tal estado de 
intimidade que um momento depois, sem se dar conta, estavam falando por cochichos. 

 Quero ficar sozinho com voc  dizia ele.  Um dia conto tudo a todo 
mundo e se acabam os segredos. 
Ela no tentou apazigu-lo. 

 Seria timo  disse.  Se estivermos sozinhos, deixamos a luz acesa para 
nos vermos bem, e eu posso gritar tudo o que quiser sem que ningum tenha que se 
meter, e voc me diz no ouvido todas as porcarias que lhe vierem  cabea. 
Esta conversa, o rancor magoado que sentia contra o pai, e a iminente 
possibilidade do amor desaforado, inspiraram-lhe uma serena valentia. De modo 
espontneo, sem nenhuma preparao, contou tudo ao irmo. 

No princpio, o pequeno Aureliano s compreendia o risco, a imensa 
possibilidade de perigo que implicavam as aventuras de seu irmo, mas no conseguia 
imaginar a fascinao do objetivo. Pouco a pouco se foi contaminando de ansiedade. 
Fazia-o contar as minuciosas peripcias, identificava-se com o sofrimento e o gozo do 
irmo, sentia-se assustado e feliz. Esperava-o acordado at o amanhecer, na cama 
solitria que parecia ter uma esteira de brasas, e continuavam falando sem sono at a 
hora de levantar, de modo que em pouco tempo padeceram ambos da mesma 
sonolncia, sentiram o mesmo desprezo pela alquimia e pela sabedoria do pai, e serefugiaram na solido. Estes meninos andam sorumbticos, dizia rsula. Devem 
estar com lombrigas. Preparou-lhes uma repugnante poo de erva-de-santa-maria 
amassada, que ambos beberam com imprevisto estoicismo, e se sentaram ao mesmo 
tempo nos penicos, onze vezes num s dia, e expulsaram umas parasitas rosadas, que 
mostraram a todos com grande jbilo, porque lhes permitiram enganar rsula quanto 
 origem das suas distraes e langores. Aureliano podia, ento, no s entender, mas 
tambm viver como coisa prpria as experincias de seu irmo, porque numa ocasio 
em que este explicava com muitos pormenores o mecanismo do amor, interrompeu-o 
para perguntar: O que  que se sente? Jos Arcadio deu-lhe uma resposta imediata: 

  como um tremor de terra. 
Numa quinta-feira de janeiro, s duas da madrugada, nasceu Amaranta. Antes 
que algum entrasse no quarto, rsula examinou-a minuciosamente. Era leve e aquosa 


como uma lagartixa, mas todas as suas partes eram humanas. Aureliano no se deu 
conta da novidade a no ser quando sentiu a casa cheia de gente. Protegido pela 
confuso, saiu em busca do irmo, que no estava na cama desde as onze, e foi uma 
deciso to impulsiva que nem sequer teve tempo de se perguntar como faria para tirlo 
do quarto de Pilar Ternera. Esteve rondando a casa por vrias horas, assoviando 
senhas prprias,que a proximidade da madrugada obrigou-o a regressar.No quarto da 
me, brincando com a irmzinha recm-nascida e com uma cara que caa de inocente, 
encontrou Jos Arcadio. 

rsula mal havia cumprido o seu resguardo de quarenta dias quando os ciganos 
voltaram. Eram os mesmos saltimbancos e malabaristas que haviam trazido o gelo. Em 
contraste com a tribo de Melquades, tinham demonstrado em pouco tempo que no 
eram arautos do progresso e sim mercadores de diverses. Inclusive, quando 
trouxeram o gelo, no o anunciaram em funo da sua utilidade na vida dos homens, 
mas como uma mera curiosidade de circo. Desta vez, entre muitos os jogos de artifcio, 
traziam um tapete voador. No o ofereceram, porm, como uma contribuio 
fundamental para o desenvolvimento dos transportes e sim como um objeto de 
recreao. O povo, evidentemente, desenterrou os seus ltimos tostes para desfrutar 
de um vo fugaz sobre as casas aldeia. Amparados pela deliciosa impunidade da 
desordem coletiva, Jos Arcadio e Pilar viveram horas de folga. Foram namorados 
felizes entre a multido, e at chegaram a suspeitar de que o amor podia ser um 
sentimento mais repousado e profundo que a felicidade arrebatada, mas momentnea, 
suas noites secretas. Pilar, entretanto, quebrou o encanto. Estimulada pelo entusiasmo 
com que Jos Arcadio desfrutava a sua companhia, escolheu errado a forma e a ocasio 
e de um s golpe jogou-lhe o mundo nos ombros. Agora sim voc  um homem, disse 
a ele. E como no entendesse o que ela queria dizer, explicou-lhe letra por letra: 

 Voc vai ser pai. 
Jos Arcadio no se atreveu a sair de casa durante vrios dias. Bastava escutar a 
gargalhada trepidante de Pilar na cozinha para se esconder correndo no laboratrio, 
onde os aparelhos de alquimia tinham revivido, com a bno de rsula. Jos Arcadio 
Buenda recebeu com alvoroo o filho extraviado, e iniciou-o na busca da pedra 
filosofal, que tinha por fim empreendido. Uma tarde, os rapazes se entusiasmaram com 

o tapete voador, que passou veloz ao nvel da janela do laboratrio, levando o cigano 
condutor e vrias crianas da aldeia, que faziam alegres cumprimentos com a mo, e 
Jos Arcadio Buenda nem sequer olhou. Deixem que sonhem, disse. Ns voaremos 
melhor que eles, com recursos mais cientficos que essa miservel colcha. Apesar do 
seu fingido interesse, Jos Arcadio nunca entendeu os poderes do ovo filosfico, que 
simplesmente lhe parecia um frasco malfeito. No conseguia fugir da preocupao. 
Perdeu o apetite e o sono, sucumbiu ao mau humor igual ao pai diante do fracasso de 
alguma das suas empresas, e foi tal o seu transtorno que o prprio Jos Arcadio 
Buenda o liberou dos deveres no laboratrio, achando que ele tinha levado a srio 
demais a alquimia. Aureliano, evidentemente, percebeu que a aflio do irmo no 
tinha origem na busca da pedra filosofal, mas no lhe conseguiu arrancar nem uma 
confidncia. Tinha perdido a sua antiga espontaneidade. De cmplice e comunicativo 
fez-se hermtico e hostil. Ansioso de solido, picado por um virulento rancor contra o 
mundo, certa noite abandonou a cama como de costume, mas em vez de ir  casa de 
Pilar Ternera perdeu-se no tumulto da feira. Depois de perambular por toda espcie de 
mquinas de diverso sem se interessar por nenhuma, fixou-se em algo que no estava 


no jogo: uma cigana muito jovem, quase uma garota, afogada em miangas, a mulher 
mais bela que Jos Arcadio tinha visto na vida. Estava entre a multido que 
presenciava o triste espetculo do homem que se transformara em vbora por 
desobedecer aos pais. 

Jos Arcadio no prestou ateno. Enquanto se desenrolava o triste 
interrogatrio do homem-vbora, tinha aberto caminho entre a multido at a primeira 
fila, onde se encontrava a cigana, e tinha se detido atrs dela. Apertou-se contra as suas 
costas. A moa tentou se afastar, mas Jos Arcadio se apertou com mais fora contra as 
suas costas. Ento, ela o sentiu. Ficou imvel contra ele, tremendo de surpresa e pavor, 
sem poder acreditar na evidncia, e por fim voltou a cabea e olhou para ele com um 
sorriso trmulo. Nesse instante, dois ciganos meteram o homem-vbora na jaula e o 
levaram para o interior da tenda. O cigano que dirigia o espetculo anunciou: 

 E agora, senhoras e senhores, vamos apresentar a prova terrvel da mulher 
que ter que ser decapitada todas as noites a esta hora, durante cento e cinqenta 
anos, como castigo por ter visto o que no devia. 
Jos Arcadio e a moa no presenciaram a decapitao. Foram  barraca dela, 
onde se beijaram com uma ansiedade desesperada enquanto iam tirando a roupa. A 
cigana se desfez de suas camisetas superpostas, das suas numerosas anguas de renda 
engomada, do seu intil espartilho de arame, da sua carga de miangas, e ficou 
praticamente reduzida a nada. Era uma rzin ha lnguida, de seios incipientes e pernas 
finas que no ganhavam em dimetro aos braos de Jos Arcadio, mas tinha uma 
deciso e um calor que compensava sua fragilidade. Entretanto, Jos Arcadio no podia 
corresponder, porque estavam numa espcie de tenda pblica, por onde os ciganos 
passavam com os seus instrumentos de circo e arrumavam as suas coisas, e at se 
demoravam junto  cama para jogar uma partida de dados. A lmpada pendurada no 
mastro central iluminava todo o mbito. Numa pausa das carcias, Jos Arcadio 
estirou-se nu na cama, sem saber o que fazer enquanto a moa tratava de excit-lo. 
Uma cigana de carnes esplndidas entrou pouco depois, acompanhada de um homem 
que no fazia parte da farndola, mas que tampouco era da aldeia, e ambos comearam 
a despir-se diante da cama. Distraidamente, a mulher olhou para Jos Arcadio e 
examinou com uma espcie de fervor pattico o seu magnfico animal em repouso. 

 Rapaz  exclamou  que Deus o conserve para ti. 
A companheira de Jos Arcadio pediu-lhes que os deixassem em paz, e o casal 
se deitou no cho, muito perto da cama. A paixo dos outros despertou a febre de Jos 
Arcadio. Ao primeiro contato, os ossos da moa pareceram se desarticular, com um 
rangido desordenado como o de um fichrio de domin, e a sua pele se desfez num 
suor plido e os seus se encheram de lgrimas e todo o seu corpo exalou um rito 
lgubre e um vago cheiro de lodo. Mas suportou o impacto com uma firmeza de nimo 
e uma valentia admirveis. Jos Arcadio se sentiu ento etereamente elevado a um 
estado de inspirao serfica, onde o seu corao se desbaratou num manancial de 
obscenidades ternas que entravam na moa pelos ouvidos e lhe saam pela boca, 
traduzidas ao seu idioma. Era quinta-feira. Na noite de sbado, Jos Arcadio amarrou 
um pano vermelho na cabea e foi-se embora com os ciganos.

Quando rsula descobriu a sua ausncia, procurou-o por toda a aldeia. No 
acampamento desmanchado dos ciganos, no havia mais que uma vala de detritos, 
entre as cinzas ainda fumegantes das fogueiras apagadas. Algum que andava por ali 
procurando miangas no lixo disse a rsula que na noite anterior tinha visto o seu 


filho no tumulto da farndola, puxando uma carreta com a jaula do homem-vbora. 
Entrou pra cigano!, gritou ela ao marido, que no tinha dado o menor sinal de alarme 
pelo desaparecimento. 

 Oxal seja verdade  disse Jos Arcadio Buenda, amassando no almofariz a 
matria mil vezes amassada e reaquecida e tornada a amassar.  Assim vai aprender a 
ser homem. 
rsula perguntou por onde tinham ido os ciganos. Continuou perguntando no 
caminho que lhe indicaram, e pensando que ainda tinha tempo de alcan-los, 
continuou se afastando da aldeia, at que teve conscincia de estar to longe que j no 
pensou mais em voltar. Jos Arcadio Buenda no deu falta da mulher seno s oito da 
noite, quando deixou a matria esquentando numa camada de esterco, e foi ver o que 
estava acontecendo com a pequena Amaranta, que estava rouca de tanto chorar. Em 
poucas horas, reuniu um grupo de homens bem equipados, ps Amaranta nas mos de 
uma mulher que se ofereceu para amament-la, e se perdeu por caminhos invisveis 
atrs de rsula. Aureliano os acompanhou. Alguns pescadores indgenas, cuja lngua 
desconheciam, indicaram-lhes por sinais, ao amanhecer, que no tinham visto 
ningum passar. Ao fim de trs dias de busca intil, regres-saram  aldeia. 

Durante vrias semanas, Jos Arcadio Buenda deixou-se vencer pela 
consternao. Ocupava-se como me da pequena Amaranta. Banhava-a e mudava-lhe a 
roupa, levava-a para ser amamentada quatro vezes por dia e at cantava para ela, de 
noite, as canes que rsula nunca soube cantar. Certa ocasio, Pilar Ternera seofereceu para fazer os servios da casa, enquanto rsula no voltava. Aureliano, cuja 
misteriosa intuio se tinha sensibilizado com a desgraa, experimentou um fulgor de 
clarividncia ao v -la entrar. Ento soube que, de um modo inexplicvel, era dela a 
culpa da fuga do irmo e o conseqente desaparecimento da me, e a perseguiu de tal 
maneira, com uma calada e implacvel ho stilidade, que a mulher no voltou mais  
casa. 

O tempo ps as coisas no lugar. Jos Arcadio Buenda e o filho viram-se outra 
vez no laboratrio, sacudindo a poeira, botando fogo no alambique, entregues uma vez 
mais  paciente manipulao da matria adormecida h vrios meses na sua camada de 
esterco. At Amaranta, deitada num cestinho de vime, observava com curiosidade o 
absorvente trabalho do pai e do irmo, no quartinho rarefeito pelos vapores domercrio. A certa altura, meses depois da partida de rsula, comearam a acontecer 
coisas estranhas. Um frasco vazio que durante muito tempo esteve esquecido num 
armrio,fez-se to pesado que foi impossvel mov-lo. Uma chaleira dgua, colocada 
na mesa de trabalho, ferveu sem fogo durante meia hora, at evaporar-se a gua por 
completo. Jos Arcadio Buenda e seu filho observavam aqueles fenmenos com 
assustado alvoroo, sem conseguir explic-los, mas interpretando-os como anncios 
da matria. Um dia, o cestinho de Amaranta comeou a se mover com impulso prprio 
e deu uma volta completa no quarto, diante da consternao de Aureliano, que se 
apressou em det-lo. Mas seu pai no alterou. Ps o cestinho no lugar e amarrou-o na 
perna de uma mesa, convencido de que o acontecimento esperado era iminente. Foi 
esta a ocasio em que Aureliano ouviu-o dizer: 

 Se voc no teme Deus, tema os metais. 
De repente, quase cinco meses depois do seu desaparecimento, rsula voltou. 
Chegou exaltada, rejuvenescida, com roupas novas, de um estilo desconhecido na 
aldeia. Jos Arcadio Buenda mal pde resistir ao impacto. Era isto!, gritava. Eu sabia 


que ia acontecer. E acreditava mesmo nisto, porque nas suas concentraes, enquanto 
manipulava a matria, rogava do fundo do seu corao que o prodgio esperado no 
fosse a descoberta da pedra filosofal, nem a liberao do sopro que faz viverem os 
metais, nem a faculdade de transformar em ouro as dobradias e fechaduras da casa, 
mas o que agora tinha acontecido: a volta de rsula. Mas ela no compartilhava do seu 
alvoroo. Deu-lhe um beijo convencional, como se no tivesse estado ausente mais de 
uma hora, e lhe disse: 

 Chegue aqui na porta. 
Jos Arcadio Buenda levou muito tempo para se restabelecer da perplexidade, 
quando saiu na rua e viu a multido. No eram ciganos. Eram homens e mulheres como 
ele, de cabelos lisos e pele parda, que falavam a sua mesma lngua e se lamentavam das 
mesmas dores. Traziam mulas carregadas de coisas de comer, carroas de bois com 
mveis e utenslios domsticos, puros e simples acessrios terrestres postos  venda 
sem estardalhao pelos mercadores da realidade cotidiana. Vinham do outro lado do 
pntano, de a apenas dois dias de viagem, onde existiam povoados que recebiam o 
correio todos os meses e conheciam as mquinas do bem-estar. rsula no tinha 
alcanado os ciganos, mas encontrara a rota que seu marido no tinha podido 
descobrir na sua frustrada busca das grandes invenes. 


O FILHO de Pilar Ternera foi levado para a casa dos avs com semanas denascido. rsula admitiu-o de m vontade, mais uma vez pela teimosia do marido, que 
no pde a idia de que um rebento do seu sangue ficasse jogado por a: mas imps a 
condio de que se escondesse do menino a sua verdadeira identidade. Apesar de 
receber o nome de Jos Arcadio, acabaram por cham-lo simplesmente de Arcadio, 
para evitar confuso. Havia naquela poca tanta atividade no povoado e tanto 
movimento na casa que o cuidado das crianas ficou relegado a segundo plano. 
Recomendaram-nas Visitacin, uma ndia guajira que chegou ao povoado com um 
irmo, fugindo de uma peste de insnia que flagelava a sua tribo h vrios anos. Ambos 
eram to dceis e serviais que rsula ficou com eles para que a ajudassem nos 
afazeres domsticos. Foi assim que Arcadio e Amaranta falaram a lngua guajira antes 
do castelhano e aprenderam a tomar sopa de lagartixas e a comer ovos de aranhas, sem 
que rsula reparasse, porque andava ocupada demais com um negcio de 
animaizinhos de caramelo que prometia um bom futuro. Macondo estava 
transformado. As pessoas que tinham vindo com rsula divulgaram a boa qualidade 
do solo e a sua posio privilegiada em relao ao pntano, de modo que a reduzida 
aldeia de outros tempos transformou-se logo num povoado ativo, com lojas e oficinas 
de artesanato, e uma rota de comrcio permanente por onde chegaram os primeiros 
rabes de pantufas e argolas nas orelhas, trocando colares de vidro por papagaios. Jos 
Arcadio Buenda no teve um minuto de descanso. Fascinado por uma realidade 
imediata que no momento chegou a ser para ele mais fantstica que o vasto universo 
da sua imaginao, perdeu todo o interesse pelo laboratrio de alquimia, deixou 
descansando a matria extenuada por longos meses de manipulao, e voltou a ser o 
homem empreendedor dos primeiros tempos, que decidia o traado das ruas e a 
posio das novas casas, de modo a que ningum desfrutasse de privilgio que no 
possussem todos. Adquiriu tanta autoridade entre os recm-chegados que no se 
punha cimento nem se construam cercas sem consult-lo, e se estabeleceu que seria 
ele quem dirigiria a distribuio da terra. Quando os ciganos saltimbancos voltaram, 
agora com a sua feira ambulante transformada num gigantesco estabelecimento de 
jogos de sorte e azar, foram recebidos com alvoroo, porque se pensou que Jos 
Arcadio regressava com eles. Mas Jos Arc adio no voltou, e nem trouxeram o homem-
vbora que, conforme pensava rsula, era o nico que podia dar informaes de seu 
filho; de modo que no se permitiu aos ciganos que se instalassem no povoado nem 
que voltassem a pis-lo no futuro, porque os consideraram como mensageiros da 
concupiscncia e da perverso. Jos Arcadio Buenda, entretanto, foi explcito no 
sentido de que a antiga tribo de Melquades, que tanto contribura para o 
engrandecimento da aldeia, com milenria sabedoria e as suas fabulosas invenes, 
encontraria sempre as portas abertas. Mas a tribo de Melquades, segundo o que 
contaram os saltimbancos, tinha sido varrida face da terra por haver ultrapassado os 
limites do conhecimento humano. 

Emancipado, pelo menos no momento, das torturas da fantasia, Jos Arcadio 
Buenda imps em pouco tempo um estado de ordem e trabalho, dentro do qual s se 
permitiu uma licena: a libertao dos pssaros que desde a poca da fundao 
alegravam o tempo com as suas flautas, e a instalao em seu lugar de relgios musicais 
em todas as casas. Eram maravilhosos relgios de madeira trabalhada que os rabes 
trocavam por papagaios e que Jos Arcadio Buenda sincronizou com tanta preciso 
que, de meia em meia hora, o povoado se alegrava com os acordes progressivos de uma 


mesma pea, at culminar o meio-dia exato e unnime com a valsa completa. Foi 
tambm Jos Arcadio Buenda quem decidiu por essa poca que nas ruas do povoado 
se plantassem amendoeiras em vez de accias, e quem descobriu, sem revel-los nunca, 
os mtodos de faz-las eternas. Muitos anos depois, quando Macondo chegou a ser um 
acampamento de casas de madeira e tetos de zinco, ainda perduravam nas ruas mais 
antigas as amendoeiras quebradas e empoeiradas, sem que ningum soubesse mais 
quem as havia plantado. Enquanto o pai colocava em ordem o povoado e a me 
consolidava o patrimnio domstico com a sua maravilhosa indstria de galinhos e 
peixes aucarados, que duas vezes por dia saam de casa enfiados em palitos, Aureliano 
vivia horas interminveis no laboratrio abandonado, aprendendo por pura pesquisa a 
arte da ourivesaria. Tinha crescido tanto que em pouco tempo deixou de lhe servir a 
roupa abandonada pelo irmo e comeou a usar a do pai, mas foi necessrio que 
Visitacin fizesse bainhas nas camisas e pregas nas calas, porque Aureliano no tinha 
puxado a corpulncia dos outros. A adolescncia havia tirado a doura da sua voz e o 
tornara silencioso e definitivamente solitrio, mas por outro lado tinha restitudo a 
expresso intensa que teve nos olhos ao nascer. Estava to concentrado nas suas 
experincia de ourivesaria que mal abandonava o laboratrio, e s para comer. 
Preocupado com o seu ensimesmamento, Jos Arcadio Buenda deu-lhe as chaves da 
casa e um pouco de dinheiro, pensando que talvez fosse falta de mulher. Mas 
Aureliano gastou o dinheiro em cido muritico para preparar gua rgia, e embelezou 
as chaves com um banho de ouro. As suas esquisitices, no entanto, mal eram 
comparveis s de Arcadio e Amaranta, que j tinham comeado a trocar os dentes e 
ainda andavam o dia inteiro agarrados s mantas dos ndios, teimosos na sua deciso 
de no falar o castelhano e sim a lngua ndia. Voc no tem do que se queixar, diziarsula ao marido. Os filhos herdam as loucuras dos pais. E enquanto se lamentava da 
m sorte, convencida de que as extravagncias dos filhos eram uma coisa to terrvel 
quanto um rabo de porco, Aureliano fixou nela um olhar que a envolveu numa aura de 
incerteza. 

 Algum vai chegar  disse. 
rsula, como sempre que ele expressava um prognstico, tratou de esfri-lo 
com a sua lgica caseira. Era normal que algum chegasse. Dezenas de forasteiros 
passavam diariamente por Macondo, sem suscitar inquietaes nem antecipar avisos 
secretos. Entretanto, apesar de toda a lgica, Aureliano estava certo do seu pressgio. 

 No sei quem ser  insistiu  mas seja quem for, j vem a caminho. 
No domingo, com efeito, chegou Rebeca. No tinha mais de onze anos. Tinha 
feito a penosa viagem desde Manaure, com uns traficantes de peles que receberam o 
encargo de entreg-la, junto com uma carta, na casa de Jos Arcadio Buenda, mas que 
no puderam explicar com preciso quem era a pessoa que lhes havia pedido o favor. 
Toda a sua bagagem era composta de um bauzinho de roupa, uma pequena cadeira de 
balano de madeira com florezinhas coloridas pintadas a mo e um saco de lona que 
fazia um eterno rudo de cloc cloc cloc, onde trazia os ossos de seus pais. A carta 
dirigida a Jos Arcadio Buenda estava escrita em termos muito carinhosos por algum 
que continuava a estim-lo muito apesar do tempo e da distncia, e que se sentia 
obrigado, por um elementar senso de humanidade, a fazer a caridade de lhe mandaresta pobre orfzinha desamparada, que era prima de rsula em segundo grau e, por 
conseguinte, parenta tambm de Jo s Arcadio Buenda, ainda que em grau mais 
longnquo, porque era filha daquele inesquecvel amigo que foi Nicanor Ulloa e sua 


mui digna esposa Rebeca Montiel, a quem Deus tenha no seu santo reino, e cujos 
restos juntava  presente para lhes desse sepultura crist. Tanto os nomes 
mencionados quanto a assinatura da carta eram perfeitamente legveis, mas JosArcadio Buenda nem rsula se lembravam de ter parentes com esses nomes, nem 
conheciam ningum que se chamasse como o remetente, e muito menos na remota 
povoao de Manaure. Atravs da menina, foi impossvel obter informao 
complementar. Desde o momento em que sentou-se na cadeirinha de balano a chupar 

o dedo e observar a todos com os seus grandes olhos espantados, sinal algum de 
entender o que lhe perguntavam. Vestia uma roupa de diagonal tingida de negro, gasta 
pelo uso, botinas descascadas de verniz. Trazia o cabelo preso atrs das orelhas, em 
coques com fitas negras. Usava um escapulrio com as imagens apagadas pelo suor e, 
na munheca uma presa de animal carnvoro engastada num suporte de cobre, como 
amuleto contra o mau-olhado. A sua pele verde, o seu ventre redondo e tenso como um 
tambor revelavam uma sade ruim e uma fome mais velhas que ela mesma, mas 
quando lhe deram de comer ficou com o prato nos joelhos, sem toc-lo. Chegou-se 
inclusive a acreditar que era surda-muda, at que os ndios lhe perguntaram na sua 
lngua se queria um pouco dgua e ela moveu os olhos como se os tivesse reconhecido 
e disse que sim com a cabea. 
Ficaram com ela, porque no havia outro remdio. Decidiram cham-la Rebeca, 
que, de acordo com a carta, era o nome da me, porque Aureliano teve a pacincia de 
ler para ela todo o hagiolgio e no conseguiu que reagisse diante de nenhum nome de 
santa. Como naquele tempo no havia cemitrio em Macondo, pois at ento no havia 
morrido ningum, conservaram o saco de lona com os ossos,  espera de que houvesse 
um lugar digno para sepult-lo, e durante muito tempo eles rolaram por toda parte e se 
encontravam onde menos se esperava, sempre com o seu eloqente cacarejo de galinha 
choca. Muito tempo correu at que Rebeca se incorporasse  vida familiar. Sentava-se 
na cadeirinha de balano chupando o dedo, no canto mais escondido da casa. Nada lhe 
chamava a ateno, salvo a msica dos relgios, que de meia em meia hora procurava 
com os olhos assustados, como se esperasse encontr-la em algum pedao do ar. No 
conseguiram que comesse, durante vrios dias. Ningum entendia como no tinha 
morrido de fome, at que os ndios, que percebiam tudo, porque percorriam a casa sem 
parar, com seus ps sigilosos, descobriram que Rebeca s gostava de comer a terra 
mida do quintal e as tortas de cal que arrancava das paredes com as unhas. Era 
evidente que seus pais, ou quem quer que a tivesse criado, tinham-lhe repreendido esse 
hbito, pois o praticava s escondidas e com conscincia de culpa, procurando guardar 
as raes para com-las quando ningum visse. A partir de ento, submeteram-na a 
uma vigilncia implacvel. Derramavam fel de vaca no quintal e untavam de pimenta 
as paredes, acreditando curar com esses mtodos o seu vcio pernicioso, mas ela deutais provas de astcia e engenho para procurar a terra que rsula se viu forada a 
empregar recursos mais drsticos. Punha suco de laranja com ruibarbo numa panela, 
que deixava ao sereno uma noite inteira, e lhe dava a poo no dia seguinte, em jejum. 
Ainda que ningum lhe tivesse dito que aquele era o remdio especfico para o vicio de 
comer terra, pensava que qualquer substncia amarga no estmago vazio tinha que 
obrigar o fgado a reagir. Rebeca era to rebelde e to forte, apesar do seu raquitismo, 
que tinham de agarr-la como a um bezerro para que engolisse o remdio, e mal se 
podiam evitar as suas convulses e suportar os arrevesados hierglifos que ela 
alternava com mordidas e cuspidelas e que, segundo o que diziam os escandalizados 


ndios, eram as obscenidades mais grossas que se podiam conceber no seu idioma.
Quando rsula soube disso, complementou o tratamento com correadas. No se 
esclareceu nunca se o que surtiu efeito foi o ruibarbo ou as sovas, ou as duas coisas 
combinadas, mas a verdade  que, em poucas semanas, Rebeca comeou a dar mostras 
de restabelecimento. Participou das brincadeiras de Arcadio e Amaranta, que a 
receberam como a uma irm mais velha, e comeu com apetite, servindo-se bem dos 
talheres. Logo se revelou que falava o castelhano com tanta fluidez como a lngua dos 
ndios, que tinha uma habilidade notvel para os trabalhos manuais e que cantava a 
valsa dos relgios com uma letra muito engraada que ela mesma tinha inventado. No 
tardaram a consider-la um membro a mais da famlia. Era mais afetuosa com rsula 
que os seus prprios filhos, e chamava de maninhos Amaranta e Arcadio, de tio a 
Aureliano e de vov a Jos Arcadio Buenda. De modo que acabou por merecer, tanto 
como os outros, o nome de Rebeca Buenda, o nico que teve e que carregou com 
dignidade at a morte. 

Uma noite, na poca em que Rebeca se curou do vcio comer terra e foi levada 
para dormir no quarto das outras crianas, a ndia que dormia com eles acordou por 
acaso e ouviu um estranho rudo intermitente no canto. Sentou-se alarmada pensando 
que tinha entrado algum animal no quarto, viu Rebeca na cadeira de balano, 
chupando o dedo os olhos fosforescentes como os de um gato na escurido. Pasmada 
de terror, perseguida pela fatalidade do destino, Visitacin reconheceu nesses olhos os 
sintomas da doena cuja ameaa os havia obrigado, a ela e ao irmo, a se desterrarem 
para sempre de um reino milenrio no qual eram prncipes. Era a peste da insnia. 

Cataure, o ndio, no amanheceu em casa. Sua irm ficou, porque o corao 
fatalista lhe indicava que a doena letal haveria de persegui-la de todas as maneiras at 

o ltimo lugar da terra. Ningum entendeu o pnico de Visitacin. Se no voltar a 
dormir, melhor, dizia Jos Arcadio Buenda de bom-humor. Assim a vida rende mais. 
Mas a ndia explicou que o mais temvel da doena da insnia no era a 
impossibilidade de dormir, pois o corpo no sentia cansao mas sim a sua inexorvel 
evoluo para uma manifestao mais crtica: o esquecimento. Queria dizer que 
quando o doente se acostumava ao seu estado de viglia, comeavam a apagar-se da sua 
memria as lembranas da infncia, em seguida o nome e a noo das coisas, e por 
ltimo a identidade das pessoas e ainda a conscincia do prprio ser, at se afundar 
numa espcie de idiotice sem passado. Jos Arcadio Buenda, morto de rir, considerou 
que se tratava de mais uma das tantas enfermidades inventadas pela superstio dosindgenas. Mas rsula, por via das dvidas, tomou a precauo de separar Rebeca das 
outras crianas. 
Ao fim de vrias semanas, quando o terror de Visitacin parecia aplacado, Jos 
Arcadio Buenda encontrou-se uma noite rolando na cama sem poder dormir. rsula, 
que tambm tinha acordado, perguntou-lhe o que estava acontecendo e ele respondeu: 
Estou pensando outra vez em Prudencio Aguilar. No dormiram um minuto sequer, 
mas no dia seguinte se sentiam to descansados que se esqueceram da noite ruim. 
Aureliano comentou assombrado na hora do almoo que se sentia muito bem, apesar 
de ter passado toda a noite no laboratrio, dourando um broche que pensava dar arsula no dia do seu aniversrio. No se alarmaram at o terceiro dia, quando na hora 
de deitar se sentiram sem sono, e deram conta de que estavam h mais de cinqenta 
horas sem dormir. 


 As crianas tambm esto acordadas  disse a ndia com a sua convico 
fatalista.  Uma vez que a peste entra em casa, ningum escapa.
Haviam contrado, na verdade, a doena da insnia. rsula, que tinha aprendido 
da me o valor medicinal das plantas, preparou, e fez todos tomarem, uma beberagem 
de acnito, mas no conseguiram dormir, e passaram o dia inteiro sonhando 
acordados. Nesse estado de alucinada lucidez no s viam as imagens dos seus 
prprios sonhos, mas tambm uns viam as imagens sonhadas pelos outros. Era como 
se a casa se tivesse enchido de visitas. Sentada na cadeira de balano, num canto da 
cozinha, Rebeca sonhou que um homem muito parecido com ela, vestido de linho 
branco e com o colarinho da camisa fechado por um boto de ouro, trazia-lhe um ramo 
de rosas. Acompanhava-o uma mulher de mos delicadas que separou uma rosa e ps 
no cabelo da menina. rsula entendeu que o homem e a mulher eram os pais de 
Rebeca, mas ainda que fizesse um grande esforo para reconhec-los, confirmou-se a 
certeza de que nunca os havia visto. Enquanto isso, por um descuido que Jos Arcadio 
Buenda no se perdoou nunca, os animaizinhos de caramelo fabricados em casa 
continuavam sendo vendidos no povoado. Crianas e adultos chupavam encantados os 
deliciosos galinhos verdes da insnia, os refinados peixes rosados da insnia e os 
ternos cavalinhos amarelos da insnia, de modo que a alvorada de segunda-feira 
surpreendeu todo o povoado de p. No princpio, ningum se alarmou. Pelo contrrio, 
alegraram-se de no dormir porque havia ento tanto o que fazer em Macondo que o 
tempo mal chegava. Trabalharam tanto que logo no tiveram nada mais que fazer, e se 
encontraram s trs da madrugada com os braos cruzados, contando o nmero de 
notas que tinha a valsa dos relgios. Os que queriam dormir, no por cansao, mas por 
saudade dos sonhos, recorreram a toda sorte de mtodos de esgotamento. Reuniam-se 
para conversar sem trgua, repetindo durante horas e horas as mesmas piadas 
complicando at os limites da exasperao a histria do galo capo, que era um jogo 
infinito em que o narrador perguntava se queriam que lhes contasse a histria do galo 
capo e quando respondiam que sim, o narrador dizia que no havia pedido que 
dissessem que sim, mas se queriam que lhes contasse a histria do galo capo, e 
quando respondiam que no, o narrador dizia que no lhes tinha pedido que dissessem 
que no, mas se queriam que lhes contasse a histria do capo, e quando ficavam 
calados o narrador dizia que no lhes tinha pedido que ficassem calados, mas se 
queriam que lhes contasse a histria do galo capo, e ningum podia ir embora porque 

o narrador dizia que no lhes tinha pedido que fossem embora, mas se queriam que 
lhes contasse a histria do galo capo, e assim sucessivamente, num crculo vicioso que 
se prolongava por noites inteiras. 
Quando Jos Arcadio Buenda percebeu que a peste tinha invadido a povoao, 
reuniu os chefes de famlia para explicar-lhes o que sabia sobre a doena da insnia, e 
estabeleceram medidas para impedir que o flagelo se alastrasse para as outras 
povoaes do pantanal. Foi assim que se tiraram dos cabritos os sininhos que os rabes 
trocavam por papagaios, se puseram na entrada do povoado,  disposio dos que 
desatendiam os conselhos e as splicas dos sentinelas e insistiam em visitar a aldeia. 
Todos os forasteiros que por aquele tempo percorriam as ruas de Macondo tinham que 
fazer soar o sininho para que os doentes soubessem que estavam sos. No se lhes 
permitia comer nem beber nada durante a sua estada, pois no havia dvidas de que a 
doena s se transmitia pela boca, e todas as coisas de comer e de beber estavam 
contaminadas pela insnia. Desta forma, manteve-se a peste circunscrita ao permetro 


do povoado. To eficaz foi a quarentena, que chegou o dia em que a situao de 
emergncia passou a ser encarada como coisa natural e se organizou a vida de tal 
maneira que o trabalho retomou o seu ritmo e ningum voltou a se preocupar com o 
intil costume de dormir. 

Foi Aureliano quem concebeu a frmula que havia de defend-los, durante 
vrios meses, das evases da memria. Descobriu-a por acaso. Insone experimentado, 
por ter sido um dos primeiros, tinha aprendido com perfeio a arte da ourivesaria. 
Um dia, estava procurando a pequena bigorna que utilizava para laminar os metais, e 
no se lembrou do seu nome. Seu pai lhe disse: ts. Aureliano escreveu o nome num 
papel que pregou com cola na base da bigorninha: ts. Assim, ficou certo de no 
esquec-lo no futuro. No lhe ocorreu que fosse aquela a primeira manifestao do 
esquecimento, porque o objeto tinha um nome difcil de lembrar. Mas poucos dias 
depois, descobriu que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as coisas do 
laboratrio. Ento, marcou-as com o nome respectivo, de modo que bastava ler a 
inscrio para identific-las. Quando seu pai lhe comunicou o seu pavor por ter-se 
esquecido at dos fatos mais impressionantes da sua infncia, Aureliano lhe explicou o 
seu mtodo, e Jos Arcadio Buenda o ps em prtica para toda a casa e mais tarde o 
imps a todo o povoado. Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com o seu 
nome: mesa, cadeira, relgio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e 
as plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira . Pouco a pouco, estudando 
as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que 
se reconhecessem as coisas pelas suas inscries, mas no se recordasse a sua utilidade. 
Ento foi mais explcito. O letreiro que pendurou no cachao da vaca era uma amostra 
exemplar da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar 
contra o esquecimento: Esta  a vaca, tem-se ordenh-la todas as manhs para que produza o leite 
e preciso ferver para mistur-lo com o caf e fazer caf com leite . Assim, continuaram vivendo 
numa realidade escorregadia momentaneamente capturada pelas palavras, mas que de 
fugir sem remdio quando esquecessem os valores da letra escrita. 

Na entrada do caminho do pntano, puseram um cartaz que dizia Macondo e 
outro maior na rua central que dizia Deus existe. Em todas as casas haviam escrito 
lembretes para memorizar os objetos e os sentimentos. Mas o sistema exigia tanta 
vigilncia e tanta fortaleza moral que muitos sucumbiram ao feitio de uma realidade 
imaginria, inventada por eles mesmos, que acabava por ser menos prtica, porm mais 
reconfortante. Pilar Ternera foi quem mais contribuiu para popularizar essa 
mistificao, quando concebeu o artifcio de ler o passado nas cartas como antes tinha 
lido o futuro. Com esse recurso, os insones comearam a viver num mundo construdo 
pelas alternativas incertas do baralho, onde o pai se lembrava de si apenas como o 
homem moreno que havia chegado no princpio de abril, e a me se lembrava de si 
apenas como a mulher trigueira que usava um anel de ouro na mo esquerda e onde 
uma data de nascimento ficava reduzida  ltima quarta-feira em que cantou a 
calhandra no loureiro. Derrotado por aquelas prticas de consolao, Jos Arcadio 
Buenda decidiu ento construir a mquina da memria, que uma vez tinha desejado 
para se lembrar dos maravilhosos inventos ciganos. A geringona se fundamentava na 
possibilidade de repassar, todas as manhs, e do princpio ao fim, a totalidade dos 
conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como um dicionrio giratrio que um 
indivduo situado no eixo controlar com uma manivela, de modo que em poucas horas 


passassem diante dos seus olhos as noes mais necessrias para viver. Tinha 
conseguido escrever j cerca de quatorze mil fichas, quando apareceu pelo caminho do 
pntano um ancio mal-ajambrado, com o sininho triste dos que dormem, carregando 
uma mala barriguda, amarrada com cordas, e um carrinho coberto de trapos negros. 
Foi diretamente  casa de Jos Arcadio Buenda. 

Visitacin no o reconheceu ao abrir-lhe a porta, e pensou que tinha o 
propsito de vender alguma coisa, ignorante de que nada se podia vender num 
povoado que se afundava sem remdio no atoleiro do esquecimento. Era um homem 
decrpito. Embora a sua voz estivesse tambm oscilante pela incerteza e as suas mos 
parecessem duvidar da existncia das coisas, era evidente que vinha do mundo onde os 
homens ainda podiam dormir e recordar. Jos Arcadio Buenda encontrou-o sentado 
na sala, abanando-se com um remendado chapu negro, enquanto lia com ateno 
compassiva os letreiros pregados na parede. Cumprimentou-o com amplas 
demonstraes de afeto, temendo t-lo conhecido em outra poca e agora no se 
lembrar mais dele. Mas o visitante percebeu a falsidade. Sentiu-se esquecido, no com 

o esquecimento remedivel do corao, mas com outro esquecimento mais cruel e 
irrevogvel que ele conhecia muito bem, porque era o esquecimento da morte. Ento 
entendeu. Abriu a mala entupida de objetos indecifrveis, e dentre eles tirou uma 
maleta com muitos frascos. Deu para beber a Jos Arcadio Buenda uma substncia de 
cor suave, e a luz se fez na sua memria. Seus olhos se umedeceram de pranto, antes de 
ver-se a si mesmo numa sala absurda onde os objetos estavam marcados, e antes de 
envergonhar-se das solenes bobagens escritas nas paredes, e ainda antes de reconhecer 
o recm-chegado numa deslumbrante exploso de alegria. Era Melquades. 
Enquanto Macondo festejava a reconquista das lembranas, Jos Arcadio 
Buenda e Melquades sacudiram a poeira da velha amizade. O cigano estava disposto 
a ficar no povoado. Tinha estado  morte, realmente, mas tinha voltado porque no 
pde suportar a solido. Repudiado pela sua tribo, desprovido de toda faculdade 
sobrenatural como castigo pela sua fidelidade  vida, decidiu se refugiar naquele 
cantinho do mundo ainda no descoberto pela morte, dedicado  explorao de um 
laboratrio de daguerreotipia. Jos Arcadio Buenda nunca tinha ouvido falar desse 
invento. Mas quando se viu a si mesmo e a toda a sua famlia plasmados numa idade 
eterna sobre uma lmina de metal com reflexos, ficou mudo de espanto. Dessa poca 
data o oxidado daguerretipo em que Jos Arcadio Buenda com o cabelo arrepiado e 
cinzento, o engomado colarinho da camisa fechado por um boto de cobre, e uma 
expresso de solenidade assombrada, e que rsula descrevia morta de rir como um 
general assustado. Na verdade, Jos Arcadio Buenda estava assustado, na difana 
manh de dezembro em que lhe fizeram o daguerretipo porque pensava que a pessoa 
se ia gastando pouco a pouco que  medida que a sua imagem passava para as placasmetlicas. Por uma curiosa inverso do costume, foi rsula que lhe tirou aquela idia 
da cabea, assim como foi tambm ela quem esqueceu as antigas mgoas e decidiu que 
Melquades ficaria na casa deles, embora nunca permitisse que lhe fizessem um 
daguerretipo porque (segundo as suas prprias palavras textuais) no queria ficar 
para a chacota dos netos. Na manh, vestiu as crianas com as suas melhores roupas, 
empoou-lhes a cara e deu uma colherada de xarope de tutano a cada um, para que 
pudessem permanecer absolutamente imveis durante quase dois minutos diante da 
aparatosa cmara de Melquades. No daguerretipo familiar, o nico que sempre 
existiu, Aureliano apareceu vestido de veludo negro, entre Amaranta e Rebeca. Tinha a 


mesma languidez e o mesmo olhar clarividente que haveria de ter, anos mais tarde, 
diante do peloto de fuzilamento. Mas ainda no havia sentido a premonio do seu 
destino. Era um ourives experimentado, estimado em todo o pantanal pelo 
preciosismo do seu trabalho. Na oficina que compartilhava com o disparatado 
laboratrio de Melquades, mal se ouvia ele respirar. Parecia refugiado no tempo, 
enquanto seu pai e o cigano interpretavam aos gritos as predies de Nostradamus, 
entre um estrpito de frascos e cubas, e o desastre dos cidos derramados e o brometo 
de prata perdido pelas cotoveladas e tropees que davam a cada instante. Aquela 
consagrao ao trabalho e o bom senso com que administrava os seus interesses 
haviam permitido a Aureliano ganhar em pouco tempo mais dinheiro que rsula com 
a sua deliciosa fauna de caramelo, mas todo mundo estranhava que fosse j um homem 
feito e no se tivesse notcia de nenhuma mulher na sua vida. Na verdade, no tinha 
tido. 

Meses depois, voltou Francisco, o Homem, um ancio errante de quase 200 
anos,que passava com freqncia por Macondo, divulgando as canes compostas por 
ele mesmo. Nelas, Francisco, o Homem, relatava com detalhes minuciosos os fatos 
acontecidos nos outros povoados do seu itinerrio, de Manaure at os confins do 
pantanal, de modo que se algum tinha um recado para mandar ou um acontecimento 
para divulgar pagava-lhe dois centavos para que o inclusse no seu repertrio. Foi 
assim que rsula ficou sabendo da morte de sua me, por puro acaso, numa noite em 
que escutava as canes com a esperana de que dissessem algo sobre o seu filho Jos 
Arcadio. Francisco, o Homem, assim chamado porque venceu o diabo num desafio de 
improvisao de cantos, e cujo verdadeiro nome ningum soube, desapareceu de 
Macondo durante a peste da insnia e certa noite reapareceu sem aviso na taberna de 
Catarino. Todo o povo foi escut-lo, para saber o que tinha acontecido no mundo. 
Nessa ocasio, chegaram com ele uma mulher to gorda que quatro ndios tinham que 
lev-la carregada numa maca, e uma mulata adolescente de aspecto desamparado que a 
protegia do sol com uma sombrinha. Aureliano foi essa noite  taberna de Catarino. 
Encontrou Francisco, o Homem, como um camaleo monoltico, sentado no meio de 
um crculo de curiosos. Cantava as notcias com a sua velha voz desencordoada 
acompanhando-se com o mesmo acordeo arcaico que ganhara de Sir Walter Raleigh 
nas Guianas, enquanto marcava o compasso com os seus grandes ps andarilhos 
gretados pelo salitre. Diante da porta do fundo, estava sentada, e se abanava em 
silncio, a matrona da maca. Catarino, com uma rosa de feltro na orelha, vendia  
freguesia canecas de garapa fermentada e aproveitava a ocasio para se aproximar dos 
homens pr a mo onde no devia. Por volta da meia-noite o calor era insuportvel. 
Aureliano escutou as notcias at o fim, sem encontrar nenhuma que interessasse  sua 
famlia. Dispunha-se a voltar para casa quando a matrona lhe fez um sinal com mo. 

 Entre voc tambm  disse a ele.  Custa s vinte centavos. 
Aureliano jogou uma moeda no cofre que a matrona tinha nas pernas e entrou 
no quarto sem saber para qu. A mulata adolescente, com as suas tetazinhas de cadela, 
estava nua cama. Antes de Aureliano, nessa noite, sessenta e trs homens tinham 
passado pelo quarto. De tanto ser usado, e amassado com suores e suspiros, o ar da 
alcova comeava a se transformar em lodo. A moa tirou o lenol ensopado e pediu a 
Aureliano que o segurasse por um lado. Pesava como uma cortina. Espremeram-no, 
torcendo-o pelos extremos, at que voltou ao seu peso natural. Viraram a esteira, e o 
suor saa pelo outro lado. Aureliano ansiava para que essa operao no terminasse 


nunca. Conhecia a mecnica terica do amor, mas no podia agentar-se em p por 
causa da fraqueza dos joelhos, e ainda que tivesse a pele arrepiada e ardente no podia 
suportar a urgncia de expulsar o peso das tripas. Quando a moa acabou de arrumar a 
cama e lhe ordenou que se despisse ele deu uma explicao aparvalhada: Me fizeram 
entrar. disseram para jogar vinte centavos no cofre e no demorar. A moa entendeu o 
seu embarao. Se voc jogar outros vinte centavos na sada, pode demorar um pouco 
mais, e suavemente. Aureliano se despiu, atormentado pelo pudor, sem poder afastar a 
idia de que a sua nudez no resistia  comparao com a de seu irmo. Apesar dos 
esforos da moa, sentiu-se cada vez mais indiferente, e terrivelmente sozinho. Vou 
jogar outros vinte centavos, disse com voz desolada. A moa lhe agradeceu em 
silncio. Tinha as costas em carne viva. Tinha a pele colada nas costelas e a respirao 
alterada por um esgotamento insondvel. Dois anos antes, muito longe dali, havia 
adormecido sem apagar a vela e tinha acordado rodeada pelo fogo. A casa onde vivia 
com a av que a havia criado ficou reduzida a cinzas. Desde ento, a av a levava de 
povoado em povoado, deitando-a por vinte centavos, a pagar o valor da casa 
incendiada. Pelos clculos da moa ainda lhe faltavam uns dez anos de setenta homens 
por noite, porque tinha a pagar alm do mais os gastos de viagem e alimentao das 
duas, e o ordenado dos ndios que carregavam a maca. Quando a matrona bateu na 
porta pela segunda vez, Aureliano saiu do quarto sem ter feito nada, aturdido pela 
vontade de chorar. Essa noite no pde dormir, pensando na moa com uma mistura 
de desejo e comiserao. Sentia uma necessidade irresistvel de am-la e proteg-la. Ao 
amanhecer, extenuado pela insnia e pela febre, tomou a serena deciso de se casar 
com ela para libert-la do despotismo da av e desfrutar todas as noites da satisfao 
que ela dava a setenta homens. Mas, s dez da manh, quando chegou  taberna de 
Catarino, a moa j tinha ido embora do povoado. 

O tempo aplacou o seu propsito deslumbrado, mas agravou o seu sentimento 
de frustrao. Refugiou-se no trabalho. Resignou-se a ser um homem sem mulher a 
vida inteira, para esconder a vergonha da sua inutilidade. Enquanto isso, Melquades 
acabou de plasmar nas suas placas tudo o que era plasmvel em Macondo e abandonou 

o laboratrio de daguerreotipia aos delrios de Jos Arcadio Buenda, que tinha 
resolvido utiliz-lo para obter a prova cientfica da existncia de Deus. Mediante um 
complicado processo de exposies superpostas, tomadas em lugares diferentes da 
casa, estava certo de fazer mais cedo ou mais tarde o daguerretipo de Deus, se 
existisse, ou acabar de uma vez por todas com a suposio da sua existncia. 
Melquades aprofundou-se nas interpretaes de Nostradamus. Ficava at muito 
tarde, sufocando-se dentro do seu desbotado casaco de veludo, traando garranchos 
em papis, com as suas minsculas mos de pardal, cujos anis tinham perdido o 
brilho de outra poca. Certa noite, acreditou encontrar uma predio sobre o futuro de 
Macondo. Seria uma cidade luminosa, com grandes casas de vidro, onde no restava 
nem rastro da estirpe dos Buenda.  engano, trovejou Jos Arcadio Buenda. No 
sero casas de vidro, mas de gelo, como eu sempre sonhei, e sempre haver umBuenda, pelos sculos dos sculos. Naquela casa extravagante, rsula lutava para 
preservar o bom senso, tendo ampliado o negcio de animaizinhos de caramelo com 
um forno que produzia, durante toda a noite, cestos e cestos de po e uma prodigiosa 
variedade de pudins, suspiros e biscoitinhos, que se esfumavam em poucas horas pelas 
veredas do pantanal. Havia atingido a idade em que tinha direito a descansar, mas era 
cada vez mais ativa. To ocupada andava com as suas prsperas empresas que uma 

tarde olhou por distrao para o quintal enquanto a ndia a ajudava a adoar a massa, e 
viu duas adolescentes desconhecidas e formosas bordando no bastidor  luz do 
crepsculo. Eram Rebeca e Amaranta. Mal haviam tirado o luto da av, que guardaram 
com inflexvel rigor durante trs anos, e a roupa de cor parecia haver dado a elas um 
novo lugar no mundo. Rebeca, ao contrrio do que se pde esperar, era a mais bela. 
Tinha uma pele difana, olhos grandes e repousados, e umas mos mgicas que 
pareciam elaborar com fios invisveis a trama do bordado. Amaranta, a menor era um 
pouco sem graa, mas tinha a distino natural, a altivez interior da av morta. Junto 
delas, embora j se revelasse o impulso fsico de seu pai, Arcadio parecia um 
menino.Tinha-se dedicado a aprender a arte da ourivesaria com Aureliano, que alm 
disso lhe ensin ara a ler e escrever. rsula percebeu de repente que a casa se havia 
enchido de gente, seus filhos estavam quase para casar e ter filhos, e que veriam 
obrigados a se dispersar por falta de espao. Ento tirou o dinheiro juntado em longos 
anos de trabalho duro, assumiu compromissos com os seus clientes, e empreendeu a 
ampliao da casa. Ordenou que se construssem uma sala formal para as visitas, outra 
mais cmoda e fresca para o uso dirio, um refeitrio com uma mesa de doze lugares, 
onde se sentasse a famlia com todos os seus convidados; nove quartos com janelas 
para o quintal e uma longa varanda protegida do esplendor do meio-dia por um jardim 
de rosas, com uma amurada para colocar vasos de fetos e de begnias. Mandou alargar 
a cozinha para construir dois fornos, destruir a velha despensa onde Pilar Ternera 
tinha lido o futuro de Jos Arcadio , e construir outra duas vezes maior, para que 
nunca faltasse alimentos em casa. Mandou construir no quintal,  sombra do 
castanheiro, um banheiro para as mulheres e outro para os homens, e ao fundo uma 
cavalaria grande, um galinheiro um estbulo de ordenha e uni viveiro aberto aos 
quatro ventos para que se instalassem a seu gosto os pssaros sem rumo. Seguida por 
dzias de pedreiros e carpinteiros, como se tivesse contrado a febre alucinante do 
marido, rsula ordenava a posio da luz e a conduta do calor, e dividia o espao sem a 
menor noo dos seus limites. A primitiva construo dos fundadores se encheu de 
ferramentas e materiais, de operrios agoniados pelo suor, que pediam a todo mundo o 
favor de no atrapalhar, sem pensar que eram eles que atrapalhavam, exasperados pelo 
saco de ossos humanos que os perseguia por todas as partes com o seu surdo 
chocalhar. Naquele ambiente incmodo, todos respirando cal viva e melados de 
alcatro, ningum entendeu muito bem como foi surgindo das entranhas da terra no 
s a maior casa que jamais haveria no povoado, como tambm a mais hospitaleira e 
fresca que jamais houvera no mbito do pantanal. Jos Arcadio Buenda, tentando 
surpreender a Divina Providncia no meio do cataclismo, foi quem menos entendeu. A 
nova casa estava quase terminada quando rsula o tirou do seu mundo quimrico para 
inform-lo de que havia uma ordem para pintar a fachada de azul e no de branco, 
como eles que riam. Mostrou-lhe a disposio oficial escrita num papel. Jos Arcadio 
Buenda, sem compreender o que dizia a sua esposa, decifrou a assinatura. 

 Quem  esse sujeito?  perguntou. 
 O delegado  disse rsula desconsolada.  Dizem que  uma autoridade 
que o governo mandou. 
O Sr. Apolinar Moscote, o delegado, tinha chegado a Macondo na surdina. 
Baixou no Hotel do Jacob  instalado por um dos primeiros rabes que chegaram 
mascateando bugigangas por papagaios  e no dia seguinte alugou um quartinho com 
porta para a rua, a duas quadras da casa dos Buenda. Ps uma mesa e uma cadeira que 


comprou de Jacob, pregou na parede um escudo da Repblica que tinha trazido 
consigo, e pintou na porta o letreiro: Delegacia. Sua primeira atitude foi ordenar que 
todas as casas se pintassem de azul para celebrar o aniversrio da independncia 
nacional. Jos Arcadio Buenda, com a cpia da ordem na mo, encontrou-o dormindo 
a sesta na rede que tinha pendurado no estreito escritrio. Foi o senhor que escreveu 
este papel?, perguntou. O Sr. Apolinar Mascote, um homem maduro, tmido de 
compleio sangunea, respondeu que sim. Com que direito?, voltou a perguntar Jos 
Arcadio Buenda. O Sr. Apolinar procurou um papel na gaveta da mesa e mostrou; Fui 
nomeado delegado deste povoado. Jos Arcadio Buenda nem sequer olhou para a 
nomeao. 

 Neste povoado no mandamos com papis  disse sem perder a calma.  E 
para que fique sabendo de uma vez, no precisamos de nenhum delegado, porque aqui 
no h nada para delegar. 
Diante da impavidez do Sr. Apolinar Moscote, sempre sem levantar a voz, fez 
um pormenorizado relato de como haviam fundado a aldeia, de como tinham repartido 
a terra, aberto caminhos e introduzido as melhoras que lhes fora exigindo a 
necessidade, sem ter incomodado governo nenhum e ningum os incomodasse. Somos 
to pacficos que sequer morremos de morte natural, disse. Veja que no temos 
cemitrio. No estava magoado pelo governo no os haver ajudado. Pelo contrrio, 
alegrava-se de at ento os tivesse deixado crescer em paz, e esperava continuasse 
deixando, porque eles no tinham fundado povoado para que o primeiro que chegasse 
lhes fosse dizer o que deviam fazer. O Sr. Apolinar Moscote havia posto um palet de 
linho, branco como as suas calas, sem perder um s momento a pureza dos seus 
gestos. 

 De modo que se o senhor quiser ficar aqui, como outro cidado comum e 
corrente, seja bem-vindo  concluiu Jos Buenda.  Mas se vem implantar a 
desordem, obrigando o povo a pintar as casas de azul, pode juntar os trapos para o 
lugar de onde veio. Porque a minha casa vai ser branca como uma pomba. 
O Sr. Apolinar Moscote ficou plido. Deu um passo atrs e apertou os maxilares 
para dizer com certa aflio: 

 Quero adverti-lo de que estou armado. 
Jos Arcadio Buenda no pde precisar em que momento subiu s mos a fora 
juvenil com que derrubava um cavalo. Agarrou o Sr. Apolinar Moscote pelo colarinho e 
levantou-o  altura dos olhos. 

 Fao isto  disse ele porque prefiro carreg-lo vivo e no ter de continuar a 
carreg-lo morto pelo resto de minha vida. 
Assim o levou, pelo meio da rua, suspenso pelo colarinho, at que o ps sobre os 
seus dois ps no caminho do pntano. Uma semana depois, estava de volta com seis 
soldados descalos e esfarrapados, armados de espingardas, e um carro de boi onde 
viajavam sua mulher e suas sete filhas. Mais tarde chegaram mais duas carroas com os 
mveis, os bas e os utenslios domsticos. Instalou a famlia no Hotel do Jacob, 
enquanto arranjava uma casa, e voltou a abrir o escritrio protegido pelos soldados. Os 
fundadores de Macondo, resolvidos a expulsar os invasores, foram com os seus filhos 
mais velhos colocar-se  disposio de Jos Arcadio Buenda. Mas ele se ops, 
conforme explicou, porque o Sr. Apolinar Moscote tinha voltado com a mulher e as 
filhas, e no era coisa de homem envergonhar outro diante da famlia. De modo que 
decidiu resolver a situao por bem. 


Aureliano o acompanhou. J ento tinha comeado a cultivar o bigode negro de 
pontas engomadas, e tinha a voz um pouco retumbante que haveria de caracteriz-lo 
na guerra. Desarmados, sem dar importncia  guarda, entraram no escritrio do 
delegado. O Sr. Apolinar Moscote no perdeu a serenidade. Apresentou-os a duas de 
suas filhas que se encontravam ali por acaso: Amparo, de 16 anos, morena como a me, 
e Remedios, de apenas nove anos, um cromo de menina com pele de lrio e olhos 
verdes. Eram graciosas e bem-educadas. Logo que eles entraram, antes de serem 
apresentadas, trouxeram-lhes cadeiras para que se sentassem. Mas ambos 
permaneceram de p. 

 Muito bem, amigo  disse Jos Arcadio Buenda o senhor fica aqui, mas 
no porque tem na porta esses bandoleiros de trabuco, e sim por considerao  
senhora sua esposa e s suas filhas. 
O Sr. Apolinar Moscote se desconcertou, mas Jos Arcadio Buenda no lhe deu 
tempo para responder. S lhe impomos duas condies, acrescentou. A primeira: 
que cada um pinte a sua casa da cor que quiser. A segunda: que os soldados vo 
embora imediatamente. Ns garantimos a ordem. O delegado levantou a mo direita 
com todos os dedos 

 Palavra de honra? 
Palavra de inimigo  disse Jos Arcadio Buenda. E num tom amargo:  
Porque uma coisa eu quero lhe dizer: o senhor e eu continuamos sendo inimigos. Nessa 
mesma tarde os soldados foram embora. Poucos dias depois Jos Arcadio Buenda 
arranjou uma casa para a famlia do delegado. Todo mundo ficou em paz, menos 
Aureliano. A imagem de Remedios, a filha mais nova do delegado, que pela idade 
poderia ser sua filha, ficou doendo em alguma parte de seu corpo. Era uma sensao 
fsica que quase o incomodava para andar, como uma pedrinha no sapato. 


A NOVA casa, branca como uma pomba, foi estreada com um baile. rsula tinha 
tido aquela idia na tarde em que viu Rebeca e Amaranta transformadas em 
adolescentes, e quase se pode dizer que o principal motivo da construo foi o desejo 
de conseguir para as moas um lugar digno onde receber as visitas. Para que nada 
deixasse a desejar, trabalhou como um mouro, enquanto se executavam as reformas, de 
modo que antes que estivessem terminadas j tinha encomendado custosos objetos 
para a decorao e os servios de copa, e a inveno maravilhosa que haveria de 
suscitar o assombro do povo e o jbilo da juventude: a pianola. Levaram-na aos 
pedaos, embalada em vrios caixotes, que foram descarregados junto com os mveis 
vienenses, os cristais da Boemia, a loua da Companhia das ndias, as toalhas da 
Holanda e uma rica variedade de lmpadas e lampies, e floreiras, guardanapos.A casa 
importadora enviou por sua conta um tcnico italiano, Pietro Crespi, para que armasse 
e afinasse a pianola, instrusse os compradores do seu manejo e os ensinasse a msica 
da moda impressa nos seis rolos de papel. 

Crespi era jovem e louro, o homem mais belo e galante que se havia visto em 
Macondo, to escrupuloso no vestir que, apesar do calor sufocante, trabalhava de 
camiseta brocada e um grosso palet de pano escuro. Ensopado de suor, mantendo 
uma distncia reverente dos donos da casa, esteve semanas trancado na sala, numa 
dedicao semelhante  de Aureliano na sua oficina de ourives. Certa manh, sem abrir 
a porta, sem convocar nenhuma testemunha para o milagre, colocou o primeiro rolo na 
pianola, e o martelar atormentador e o ranger constante das ripas de madeira cessaram 
num silncio de assombro, diante da ordem e da limpeza da msica. Todos se 
precipitaram para a sala. Jos Arcadio Buenda pareceu fulminado, no pela beleza da 
melodia, mas pelo movimento autnomo do teclado da pianola, e instalou na sala a 
mquina de daguerreotipia de Melquades, com a esperana de obter o re trato do 
executante invisvel. Neste dia, o italiano almoou com eles. Rebeca e Amaranta, 
servindo a mesa, intimidaram-se com a fluidez com que usava os talheres aquele 
anglico de mos plida e sem anis. Na sala de estar,contgua  de visitas, Pietro 
Crespi ensinou-as a danar. Indicava-lhes os passos sem toc-las, marcando ocompasso um metrnomo sob a amvel vigilncia de rsula, que no abandonou a sala 
um s instante enquanto as filhas recebiam as lies. Pietro Crespi vestia ento umas 
calas especiais, muito flexveis e justas, e umas sapatilhas de bal. Voc no precisa 
se preocupar tanto, observava Jos Arcadio  sua mulher. Esse sujeito  maricas. Ela, 
porm, no desistiu da vigilncia enquanto no terminou a aprendizagem e o italianono foi embora de Macondo. Ento comeou a organizao da festa. rsula fez uma 
lista severa dos convidados na qual os nicos escolhidos eram os descendentes dos 
fundadores, exceto a famlia de Pilar Ternera, que j tinha tido outros dois filhos de 
pais desconhecidos. Era na realidade uma seleo de classe, s que determinada por 
sentimentos de amizade, pois os favorecidos eram no s os mais antigos ntimos da 
casa de Jos Arcadio Buenda, desde antes de empreender o xodo que culminou com a 
fundao de Macondo, mas tambm os seus filhos e netos eram os companheiros 
habituais de Aureliano e Arcadio desde a infncia, e as suas filhas eram as nicas que 
visitavam a casa para bordar com Rebeca e Amaranta. O Sr. Apolinar Moscote, o 
governante benvolo cuja atuao se reduzia a sustentar com os seus escassos recursos 
os dois guardas armados com cassetetes de madeira, era uma autoridade ornamental. 
Para ajudar nas despesas domsticas, suas filhas abriram um ateli de costura, onde ao 
mesmo tempo que faziam flores de feltro, preparavam docinhos de goiaba e escreviam 


cartas de amor por encomenda. Mas, apesar de serem recatadas e prestativas, as mais 
belas do povoado e as mais preparadas nas danas modernas, no conseguiram ser 
levadas em conta para a festa.

Enquanto rsula e as moas desencaixotavam os mveis, poliam as louas e 
penduravam quadros de donzelas em barcas carregadas de rosas, infundindo um sopro 
de vida nova nos espaos pelados que os pedreiros construram, Jos Arcadio Buenda 
renunciou  perseguio da imagem de Deus, convencido da sua inexistncia, e 
estripou a pianola para decifrar a sua magia secreta. Dois dias antes da festa, afogando-
se numa poa de cravelhas e martelos que sobravam, fazendo lambana entre um 
meandro de cordas que desenrolava por um extremo e que tornavam a se enrolar pelo 
outro, conseguiu descompor o instrumento. Nunca houve tantos sobressaltos e 
correrias como naqueles dias, mas as novas lmpadas de alcatro se acenderam na data 
e na hora previstas. A casa se abriu, ainda cheirando a resinas e a cal mida, e os filhos 
e netos dos fundadores conheceram a varanda dos fetos e das begnias, os aposentos 
silenciosos, o jardim saturado pela fragrncia das rosas, e se reuniram na sala de 
visitas, diante da inveno desconhecida que tinha sido coberta por um lenol branco. 
Os que conheciam o pianoforte, popular em outras povoaes do pantanal, ficaram umpouco decepcionados; mais amarga ainda foi a desiluso de rsula, quando colocou o 
primeiro rolo para que Amaranta e Rebeca abrissem o baile, e o mecanismo no 
funcionou. Melquades, j quase cego, e caindo de velhice, recorreu s artes da sua 
antiqssima sabedoria para tentar consert-lo. Por fim, Jos Arcadio Buenda 
conseguiu mover por engano um dispositivo emperrado, e a msica saiu, primeiro aos 
borbotes, e logo num manancial de notas arrevesadas. Batendo nas cordas, colocadas 
sem nem concerto e afinadas com temeridade, os martelos se desencaixaram. Mas os 
teimosos descendentes dos vinte e intrpidos que desbravaram a serra em busca do 
mar pelo Ocidente passaram por cima dos escolhos do quiproqu meldico e o baile se 
prolongou at o amanhecer. 

Pietro Crespi voltou para montar a pianola de novo. Rebeca e Amaranta o 
ajudaram a ordenar as cordas e o secundaram nas suas risadas pelo arrevesado dasvalsas. Era extremamente afetuoso e de to boa ndole que rsula renunciou  
vigilncia. Na vspera da sua viagem, improvisou-se com a pianola restaurada um baile 
de despedida, e ele fez com Rebeca uma demonstrao virtuosstica das danas 
modernas. 

Arcadio e Amaranta se igualaram em graa e destreza. Mas a exibio foi 
interrompida porque Pilar Ternera, que estava com os curiosos, atracou-se s 
mordidas e puxes com uma mulher que se atreveu a comentar que o Arcadio tinha 
ndegas de mulher. Por volta da meia noite, Pietro Crespi se despediu com um 
discursinho sentimental, prometeu voltar muito brevemente. Rebeca o acompanhou 
at porta e, logo depois de ter fechado a casa e apagado as lmpadas, foi para o quarto 
chorar. Foi um pranto inconsolvel que se prolongou por vrios dias e cuja causa nem 
Amaranta soube. No era estranho o seu hermetismo. Embora parecesse expansiva e 
cordial, tinha um temperamento e um corao impenetrvel. Era uma adolescente 
esplndida, de ossos largos e firmes, mas se obstinava em continuar usando a 
cadeirinha de balano com que chegou  casa, muitas vezes reforada e j desprovida 
de braos. Ningum havia descoberto que ainda nessa poca conservava o hbito de 
chupar o dedo. Por isso no perdia ocasio de se fechar no banheiro, e tinha adquirido 

o costume de dormir com a cara virada para a parede. Nas tardes de chuva, bordando 

com um grupo de amigas na varanda das begnias, perdia o fio da conversa e uma 
lgrima de saudade lhe salgava o cu da boca quando via as faixas de terra mid a e os 
montculos de barro construdos pelas minhocas no jardim. Estes prazeres secretos, 
vencidos em outros tempos pelas laranjas com ruibarbo, irromperam num desejo 
irreprimvel quando comeou a chorar. Voltou a comer terra. Da primeira vez, f-lo 
quase por curiosidade, certa de que o gosto ruim seria o melhor remdio contra a 
tentao. E, com efeito, no pde suportar a terra na boca. Mas insistiu, vencida pela 
nsia crescente, e pouco a pouco foi satisfazendo o apetite ancestral, o gosto pelos 
minerais primrios, a satisfao sem par do alimento original. Jogava punhados de 
terra nos bolsos e os comia aos grozinhos, sem ser vista, com um confuso sentimento 
de felicidade e raiva, enquanto adestrava suas amigas nos pontos mais difceis e 
conversava sobre outros homens que no mereciam o sacrifcio de que se comesse por 
eles a cal das paredes. Os punhados de terra faziam menos remoto e mais certo o nico 
homem que merecia aquela degradao, como se o cho que ele pisava com as suas 
finas botas de verniz em outro lugar do mundo transmitisse a ela o peso e a 
temperatura do seu sangue, num sabor mineral que deixava uma cinza spera na boca 
e um sedimento de paz no corao. Uma tarde, sem nenhum motivo, Amparo Moscote 
pediu licena para conhecer a casa. Amaranta e Rebeca, desconcertadas pela visita 
imprevista, atenderam-na com um formalismo duro. Mostraram-lhe a manso 
reformada, fizeram-na ouvir os rolos da pianola e lhe ofereceram laranjada com 
biscoitinhos. Amparo deu uma lio de dignidade, de encanto pessoal, de boasmaneiras, que impressionou rsula nos breves instantes em que assistiu  visita. 

Ao fim de duas horas, quando a conversa comeava a arrefecer, Amparo 
aproveitou um descuido de Amaranta e entregou uma carta a Rebeca. Esta conseguiu 
ver o nome da mui ilustrssima senhorita D. Rebeca Buenda, escrito com a mesma 
letra regular, a mesma tinta verde e a mesma disposio das palavras com que estavam 
escritas as instrues de manejo da pianola, e dobrou a carta com a ponta dos dedos e 
escondeu-a no seio, olhando para Amparo Moscote na expresso de gratido sem fim 
nem condies e uma calada promessa de cumplicidade at a morte. 

A repentina amizade de Amparo Moscote e Rebeca Buenda despertou as 
esperanas de Aureliano. A lembrana da pequena Remedios no tinha deixado de 
tortur-lo, mas no encontrava oportunidade de v-la. Quando passeava pelo povoado 
com os seus amigos mais prximos, Magnfico Visbal e Gerineldo Mrquez  filhos 
dos fundadores de iguais nomes  procurava-a com olhar ansioso no ateli de costura 
e s via as irms mais velhas. A presena de Amparo Moscote na casa foi como uma 
premonio. Tem que vir com ela, se dizia o em voz baixa. Tem que vir. Tantas 
vezes repetiu, e com tanta convico, que uma tarde em que moldava na oficina um 
peixinho de ouro teve a certeza de que ela tinha respondido ao seu chamado. Pouco 
depois, com efeito, ouviu a vozinha infantil, e ao levantar a vista com o corao gelado 
de pavor viu a menina na porta, com um vestido de organdi rosado e botinhas brancas. 

 No entre a, Remedios  disse Amparo Moscote no corredor.  Eles esto 
trabalhando. 
Aureliano no lhe deu tempo de obedecer. Levantou o peixinho dourado preso 
numa correntinha que lhe saa boca e disse: 

 Entre. 
Remedios se aproximou e fez algumas perguntas sobre o peixinho, que 
Aureliano no pde responder devido a um repentino ataque de asma. Queria ficar 


para sempre junto dessa pele de lrio, junto desses olhos de esmeralda, muito perto 
dessa que a cada pergunta lhe dizia senhor com o mesmo respeito com que o dizia a 
seu pai. Melquiades estava no canto,  escrivaninha, garranchando signos 
indecifrveis. Aureliano o odiou. No pde fazer nada, a no ser dizer a Remdios que 
lhe ia dar de presente o peixinho, e a menina se assustou tanto com o oferecimento que 
abandonou s carreiras a oficina. Naquela tarde, Aureliano perdeu a recndita 
pacincia com que tinha esperado a ocasio de v-la. Descuidou do trabalho. Chamou-
a muitas vezes, em desesperados esforos de concentrao, mas Remedios no 
respondeu. Procurou-a no ateli de suas irms, nas cortinas da sua casa, no escritrio 
do seu pai, mas a encontrou somente na imagem que saturava sua prpria e terrvel 
solido. Passava horas inteiras com Rebeca na sala de visitas, escutando as valsas da 
pianola. Ela escutava porque era a msica com que Pietro Crespi a tinha ensinado a 
danar. Aureliano escutava porque tudo, at a msica, lhe recordava Remdios. 

A casa se encheu de amor. Aureliano expressou-o em versos que no tinham 
princpio nem fim. Escrevia-os nos speros pergaminhos que lhe dava Melquades, nas 
paredes do banheiro, na pele dos braos, e em todos aparecia Remedios transfigurada: 
Remedios no ar soporfero das duas da tarde, Remedios na calada respirao das rosas 
Remedios na clepsidra secreta das mariposas, Remedios no vapor do po ao 
amanhecer Remedios em todas as partes e Remedios ara sempre. Rebeca esperava o 
amor s quatro da tarde, bordando junto  janela. Sabia que a mula do correio no 
chegava seno de quinze em quinze dias, mas a esperava sempre, convencida de que ia 
chegar um dia qualquer por engano. Aconteceu exatamente o contrrio: uma vez a 
mula no chegou na data prevista. Louca de desespero, Rebeca se levantou  meia-
noite e comeu punhados de terra no jardim, com avidez suicida, chorando de dor e 
fria, mastigando minhocas macias e espedaando os dentes nas cascas de caracis. 
Vomitou at o amanhecer. Afundou num estado de prostrao febril, perdeu aconscincia e o corao se abriu num delrio sem pudor. rsula, escandalizada, forou 
a fechadura do ba e encontrou no fundo, atada com fitas cor-de-rosa, as dezesseis 
cartas perfumadas e os esqueletos de folhas e ptalas conservadas em livros antigos e 
as borboletas que ao toca-las se converteram em p. 

Aureliano foi o nico a entender tanta desolao. Essa tarde e, enquanto rsula 
tentava tirar Rebeca dos alagados do delrio, ele foi com Magnfico Visbal e Gerineldo 
Mrquez  taberna de Catarino. O estabelecimento tinha sido ampliado com uma 
galeria de quartos de madeira onde viviam mulheres sozinhas cheirando a flores 
mortas. Um conjunto de tambores executava as canes de Francisco, o Homem, que 
fazia vrios anos tinha desaparecido de Macondo.Os trs amigos beberam garapa 
fermentada. Magnfico e Gerineldo, contemporneos de Aureliano, porm mais 
experientes nas coisa do mundo, bebiam metodicamente com as mulheres sentadas 
nos joelhos. Uma delas, murcha e com a dentadura obturada a ouro, fez a Aureliano 
uma carcia estremecedora. Ele a repeliu. Tinha descoberto que quanto mais bebia 
mais se lembrava de Remedios, mas suportava melhor a tortura da lembrana. No 
soube em que momento comeou a flutuar. Viu seus amigos e as mulheres navegando 
numa reverberao radiante, sem peso nem volume, dizendo palavras que no saam 
dos lbios e fazendo sinais misteriosos que no correspondiam aos seus gestos. 
Catarino ps-lhe a mo no ombro e disse: So quase onze horas. Aureliano voltou a 
cabea, viu o enorme rosto desfigurado com uma flor de feltro na orelha e ento perdeu 
a memria, como nos tempos do esquecimento, e voltou a recobr-la numa madrugada 


alheia e num quarto que lhe era completamente desconhecido, onde estava Pilar 
Ternera de combinao, descala, desgrenhada, alumiando-o com um lampio e 
pasmada de incredulidade. 

 Aureliano! 
Aureliano se firmou nos ps e levantou a cabea. Ignorava como tinha chegado 
at ali, mas sabia qual era o propsito, porque o trazia escondido desde a infncia num 
lago inviolvel do corao. 

 Venho dormir com a senhora  disse. 
Tinha a roupa manchada de lama e de vmito. Pilar Ternera, que ento vivia 
somente com os seus dois filhos menores, no lhe fez nenhuma pergunta. Levou-o para 
a cama. Limpou-lhe a cara com um trapo mido, tirou-lhe a roupa e logo se despiu por 
completo e abaixou o mosquiteiro para que no a vissem os filhos, se acordassem. 
Tinha cansado de esperar o homem que ficou, pelos homens que foram embora, pelos 
incontveis homens que erraram o caminho da sua casa, confundidos pela incerteza 
das cartas. Na espera, sua pele tinha enrugado, seus seios tinham murchado e se havia 
apagado a brasa do corao. Procurou Aureliano na escurido, ps-lhe a mo no ventre 
e beijou-o no pescoo com uma ternura maternal. Meu pobre menininho, murmurou. 
Aureliano estremeceu. Com um desembarao repousado, sem a menor dificuldade, 
deixou para trs as escarpas da dor e encontrou Remedios transformada num pntano 
sem horizontes, cheirando a animal cru e a roupa recm-passada a ferro. Quando boiou 
estava chorando. Primeiro foram soluos involuntrios e entrecortados. Depois se 
esvaziou num manancial desatado, sentindo que algo tumefato e doloroso tinha 
arrebentado no se interior. Ela esperou, coando-lhe a cabea com a ponta do dedos, 
at que seu corpo se desocupasse da matria escura que no o deixava viver. Ento, 
Pilar Ternera lhe perguntou Quem ? E Aureliano lhe disse. Ela deu a risada que e 
outros tempos espantava os pombos e que agora nem sequer acordava as crianas. 
Voc vai ter que acabar de cri-la zombou. Mas atrs da brincadeira Aureliano 
encontrou um remanso de compreenso. Quando abandonou o quarto, deixando ali 
no s a incerteza da sua virilidade mas tambm peso amargo que durante tantos 
meses suportara no corao, Pilar Temera lhe tinha feito uma promessa espontnea. 

 Vou falar com a menina  disse a ele  e voc vai ver como a trago numa 
bandeja. 
Cumpriu. Mas num mau momento, porque a casa tinha perdido a paz dos 
outros dias. Ao descobrir a paixo de Rebeca, que no foi possvel manter em segredo 
por causa dos seus gritos, Amaranta teve um acesso de febre. Tamb m ela sofria o 
espinho de um amor solitrio. Fechada no banheiro, se desafogava do tormento de uma 
paixo sem esperanas, escrevendo cartas febris que se conformava em esconder nofundo do ba. rsula no chegou para as encomendas, no atender as duas doentes. 
No conseguiu, em prolongados e insidiosos interrogatrios, averiguar as causas da 
prostrao de Amaranta. Por fim, em outro momento de inspirao, forou a fechadura 
do ba e encontrou as cartas amarradas com fitas cor-de-rosa, inchadas de aucenas 
frescas e ainda midas de lgrimas, dirigidas e nunca enviadas a Pietro Crespi. 
Chorando de raiva, maldisse hora em que lhe passou pela cabea comprar a pianola, 
proibiu as aulas de bordado e decretou uma espcie de luto sem morto, que se haveria 
de prolongar at que as filhas desistissem das suas esperanas. Foi intil a interveno 
de Jos Arcadio Buenda, que tinha retificado sua primeira impresso sobre Pietro 
Crespi e admirava a habilidade no manejo das mquinas musicais. De modo que 


quando Pilar Ternera disse a Aureliano que Remedios estava decidida a se casar, ele 
compreendeu que a notcia acabaria de transtornar os pais. Mas enfrentou a situao. 
Convocados  sala de visitas para uma entrevista formal, Jos Arcadio Buenda ersula escutaram impvidos a declarao do filho. Ao tomar conhecimento do nome 
da noiva, entretanto, Arcadio Buenda enrubesceu de indignao. O amor  uma 
peste, trovejou. Havendo tantas moas bonitas e direitas, a nica coisa que lhe passapela cabea e casar com a filha do inimigo. Mas rsula concordou com a escolha. 
Confessou o seu afeto pelas sete irms Moscote, pela sua formosura, sua diligncia, seu 
recato e sua boa educao, e festejou o acerto do seu filho. Vencido pelo entusiasmo da 
mulher, Jos Arcadio Buenda imps ento uma condio: Rebeca, que era acorrespondida, casaria com Pietro Crespi. rsula levaria Amaranta numa viagem  
capital da provncia, quando tivesse tempo, para que o contato com outras pessoas a 
aliviasse da sua desiluso. Rebeca recobrou a sade logo que soube do trato, e escreveu 
ao namorado uma carta jubilosa que submeteu  aprovao dos pais e ps no correio 
sem se servir de intermedirios. Amaranta fingiu aceitar a deciso e pouco a pouco se 
restabeleceu da febre, mas prometeu a si mesma que Rebeca s se casaria se passasse 
por cima do seu cadver. 

No sbado seguinte Jos Arcadio Buenda ps o terno de fazenda escura, o 
colarinho duro e as botas de camura que tinha estreado na noite da festa, e foi pedir a 
mo de Remedios Moscote. O delegado e sua esposa o receberam ao mesmo tempo 
satisfeitos e embaraados, porque ignoravam o propsito da visita imprevista, e em 
seguida pensaram que ele tinha confundido o nome da pretendida. Para resolver a 
questo, a me acordou Remedios e a levou no colo para a sala, ainda zonza de sono. 
Perguntaram-lhe se na verdade estava decidida a se casar e ela respondeu 
choramingando que s queria que a deixassem dormir. Jos Arcadio Buenda, 
compreendendo o embarao dos Moscote, foi esclarecer as coisas com Aureliano. 
Quando voltou, o casal Moscote j estava vestido em traje de passeio, tinha mudado a 
posio dos mveis e colocado flores novas nas floreiras, e o esperavam na companhia 
das filhas mais velhas. Agoniado pela situao ingrata e pelo incmodo do colarinho 
duro, Jos Arcadio Buenda confirmou que, na verdade, Remedios era a escolhida. Isto 
no tem sentido, disse consternado o Sr. Apolinar Moscote. Temos mais seis filhas, 
todas solteiras e em idade de casar, que estariam encantadas em ser esposas 
dignssimas de cavalheiros srios e trabalhadores como o seu filho, e Aurelito volta os 
olhos exatamente para a nica que ainda faz pipi na cama. Sua senhora, uma mulher 
bem conversada, de pestanas e gestos aflitos, reprovou-lhe a incorreo. Quando 
acabaram de tomar o refresco de frutas, tinham aceitado satisfeitos a deciso deAureliano. S que a Sra. Moscote suplicava o favor de falar a ss com rsula. Intrigada, 
reclamando que a estava envolvendo em assuntos de homem, mas na verdadeintimidada pela emoo, rsula foi visit-la no dia seguinte. Meia hora depois, voltou 
com a notcia de que Remedios era impbere. Aureliano no considerou isso como um 
empecilho grave. Tinha esperado tanto que podia esperar quanto fosse necessrio at 
que a noiva estivesse em idade de conceber. 

A harmonia restaurada s foi interrompida pela morte de Melquades. Ainda 
que o acontecimento fosse previsvel, no o foram as circunstncias. Poucos meses 
depois da sua volta, operara-se nele um processo de envelhecimento to rpido e 
crtico que logo foi tomado como um desses bisavs inteis que perambulam como 
sombras pelos quartos, arrastando os ps, recordando melhores tempos em voz alta, e 


de quem ningum se ocupa nem se lembra na verdade at o dia em que amanhecem 
mortos na cama. No princpio, Jos Arcadio Buenda o secundava nas suas tarefas, 
entusiasmado com a novidade da daguerreotipia e as predies de Nostradamus. 

Mas pouco a pouco o foi abandonando  sua solido, porque cada vez mais se 
fazia difcil a comunicao. Estava perdendo a vista e o ouvido, parecia confundir os 
seus interlocutores com pessoas que conhecera em pocas remotas da humanidade e 
respondia s perguntas numa intrincada barafunda de lnguas.Caminhava tateando o 
ar, embora se movesse por entre as coisas com uma fluidez inexplicvel, como se 
estivesse dotado de um instinto de orientao baseado em pressentimentos imediatos. 
Um dia se esqueceu de colocar a dentadura postia que deixava de noite num copo degua junto  cama e no voltou a us-la. Quando rsula ordenou a ampliao da casa, 
fez construir um quarto especial para ele, contguo  oficina de Aureliano, longe dos 
rudos e da movimentao domstica com uma janela inundada de luz e uma estante 
onde ela mesma arrumou os livros quase desmanchados pela poeira e pelas traas, os 
quebradios papis abarrotados indecifrveis e o copo com a dentadura postia, onde 
tinham colocado umas plantinhas aquticas de minsculas flores amarelas. O novo 
lugar pareceu agradar a Melquades, pois no se voltou a v-lo sequer na sala de jantar. 
Ia somente  oficina de Aureliano, onde passava horas e horas garranchando a sua 
literatura enigmtica nos pergaminhos que trouxera consigo e que pareciam 
fabricados de uma matria rida que se esfarelava como uma empada. Comia ali os 
alimentos que Visitacin lhe levava duas vezes por dia, embora nos ltimos tempos 
tivesse perdido o apetite e s se alimentasse de legumes. Em pouco tempo adquiriu o 
aspecto de desamparo prprio dos vegetarianos. A pele se cobriu de um musgo macio, 
semelhante ao que prosperava no casaco anacrnico que no tirou nunca, e a sua 
respirao passou a exalar um bafo de animal adormecido. Aureliano acabou por se 
esquecer dele, absorto na redao dos seus versos, mas em certa ocasio acreditou 
entender alguma coisa do que ele dizia nos seus montonos monlogos e prestou 
ateno. Na verdade, a nica coisa que pde colher naquelas confidncias pedregosas 
foi o insistente martelar da palavra equincio equincio equincio, e o nome de 
Alexandre Von Humboldt. Arcadio se aproximou um pouco mais dele, quando 
comeou a ajudar Aureliano na ourivesaria. Melquades correspondeu quele esforo 
de comunicao soltando, de vez em quando, algumas frases em castelhano que 
tinham muito pouco a ver com a realidade. Uma tarde, entretanto, pareceu iluminado 
pela emoo repentina. Anos depois, diante do peloto de fuzilamento, Arcadio 
haveria de se lembrar do tremor com que Melquades o fez escutar vrias pginas da 
sua escrita impenetrvel, que evidentemente no entendeu, mas que ao serem lidas em 
voz alta pareciam encclicas cantadas. Depois sorriu pela primeira vez em muito tempo 
e disse em castelhano: Quando eu. morrer, queimem mercrio durante trs dias no 
meu quarto. Arcadio contou isso para Jos Arcadio Buenda, e este tratou de obter 
uma informao mais explcita, mas s conseguiu uma resposta: Alcancei a 
imortalidade. Quando a respirao de Melquades comeou a cheirar mal, Arcadio 
levava-o a tomar banho no rio toda quinta-feira pela manh. Pareceu melhorar. Despia-
se e se metia na gua junto com os rapazes, e seu misterioso sentido de orientao o 
permitia escapar dos lugares profundos e perigosos. Somos da gua, disse em certa 
ocasio. Assim, passou muito tempo sem que ningum o visse em casa, a no ser na 
noite em que fez um comovedor esforo para consertar a pianola, e quando ia ao rio 
com Arcadio, levando debaixo do brao a cuit e a bola de sabo de leo de palmeira 


embrulhadas numa toalha. Certa quinta-feira antes de que chamassem para ir ao rio, 
Aureliano o ouviu dizer: Morri de febre nas dunas de Cingapura. Nesse dia meteu-se 
ngua por um mau caminho e s o encontraram na manh seguinte, vrios 
quilmetros mais abaixo, encalhado numa curva luminosa e com um urubu solitrio dep sobre o ventre. Contra os escandalizados protestos de rsula, que o chorou com 
mais dor que a seu prprio pai, Jos Arcadio Buenda se ops a que o enterrassem. E 
imortal, disse ele mesmo revelou a frmula da ressurreio. Reviveu o esquecido 
alambique e ps para ferver uma caldeira de mercrio junto ao cadver que pouco a 
pouco se ia enchendo de bolhas azuis. O Sr. Apolinar Moscote atreveu-se a recordar-
lhe que um afogado insepulto era um perigo para a sade pblica. Nada disso, j que 
est vivo, foi a rplica de Jos Arcadio Buenda, que completou as setenta e duas horas 
de incensos mercuriais quando j o cadver comeava a se arrebentar numa florao 
lvida, cujos assovios tnues impregnaram a casa de um vapor fedorento. S ento 
permitiu que o enterrassem, mas no de qualquer maneira, e sim com as honras 
reservadas ao maior benfeitor de Macondo. Foi o primeiro e o mais concorrido que se 
viu no povoado, superado apenas um sculo depois pelo carnaval funerrio da Mame 
Grande. Sepultaram-no numa tumba erigida no centro do terreno que destinaram ao 
cemitrio, com uma lpide onde ficou escrita a nica coisa que se soube dele: 
MELQUADES. 

Fizeram-lhe as suas nove noites de velrio. No tumulto que se reunia no ptio 
para tomar caf, contar piadas e jogar cartas, Amaranta teve ocasio de confessar o seu 
amor a Pietro Crespi, que poucas semanas antes tinha formalizado o seu compromisso 
com Rebeca e estava instalando uma loja de instrumentos musicais e brinquedos de 
corda, no mesmo bairro onde vegetavam os rabes que em outros tempos trocavam 
bugigangas por papagaios e que o povo conhecia como a Rua dos Turcos. O italiano, 
cuja cabea coberta de cachos lustrosos suscitava nas mulheres uma irreprimvel 
necessidade de suspirar tratou Amaranta como uma menina caprichosa a quem no 
valia a pena levar muito a srio. 

 Tenho um irmo mais novo  disse a ela.  Vai vir me ajudar na loja. 
Amaranta sentiu-se humilhada e disse a Pietro Crespi, com rancor virulento, 
que estava disposta a impedir o casamento irm ainda que tivesse que atravessar na 
porta o seu prprio cadver. Impressionou-se tanto o italiano com essa dramtica 
ameaa que no resistiu  tentao de coment-la com Rebeca. Foi assim que a viagem 
de Amaranta, sempre adiada pelas ocupaes de rsula, se aprontou em menos de 
semana. Amaranta no ops resistncia, mas quando deu em Rebeca o beijo de 
despedida, sussurrou-lhe ao ouvido: 

 No tenha iluses. Ainda que me levem at o fim do mundo eu encontro a 
maneira de impedir que voc se case, mesmo que tenha de mat-la.
Com a ausncia de rsula, com a presena invisvel de Melquades, que 
continuava o seu perambular sigiloso pelos quartos, a casa pareceu enorme e vazia. 
Rebeca tinha ficado encarregada da ordem domstica, enquanto a ndia se ocupava da 
padaria. Ao anoitecer, quando Pietro Crespi chegava precedido de um fresco hlito de 
alfazema e trazendo sempre um brinquedo de presente, a noiva recebia a sua visita na 
sala principal, com portas e janelas abertas para estar a salvo de toda suspeita. Era uma 
precauo desnecessria, porque o italiano tinha demonstrado ser to respeitoso que 
nem sequer pegava na mo da mulher que seria sua esposa antes de um ano. Aquelas 
visitas foram enchendo a casa de brinquedos prodigiosos. As bailarinas de corda, as 


caixas de msica, os chimpanzs acrobatas, os cavalos trotadores, os palhaos 
tamborileiros, enfim a rica e assombrosa fauna mecnica que Pietro Crespi trazia, 
dissiparam a aflio de Jos Arcadio Buenda pela morte de Melquades, e o 
transportaram de novo aos seus antigos tempos de alquimista. Vivia ento num 
paraso de animais destripados, de mecanismos desfeitos, tentando aperfeio-los com 
um sistema de movimento contnuo baseado nos princpios do pndulo. Aureliano, por 
outro lado, tinha descuidado da oficina para ensinar a pequena Remedios a ler e 
escrever. No comeo, a menina preferia as bonecas ao homem que chegava todas as 
tardes e que era o culpado de que a separassem dos seus brinquedos para banh-la e 
vesti-la e sent-la na sala para receber a visita. Mas a pacincia e a devoo de 
Aureliano acabaram por seduzi-la, a ponto de passar muitas horas com ele, estudando 

o sentido das letras e desenhando num caderno, com lpis de cor, casinhas com vacas 
nos currais e sis redondos com raios amarelos que se escondiam detrs dos morros. 
S Rebeca era infeliz com a ameaa de Amaranta. Conhecia o temperamento da 
irm, a altivez do seu esprito, e se assustava com a virulncia do seu rancor. Passava 
horas inteiras chupando o dedo no banheiro, aferrando-se a um esforo extenuante de 
vontade para no comer terra. Em busca de alvio para a angstia, chamou Pilar 
Ternera para que lesse o seu futuro. Depois de um rosrio de imprecises 
convencionais, Pilar Ternera prognosticou: 

 Voc no vai ser feliz enquanto seus pais permanecerem insepultos. 
Rebeca estremeceu. Como na lembrana de um sonho, viu-se a si mesma 
entrando em casa, muito garota ainda, com o ba e a cadeirinha de balano e um saco 
de lona cujo contedo nunca soube. Lembrou-se de um cavalheiro calvo, vestido de 
linho e com o colarinho da camisa fechado com um ouro, que nada tinha que ver com o 
rei de copas. Lembrou-se de uma mulher muito jovem e muito bela, de mos frgeis e 
perfumadas, que nada tinham em comum com as mos reumticas do valete de ouros, e 
que lhe punha flores no cabelo para lev-la a passear de tarde por um povoado de ruas 
verdes. 

 No estou entendendo  disse. 
Pilar Ternera pareceu desconcertada: 
 Nem eu, mas isso  o que dizem as cartas. 
Rebeca ficou to preocupada com o enigma que contou para Jos Arcadio 
Buenda, e este a repreendeu por dar crditos a prognsticos de baralho, mas se deu ao 
silencioso trabalho de revistar armrios e bas, afastar mveis e virar camas e estrados, 
procurando o saco dos ossos. Recordava-se de no t-lo visto desde os tempos da 
reconstruo. Chamou em segredo os pedreiros e um deles revelou que tinha 
emparedado em algum quarto, porque lhe atrapalhava o servio. Depois de vrios dias 
de auscultaes, com a orelha colada nas paredes, perceberam o cloc cloc profundo. 
Perfuraram o muro e ali estavam os ossos no saco intacto. Nesse mesmo dia, 
sepultaram-no numa tumba sem lpide, improvisada junto  de Melquades, e Jos 
Arcadio Buenda voltou para casa liberado de uma carga que por um momento pesou 
tanto na sua conscincia como a lembrana de Prudencio Aguilar. Ao passar pela 
cozinha deu um beijo na testa de Rebeca. 

 Tire as ms idias da cabea  disse a ela.  Voc ser feliz. 
A amizade de Rebeca abriu para Pilar Ternera as portas fechadas por rsula 
desde o nascimento de Arcadio. Chegava a qualquer hora do dia, como um p-devento, 
e descarregava a sua energia febril nos trabalhos mais pesados. s vezes entrava 


na oficina e ajudava Arcadio a sensibilizar as lminas do daguerretipo com uma 
eficcia e uma ternura que acabaram por confundi-lo. Aquela mulher o aturdia. O 
moreno da sua pele, o seu cheiro de fumo, a desordem do seu riso no quarto escuro 
perturbavam a sua ateno e o faziam tropear nas coisas. 

Certa ocasio, Aureliano estava ali, trabalhando em ourivesaria, e Pilar Ternera 
se apoiou na mesa para admirar a sua paciente tenacidade. De repente aconteceu. 
Aureliano percebeu que Arcadio estava no quarto escuro antes de levantar a vista e 
encontrar os olhos de Pilar Ternera, cujo pensamento era perfeitamente visvel, como 
que exposto  luz do meio-dia. 

 Bem  disse Aureliano.  Diga o que . 
Pilar Ternera mordeu os lbios com um sorriso triste. 
 Voc  bom para a guerra  disse.  Onde bota o olho, acerta o chumbo. 
Aureliano descansou com a comprovao do pressgio. Voltou a se concentrar 
no trabalho, como se nada tivesse acontecido, e a sua voz adquiriu uma repousada 
firmeza. 

 Eu reconheo  disse.  Ter o meu nome. 
Jos Arcadio Buenda conseguiu por fim o que procurava: conectou a uma 
bailarina de corda o mecanismo do relgio, e o brinquedo danou sem interrupo, ao 
compasso da sua prpria msica, durante trs dias. Aquela descoberta o excitou muito 
mais do que qualquer das suas empresas descabeladas. No voltou a comer. No voltoua dormir. Sem a vigilncia e os cuidados de rsula, deixou-se arrastar pela sua 
imaginao at um estado de delrio perptuo do qual no voltou a se recuperar. 
Passava as noites andando no quarto, pensando em voz alta, procurando a maneira de 
aplicar os princpios do pndulo aos carros de boi, s grades do arado, a tudo o que 
fosse til posto em movimento. Cansou-o tanto a febre da insnia que certa 
madrugada no pde reconhecer o ancio de cabea branca e gestos incertos que 
entrou no seu quarto. Era Prudencio Aguilar. Quando por fim o identificou, 
assombrado de que tambm os mortos envelhecessem, Jos Arcadio Buenda sentiu-se 
abalado pela nostalgia. Prudencio, como  que voc veio aqui to longe! Aps muitos 
anos de morte, era to imensa a saudade dos vivos, to premente a necessidade de 
companhia, to aterradora a proximidade da outra mo rte que existia dentro da morte, 
que Prudncio Aguilar tinha acabado por amar o pior dos seus inimigos . Fazia muito 
tempo que o estava procurando. Perguntava por ele aos mortos de Riohacha, aos 
mortos que chegavam do vale de Upar, aos que chegavam do pantanal e ningum lhe 
fornecia a direo, porque Macondo foi um povoado desconhecido para os mortos at 
que chegou Melquades e o marcou com um pontinho negro nos disparatados mapas 
da morte. Jos Arcadio Buenda conversou com Prudencio Aguilar at o amanhecer. 
Poucas horas depois, devastado pela viglia, entrou na oficina de Aureliano eperguntou: Que dia  hoje? Aureliano respondeu que era tera-feira.  o que eu 
pensava, disse Jos Arcadio Buenda. Mas de repente reparei que continua sendo 
segunda-feira, como ontem. Olha olha as paredes, olha as begnias. Hoje tambm  
segunda-feira. Acostumado com as suas esquisitices, Aureliano no lhe deu 
importncia. No dia seguinte, quarta-feira, Arcadio Buenda voltou  oficina. Isto  
uma desgraa, disse. Olha o ar, ouve o zumbido do sol, igualzinho a anteontem. Hoje 
tambm  segunda-feira. Nessa noite Pietro Crespi o encontrou no corredor, 
chorando o chorinho sem graa dos velhos, chorando por Prudencio Aguilar,por 
Melquades, pelos pais de Rebeca, por seu pai e sua me,por todos os que podia 


lembrar e que ento estavam sozinhos na morte.Deu-lhe de presente um urso de corda 
que andava sobre duas patas num arame, mas no conseguiu distra-lo da sua 
obsesso. Perguntou-lhe o que tinha acontecido com o projeto que lhe expusera dias 
antes, sobre a possibilidade de construir uma mquina de pndulo que servisse ao 
homem para voar e ele respondeu que era impossvel porque o pndulo podia levantar 
qualquer coisa no ar, mas no podia levantar-se a si prprio. Na quinta-feira voltou a 
aparecer com um doloroso aspecto de terra arrasada. A mquina do tempo estragou,
quase soluou, e rsula e Amaranta to longe! Aureliano repreendeu-o como a um 
menino e ele adotou um ar submisso. Passou seis horas examinando as coisas, 
tentando encontrar uma diferena do aspecto que tiveram no dia anterior, procurando 
descobrir nelas alguma mudana que revelasse o transcurso do tempo. Ficou toda a 
noite na cama com os olhos abertos, chamando Prudencio Aguilar, Melquades, todos 
os mortos, para que viessem compartilhar do seu desgosto. Mas ningum acudiu. Na 
sexta-feira, antes que todos se levantassem, voltou a observar a aparncia da natureza, 
que no teve a menor dvida de que continuava sendo segunda-feira. Ento agarrou a 
tranca de uma porta e com a violncia selvagem da sua fora descomunal espedaou, 
at transformar em poeira, os aparelhos de alquimia, o gabinete de daguerreotipia, a 
oficina de ourivesaria, gritando como um endemoniado num idioma altissonante e 
fluido, mas completamente incompreensvel. Dispunha-se a arrasar com o resto da 
casa, quando Aureliano pediu ajuda aos vizinhos. Foram necessrios dez homens para 
subjug-lo, quatorze para amarr-lo, vinte para arrast-lo at o castanheiro do quintal, 
onde o deixaram amarrado, ladrando em lngua estranha, e deitando espuma verde 
pela boca. Quando rsula e Amaranta chegaram, ainda estava atado pelos ps e pelas 
mos ao tronco do castanheiro, ensopado de chuva e num estado de inocncia total. 
Falaram com ele e ele olhou para elas sem reconhec-las, e lhes disse alguma coisa 
incompreensvel. rsula lhe soltou as munhecas e os tornozelos, ulcerados pela 
presso das cordas, e o deixou amarrado apenas pela cintura. Mais tarde construram 
uma pequena coberta de sap para proteg-lo do sol e da chuva. 


AURELIANO BUENDA e Remedios Moscote casaram-se num domingo de maro, 
diante do altar que o Padre Nicanor Reyna fez construir na sala de visitas. Foi o clmax 
de quatro semanas de sobressaltos na casa dos Moscote, pois a pequena Remedios 
chegara  puberdade antes de superar os hbitos infantis. Apesar da me t-la 
instrudo sobre as mudanas da adolescncia, numa tarde de fevereiro, irrompeu aos 
gritos de trine na sala onde as irms conversavam com Aureliano, e mostrou-lhes a 
calcinha manchada de uma pasta cor de chocolate. Marcou-se o prazo de um ms para 

o casamento. Mal houve tempo de ensin-la a se lavar e se vestir sozinha, e a entender 
dos assuntos elementares de um lar. Fizeram-na urinar em tijolos quentes, para 
corrigir-lhe o hbito de molhar a cama. Deu trabalho convenc-la da inviolabilidade do 
segredo conjugal, porque Remedios estava to aturdida e ao mesmo tempo to 
maravilhada com a revelao que queria comentar com todo mundo os pormenores da 
noite de npcias. Foi um esforo extenuante, mas na data prevista para a cerimnia a 
menina era to experimentada nas coisas do mundo quanto qualquer das sua irms. O 
Sr. Apolinar Moscote levou-a de brao dado pela rua enfeitada de flores e guirlandas, 
entre o estampido dos foguetes e a msica de vrias bandas, e ela cumprimentava com 
a mo e agradecia com um sorriso aos que das janelas lhe desejavam boa sorte. 
Aureliano, vestido de fazenda negra, com as mesmas botinas de verniz com argolas 
metlicas que haveria de usar poucos anos depois diante do peloto de fuzilamento, 
estava de uma palidez intensa e com um bolo duro na garganta, quando recebeu a 
noiva na porta da casa e a levou ao altar. Ela se comportou com tanta naturalidade, 
com tanta discrio, que no perdeu a compostura nem sequer quando Aureliano 
deixou cair a aliana ao tentar coloc-la no seu dedo. No meio do burburinho e 
princpio de confuso dos convidados, ela manteve levantado o brao com a mitene de 
renda e permaneceu com o anular estendido at que o seu noivo conseguiu parar a 
aliana com a botina, para que no continuasse rolando at a porta, e voltou 
ruborizado ao altar. A me e as irms sofreram tanto com o medo de que a menina 
incorresse em alguma falta durante a cerimnia que no final foram elas que cometeram 
a impertinncia de peg-la no colo para dar-lhe um beijo. Desde aquele dia revelou-se o 
senso de responsabilidade, a graa natural, o calmo domnio que sempre haveria de ter 
Remedios ante as circunstncias adversas. Foi ela quem, por sua prpria iniciativa, 
separou a melhor poro que cortou do bolo de noiva e a levou num prato com um 
garfo para Jos Arcadio Buenda. Amarrado ao tronco do castanheiro, encolhido num 
banquinho de madeira sob a coberta de sap, o enorme ancio desbotado pelo sol e 
pela chuva teve um vago sorriso de gratido e comeu o bolo com os dedos, mastigando 
um salmo ininteligvel. A nica pessoa infeliz naquela celebrao estrepitosa, que se 
prolongou at o amanhecer de segunda-feira, foi Rebeca Buenda. Era a sua festafrustrada. Pelo arranjo de rsula, o seu casamento se devia celebrar na mesma data, 
mas Pietro Crespi recebera na sexta-feira uma carta com a notcia morte iminente de 
sua me. O casamento foi adiado. Pietro Crespi seguiu para a capital da provncia uma 
hora depois receber a carta, e no caminho cruzou com a me, que chegou 
pontualmente na noite de sbado e cantou no casamento de Aureliano a ria triste que 
tinha preparado para o casamento do filho. Pietro Crespi regressou  meia-noite do 
domingo para varrer as cinzas da festa, depois de ter arrebentado cinco cavalos no 
caminho, tentando chegar a tempo para o casamento. Nunca se averiguou quemescrevera a carta. Atormentada por rsula, Amaranta chorou de indignao e jurou 
inocncia diante do altar que os carpinteiros no tinham anda acabado de desarmar. 

O Padre Nicanor Reyna  que o Sr. Apolinar Moscote .havia trazido do 
pantanal para que oficiasse o casamento  era um ancio endurecido pela ingratido 
do ofcio. Tinha a pele triste, quase colada aos ossos, e o ventre pronunciado e uma 
expresso de anjo velho que era mais de inocncia que de bondade. Tinha o propsito 
de voltar  sua parquia logo depois do casamento, mas se espantou com a aridez dos 
habitantes de Macondo, que prosperavam no escndalo, sujeitos  lei natural, sem 
batizar os filhos nem santificar os feriados. Pensando que em nenhuma terra fazia 
tanta falta a semente de Deus, decidiu ficar mais uma semana, para cristianizar 
circuncisos e gentios, legalizar concubinrios e sacramentar moribundos. Mas 
ningum lhe deu importncia. Respondiam-lhe que durante muitos anos tinham 
ficado sem padre, arranjando os negcios da alma diretamente com Deus, e haviam 
perdido a malcia do pecado mortal. Cansado de pregar no deserto, o Padre Nicanor se 
disps e empreender a construo de um templo, o maior do mundo, com santos em 
tamanho natural e vidros de cores nas paredes, para que viesse gente at de Roma 
honrar a Deus no centro da impiedade. Andava por todas as partes pedindo esmolas 
com um pratinho de cobre. Davam-lhe muito, mas ele queria mais, porque o templo 
deveria ter um sino cujo clamor fizesse boiar os afogados. Suplicou tanto que perdeu a 
voz. Seus ossos comearam a se encher de rudos. Num sbado, no tendo recolhido 
nem sequer o valor das portas, deixou-se confundir pelo desespero. Improvisou um 
altar na praa e, no domingo, percorreu o povoado com uma campainha, como nos 
tempos da insnia, convocando para a missa campal. Muitos foram por curiosidade. 
Outros por nostalgia. Outros para que Deus no fosse tomar como ofensa pessoal o 
desprezo pelo seu intermedirio. De modo que s oito da manh estava metade do 
povo na praa, onde o Padre Nicanor cantou os evangelhos com a voz quebrada pela 
splica. No fim, quando os assistentes comearam a debandar, levantou os braos em 
sinal de ateno. 

 Um momento  disse.  Agora vamos presenciar uma prova irrefutvel do 
infinito poder de Deus. 
O rapaz que tinha ajudado a missa levou-lhe unia xcara de chocolate espesso e 
fumegante que ele tomou sem respirar. Depois limpou os lbios com um leno que 
tirou da manga, estendeu os braos e fechou os olhos. Ento o Padre Nicanor se elevou 
doze centmetros do nvel do cho. Foi um recurso convincente. Andou vrios dias de 
casa em casa, repetindo a prova da levitao mediante o estmulo do chocolate, 
enquanto o coroinha recolhia tinto dinheiro numa urna que em menos de um ms se 
iniciou a construo do templo. Ningum ps em dvida a origem divina da 
demonstrao, salvo Jos Arcadio Buenda, que observou sem se comover o bando de 
gente que certa manh se re uniu sob o castanheiro para assistir mais uma vez  
revelao. Mal se endireitou um pouco no banquinho e sacudiu os ombros quando o 
Padre Nicanor comeou a se levantar do cho junto com a cadeira em que estava 
sentado. 

 Hoc est simplicisstmum:  disse Jos Arcadio Buenda  homo iste statum quartum 
materiae invenit. 
O Padre Nicanor levantou a mo, e as quatro pernas da cadeira pousaram em 
terra ao mesmo tempo. 

 Nego  disse.  Factum hoc existentiam Dei pro bat sine dubio. 
Foi assim que se soube que era latim a endiabrada gria de Jos Arcadio 
Buenda. O Padre Nicanor aproveitou a circunstncia de ter sido a nica pessoa que 


pudera se comunicar com ele para tratar de infundir a f no seu crebro transtornado. 
Todas as tardes se sentava junto ao castanheiro, predicando em latim, mas Jos 
Arcadio Buenda se aferrou em no admitir meandros retricos nem transmutaes de 
chocolate e exigiu como nica prova o daguerretipo de Deus. Nicanor levou-lhe ento 
medalhas e figurinhas e at uma reproduo da fazenda da Vernica, mas Jos Arcadio 
Buenda repeliu-os por serem objetos artesanais sem fundamento cientfico. Era to 
teimoso que o Padre Nicanor renunciou aos seus propsitos de evangelizao e 
continuou a visit-lo apenas por sentimentos humanitrios. Mas ento foi Jos 
Buenda quem tomou a iniciativa e tentou quebrantar a f do sacerdote com 
artimanhas racionalistas. Certa ocasio em que o Padre Nicanor levou ao castanheiro 
um tabuleiro e uma caixa de pedras para convid-lo a jogar damas, Arcadio Buenda 
no aceitou, segundo disse, porque nunca pde entender o sentido de uma contenda 
entre dois adversrios que estavam de acordo nos princpios. O Padre Nicanor, que 
nunca tinha encarado desse modo o jogo de damas, no pde voltar a jogar. Cada vez 
mais assombrado com a lucidez de Jos Arcadio Buenda, perguntou-lhe como era 
possvel que o mantivessem amarrado numa rvore. 

 Hoc est simplicissimum:  respondeu ele  porque estou louco. 
Desde ento, preocupado com a sua prpria f, o padre no voltou a visit-lo e 
se dedicou inteiramente a apressar a construo do templo. Rebeca sentiu renascer a 
esperana. O futuro estava condicionado ao trmino da obra, desde um domingo em 
que o Padre Nicanor almoava com eles e toda famlia sentada na mesa falou da 
solenidade e do esplendor que teriam os atos religiosos quando se construsse o 
templo. A mais afortunada ser Rebeca, disse Amaranta. E como Rebeca no 
entendeu o que ela estava querendo dizer, explicou-lhe com um sorriso inocente: 

 Caber a voc inaugurar a igreja com o casamento. Rebeca tratou de se 
antecipar a qualquer comentrio. No passo em que ia a construo, o templo no 
estaria terminado antes de dez anos. O Padre Nicanor no concordou: a crescente 
generosidade dos fiis permitia fazer clculos mais otimistas. Diante da surda 
indignao de Rebeca, que no conseguiu acabar de almoar, rsula celebrou a idia 
de Amaranta e contribuiu com um acrscimo considervel para que se apressassem os 
trabalhos. O Padre Nicanor considerou que com outro auxlio como esse o templo 
estaria pronto em trs anos. A partir da Rebeca no voltou a dirigir a palavra a 
Amaranta, convencida de que o seu palpite no tinha tido a inocncia que ela soubera 
aparentar. Era o que eu podia fazer de menos grave, replicou Amaranta na violenta 
discusso que tiveram aquela noite. Assim no vou ter que te matar nestes prximos 
trs anos. Rebeca aceitou o desafio. 
Quando Pietro Crespi soube do novo adiamento, sofreu uma crise de desiluso, 
mas Rebeca lhe deu uma prova definitiva de lealdade. A gente foge quando voc 
quiser, disse. Pietro Crespi, entretanto, no era homem de aventuras. Carecia do 
temperamento impulsivo da sua noiva e considerava o respeito  palavra empenhada 
como um capital que no se podia desbaratar. Ento Rebeca recorreu a mtodos mais 
audazes. Um vento misterioso apagava as luzes da sala de visitas e rsula surpreendia 
os noivos se beijando no escuro. Pietro Crespi lhe dava explicaes atrapalhadas sobre 
a m qualidade das modernas lmpadas de alcatro e at ajudava a instalar na sala 
sistemas de iluminao mais seguros. Mas outra vez falhava o combustvel ouentupiam as mechas, e rsula encontrava Rebeca sentada nos joelhos do noivo. 
Acabou por no aceitar nenhuma explicao. Depositou na ndia a responsabilidade da 


padaria e se sentou numa cadeira de balano para vigiar a visita do noivo, disposta a 
no se deixar vencer por manobras que j eram velhas na sua juventude. Coitada demame, dizia Rebeca com sarcstica indignao, vendo rsula bocejar de sono nas 
visitas. Quando morrer vai sair penando nesta cadeira de balano. Ao fim de trs 
meses de amores vigiados, amolado com a lentido da obra que passara a inspecionar 
todos os dias, Pietro Crespi resolveu dar ao Padre Nicanor o dinheiro que faltava para 
terminar o templo. Amaranta no se impacientou. Enquanto conversava com as amigas 
que todas as tardes iam bordar ou tricotar na varanda tratava de conceber novas 
artimanhas. Um erro de clculo botou a perder a que considerou mais eficaz: tirar as 
bolinhas de naftalina que Rebeca tinha colocado no seu vestido noiva antes de guardlo 
na cmoda do quarto. F-lo quando faltavam menos de dois meses para o trmino 
do templo. .Mas Rebeca estava to impaciente diante da proximidade do casamento 
que quis preparar o vestido com mais antecipao que havia previsto Amaranta. Ao 
abrir a cmoda e desembrulhar primeiro os papis e depois o pano protetor, encontrou 

o cetim do vestido e a renda do vu e at a coroa de flor laranjeira pulverizados pelas 
traas. Embora estivesse certa de ter colocado no embrulho dois punhados de bolinhas 
de naftalina, o desastre parecia to acidental que no se atreveu a culpar Amaranta. 
Faltava menos de um ms para o casamento, mas Amparo Moscote se comprometeu a 
costurar um novo vestido em uma semana. Amaranta sentiu-se desfalecer naquele 
meio-dia chuvoso em que Amparo entrou em casa envolta numa espumarada de renda, 
para que Rebeca fizesse a ltima prova do vestido. Perdeu a voz e um fio de suor 
gelado desceu pelo leito da sua espinha dorsal. Durante longos meses tinha tremido de 
pavor esperando aquela hora, porque se concebia o obstculo definitivo para o 
casamento de Rebeca, estava certa de que no ltimo instante, quando tivessem falhado 
todos os recursos da sua imaginao, teria coragem de envenen-la. Nessa tarde, 
enquanto Rebeca sufocava de calor dentro da couraa de cetim que Amparo Moscote 
ia formando no seu corpo com mil alfinetes e uma pacincia infinita, Amaranta errou 
vrias vezes os pontos do croch e espetou o dedo na agulha, mas decidiu com terrve l 
frieza que a data seria a ltima sexta-feira antes do casamento, e a maneira seria uma 
dose de pio no caf. 
Um obstculo maior, to inevitvel quanto imprevisto, obrigou-os a um novo e 
indefinido adiamento. Uma semana antes da data marcada para o casamento, a 
pequena Remdios acordou  meia-noite, ensopada por um caldo quente que explodira 
nas suas entranhas com uma espcie de arroto rasgante, e morreu trs dias depois, 
envenenada pelo prprio sangue, com um par de gmeos atravessados no ventre. 
Amaranta sofreu uma crise de conscincia. Tinha suplicado a Deus com tanto fervor 
que algo de pavoroso acontecesse para no ter de envenenar Rebeca que se sentiu 
culpada pela morte de Remedios. No era esse o obstculo por que tinha suplicado 
tanto. Remedios tinha levado para a casa um sopro de alegria. Instalara-se com o 
marido perto da oficina numa alcova que decorou com as bonecas e brinquedos da sua 
infncia recente, e a sua alegre vitalidade transbordava as quatro paredes da alcova e 
passava como uma ventania de boa sade pelo corredor das begnias. Cantava desde o 
amanhecer. Foi ela a nica pessoa que se atreveu a servir de mediadora nas discusses 
entre Rebeca e Amaranta. Tomou a seu cargo a dispendiosa tarefa de cuidar de Jos 
Arcadio Buenda. Levava-lhe os alimentos, assistia-o nas suas necessidades cotidianas, 
lavava-o com sabo e bucha, mantinha limpos de piolhos e lndeas os cabelos e a 
barba, conservava em bom estado o telhadinho de sap e o reforava com lonas 


impermeveis nos tempos de tempestades. Nos ltimos meses tinha conseguido se 
comunicar com ele por frases em latim rudimentar. Quando nasceu o filho de 
Aureliano e Pilar Ternera e foi levado para a casa e batizado em cerimnia ntima com 

o nome de Aureliano Jos, Remedios decidiu que fosse considerado como seu filho 
mais velho. Seu instinto maternal surpreendeu rsula. Aureliano, por outro lado, 
encontrou nela a justificativa que lhe faltava para viver. Trabalhava todo o dia na 
oficina e Remedios lhe levava na metade da manh uma caneca de caf sem acar. 
Ambos visitavam todas as noites os Moscote. Aureliano jogava com o sogro 
interminveis partidas de domin, enquanto Remedios conversava com as irms ou 
tratava com a me de assuntos de gente grande. O vnculo com os Buenda consolidou 
no povoado a autoridade do Sr. Apolinar Moscote. Em freqentes viagens  capital da 
provncia, conseguiu que o governo construsse uma escola para que a administrasse 
Arcadio, que tinha herdado o entusiasmo didtico do av. Por meio da persuaso, 
convenceu a maioria dos habitantes de que suas casas deviam ser pintadas de azul para 
a festa da independncia nacional. A instncias do Padre Nicanor, ordenou a mudana 
da taberna de Catarino a uma rua afastada e fechou vrios lugares de escndalo que 
prosperavam no centro da povoao. Certa vez regressou com seis guardas armados de 
fuzis a quem encomendou a manuteno da ordem, sem que ningum se lembrasse do 
compromisso original de no ter gente armada no povoado. Aureliano se comprazia 
com a eficcia do sogro. Voc vai ficar to gordo quanto ele, diziam os amigos. Mas o 
sedentarismo, que acentuou as suas mas do rosto e concentrou o fulgor dos seus 
olhos, no aumentou o seu peso nem alterou a parcimnia do seu temperamento, e 
pelo contrrio endureceu nos seus lbios a linha reta da meditao solitria e da 
deciso implacvel. To profundo era o carinho que ele e sua esposa tinham 
conseguido despertar na famlia de ambos que, quando Remedios anunciou que ia ter 
um filho, at Rebeca e Amaranta fizeram uma trgua para tricotar com l azul, para o 
caso de vir um menino, e com l rosa, para o caso de ser menina. Foi ela a ltima pessoa 
em quem Arcadio pensou, poucos anos depois, diante do peloto de fuzilamento.
rsula ordenou um luto de portas e janelas fechadas, sem entrada nem sada 
para ningum a no ser para assuntos indispensveis; proibiu falar em voz alta durante 
um ano, e ps o daguerretipo de Remedios no lugar em que se velou o cadver, com 
uma fita negra em diagonal e uma lmpada de azeite acesa para sempre. As geraes 
futuras, que nunca deixaram apagar a lmpada, haveriam de se desconcertar diante 
daquela menina de saia pregueada, botinhas brancas e lao de organdi na cabea, que 
no conseguiam fazer coincidir com a imagem acadmica de uma bisav. Amaranta 
tomou conta de Aureliano Jos. Adotou-o como um filho que haveria de compartilhar 
da sua solido e alivi-la do pio involuntrio jogaram as suas splicas desatinadas no 
caf de Remedios. Pietro Crespi entrava na ponta dos ps ao anoitecer, com a fita 
negra no chapu, e fazia uma visita silenciosa a uma Rebeca que parecia perder o 
sangue dentro do vestido negro com mangas at os punhos. Teria sido to irreverente a 
simples idia de pensar em nova data para o casamento que o noivado se converteu 
numa relao eterna, um amor de cansao em que ningum voltou a pensar, como se os 
apaixonados que em outros tempos estragavam as lmpadas para se beijar tivessem 
sido abandonados ao arbtrio da morte. Perdido o rumo, completamente 
desmoralizada, Rebeca voltou a comer terra. 

De repente  quando o luto existia h tanto tempo que j se tinham retomado 
as sesses de ponto de cruz  algum empurrou a porta da rua s duas da tarde, no 


silncio mortal do calor, e as colunas estremeceram com tal fora nos cimentos que 
Amaranta e suas amigas que bordavam na varanda, Rebeca que chupava o dedo no 
quarto, rsula na cozinha, Aureliano na oficina e at Jos Arcadio Buenda sob o 
castanheiro solitrio tiveram a impresso de que um tremor de terra estava 
desmontando a casa. Chegava um homem descomunal. Os seus ombros quadrados mal 
cabiam nas portas. Trazia uma medalhinha da Virgem dos Remedios pendurada no 
pescoo de bfalo, os braos e o peito completamente bordados de tatuagens 
enigmticas, e na munheca direita o apertado bracelete de cobre dos nios-en-cruz.* 
Tinha o couro curtido pelo sal da intemprie, o cabelo curto e aparado como a crina de 
uma mula, as mandbulas frreas e o olhar triste. Usava um cinturo duas vezes mais 
largo que a barrigueira de um cavalo, botas com polainas e esporas, os saltos 
reforados com chapinhas de metal, e a sua presena dava a impresso trepidante de 
um abalo ssmico. Atravessou a sala de visitas e a sala de estar, carregando na mo uns 
alforjes meio arrebentados, e apareceu como um trovo na varanda das begnias, onde 
Amaranta e suas amigas estavam paralisadas, com as agulhas no ar. Ol, disse a elas 
com a voz cansada, e atirou os alforjes sobre a mesa de trabalho e passou de largo para 

o fundo da casa. Ol, disse a ele a assustada Rebeca, que o viu passar pela porta do 
quarto. Ol, disse a Aureliano, que estava com os cinco sentidos alerta na mesa de 
ourivesaria. No se entreteve com ningum. Foi diretamente para a cozinha e ali parou 
pela primeira vez, ao fim de uma viagem que tinha comeado do outro lado do mundo. 
Ol, rsula ficou uma frao de segundo com a boca aberta olhou-o nos olhos, 
lanou um grito e pulou no pescoo gritando e chorando de alegria. Era Jos Arcadio.
Voltava to pobre como tinha ido, a ponto de rsula ter de lhe dar dois pesos para 
pagar o aluguel do cavalo. Falava o espanhol com gria de marinheiros. Perguntaram-
lhe onde tinha estado, e respondeu: Por a. Pendurou a rede no quarto que lhe 
designaram e dormiu trs dias. Quando acordou, e depois de tomar dezesseis ovos 
crus, saiu diretamente para a taberna de Catarino, onde a sua corpulncia monumental 
provocou um pnico de curiosidade entre as mulheres. Ordenou msica e aguardente 
para todos, por sua conta. Fez apostas de brao com cinco homens ao mesmo tempo.
 impossvel, diziam, ao se convencerem de que no conseguiriam mover-lhe o brao. 
Tem nios-en-cruz. Catarino, que acreditava em artifcios de fora, apostou doze pesos 
que movia o balco. Jos Arcadio arrancou-o do lugar, levantou-o equilibrando-o sobre 
a cabea e o jogou na rua. Foram necessrios onze homens para p-lo pra dentro de 
volta. No calor da festa, exibiu sobre o balco a sua masculinidade inverossmil,
inteiramente tatuada num emaranhado azul de letreiros em vrios idiomas. s 
mulheres que o assediaram com a sua cobia, perguntou quem pagava mais. A que 
tinha mais ofereceu vinte pesos. Ento ele props se rifar entre todas, a dez pesos cada 
nmero. Era um preo exorbitante, porque a mulher mais solicitada ganhava oito 
pesos por noite, mas todas aceitaram. Escreveram os seus nomes em papeizinhos que 
puseram num chapu, e cada mulher tirou um. Quando s faltava tirar dois 
papeizinhos,determinou-se a quem correspondiam. 
 Cinco pesos a mais cada uma  props Jos Arcadio e me reparto entre as 
duas. 
* Explicao do autor  tradutora: Segundo uma lenda popular, alguns homens fazem abrir o pulso e ali 
meter uma pequena cruz especial fechando-o depois com uma pulseira de ferro ou cobre. Isto, segundo a lenda, 
lhes d uma fora extraordinria. 

Disso vivia. Deu sessenta e cinco vezes a volta ao mundo metido numa 
tripulao de marinheiros aptridas. As mulheres que se deitaram com ele naquela 
noite, na taberna de Catarino, trouxeram-no inteiramente nu ao salo de baile, para 
que vissem que no tinha um milmetro do corpo sem tatuar, na frente e nas costas, e 
desde o pescoo at os dedos dos ps. No conseguia se integrar na famlia. Dormia o 
dia inteiro e passava a noite no bairro de tolerncia, fazendo apostas de fora. Nasescassas ocasies em que rsula pde sent-lo  mesa, demonstrou uma simpatia 
irradiante, sobretudo quando contava as suas aventuras em pases longnquos. Tinha 
naufragado e permanecido duas semanas  deriva no mar do Japo, alimentando-se 
com o corpo de um companheiro que sucumbiu de insolao, cuja carne salgada e 
tornada a salgar e cozinhada ao sol tinha um sabor granuloso e doce. Num meio-dia 
radiante do golfo de Bengala, o seu navio vencera um drago do mar em cujo ventre 
encontraram o elmo, as fivelas e as armas de um cruzado. Vira no Caribe o fantasma do 
navio pirata de Victor Hugues, com o velame solto pelos ventos da morte, os mastroscarcomidos pelas baratas do mar, e perdido para sempre da rota de Guadalupe. rsula 
chorava na mesa como se estivesse lendo as cartas que nunca chegaram, nas quais Jos 
Arcadio relatava as suas faanhas e desventuras. E tanto lugar aqui, meu filho, 
soluava. E tanta comida jogada aos porcos! Mas no fundo no podia conceber que o 
rapaz que os ciganos levaram fosse o mesmo alarve que comia meio leito no almoo e 
cujas ventosidades murchavam as flores. Algo de semelhante acontecia com o resto da 
famlia. Amaranta no podia dissimular a repugnncia que lhe produziam na mesa os 
seus arrotos bestiais. Arcadio, que nunca conheceu o segredo da sua filiao, mal 
respondia as perguntas que ele lhe fazia, com o propsito evidente de conquistar o seu 
afeto. Aureliano tentou reviver os tempos em que dormiam no mesmo quarto, 
procurou restaurar a cumplicidade da infncia, mas Jos Arcadio se esqueceu de tudo 
porque a vida do mar lhe saturara a memria com coisas demais para recordar. S 
Rebeca sucumbiu ao primeiro impacto. Na tarde em que o viu passar diante do seu 
quarto, pensou que Pietro Crespi era um almofadinha magricela junto daquele 
protomacho cuja respirao vulcnica se percebia em toda a casa. Procurava estar 
perto dele sob qualquer pretexto. 

Certa ocasio, Jos Arcadio olhou para o seu corpo com ateno descarada e 
disse a ela: Maninha, voc  muito mulher. Rebeca perdeu o domnio de si mesma. 
Voltou a comer terra e cal das paredes com a avidez dos outros tempos e chupou o 
dedo com tanta ansiedade que formou um calo no polegar. Vomitou um lquido verde 
com sanguessugas mortas. Passou noites em viglia, tiritando de febre, lutando contra 

o delrio, esperando at que a casa trepidasse com o regresso de Jos Arcadio ao 
amanhecer. Uma tarde, quando todos dormiam a sesta, no agentou mais e foi ao seu 
quarto. Encontrou-o de cuecas, acordado, estendido na rede que pendurara nos 
ganchos com os cabos de amarrar navio. Impressionou-a tanto a sua enorme nudez 
sarapintada que teve mpeto de retroceder. Perdo, se desculpou. Eu no sabia voc 
estava aqui. Mas abaixou o tom de voz para no acordar ningum. Vem c, disse ele. 
Rebeca obedeceu. Deteve-se junto da rede, suando gelo, sentindo que se formavam ns 
nas tripas enquanto Jos Arcadio lhe acariciava os tornozelos com a polpa dos dedos, e 
depois a barriga das pernas e depois as coxas, murmurando: Ah, maninha; ah 
maninha. Ela teve que fazer um esforo sobrenatural para no morrer quando uma 
potncia ciclnica, assombrosamente regulada levantou-a pela cintura e despojou-a da 
sua intimidade com trs patadas, e esquartejou-a como a um passarinho. Conseguiu 

dar graas a Deus por ter nascido, antes de perder a conscincia no prazer inconcebvel 
daquela dor insuportvel, chapinhando no lago fumegante da rede que absorveu como 
um mata-borro a exploso do seu sangue. 

Trs dias depois, casaram-se na missa das cinco. Jos Arcadio tinha ido no dia 
anterior  loja de Pietro Crespi. Encontrara-o dando uma aula de ctara e nem ao 
menos o chamou de lado para falar. Caso-me com Rebeca, disse. Pietro Crespi ficou 
plido, entregou a citara a um dos discpulos e deu a aula por encerrada. Quando 
ficaram sozinhos no salo abarrotado de instrumentos musicais e brinquedos de corda, 
Pietro Crespi disse: 

 Ela  sua irm. 
 No me importa  respondeu Jos Arcadio. 
Pietro Crespi enxugou a testa com um leno impregnado de alfazema. 
  contranatura  explicou  e, alm disso, a lei prob e. Jos Arcadio se 
impacientou, no tanto com a argumentao como com a palidez de Pietro Crespi. 
 Estou cagando pra essa tal de natura  disse.  E venho dizer isso a voc 
para que no se d o trabalho de ir perguntar nada a Rebeca. 
Mas o seu comportamento brutal se quebrantou, ao ver que os olhos de Pietro 
Crespi se umedeciam. 

 Agora  disse a ele em outro tom  se voc gosta  da famlia, ainda lhe 
resta Amaranta. 
O Padre Nicanor revelou, no sermo de domingo, que Jos Arcadio e Rebeca noeram irmos. rsula no perdoou nunca o que considerou como uma inconcebvel falta 
de respeito, e quando voltaram da igreja proibiu aos recm-casados de voltar a pisar na 
sua casa. Para ela, era como se estivessem mortos. De modo que alugaram uma casinha 
defronte do cemitrio e nela se instalaram sem mais moblia que a rede de Jos 
Arcadio. Na noite de npcias, Rebeca teve o p mordido por um escorpio que se 
metera nas suas pantufas. Ficou com a lngua dormente, mas isso no impediu que 
passassem uma lua-de-mel escandalosa. Os vizinhos se assustavam com os gritos que 
acordavam o bairro inteiro at oito vezes por noite, e at trs vezes durante a sesta, e 
rogavam para que uma paixo to desaforada no fosse perturbar a paz dos mortos. 

Aureliano foi o nico que se preocupou com eles. Comprou-lhes alguns mveis 
e lhes proporcionou dinheiro, at que Jos Arcadio retomou o sentido da realidade e 
comeou a trabalhar as terras de ningum que terminavam no quintal da casa. 
Amaranta, pelo contrrio, no conseguiu superar nunca o seu rancor contra Rebeca, 
embora a vida lhe oferecesse uma satisfao com que no havia sonhado: por iniciativade rsula, que no sabia como reparar a vergonha, Pietro Crespi continuou almoando 
s teras-feiras na sua casa, superior ao fracasso, com uma serena dignidade. 
Conservou a fita preta no chapu como um sinal de apreo  famlia, e se comprazia emdemonstrar o seu afeto a rsula, levando-lhe presentes exticos: sardinhas 
portuguesas, gelia de rosas turcas, e, em certa ocasio um primoroso xale oriental. 
Amaranta o atendia com diligncia. Adivinhava os seus gostos, arrancava-lhe os fios 
descosidos dos punhos da camisa, e bordou uma dzia de lenos com as suas iniciais, 
para o dia do seu aniversrio. As teras-feiras, depois do almoo, enquanto ela bordava 
na varanda, ele lhe fazia uma alegre companhia. Para Pietro Crespi, aquela mulher a 
quem sempre considerara e tratara como uma menina foi uma revelao. Embora seu 
tipo carecesse de graa, possua uma refinada sensibilidade para apreciar as coisas do 
mundo, e uma ternura secreta. Numa tera-feira, quando ningum duvidava de que 


mais cedo ou mais tarde teria de acontecer, Pietro Crespi pediu-lhe que se casasse com 
ele. Ela no interrompeu o trabalho. Esperou que passasse o quente rubor das orelhas e 
imprimiu a serena nfase de maturidade. 

 Claro que sim, Crespi  disse  mas quando a gente se conhecer melhor. 
No convm precipitar as coisas.
rsula ficou confusa. Apesar do apreo que sentia por Pietro Crespi, no 
conseguia discernir se a sua deciso era boa do ponto de vista moral, depois de 
prolongado e ruidoso noivado com Rebeca. Mas acabou por aceit-lo como um fato 
sem classificao, porque ningum compartilhou das sua dvidas. Aureliano, que era o 
homem da casa, confundiu-as ainda mais, com a sua enigmtica e conclusiva opinio: 

 No  hora de andar pensando em casamentos.
Aquela opinio, que rsula s compreendeu alguns meses depois era a nica 
que ele podia expressar sinceramente no momento, no s no que diz respeito ao 
casamento, mas a qualq uer assunto que no fosse a guerra. Ele mesmo diante do 
peloto de fuzilamento, no haveria de entender muito bem como se fora encadeando a 
srie de sutis mas irrevogveis casualidades que o tinham levado a esse ponto. A morte 
de Remedios no lhe produzira a comoo que temia. Foi mais um surdo sentimento 
de raiva que paulatinamente se dissolveu numa frustrao solitria e passiva, 
semelhante  que experimentara na poca em que estava resignado a viver sem mulher. 
Voltou a afundar-se no trabalho, mas conservou o costume de jogar domin com o 
sogro. Numa casa amordaada pelo luto, as conversas noturnas consolidaram a 
amizade dos dois homens. Case outra vez, Aurelito, dizia-lhe o sogro. Tenho seis 
filhas para voc escolher. Certa ocasio, s vsperas das eleies, o Sr. Apolinar 
Moscote voltou de uma das suas freqentes viagens preocupado com a situao 
poltica do pas. Os liberais estavam decididos a se lanar  guerra. Como Aurelano 
tinha nessa poca noes muito confusas das diferenas entre conservadores e liberais, 

o sogro lhe dava lies esquemticas. Os liberais, dizia, eram maons; gente de m 
ndole, partidria de enforcar os padres, de instituir o casamento civil e o divrcio, de 
reconhecer iguais direitos aos filhos naturais e aos legtimos, e de despedaar o pas 
num sistema federal que despojaria de poderes a autoridade suprema. Os 
conservadores, ao contrrio, que tinham recebido o poder diretamente de Deus, 
pugnavam pela estabilidade da ordem pblica e pela moral familiar; eram os 
defensores da f de Cristo, do princpio de autoridade, e no estavam dispostos a 
permitir que o pas fosse esquartejado em entidades autnomas. Por sentimentos 
humanitrios, Aureliano simpatizava com a atitude liberal, no que se refere aos 
direitos dos filhos naturais, mas, de qualquer maneira, no entendia como se chegava 
ao extremo de fazer uma guerra por coisas que no se podiam tocar com as mos. 
Pareceu-lhe um despropsito que o seu sogro fizesse vir para as eleies seis soldados 
armados com fuzis, sob o comando de um sargento, num povoado sem paixes 
polticas. No s chegaram, mas foram at de casa em casa, confiscando armas de caa, 
faces e at facas de cozinha, antes de repartir entre os homens maiores de vinte e um 
anos as cdulas azuis, com os nomes dos candidatos conservadores, e as cdulas 
vermelhas, com os nomes dos candidatos liberais. Na vspera das eleies, o prprio 
Sr. Apolinar Moscote leu uma ordem que proibia, desde a meia-noite de sbado, e por 
quarenta e oito horas, a venda de bebidas alcolicas e a reunio de mais de trs pessoas 
que no fossem da mesma famlia. As eleies transcorreram sem incidentes. Desde as 
oito da manh de domingo, instalou-se na praa a urna de madeira guardada pelos seis 

soldados. Votou-se com inteira liberdade, como pde comprovar o prprio Aureliano 
que esteve quase o dia inteiro com o sogro, vigiando para ningum votasse mais de 
uma vez. As quatro da tarde, o rufar de um tambor na praa anunciou o trmino da 
jornada, e o Sr. Apolinar Moscote selou a urna com uma etiqueta atravessada pela sua 
assinatura. Nessa noite, enquanto jogava domin com Aureliano, ordenou ao sargento 
rasgar a etiqueta para contar os votos. Havia quase tantas cdulas vermelhas quanto 
azuis, mas o sargento s deixou dez vermelhas e completou a diferena com azuis. 
Depois voltaram a selar a urna com uma etiqueta nova e no dia seguinte cedo levaram-
na para a capital da provncia. Os liberais iro  guerra, disse Aureliano. O Sr. 
Apolinar no abandonou as suas pedras de domin. Se voc est dizendo isso por 
causa da troca das cdulas, no iro, disse. Sempre se deixam algumas verbas para 
no haver reclamao. Aureliano compreendeu as desvantagens da oposio. Se eu 
fosse liberal, disse, iria  guerra por causa do negcio das cdulas. O sogro o olhou 
cima dos culos. 

 Ah, Aurelito  disse  se voc fosse liberal, ainda que fosse meu genro, no 
teria visto a troca das cdulas. 
O que na verdade causou indignao no povoado no foi o resultado das 
eleies, mas o fato de os soldados no terem devolvido as armas. Um grupo de 
mulheres falou com Aureliano para que conseguisse do sogro a devoluo das facas de 
cozinha. O Sr. Apolinar Moscote lhe explicou, muito em particular, que os soldados 
tinham levado as armas confiscadas como prova de que os liberais estavam se 
preparando para a guerra. Ficou alarmado com o cinismo da declarao. No fez 
nenhum comentrio, mas certa noite em que Gerineldo Mrquez e Magnfico Visbal 
falavam com outros amigos do incidente das facas, perguntaram-lhe se era liberal ou 
conservador e Aureliano no vacilou: 

 Se fosse preciso ser alguma coisa, eu seria liberal  disse porque os 
conservadores so uns trapaceiros. 
No dia seguinte, por insistncia dos amigos, foi visitar o Doutor Alirio Noguera 
para que o curasse de uma pretensa no fgado. No sabia sequer o sentido da patranha. 
O Doutor Alirio Noguera chegara a Macondo poucos anos antes, com uma maleta de 
comprimidos sem sabor e uma divisa mdica que no convenceu ningum: Uma 
doena cura a outra. Na verdade era um farsante. Detrs da sua inocente fachada de 
mdico sem prestgio, escondia-se um terrorista que tapava com polainas de meia-
perna as cicatrizes que deixaram nos seus tornozelos cinco anos de cadeia. Capturado 
na primeira aventura federalista, conseguiu fugir para Curaao disfarado na roupa 
que mais detestava neste mundo: uma batina. Ao fim de um prolongado desterro, 
enganado pelas exaltadas notcias que os exilados de todo o Caribe traziam a Curaao, 
embarcou numa escuna de contrabandistas e apareceu em Riohacha com os vidrinhos 
de comprimidos que no eram mais que acar refinado, e um diploma da 
Universidade de Leipzig falsificado por ele mesmo: Chorou de desiluso. O fervor 
federalista, que os exilados definiam como um estopim j quase aceso, tinha-se 
dissolvido numa vaga iluso eleitoral. Amargurado pelo fracasso, ansioso por um lugar 
seguro onde esperar a velhice, o falso homeopata se refugiou em Macondo. No estreito 
quartinho abarrotado de frascos vazios que alugou num canto da praa, viveu vrios 
anos dos doentes sem esperanas que, depois de terem provado tudo, se consolavam 
com comprimidos de acar. Seus instintos de agitador permaneceram em repouso 
enquanto o Sr. Apolinar Moscote foi uma autoridade decorativa. Passava o tempo em 


recordaes e na luta contra a asma. A proximidade das eleies foi o fio que lhe 
permitiu encontrar de novo o novelo da subverso. Estabeleceu contato com a gente 
jovem do povoado, que carecia de formao poltica, e se empenhou numa sigilosa 
campanha de instigao. As numerosas cdulas vermelhas que apareceram na urna, e 
que foram atribudas pelo Sr. Apolinar Moscote  mania de novidade da juventude, 
eram parte do seu plano: obrigou os discpulos a votarem, para convenc-los de que as 
eleies eram uma farsa. A nica coisa eficaz, dizia,  a violncia. A maioria dos 
amigos de Aureliano andava entusiasmada com a idia de liquidar a ordem 
conservadora, mas ningum tinha se atrevido a inclu-lo nos planos, no s pelos seus 
vnculos com o delegado, mas tambm pelo temperamento solitrio e evasivo. Era mais 
que sabido, alm disso, que tinha votado azul por indicao do sogro. De modo que foi 
uma simples casualidade que revelasse os seus sentimentos polticos, e foi uma mera 
pontinha de curiosidade o que veio a lhe dar na veneta de visitar o mdico, para tratar 
de uma dor que no tinha. Na pocilga cheirando a teia aranha canforada, deu de cara 
com uma espcie de lagarto empoeirado cujos pulmes assoviavam ao respirar. Antes 
de fazer qualquer pergunta, o doutor o levou  janela e examin ou a parte de dentro da 
plpebra inferior. No  a, disse Aureliano, conforme tinham ensinado. Apertou ofgado com ponta dos dedos e acrescentou:  aqui que tenho a dor que no me deixa 
dormir. Ento o Doutor Noguera fechou a janela sob o pretexto de que havia muito 
sol, e lhe explicou em termos simples por que era um dever patritico assassinar os 
conservadores. Durante vrios dias, Aureliano carregou um vidrinho no bolso da 
camisa. Tirava-o de duas em duas horas, punha trs comprimidos na palma da mo e 
jogava-os na boca para dissolv-los lentamente na lngua. O Sr. Apolinar Moscote 
caoou da sua f na homeopatia, mas os que estavam no compl reconheceram nele 
mais um dos seus. Quase todos os filhos dos fundadores estavam implicados, embora 
nenhum soubesse concretamente em que consistia a ao que os mesmos tramavam. 
Entretanto, no dia em que o mdico velou o segredo a Aureliano, este tirou o corpo fora 
da conspirao. Embora estivesse mais do que convencido da urgncia de liquidar com 

o regime conservador, o plano o horrorizou. O Doutor Noguera era um mstico do 
atentado pessoal. O seu sistema se reduzia a coordenar uma srie de aes individuais 
que, num golpe de mestre de alcance nacional, liquidasse com os funcionrios do 
regime e as suas respectivas famlias, sobretudo as crianas, para exterminar o 
conservadorismo na semente. O Sr. Apolinar Moscote, sua esposa e suas seis filhas, 
evidentemente, estavam na lista. 
 O senhor no  liberal coisa nenhuma  disse Aureliano sem se alterar.  O 
senhor no passa de um magarefe. 
 Nesse caso  replicou o doutor com a mesma calma  devolva o vidrinho. 
Voc j no precisa dele. 
Apenas seis meses mais tarde  que Aureliano soube que o doutor o tinha 
desacreditado como homem de ao, por ser um sentimental sem futuro, com um 
temperamento passivo e uma clara vocao solitria. Trataram de o cercar, temendo 
que denunciasse a conspirao. Aureliano tranqilizou-os: no diria uma palavra, mas 
na noite em que fossem assassinar famlia Moscote encontr-lo-iam defendendo a 
porta. Demonstrou uma deciso to convincente que o plano foi adiado por tempoindeterminado. Foi por esses dias que rsula consultou a sua opinio sobre o 
casamento de Pietro Crespi e Amaranta, e ele respondeu que a poca no estava para 
pensar nestas coisas. H uma semana que trazia sob a camisa uma pistola arcaica. 


Vigiava os amigos. Ia de tarde tomar caf com Jos Arcadio e Rebeca, que comeavam a 
arrumar a sua casa, e desde as sete ficava jogando domin com o sogro. Na hora do 
almoo conversava com Arcadio, que j era um adolescente monumental, e o 
encontrava cada vez mais exaltado com a iminncia da guerra. Na escola, onde Arcadio 
tinha alunos mais velhos que ele, misturados com crianas que mal comeavam a falar, 
tinha-se alastrado a febre liberal. Falava-se em fuzilar o Padre Nicanor, converter o 
templo em escola, implantar o amor livre. Aureliano procurou arrefecer os seus 
nimos. Recomendou-lhes discrio e prudncia. Surdo ao seu raciocnio sereno, ao 
seu sentido da realidade, Arcadio reprovou em pblico a sua debilidade detemperamento. Aureliano esperou. Por fim, no incio de dezembro, rsula irrompeu 
transtornada na oficina. 

 Rebentou a guerra! 
Realmente, rebentara h trs meses. A lei marcial imperava em todo o pas. O 
nico a sab-lo era o Sr. Apolinar Moscote, que no deu a noticia nem  sua mulher 
enquanto no chegava o peloto do exrcito que haveria de ocupar o povoado de 
surpresa. Entraram de mansinho antes do amanhecer, com duas peas de artilharia 
ligeira puxadas por mulas, e instalaram o quartel na escola. Imps-se o toque de 
recolher s seis da tarde. Fez-se uma revista mais drstica que a anterior, casa por casa, 
e desta vez levaram at as ferramentas de agricultura. Levaram arrastado o Doutor 
Noguera, amarraram-no a uma rvore da praa e o fuzilaram sem qualquer julgamento. 
O Padre Nicanor tratou de impressionar as autoridades militares com o milagre da 
levitao e um soldado lhe deu uma coronhada na cabea. A exaltao liberal se 
apagou num terror silencioso. Aureliano, plido, hermtico, continuou jogando 
domin com o sogro. Compreendeu que apesar do seu ttulo atual de chefe civil e 
militar da praa, o Sr. Apolinar Moscote era outra vez uma autoridade decorativa. As 
decises quem tomava era um capito do exrcito que todas as manhs recolhia um 
tributo extraordinrio para a defesa da ordem pblica. Quatro soldados, a mando seu, 
arrebataram de casa uma mulher que tinha sido mordida por um co raivoso e a 
mataram a coronhadas em plena rua. Um domingo, duas semanas depois da ocupao, 
Aureliano entrou na casa de Gerineldo Mrquez e com a sua parcimnia habitual 
pediu uma caneca caf sem acar. Quando os dois ficaram sozinhos na cozinha 
Aureliano imprimiu  voz uma autoridade que nunca lhe havia conhecido. Prepare os 
rapazes, disse. Vamos para a guerra. Gerineldo Mrquez no acreditou. 

 Com que armas?  perguntou. 
 Com as deles  respondeu Aureliano. 
Na tera-feira,  meia-noite, numa operao tresloucada vinte e um homens 
menores de trinta anos, chefiados por Aureliano Buenda, armados com facas de mesa e 
ferros afiados tomaram de assalto a guarnio, apoderaram-se das armas e fuzilaram no 
ptio o capito e os quatro soldados que tinham assassinado a mulher. 

Nessa mesma noite, enquanto se escutavam as descargas do peloto de 
fuzilamento, Arcadio foi nomeado chefe civil e militar da praa Os rebeldes casados 
mal tiveram tempo de despedir das esposas, que abandonaram aos seus prprios 
recursos. Foram embora ao amanhecer, aclamados pela populao liberada do terror, 
para se unir s foras do general revolucionrio Victorio Medina, que, segundo as 
ltimas noticias, andava pelo rumo de Manaure. Antes de ir embora, Aureliano tirou o 
Sr. Apolinar Moscote de um armrio. O senhor fique tranqilo, meu sogro, disse a 
ele. O novo governo garante, sob palavra de honra, a sua segurana pessoal e a da sua 


famlia. O Sr. Apolinar Moscote teve dificuldade de identificar aquele conspirador de 
botas altas e fuzil pendurado no ombro com quem tinha jogado domin at as nove da 
noite. 

 Isto  um disparate, Aurelito  exclamou. 
 Disparate nenhum  disse Aureliano.  E a guerra. E no torne a me 
chamar de Aurelito, porque j sou o Coronel Aureliano Buenda. 

O CORONEL Aureliano Buenda promoveu trinta e duas revolues armadas e 
perdeu todas. Teve dezessete filhos vares de dezessete mulheres diferentes, que foram 
exterminados um por um numa s noite, antes que o mais velho completasse trinta e 
cinco anos. Escapou de quatorze atentados, setenta e trs emboscadas e um peloto de 
fuzilamento. Sobrevive u a uma dose de estricnina no caf que daria para matar um 
cavalo. Recusou a Ordem do Mrito que lhe outorgou o Presidente da Repblica. 
Chegou a ser comandante geral das foras revolucionrias, com jurisdio e mando de 
uma fronteira  outra, e o homem mais temido pelo governo, mas nunca permitiu que 
lhe tirassem uma fotografia. Dispensou a penso vitalcia que lhe ofereceram depois da 
guerra e viveu at a velhice dos peixinhos de ouro que fabricava na sua oficina de 
Macondo. Embora lutasse sempre  frente dos seus homens, a nica ferida que recebeu 
foi produzida por ele mesmo, depois de assinar a capitulao da Neerlndia, que ps 
fim a quase vinte anos de guerras civis. Desfechou um tiro de pistola no peito e o 
projtil saiu-lhe pelas costas sem ofender nenhum centro vital. A nica coisa que ficou 
de tudo isso foi uma rua com o seu nome em Macondo. Entretanto, conforme declarou 
poucos anos antes de morrer de velho, nem mesmo isso ele esperava, na madrugada em 
que partiu com os seus vinte e um homens, para se reunir s foras do General Victorio 
Medina. 

 Ns deixamos Macondo a para voc  foi tudo quanto disse a Arcadio 
antes de partir.  Ns o deixamos bem, faa com que o encontremos melhor. 
Arcadio deu uma interpretao muito pessoal  recomendao. Inventou para si 
mesmo um uniforme com gales e dragonas de marechal, inspirado nas gravuras de um 
livro de Melquades, e pendurou no cinto o sabre com borlas douradas do capito 
fuzilado. Colocou as duas peas de artilharia na entrada do povoado, uniformizou os 
seus antigos alunos, inflamados pelos seus pronunciamentos incendirios, e deixou-os 
vagar armados pelas ruas, para dar aos forasteiros uma impresso de invulnerabilidade. 
Foi uma faca de dois gumes, porque o governo no se atreveu a atacar a praa durante 
dez meses, mas quando o fez, descarregou contra ela uma fora to desproporcional 
que liquidou com a resistncia em meia hora. Desde o primeiro dia de seu mandato 
Arcadio revelou ser partidrio dos decretos. Chegou a baixar at quatro por dia, para 
ordenar e determinar o que lhe passava pela cabea. Implantou o servio militar 
obrigatrio a partir dos dezoito anos, declarou de utilidade pblica os animais que 
transitavam pelas ruas depois das seis da tarde e imps aos homens maiores de idade a 
obrigao de usar uma faixa vermelha na manga. Enclausurou o Padre Nicanor na casa 
paroquial, sob a ameaa de fuzilamento, e proibiu-o de dizer missa e tocar os sinos, se 
no fosse para celebrar as vitrias liberais. Para que ningum pusesse em dvida a 
severidade dos seus propsitos, mandou que um peloto de fuzilamento treinasse em 
praa pblica atirando contra um espantalho. No comeo, ningum o levou a srio. 
Eram, afinal de contas, os rapazes da escola brincando de gente grande. Mas certa 
noite, ao entrar na ta berna, o trompetista da banda saudou Arcadio com um toque de 
fanfarra que provocou o riso da clientela, e Arcadio o mandou fuzilar por falta de 
respeito  autoridade. Aos que protestaram ps a po e gua, com os tornozelos numtronco que instalara num quarto da escola. Voc  um assassino! , gritava-lhe rsula 
cada vez que sabia de alguma nova arbitrariedade. Quando Aureliano souber disso, 
vai fuzilar  voc mesmo, e eu vou ser a primeira a me alegrar! Mas tudo foi intil. 
Arcadio continuou apertando as cravelhas com um rigor desnecessrio, at se 
converter no mais cruel dos governantes que passaram por Macondo. Agora sofram a 


diferena, disse o Sr. Apolinar Moscote em certa ocasio. Isto  paraso liberal. 
Arcadio soube. A frente de uma patrulha, assaltou a casa, quebrou os mveis, aoitou 
as filhas e levou de rastros o Sr. Apolinar Moscote. Quando rsula irrompeu no ptio 
do quartel, depois de ter atravessado o povoado miando de vergonha e brandindo de 
raiva um rebenque cheio de alcatro, o prprio Arcadio se dispunha a dar a ordem de 
ao peloto de fuzilamento.

 Atreva-se, bastardo!  gritou rsula. 
Antes que Arcadio tivesse tempo de reagir, descarregou a primeira vergastada. 
Atreva-se, assassino, gritava. E me mate tambm, seu filho da me. Assim no vou 
ter olhos para chorar a vergonha de ter criado um monstro. Aoitando-o sem 
misericrdia, perseguiu-o at o fundo do ptio, onde Arcadio se enrolou como um 
caracol. O Sr. Apolinar Moscote estava inconsciente, amarrado no poste onde tinham 
antes o espantalho arrebentado pelos tiros de treinamento. Os rapazes do peloto se 
dispersaram, temerosos de que rsula terminasse de se desafogar neles. Mas ela nem 
sequer lhes dirigiu o olhar. Deixou Arcadio com o uniforme espedaado, bramando de 
dor e de raiva, e desamarrou o Sr. Apolinar Moscote para lev-lo em casa. Antes de 
abandonar o quartel, soltou os presos do tronco. 

A partir de ento, foi ela quem passou a mandar no povoado. Restabeleceu a 
missa dominical, suspendeu o uso das insgnias vermelhas e invalidou os decretos 
atrabilirios. Mas apesar da sua fora, continuou chorando a infelicidade do seu 
destino. Sentiu-se to sozinha que procurou a intil companhia do marido, esquecido 
debaixo do castanheiro. Olha s onde fomos parar, dizia a ele, enquanto as chuvas de 
junho ameaavam derrubar a coberta de sap. Olhe s a casa vazia, nossos filhos 
espalhados pelo mundo, e ns dois sozinhos outra vez como no princpio. Jos 
Arcadio Buenda, afundado num abismo de inconscincia, era surdo aos seus lamentos. 
No comeo da sua loucura, anunciava com latinrios agoniantes as suas urgncias 
cotidianas. Em fugazes clares de lucidez, quando Amaranta trazia a comida, ele lhe 
comunicava os seus pesares mais desagradveis e se prestava com docilidade s suasventosas e sinapismos. Mas na poca em que rsula foi se lamentar ao seu lado, j 
tinha perdido todo o contato com a realidade. Ela o banhava por partes, sentado no 
banquinho, enquanto lhe dava notcias da famlia. Aureliano foi para a guerra, faz 
mais de quatro meses, e no soubemos mais dele, dizia, esfregando-lhe as costas com 
uma bucha ensaboada. Jos Arcadio voltou, feito um homenzarro mais alto que voc 
e todo bordado em ponto de cruz, mas s veio trazer vergonha para a nossa casa. 
Acreditou observar, entretanto, que o marido se entristecia com as ms notcias. 
Ento, optou por mentir para ele. No acredite no que eu digo, dizia, enquanto 
jogava cinzas sobre os excrementos, para recolh-los com a p. Deus quis que Jos 
Arcadio e Rebeca se casassem, e agora so muito felizes. Chegou a ser to sincera no 
engano que ela mesma acabou se consolando com as suas prprias mentiras. Arcadio 
j  um homem srio, dizia, e muito valente, e muito bonito com o seu uniforme e o 
seu sabre. Era como falar a um morto, porque Jos Arcadio Buenda j estava fora do 
alcance de qualquer preocupao. Mas ela insistiu. Via-o to manso, to indiferente a 
tudo, que decidiu solt-lo. Ele nem sequer se mexeu do banquinho. Continuou 
exposto ao sol e  chuva, como se as cordas fossem desnecessrias, porque um domnio 
superior a qualquer priso visvel o mantinha amarrado ao tronco do castanheiro. Peloms de agosto, quando o inverno comeava eternizar, rsula pde por fim lhe dar uma 
notcia que parecia verdade. 


 Veja que a boa sorte continua nos perseguindo  disse a ele.  Amaranta e 
o italiano da pianola vo se casar. Amaranta e Pietro Crespi, na verdade, tinhamaprofundado a amizade, amparados pela confiana de rsula, que desta vez no 
pensou ser necessrio vigiar as visitas. Era um namoro crepuscular. O italiano chegava 
ao entardecer, com uma gardnia na lapela, e traduzia para Amaranta os sonetos de 
arca. Permaneciam na varanda sufocada pelo orgo e pelas rosas, ele lendo e ela 
fazendo renda de bilros, indiferentes aos sobressaltos e s ms notcias da guerra, at 
que os mosquitos os obrigassem a se refugiar na sala. A sensibilidade de Amaranta, sua 
discreta mas envolvente ternura, foram urdindo volta do namorado uma teia invisvel 
que ele tinha que afastar materialmente com os dedos plidos e sem anis, para 
abandonar a casa s oito. Tinham feito um lindo lbum com os postais que Pietro 
Crespi recebia da Itlia. Eram imagens de apaixonados em parques solitrios, com 
vinhetas de coraes flechados e fitas douradas sustentadas por pombinhos. Eu 
conheo este parque em Florena, dizia Pietro Crespi repassando os postais. A gente 
estende a mo e os pssaros descem para comer. As vezes, diante de uma aquarela de 
Veneza, a saudade transformava em suaves aromas de flores o che iro de limo e 
mariscos podres dos canais. Amaranta suspirava, sonhava com uma segunda ptria de 
homens e mulheres formosos que falavam uma lngua que parecia de crianas, com 
cidades antigas de cuja passada grandeza restavam apenas os gatos entre os 
escombros. Depois de atravessar o oceano na sua busca, depois de t-lo confundido 
com a paixo nas carcias veementes de Rebeca, Pietro Crespi tinha encontrado o 
amor. A felicidade trouxe consigo a prosperidade. A sua loja ocupava agora quase um 
quarteiro, e era um refgio de fantasia, com reprodues do campanrio de Florena, 
que davam as horas num concerto de carrilhes, e caixinhas de msica de Sorrento, e 
de p-de-arroz da China que cantavam, se abrir a tampa, toadas de cinco notas, e 
todos os instrumentos musicais que se podiam imaginar e todos os artifcios de corda 
que se podiam conceber. Bruno Crespi, seu irmo mais novo, estava  frente da loja, 
porque ele j no chegava para atender  escola de msica. Graas a ele, a Rua dos 
Turcos, com a sua deslumbrante exposio de quinquilharias, transformou-se num 
remanso meldico, para esquecer as arbitrariedades de Arcadio e o pesadelo remoto daguerra. Quando rsula determinou a retomada da missa dominical, Pietro Crespi 
presenteou o templo com um harmnio alemo, organizou um coro infantil e preparou 
um repertrio gregoriano que deu uma nota esplndida ao ritual taciturno do Padre 
Nicanor. Ningum punha em dvida que faria de Amaranta uma esposa feliz. Sem 
apressar os sentimentos, deixando-se arrastar pela fluidez natural do corao, 
chegaram a um ponto em que s faltava marcar a data do casamento. Noencontrariam obstculos. rsula se acusava intimamente de ter torcido com 
adiamentos repetidos o destino de Rebeca, e no estava disposta a acumular remorsos. 
O rigor do luto pela morte de Remedios tinha sido relegado a segundo plano em favor 
da mortificao da guerra, da ausncia de Aureliano, da brutalidade de Arcadio e da 
expulso de Jos Arcadio e Rebeca. Diante da iminncia do casamento, o prprio 
Pietro Crespi insinuara que Aureliano Jos, em favor de quem desenvolveu um carinho 
quase paternal, fosse considerado como seu filho mais velho. Tudo fazia crer que 
Amaranta se orientava para uma felicidade sem tropeos. Mas ao contrrio de Rebeca, 
ela no revelava a menor ansiedade. Com a mesma pacincia com que sarapintava 
toalhas de mesa, e tecia primores de passamanaria, e bordava paves em ponto de cruz, 
esperou que Pietro Crespi no suportasse mais as urgncias do corao. Sua hora 

chegou com as chuvas aziagas de outubro. Pietro Crespi tirou-lhe do colo o cesto de 
costura e apertou-lhe a mo entre as suas. No agento mais esta espera, disse a ela. 
Ns casamos no ms que vem. Amaranta no tremeu ao contato das suas mos de 
gelo. Retirou a sua, como um animalzinho em fuga e voltou ao trabalho. 

 No seja ingnuo, Crespi  sorriu  nem morta eu me caso com voc. 
Pietro Crespi perdeu o domnio de si mesmo. Chorou sem dor, quase quebrando 
os dedos de desespero, mas no conseguiu comov -la. No perca tempo, foi tudo 
quanto disse Amaranta. Se realmente voc me ama tanto, no volte a pisar nesta casa.
rsula pensou enlouquecer de vergonha. Pietro Crespi esgotou os recursos da splica. 
Chegou a incrveis exemplos de humilhao. Chorou uma tarde inteira no colo dersula, que teria vendido a alma para consol-lo. Em noites chuva, foi visto vagando 
nas proximidades da casa, com guarda-chuva de seda, tentando surpreender uma luz 
no quarto de Amaranta. Nunca andou to bem vestido quanto nessa poca. A sua 
augusta cabea de imperador atormentado adquiriu um estranho ar de grandeza. 
Importunou as amigas de Amaranta, as que iam bordar na varanda, para que tentassem 
persuadi-la. Descuidou dos negcios. Passava o dia nos fundos da loja, escrevendo 
bilhetes desatinados, que fazia chegar a Amaranta com membranas de ptalas e 
borboletas embalsamadas, e que ela devolvia sem abrir. Trancava-se durante horas e 
horas tocando ctara. Certa noite cantou. Macondo acordou numa espcie de xtase, 
angelizado por uma ctara que no podia ser deste mundo e uma voz que no se dia 
conceber que existisse na terra, to cheia de amor. Pietro Crespi viu ento a luz acesa 
em todas as janelas do povoado, menos na de Amaranta. A dois de novembro, dia de 
todos os mortos, seu irmo abriu a loja e encontrou todas as luzes acesas e todas as 
caixas de msicas abertas e todos os relgios travados numa hora interminvel, e no 
meio daquele concerto disparatado encontrou Pietro Crespi no escritrio dos fundos 
da loja com os pulsos cortados a navalha e as duas mos metidas numa bacia de 
benjoim.

rsula ordenou que ele fosse velado na sua casa. O Padre Nicanor se opunha aosofcios religiosos e  sepultura no campo santo. rsula enfrentou-o. De uma maneira 
que nem senhor nem eu podemos entender, esse homem era um santo, disse. De 
modo que vou enterr-lo, contra a sua vontade, junto  tumba de Melquades. F-lo, 
com o apoio de todo o povo, em funerais magnficos. Amaranta no saiu do quarto.
Ouviu de sua cama o pranto de rsula, os passos e murmrios da multido que 
invadiu a casa, os uivos das carpideiras, e depois um profundo silncio cheirando a 
flores pisadas. Durante muito tempo continuou a sentir o aroma da lavanda de PietroCrespi ao entardecer, mas teve foras para no sucumbir ao delrio. rsula 
abandonou-a. Nem sequer levantou os olhos para se apiedar dela, na tarde em que 
Amaranta entrou na cozinha e ps a mo nas brasas do fogo, at doer tanto que no 
sentiu mais a dor, e sim o fedor da sua prpria carne chamuscada. Foi uma dose cavalar 
para o remorso. Durante vrios dias andou pela casa com a mo metida numa caneca 
cheia de claras de ovo, e quando sararam as queimaduras era como se as claras de ovo 
tivessem cicatrizado tambm as lceras do corao. A nica marca externa que lhe 
deixou a tragdia foi a atadura de gaze negra que ps na mo queimada, e que haveria, 
de usar at a morte. 

Arcadio deu uma rara prova de generosidade, ao proclamar, mediante umdecreto, o luto oficial pela morte de Pietro Crespi. rsula interpretou o fato como a 
volta do cordeiro extraviado. Mas se enganou. Tinha perdido Arcadio, no desde que 


vestiu o uniforme militar, mas desde sempre. Acreditava t-lo criado como um filho, 
como criou Rebeca, sem privilgios nem discriminaes. Entretanto, Arcadio era um 
menino solitrio e assustado durante a peste da insnia, em meio  febre utilitria de 
rsula, aos delrios de Jos Arcadio Buenda, ao hermetismo de Aureliano,  rivalidade 
mortal entre Amaranta e Rebeca. Aureliano ensinou-o a ler e escrever, pensando em 
outra coisa, como o teria feito um estranho. Presenteava-o com a sua roupa, para que 
Visitacin a diminusse, quando j estava boa para jogar fora. Arcadio sofria com os 
seus sapatos grandes demais, com as suas calas remendadas, com as suas ndegas de 
mulher. Nunca conseguiu se comunicar com ningum melhor do que o fizera com 
Visitacin e Cataure, na lngua deles. Melquades foi o nico que na realidade se 
ocupou dele, que lhe fazia escutar os seus textos incompreensveis e lhe dava 
instrues sobre a arte da daguerreotipia. Ningum imaginava o quanto chorara a sua 
morte em segredo e com que desespero tentou reviv -lo no estudo intil dos seus 
papis. A escola, onde lhe prestavam ateno e o respeitavam, e depois o poder, com os 
seus decretos peremptrios e o seu uniforme de glria, livraram-no do peso de uma 
antiga amargura. Uma noite, na taberna de Catarino, algum se atreveu a lhe dizer: 
Voc no merece o sobrenome que usa. Ao contrrio do que todos esperavam, 
Arcadio no mandou fuzil-lo. 

 Com muita honra  disse  no sou um Buenda. 
Os que conheciam o segredo da sua filiao pensaram por aquela rplica que 
tambm ele estava a par, mas na realidade no o esteve nunca. Pilar Ternera, sua me, 
que lhe tinha feito ferver o sangue no gabinete de daguerreotipia, foi para ele uma 
obsesso to irresistvel como tinha sido primeiro para Jos Arcadio e depois para 
Aureliano. Apesar de ela haver perdido os encantos e o esplendor do riso, ele a 
procurava e a encontrava no rastro do seu cheiro de fumo. Pouco antes da guerra, num 
meio-dia em que ela foi mais tarde que de costume buscar o seu filho mais novo na 
escola, Arcadio a estava esperando no quarto onde costumava fazer a sesta, e onde 
depois instalou o tronco. Enquanto o menino brincava no ptio, ele esperou na rede, 
tremendo de ansiedade, sabendo que Pilar Temera tinha que passar por ali. Chegou. 
Arcadio agarrou-a pelo brao e tentou met-la na rede. No posso, no posso, disse 
Pilar Temera horrorizada. Voc no imagina como eu gostaria de lhe dar prazer, mas 
Deus  testemunha de que no posso. Arcadio agarrou-a pela cintura com a sua 
tremenda fora hereditria, e sentiu que o mundo se apagava ao contato da sua pele. 
No se faa de santa, dizia. Afinal, todo mundo sabe que voc  uma puta. Pilar se 
refez do nojo que lhe inspirava o seu miservel destino. 

 As crianas vo perceber  murmurou.  E melhor que esta noite voc 
deixe a porta sem trancar. 
Arcadio esperou-a naquela noite, tiritando de febre na rede. Esperou sem 
dormir, ouvindo os grilos alvoroados da madrugada sem fim e o horrio implacvel 
dos socs, cada vez mais convencido de que o haviam enganado. De repente, quando a 
ansiedade j se havia decomposto em raiva, a porta se abriu. Poucos meses depois, 
diante do peloto de fuzilamento, Arcadio haveria de reviver os passos perdidos na 
sala de aula, os tropees contra os bancos, e por ltimo a densidade de um corpo nas 
trevas do quarto e as batidas do ar bombeado por um corao que no era o seu. 
Estendeu a mo e encontrou outra mo com dois anis num mesmo dedo, que estava a 
ponto de naufragar na escurido. Sentiu a nervao das suas veias, o pulso do seu 
infortnio e sentiu a palma mida com a linha da vida cortada na base do polegar pela 


estocada da morte. Ento compreendeu que no era essa a mulher que esperava, 
porque no cheirava a fumo, mas a brilhantina de florzinha, e tinha os seios inchados e 
cegos com mamilos de homem, e o sexo ptreo e redondo como uma noz, e a ternura 
catica da inexperincia exaltada. Era virgem e tinha o nome inverossmil de Santa 
Sofia de la Piedad. Pilar Ternera lhe havia pago cinqenta pesos, a metade de suas 
economias de toda a vida, para que fizesse o que estava fazendo. Arcadio a vira muitas 
vezes, atendendo na lojinha de comestveis dos pais, e nunca tinha prestado ateno 
nela, porque tinha a rara virtude de no existir por completo, a no ser no momento 
oportuno. Mas a partir daquele dia, enroscou-se como um gato no calor da sua axila. 
Ela ia  escola na hora da sesta, com o consentimento dos pais, a quem Pilar Ternera 
havia pago a outra metade das suas economias. Mais tarde, quando as tropas do 
Governo os desalojaram do local, amavam-se entre as latas de manteiga e os sacos de 
milho do depsito. Na poca em que Arcadio foi nomeado chefe civil e militar, tiveram 
uma filha. 

Os nicos parentes que souberam foram Jos Arcadio e Rebeca, com quem 
Arcadio mantinha ento relaes ntimas, baseadas no tanto no parentesco quanto na 
cumplicidade. Jos Arcadio tinha dobrado a cerviz ao jugo matrimonial. O 
temperamento firme de Rebeca, a voracidade do seu ventre, a sua tenaz ambio 
absorveram a descomunal energia do marido, que de vagabundo e mulherengo se 
converteu num enorme animal de trabalho. Tinham uma casa limpa e sempre em 
ordem. Rebeca a abria de par em par ao amanhecer e o vento das tumbas entrava pelas 
janelas e saa pelas portas do quintal e deixava as paredes caiadas e os mveis curtidos 
pelo salitre dos mortos. A fome de terra, o cloc cloc dos ossos de seus pais, a 
impacincia do seu sangue diante da passividade de Pietro Crespi, estavam relegados 
ao vo da memria. O dia inteiro bordava junto  janela, alheia ao desastre da guerra, 
at que os potes de cermica comeavam a vibrar no aparador e ela se levantava para 
esquentar a comida, muito antes de que aparecessem os esqulidos ces de caa e 
depois o colosso de polainas e esporas, com a espingarda de dois canos, que s vezes 
trazia um veado ao ombro e quase sempre uma fileira de coelhos ou de patos selvagens. 
Uma tarde, no princpio do seu governo, Arcadio foi visit-los de um modo 
intempestivo. No o viam desde que abandonaram a casa, mas se mostrou to 
carinhoso e familiar que o convidaram a compartilhar do ensopado. 

S quando tomavam o caf foi que Arcadio revelou o motivo da sua visita: tinha 
recebido uma denncia contra Jos Arcadio. Dizia-se que comeara arando o seu 
quintal e tinha continuado direto pelas terras contguas, derrubando cercas e 
arrasando ranchos com os seus bois, at se apoderar pela fora das melhores 
propriedades das redondezas. Aos camponeses que no tinha espoliado, porque as 
suas terras no lhe interessavam, imps uma contribuio que cobrava todos os 
sbados com os buldogues e a espingarda de dois canos. No negou. Fundamentava o 
seu direito no fato de que as terras usurpadas tinham sido distribudas por Jos 
Arcadio Buenda nos tempos da fundao, e acreditava possvel provar que seu pai j 
estava louco nesta poca, uma vez que disps de um patrimnio que na realidade 
pertencia  famlia. Era uma alegao desnecessria, porque Arcadio no tinha ido l 
para fazer justia. Ofereceu-se simplesmente para criar um escritrio de registros de 
propriedade para que Jos Arcadio legalizasse os ttulos da terra usurpada, com a 
condio de que delegasse ao governo local o direito de cobrar as contribuies. 
Puseram-se de acordo. Anos depois, quando o Coronel Aureliano Buenda examinou os 


ttulos de propriedade, observou que estavam registradas em nome de seu irmo todas 
as terras que se divisavam desde a colina do seu quintal at o horizonte, inclusive o 
cemitrio, e que, nos onze meses do seu mandato, Arcadio tinha carregado no s com 

o dinheiro das contribuies, mas tambm com o que cobrava do povo pelo direito de 
enterrar os mortos na propriedade de Jos Arcadio.
rsula demorou vrios meses para saber o que j era do domnio pblico, 
porque as pessoas lhe ocultavam o fato, para no aumentar o seu sofrimento. Comeou 
a suspeitar. Arcadio est construindo uma casa, confiou com fingido orgulho ao seu 
marido, enquanto tentava meter-lhe na boca uma colherada de xarope de flor de cuit. 
Entretanto, suspirou involuntariamente: No sei por que, mas isso me cheira mal. 
Mais tarde, quando soube que Arcadio no s j havia terminado a casa, como tambm 
tinha encomendado uma moblia vienense, confirmou a suspeita de que estava 
dispondo dos fundos pblicos. Voc  a vergonha da famlia, gritou-lhe um domingo 
depois da missa, quando o viu na casa nova, jogando baralho com os seus oficiais.
Arcadio no prestou a mnima ateno. S ento foi que rsula soube que tinha uma 
filha de seis meses, e que Santa Sofa de la Piedad, com quem vivia sem se casar, estava 
outra vez grvida. Resolveu escrever ao Coronel Aureliano Buenda, em qualquer lugar 
onde se encontrasse, para p-lo a par da situao. Mas os acontecimentos que se 
precipitaram naqueles dias no s impediram os seus propsitos como tambm 
fizeram com que se arrependesse de hav -los concebido. A guerra, que at ento no 
tinha sido mais que uma palavra para designar uma circunstncia vaga e remota, 
concretizou-se numa realidade dramtica. No fim de fevereiro, chegou a Macondo uma 
anci de aspecto cinzento, montada num burro carregado de vassouras. Parecia to 
inofensiva que as patrulhas de vigilncia deixaram-na passar sem perguntas, como 
mais um dos vendedores que freqentemente chegavam dos povoados do pantanal. Foi 
diretamente ao quartel. Arcadio a recebeu no local onde antes esteve a sala de aula, e 
que ento estava transformada numa espcie de acampamento de retaguarda, com 
redes enroladas e penduradas nas argolas e esteiras amontoadas nos cantos, e fuzis e 
carabinas e at espingardas de caa jogados pelo cho. A anci se endireitou numa 
saudao militar antes de se identificar: 

 Sou o Coronel Gregorio Stevenson. 
Trazia ms notcias. Os ltimos focos da resistncia liberal, conforme disse, 
estavam sendo exterminados. O Coronel Aureliano Buenda, a quem tinha deixado 
batendo em retirada pelos lados de Riohacha, encarregara-o da misso de falar com 
Arcadio. Deveria entregar a praa sem resistncia, impondo como condio que se 
respeitasse sob palavra de honra a vida e as propriedades dos liberais. Arcadio 
examinou com um olhar de comiserao aquele estranho mensageiro que se poderia 
confundir com uma vov fugitiva. 

 O senhor, evidentemente, traz algum papel escrito disse. 
 Evidentemente  respondeu o emissrio  no trago.  fcil entender que, 
nas atuais circunstncias, ningum vai carregar nada de comprometedor. 
Enquanto falava, tirou a combinao e ps na mesa um peixinho de ouro. Acho 
que isto  suficiente, disse. Arcadio comprovou que realmente era um dos peixinhos 
feitos pelo Coronel Aureliano Buenda. Mas algum podia t-lo comprado antes da 
guerra, ou t-lo roubado, e no tinha portanto nenhum mrito como salvo-conduto. O 
mensageiro chegou ao extremo de violar um segredo de guerra para faz-lo crer na sua 
identidade. Revelou que ia em misso para Curaao, onde esperava recrutar exilados 


de todo o Caribe e adquirir armas e petrechos suficientes para tentar um desembarque 
no fim do ano. Confiando nesse plano, o Coronel Aureliano Buenda no era partidrio 
de que naquele momento se fizessem sacrifcios inteis. Mas Arcadio foi inflexvel. Fez 
encarcerar o mensageiro, enquanto comprovava a sua identidade, e resolveu defender a 
praa at a morte. 

No precisou esperar muito te mpo. As notcias do fracasso liberal eram cada 
vez mais concretas. No fim de maro, numa madrugada de chuvas prematuras, a calma 
tensa das semanas anteriores resolveu-se abruptamente com um desesperado toque de 
cometa, seguido de um tiro de canho que destruiu a torre do templo. Realmente, a 
determinao de resistncia de Arcadio era uma loucura. No dispunha de mais de 
cinqenta homens mal armados, com uma munio mxima de vinte cartuchos cada 
um. Mas entre eles, os seus antigos alunos, inflamados por proclamaes altissonantes, 
estavam decididos a sacrificar a pele por uma causa perdida. No meio do tropel de 
botas, de ordens contraditrias, de tiros de canho que faziam tremer a terra, de 
disparos a esmo e de toques de cometa sem sentido, o suposto Coronel Stevenson 
conseguiu falar com Arcadio. Poupe-me a indignidade de morrer no tronco com estes 
trapos de mulher, disse. Se eu tenho de morrer, que seja lutando. Conseguiu 
convenc-lo. Arcadio ordenou que lhe entregassem uma arma com vinte cartuchos, e o 
deixaram com cinco homens defendendo o quartel, enquanto ele ia, com o seu estado-
maior, colocar-se  frente da resistncia. No chegou a alcanar a estrada do pantanal. 
As barricadas tinham sido espedaadas e os defensores se batiam a descoberto nas 
ruas, primeiro at onde lhes chegava a munio dos fuzis, e depois com pistolas contra 
fuzis e por ltimo, no corpo-a-corpo. Diante da iminncia da derrota, algumas 
mulheres se atiraram  rua armadas de paus e facas de cozinha. Naquela confuso, 
Arcadio encontrou Amaranta, que o andava procurando como uma louca, de camisola, 
com duas velhas pistolas de Jos Arcadio Buenda. Entregou o seu fuzil a um oficial 
que tinha sido desarmado na refrega, e fugiu com Amaranta por uma rua transversal,
para lev-la em casa. rsula estava na porta, esperando, indiferente s descargas que 
tinham aberto um buraco na fachada da casa vizinha. A chuva cedia, mas as ruas 
estavam escorregadias e moles como sabo derretido, e as pessoas tinham queadivinhar as distncias no escuro. Arcadio largou Amaranta com rsula e tentou 
enfrentar dois soldados que soltaram uma descarga cega da esquina. As velhas pistolas 
guardadas muitos anos no armrio no funcionaram. Protegendo Arcadio com o corpo,
rsula tentou arrast-lo at em casa. 

 Venha, pelo amor de Deus  gritava.  Chega de maluquice! 
Os soldados apontaram para eles. 
 Solte esse homem, senhora  gritou um deles  ou no nos 
responsabilizamos!
Arcadio empurrou rsula para dentro de casa e se entregou. Pouco depois 
cessaram os disparos e comearam a repicar os sinos. A resistncia tinha sido 
aniquilada em menos de meia hora. Nem um s dos homens de Arcadio sobreviveu ao 
assalto, mas antes de morrer levaram com eles trezentos soldados. O ltimo baluarte 
foi o quartel. Antes de ser atacado, o suposto Coronel Gregorio Stevenson ps em 
liberdade os presos e ordenou aos seus homens que sassem para brigar na rua. A 
extraordinria mobilidade e a pontaria certeira com que disparou os seus vinte 
cartuchos pelas diferentes janelas deram a impresso de que o quartel estava bem 
defendido e os atacantes o espedaaram a tiros de canho. O capito que dirigiu a 


operao se assombrou ao encontrar os escombros desertos e apenas um homem de 
cuecas, morto, com o fuzil descarregado, ainda agarrado por um brao que tinha sido 
arrancado do ombro. Tinha uma frondosa cabeleira de mulher enrolada na nuca com 
um pente, e no pescoo um escapulrio com um peixinho de ouro. Ao vir-lo com a 
ponta da bota para iluminar-lhe a cara, o capito ficou perplexo. Merda, exclamou. 
Outros oficiais se aproximaram. 

 Vejam onde veio aparecer este sujeito  disse-lhes o capito.   Gregorio 
Stevenson. 
Ao amanhecer, depois de um conselho de guerra sumrio, Arcadio foi fuzilado 
contra o muro do cemitrio. Nas duas ltimas horas da sua vida, no conseguiu 
compreender por que havia desaparecido o medo que o atormentara desde a infncia. 
Impassvel, sem se preocupar sequer em demonstrar a sua recente coragem, escutou asinterminveis culpas da acusao. Pensava em rsula, que a essa hora devia estar 
debaixo do castanheiro tomando caf com Jos Arcadio Buenda. Pensava na sua filha 
de oito meses, que ainda no tinha nome, e no que ia nascer em agosto. Pensava em 
Santa Sofia de la Piedad, a quem na noite anterior deixara salgando um veado para o 
almoo de sbado, e sentiu saudade do seu cabelo cado nos ombros e das suas 
pestanas que pareciam artificiais. Pensava na sua gente, sem sentimentalismos, num 
severo ajuste de contas com a vida, comeando a compreender quanto amava na 
realidade as pessoas que mais odiara. O presidente do Conselho de Guerra iniciou o 
seu discurso final, antes que Arcadio se desse conta de que haviam transcorrido duas 
horas. Ainda que as culpas comprovadas no apresentassem mritos mais que 
suficientes, dizia o presidente, a temeridade irresponsvel e criminosa com que o 
acusado empurrou os seus subordinados para uma morte intil bastaria para faz-lo 
merecer a pena mxima. Na escola arrebentada onde experimentou pela primeira vez 
a segurana do poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, 
Arcadio achou ridculo o formalismo da morte. Realmente no se importava com a 
morte, e sim com a vida, por isso a sensao que experimentou quando pronunciaram a 
sentena no foi uma sensao de medo, mas de nostalgia. No falou enquanto no lhe 
perguntaram qual era a sua ltima vontade. 

 Digam  minha mulher  respondeu com voz bem timbrada  que ponhana menina o nome de rsula.  Fez uma pausa e confirmou:  rsula, como a av. E 
digam-lhe tambm que se o outro nascer homem, que lhe ponham o nome de Jos 
Arcadio, mas no pelo tio, e sim pelo av. 
Antes que o levassem ao paredo, o Padre Nicanor tentou assisti-lo. No tenho 
nada de que me arrepender, disse Arcadio, e se ps s ordens do peloto depois de 
tomar uma xcara de caf preto. O chefe do peloto, especialista em execues 
sumrias, tinha um nome que era muito mais do que uma coincidncia: Capito Roque 
Carnicero. A caminho do cemitrio, sob uma chuvinha insistente, Arcadio observou 
que no horizonte despontava uma quarta-feira radiante. A tristeza se esvanecia com a 
nvoa e deixava no seu lugar uma imensa curiosidade. S quando lhe ordenaram ficar 
de costas para o muro foi que Arcadio viu Rebeca, com o cabelo molhado e um vestido 
de flores rosadas, abrindo a casa de par em par. 

Fez um esforo para que o reconhecesse. Com efeito, Rebeca olhou casualmente 
para o muro e ficou paralisada de susto,s podendo reagir para fazer a Arcadio um 
sinal de adeus com a mo. Arcadio respondeu da mesma forma. Nesse instante, 
apontaram para ele as bocas fumegantes dos fuzis, e ele ouviu letra por letra as 


encclicas cantadas de Melquades, e sentiu os passos perdidos de Santa Sofia de la 
Piedad, virgem, na sala de aula, e experimentou no nariz a mesma dureza de gelo que 
lhe havia chamado a ateno nas fossas nasais do cadver de Remedios. Ah, caralho!, 
chegou a pensar, me esqueci de dizer que se nascesse mulher pusessem Remedios. 
Ento, numa s pontada dilacerante, voltou a sentir todo o terror que o atormentara na 
vida. O capito deu a ordem de fogo. Arcadio mal teve tempo de estufar o peito e 
levantar a cabea, sem entender de onde flua o lquido ardente que lhe queimava as 
coxas. 

 Cornos!  gritou.  Viva o Partido Liberal! 

EM MAIO terminou a guerra. Duas semanas antes que o governo o anunciasse 
oficialmente, num decreto altissonante que prometia um castigo sem piedade para os 
promotores da rebelio, o Coronel Aureliano Buenda caiu prisioneiro, quando j 
estava quase alcanando a fronteira ocidental disfarado de feiticeiro indgena. Dos 
vinte e um homens que o seguiram na guerra, quatorze morreram em combate, seis 
estavam feridos, e apenas um o acompanhava no momento da derrota final: o Coronel 
Gerineldo Mrquez. A notcia da captura foi dada em Macondo por uma proclamao 
extraordinria. Est vivo, informou rsula ao marido. Roguemos a Deus para que os 
seus inimigos tenham clemncia. Depois de trs dias de choro, numa tarde em que 
batia um doce de leite na cozinha, ouviu claramente a voz de seu filho muito perto do 
ouvido. E Aureliano, gritou, correndo para. o castanheiro para dar a notcia ao 
marido. No sei como foi o milagre, mas est vivo e vamos v-lo muito brevemente. 
Deu o fato como mais do que certo. Fez lavar o cho da casa e mudar a posio dos 
mveis. Uma semana depois, um rumor sem origem, que no seria estabelecido pelo 
decreto, confirmou dramaticamente o pressgio. O Coronel Aureliano Buenda havia 
sido condenado  morte e a sentena seria executada em Macondo, para escarmento da 
populao. Numa segunda-feira, s dez e vinte da manh, Amaranta estava vestindo 
Aureliano Jos, quando percebeu um tropel longnquo e um toque de cometa, umsegundo antes de que rsula irrompesse no quarto com um grito: J o estotrazendo. A tropa lutava para dominar a coronhadas a multido incontida. rsula e 
Amaranta correram at a esquina, abrindo passagem aos empurres, e ento o viram. 
Parecia um mendigo. Tinha a roupa rasgada, o cabelo e a barba emaranhados, e estava 
descalo. Andava sem sentir a poeira escaldante, com as mos amarradas nas costas 
com uma corda que um oficial a cavalo sustinha na cabea da sela. Perto dele, tambm 
roto e derrotado, o Coronel Gerineldo Mrquez era levado. No estavam tristes. 
Pareciam mais como que perturbados pela multido, que gritava para a tropa todo tipo 
de improprios. 

 Meu filho!  gritou rsula no meio da algazarra, e deu uma bofetada no 
soldado que tentou det-la. O cavalo do oficial empinou. Ento o Coronel Aureliano 
Buenda se deteve, trmulo, afastou os braos de sua me e fixou-lhe nos olhos um 
olhar duro. 
 V para casa, mame  disse.  Pea permisso s autoridades e venha me 
ver na priso.
Olhou para Amaranta, que permanecia indecisa dois passos atrs de rsula, e 
sorriu para ela ao perguntar: O que foi que aconteceu com a sua mo? Amaranta 
levantou a mo com a atadura negra. Uma queimadura, disse, e afastou rsula para 
que no fosse atropelada pelos cavalos. A tropa disparou. Uma guarda especial rodeou 
os prisioneiros e os levou rapidamente para o quartel.

Ao entardecer, rsula visitou o Coronel Aureliano Buenda na priso. Tinha 
tentado conseguir a permisso atravs do Sr. Apolinar Moscote, mas este perdera toda 
a autoridade diante da onipotncia dos militares. O Padre Nicanor estava prostrado 
com uma febre heptica. Os pais do Coronel Gerineldo Mrquez, que no estava 
condenado  morte, tinham tentado v-lo e foram expulsos a coronhadas. Diante da 
impossibilidade de conseguir intermedirios, convencida de que o filho seria fuziladoao amanhecer, rsula fez um embrulho com as coisas que queria levar para ele e foi 
sozinha ao quartel. 

 Sou a me do Coronel Aureliano Buenda anunciou-se. 

Os sentinelas lhe impediram a passagem. Vou entrar de qualquer maneira,
rsula advertiu. De modo que, se tm ordens de disparar, comecem logo. Afastou um 
deles com um empurro e entrou na antiga sala de aula, onde um grupo de soldados 
nus lubrificava as suas armas. Um oficial de uniforme de campanha, queimado de sol, 
com culos de lentes muito grossas e gestos cerimoniosos, fez aos sentinelas um sinal 
para que se retirassem. 

 Sou a me do Coronel Aureliano Buenda  rsula repetiu. 
 A senhora estar querendo dizer  corrigiu o oficial com um sorriso amvel 
 que  a senhora me do Sr. Aureliano Buenda.
rsula reconheceu no seu modo de falar rebuscado a cadncia lnguida da 
gente do pramo, os janotas. 

 Como queira, senhor  admitiu  desde que me permita v-lo. 
Havia ordens superiores de no permitir visitas aos condenados  morte, mas o 
oficial assumiu a responsabilidade de lhe conceder uma entrevista de quinze minutos. 
rsula mostrou a ele o que trazia no embrulho: uma muda de roupa limpa, as botinas 
que o seu filho usara no casamento, e o doce de leite que guardava para ele desde o dia 
em que pressentiu o seu regresso. Encontrou o Coronel Aureliano Buenda no quarto 
dos condenados  morte, estendido num catre e com os braos abertos, porque tinha as 
axilas cheias de furnculos. Haviam-lhe permitido fazer a barba. O bigode grosso de 
pontas torcidas acentuava a angulosidade das mas do rosto. Pareceu a rsula que 
estava mais plido que quando fora embora, um pouco mais alto e mais solitrio do 
que nunca. Sabia dos pormenores da casa: o suicdio de Pietro Crespi, as 
arbitrariedades e o fuzilamento de Arcadio, a impavidez de Jos Arcadio Buenda 
debaixo do castanheiro. Sabia que Amaranta tinha consagrado a sua viuvez de virgem 
 criao de Aureliano Jos, e que este comeava a dar mostras de muito bom juzo e lia 
e escrevia ao mesmo tempo que aprendia a falar. A partir do momento em que entrou 
no quarto, rsula se sentiu inibida pela maturidade do filho, pela sua aura de domnio, 
pelo resplendor de autoridade que irradiava a sua pele. Surpreendeu-se de que 
estivesse to bem informado. A senhora j sabe que eu sou adivinho, ele brincou. E 
acrescentou seriamente: Esta manh, quando me trouxeram, tive a impresso de que 
j havia passado por tudo isto. Na verdade, enquanto a multido rugia  sua 
passagem, ele estava concentrado nos seus pensamentos, assombrado da forma como 
as pessoas tinham envelhecido em um ano. As amendoeiras tinham as folhas gastas. As 
casas pintadas de azul, pintadas em seguida de vermelho e logo pintadas novamente de 
azul, acabaram por adquirir uma colorao indefinvel.

 O que  que voc esperava?  rsula suspirou.  O tempo passa.
  verdade  admitiu Aureliano  mas no tanto. 
Deste modo, a visita tanto tempo esperada, para a qual ambos haviam 
preparado as perguntas e inclusive previsto as respostas, foi outra vez a conversa 
cotidiana de sempre. Quando o sentinela anunciou o fim da entrevista, Aureliano tirou 
de debaixo da esteira do catre um rolo de papis suados. Eram os seus versos. Os 
inspirados por Remedios, que tinha levado consigo quando fora embora, e os escritos 
depois, nas pausas ocasionais da guerra. Prometa que ningum vai ler isto, disse. 
Esta noite mesmo acenda o forno com eles. rsula prometeu e aprumou o corpo para 
lhe dar um beijo de despedida. 

 Trouxe um revlver para voc  murmurou. 

O Coronel Aureliano Buenda verificou que o sentinela no estava por perto. 
No me serve de nada, respondeu em voz baixa. Mas deixe comigo, para que no aapanhem na sada. rsula tirou o revlver da combinao e ele o ps debaixo da 
esteira do catre. E agora no se despea, concluiu com uma firmeza calma. No 
suplique a ningum nem se rebaixe diante de ningum. Faa de conta que j mefuzilaram h muito tempo. rsula mordeu os lbios para no chorar. 

 Ponha pedras quentes nos furnculos  disse. 
Deu meia-volta e saiu do quarto. O Coronel Aureliano Buenda permaneceu de 
p, pensativo, at que a porta se fechou. Ento voltou a se deitar com os braos 
abertos. Desde o princpio da adolescncia, quando comeou a ser consciente dos seus 
pressgios, pensava que a morte se havia de anunciar com um sinal definido, 
inequvoco, irrevogvel, mas faltavam poucas horas para ele morrer, e o sinal no 
aparecia. Certa ocasio uma mulher muito bonita entrou no seu acampamento de 
Tucurinca e pediu aos sentinelas que lhe permitissem v-lo. Deixaram-na passar, 
porque conheciam o fanatismo de algumas mes que enviavam as filhas ao quarto dos 
guerreiros mais notveis, conforme elas mesmas diziam, para melhorar a raa. O 
Coronel Aureliano Buenda estava naquela noite terminando o poema do homem que 
se extraviara na chuva, quando a moa entrou no quarto. Ele lhe deu as costas para 
colocar a folha na gaveta com chave onde guardava os seus versos. E ento sentiu. 
Agarrou a pistola na gaveta sem voltar o rosto. 

 No dispare, por favor  disse. 
Quando se virou com a pistola preparada, a moa tinha abaixado a sua e no 
sabia o que fazer. Assim tinha conseguido escapar de quatro entre onze emboscadas. 
Em compensao, algum que nunca foi capturado entrou certa noite no quartel 
revolucionrio de Manaure e assassinou a punhaladas o seu amigo ntimo, o Coronel 
Magnfico Visbal, a quem tinha cedido o catre para que suasse uma febre. A poucos 
metros, dormindo numa rede no mesmo quarto, ele no se deu conta de nada. Eram 
inteis os seus esforos para sistematizar os pressgios. Apresentavam-se de repente, 
num claro de lucidez sobrenatural, como uma convico absoluta e momentnea, mas 
inatingvel. Algumas vezes eram to naturais que os identificava como pressgios a no 
ser quando se cumpriam. Outras vezes eram taxativos e no se realizavam. Com 
freqncia no eram mais que toques vulgares de superstio. Mas quando o 
condenaram  morte e lhe pediram que expressasse o seu ltimo desejo, no teve a 
menor dificuldade em identificar o pressgio que lhe inspirou a resposta: 

 Peo que a sentena se cumpra em Macondo  disse. O presidente do 
tribunal no gostou. 
 No banque o vivo  disse.  E um estratagema para ganhar tempo. 
 Se no cumprirem a sentena, o problema  de vocs  disse o coronel  
mas esta  a minha ltima vontade. 
A partir de ento os pressgios o abandonaram. No dia em que rsula o visitou 
na priso, depois de muito pensar, chegou  concluso de que talvez a morte no se 
anunciasse daquela vez, porque no dependia do acaso e sim da vontade dos verdugos. 
Passou a noite em claro, atormentado pela dor dos furnculos. Pouco antes da alvorada 
ouviu passos no corredor. J vem, disse para si, e pensou sem motivo em Jos Arcadio 
Buenda, que naquele momento estava pensando nele, sob a madrugada lgubre do 
castanheiro. No sentiu medo nem saudade, mas uma raiva intestinal diante da idia 
de que aquela morte artificiosa no lhe permitiria saber do final de tantas coisas que 


deixava sem terminar. A porta se abriu e entrou o sentinela com uma caneca de caf. 
No dia seguinte,  mesma hora, ainda estava como ento, irritado com a dor nas axilas, 
e aconteceu exatamente a mesma coisa. Na quinta-feira dividiu o doce de leite com os 
sentinelas e ps a roupa limpa, que ficava apertada para ele, e as botinas de verniz. 
Ainda na sexta-feira no tinha sido fuzilado. 

Na realidade, no se atreviam a executar a sentena. A rebeldia do povo fez os 
militares pensarem que o fuzilamento do Coronel Aureliano Buenda traria graves 
conseqncias polticas, no s em Macondo, mas em todo o mbito do pantanal, de 
modo que consultaram as autoridades da capital da provncia. Na noite de sbado, 
enquanto esperavam a resposta, o Capito Roque Carnicero foi com os outros oficiais 
 taberna de Catarino. Apenas uma mulher, quase pressionada por ameaas, atreveu-se 
a lev-lo ao quarto. Elas no querem se deitar com um homem que sabem que vai 
morrer, confessou ela. Ningum sabe como vai ser, mas todo mundo anda dizendo 
que o oficial que fuzilar o Coronel Aureliano Buenda, e todos os soldados do peloto, 
um por um, sero assassinados sem escapatria, mais cedo ou mais tarde, mesmo que 
se escondam no fim do mundo. O Capito Roque Carnicero comentou o fato com os 
outros oficiais, e estes comentaram com os seus superiores. No domingo, ainda que 
ningum tivesse re velado com franqueza, ainda que nenhum ato militar tivesse 
perturbado a calma tensa daqueles dias, todo o povo sabia que os oficiais estavam 
dispostos a escapar, sob toda espcie de pretextos,  responsabilidade da execuo. No 
correio de segunda-feira chegou a ordem oficial: a execuo deveria se realizar ao fim 
de vinte e quatro horas. Naquela noite os oficiais colocaram num gorro sete 
papeizinhos com os seus nomes, e o inclemente destino do Capito Roque Carnicero 
apontou para ele com o papelzinho premiado. O meu azar no escolhe a ocasio, 
disse ele com profunda amargura. Nasci filho da puta e morro filho da puta. As cinco 
da madrugada escolheu o peloto por sorteio, formou-o no ptio, e acordou o 
condenado com uma frase premonitria: 

 Vamos, Buenda  disse a ele.  Chegou a nossa hora. 
 Ento era isto  respondeu o coronel.  Estava sonhando que os 
furnculos tinham arrebentado. 
Rebeca Buenda se levantava s trs da madrugada desde que soube que 
Aureliano seria fuzilado. Ficava no quarto no escuro, vigiando pela janela entreaberta o 
muro do cemitrio enquanto a cama em que estava sentada estremecia com os roncos 
de Jos Arcadio. Esperou a semana inteira com a mesma obstinao secreta com que 
em outra poca esperava as cartas de Pietro Crespi. No vo fuzilar aqui, dizia-lhe 
Jos Arcadio. Vo fuzil-lo  meia-noite no quartel, para que ningum saiba quem 
formou o peloto, e o enterram l mesmo. Rebeca continuou esperando. So to 
burros que vo fuzilar aqui, dizia. To certa estava que tinha previsto a forma como 
abriria a porta para dar-lhe adeus com a mo. No vo traz-lo pela rua, insistia Jos 
Arcadio, s com seis soldados assustados, sabendo que o povo est disposto a tudo. 
Indiferente  lgica do marido, Rebeca continuava na janela. 

 Voc vai ver j que so burros a esse ponto. 
Na tera-feira, s cinco da madrugada, Jos Arcadio tinha tomado caf e soltado 
os cachorros, quando Rebeca fechou a janela e se agarrou na cabeceira da cama para 
no cair. J o trazem, suspirou. Como est bonito. Jos Arcadio chegou-se  janela, 
e o viu, trmulo na claridade da alvorada, com umas calas que tinham sido suas na 
juventude. Estava de costas para o muro e tinha as mos apoiadas na cintura porque 


od quistos ardentes das axilas impediam-no de abaixar os braos. O sujeito se amola 
tanto, murmurava o Coronel Aureliano Buenda. O sujeito se amola tanto para depois 
ser morto por seis maricas sem poder fazer nada. Repetia isso com tanta raiva que 
quase parecia fervor, e o Capito Roque Carnicero se comoveu porque pensou que ele 
estava rezando. Quando o peloto apontou para ele, a raiva se tinha materializado 
numa substncia viscosa e amarga que lhe adormeceu a lngua e o obrigou a fechar os 
olhos. Ento desapareceu o resplendor de alumnio do amanhecer e ele voltou a ver-se 
a si mesmo, bem garoto, de calas curtas e gravata-borboleta, e viu seu pai numa tarde 
esplndida conduzindo-o para o interior da tenda, e viu o gelo. Quando ouviu o grito, 
pensou que era a ordem final do peloto. Abriu os olhos com uma curiosidade de 
calafrio, esperando chocar-se com a trajetria incandescente dos projteis, mas s 
encontrou o Capito Roque Carnicero com as mos para o alto, e Jos Arcadio 
atravessando a rua com a sua espingarda pavorosa pronta para disparar. 

 No abra fogo  disse o capito a Jos Arcadio. O senhor vem a mando da 
Divina Providncia. 
Ali comeou outra guerra. O Capito Roque Carnicero e os seus seis homens 
foram com o Coronel Aureliano Buendia libertar o general revolucionrio Victorio 
Medina, condenado  morte em Riohacha. Pensaram ganhar tempo atravessando a 
serra pelo caminho que seguira Jos Arcadio Buenda para fundar Macondo, mas antes 
de uma semana se convenceram de que era uma empresa impossvel. De modo que 
tiveram que percorrer o perigoso caminho das encostas sem mais munio que a do 
peloto de fuzilamento. Acampavam perto das aldeias, e um deles, com um peixinho 
de ouro na mo, entrava disfarado em pleno dia e estabelecia contato com os liberais 
em repouso, que na manh seguinte saam para caar e no voltavam nunca. Quando 
avistaram Riohacha numa curva da serra, o General Victorio Medina j havia sido 
fuzilado. Os homens do Coronel Aureliano Buenda o proclamaram chefe das foras 
revolucionrias do litoral do Caribe, com a patente de general. Ele assumiu o cargo 
mas recusou a patente e se imps a condio de no aceit-la enquanto no derrubasse 

o regime conservador. Ao fim de trs meses tinham conseguido armar mais de mil 
homens, mas foram exterminados. Os sobreviventes alcanaram a fronteira oriental. 
Na vez seguinte em que se soube deles, tinham desembarcado no Cabo da Vela, 
procedentes do arquiplago das Antilhas e uma comunicao do governo, divulgada 
pelo telgrafo e publicada em manchetes jubilosas por todo o pas, anunciou a morte 
do Coronel Aureliano Buenda. Mas poucos dias depois, um telegrama circular que 
quase alcanou o anterior anunciava outra rebelio nas plancies do Sul. Assim 
comeou a lenda da ubiqidade do Coronel Aureliano Buenda. Informaes 
simultneas e contraditrias declaravam-no vitorioso em Villanueva, derrotado em 
Guacamayal, devorado pelos ndios Motilones, morto numa aldeia do pantanal e outra 
vez sublevado em Urumita. Os dirigentes liberais, que naquele momento estavam 
negociando uma participao no Parlamento, apontaram-no como um aventureiro sem 
representao de partido. O governo nacional assimilou-o  categoria de bandoleiro e 
ps a sua cabea a um prmio de cinco mil pesos. Ao fim de dezesseis derrotas, o 
Coronel Aureliano Buenda saiu da Guajira com dois mil indgenas bem armados, e a 
guarnio surpreendida durante o sono abandonou Riohacha. Ali instituiu o seu 
quartel-general, e proclamou a guerra total contra o regime. A primeira notificao que 
recebeu do governo foi a ameaa de fuzilar o Coronel Gerineldo Mrquez ao fim de 
quarenta e oito horas, se no se retirasse com as suas forcas at a fronteira oriental. O 

Coronel Roque Carnicero, que era ento o chefe do seu estado-maior, entregou-lhe o 
telegrama com um gesto de consternao, mas ele o leu com imprevisvel alegria. 

 Que bom!  exclamou.  J temos telgrafo em Macondo. 
Sua resposta foi taxativa. Dentro de trs meses esperava estabelecer o seu 
quartel-general em Macondo. Se ento no encontrasse vivo o Coronel Gerineldo 
Mrquez, fuzilaria sumariamente toda a oficialidade que estivesse prisioneira no 
momento, comeando pelos generais, e baixaria ordens aos seus subordinados para 
que procedessem de igual forma at o final da guerra. Trs meses depois, quando 
entrou vitorioso em Macondo, o primeiro abrao que recebeu na estrada do pantanal 
foi o do Coronel Gerineldo Mrquez.

A casa estava cheia de crianas. rsula tinha acolhido Santa Sofa de la Piedad, 
com a filha mais velha e um par de gmeos que nasceram cinco meses depois do 
fuzilamento de Arcadio. Contra a ltima vontade do fuzilado, batizou a menina com o 
nome de Remedios. Estou certa de que foi isso o que Arcadio quis dizer, alegou. Novamos cham-la de rsula, porque se sofre muito com esse nome. Os gmeos se 
chamaram Jos Arcadio Segundo e Aureliano Segundo. Amaranta tomou o encargo de 
cuidar de todos. Colocou cadeirinhas de madeira na sala, e instituiu um jardim de 
infncia com outras crianas de famlias vizinhas. Quando o Coronel Aureliano 
Buenda regressou, entre estampidos de foguetes e repiques de sinos, um coro infantil 
lhe deu as boas-vindas na casa. Aureliano Jos, comprido como o av, vestido de oficial 
revolucionrio, rendeu-lhe honras militares. 

Nem todas as notcias eram boas. Um ano depois da fuga do Coronel Aureliano 
Buenda, Jos Arcadio e Rebeca foram viver na casa construda por Arcadio. Ningum 
soube da sua interveno para impedir o fuzilamento. Na casa nova, situada no melhor 
lugar da praa,  sombra de uma amendoeira privilegiada com trs ninhos de 
pintassilgos com uma porta grande para as visitas e quatro janelas para a luz, 
estabeleceram um lar aprazvel. As antigas amigas de Rebeca, entre elas quatro irms 
Moscote que continuavam solteiras, reiniciaram as sesses de bordado, interrompidas 
anos antes na varanda das begnias. Jos Arcadio continuou desfrutando as terras 
usurpadas, cujos ttulos foram reconhecidos pelo Governo Conservador. Todas as 
tardes era visto voltando a cavalo, com os seus ces monteses e a sua espingarda de 
dois canos, e uma fieira de coelhos pendurados na sela. Uma tarde de setembro, diante 
da ameaa de uma tempestade, voltou para casa mais cedo que de costume. 
Cumprimentou Rebeca na copa, amarrou os cachorros no quintal, pendurou os 
coelhos na cozinha, para salg-los mais tarde, e foi para o quarto trocar de roupa. 
Rebeca declarou depois que quando o marido entrou no quarto, ela se fechou no 
banheiro e no percebeu nada. Era uma verso difcil de acreditar, mas no havia outra 
mais verossmil, e ningum pde conceber um motivo para que Rebeca assassinasse o 
homem que a tinha feito feliz. Este foi talvez o nico mistrio que nunca se esclareceu 
em Macondo. Logo que Jos Arcadio fechou a porta do quarto, o estampido de um tiro 
retumbou na casa. Um fio de sangue passou por debaixo da porta, atravessou a sala, 
saiu para a rua, seguiu reto pelas caladas irregulares, desceu degraus e subiu 
pequenos muros, passou de largo pela Rua dos Turcos, dobrou uma esquina  direita e 
outra  esquerda, virou em ngulo reto diante da casa dos Buenda, passou por debaixo 
da porta fechada, atravessou a sala de visitas colado s paredes para no manchar os 
tapetes, continuou pela outra sala, evitou em curva aberta a mesa da copa, avanou 
pela varanda das begnias e passou sem ser visto por debaixo da cadeira de Amaranta, 


que dava uma aula de Aritmtica a Aureliano Jos, e se meteu pela despensa e apareceuna cozinha onde rsula se dispunha a partir trinta e seis ovos para o po.

 Ave Maria Purssima!  gritou rsula. 
Seguiu o fio de sangue em sentido contrrio, e em busca da sua origem 
atravessou a despensa, passou pela varanda das begnias onde Aureliano Jos cantava 
que trs e trs so seis e seis mais trs so nove, e atravessou a copa e as salas e seguiu 
em linha reta pela rua, e em seguida dobrou  direita e depois  esquerda at a Rua dos 
Turcos, sem se lembrar que ainda trazia vestidos o avental de cozinha e as chinelas 
caseiras, e saiu para a praa e se meteu pela porta de uma casa onde no havia estado 
nunca, e empurrou a porta do quarto e quase se sufocou com o cheiro de plvora 
queimada, e encontrou Jos Arcadio cado de bruos no cho, sobre as polainas que 
acabava de tirar, e viu a fonte original do fio de sangue que j havia deixado de fluir do 
seu ouvido direito. No encontraram nenhuma ferida no seu corpo nem puderam 
localizar a arma. Tampouco foi possvel tirar o penetrante cheiro de plvora do 
cadver. Primeiro o lavaram trs vezes com sabo e bucha, depois o esfregaram com sal 
e vinagre, em seguida com cinza e limo, e por ltimo o meteram num tonel de gua 
sanitria e o deixaram repousar seis horas. Tanto o esfregaram que os arabescos da 
tatuagem j comeavam a desbotar. Quando conceberam o recurso desesperado de 
temper-lo com pimenta e cominho e folhas de louro e ferva-lo um dia inteiro em fogo 
lento, j comeara a se decompor, e tiveram que enterr-lo s pressas. Fecharam-no 
hermeticamente num atade especial de dois metros e trinta centmetros de 
comprimento e um metro e dez centmetros de largura, reforado por dentro com 
chapas de ferro e aparafusado com cavilhas de ao, e ainda assim se percebia o cheiro 
nas ruas por onde passou o enterro. O Padre Nicanor, com o fgado inchado e tenso 
como um tambor, benzeu-o da cama. Ainda que nos meses seguintes reforassem a 
tumba com paredes superpostas e jogassem entre elas cinza socada, serragem e cal 
viva, o cemitrio continuou cheirando a plvora at muitos anos mais tarde, quando os 
engenheiros da companhia bananeira recobriram a sepultura com uma couraa de 
cimento armado. Logo que levaram o cadver, Rebeca fechou as portas da casa e se 
enterrou em vida, coberta por uma grossa crosta de desdm que nenhuma tentao 
terrena conseguiu romper. Saiu  rua numa ocasio, j muito velha, com uns sapatos 
cor de prata antiga e um chapu de flores minsculas, na poca em que passou pelo 
povoado o Judeu Errante e provocou um calor to intenso que os pssaros varavam as 
telas das janelas para morrer nos quartos. A ltima vez que algum a viu com vida foi 
quando matou com um tiro certeiro um ladro que tentou forar a porta da sua casa. 
Salvo Argnida, sua criada e confidente, ningum voltou a ter contato com ela desde 
ento. 

Em certa ocasio se soube que escrevia cartas para o Bispo,a quem considerava 
como primo-irmo seu, mas nunca se disse que tivesse recebido resposta. O povo se 
esqueceu dela. 

Apesar do seu regresso triunfal, o Coronel Aureliano Buenda no se 
entusiasmava com as aparncias. As tropas do governo abandonavam as praas sem 
resistncia, e isso suscitava na populao liberal uma iluso de vitria que no 
convinha desmentir, mas os revolucionrios sabiam da verdade, e mais que ningum o 
Coronel Aureliano Buenda. Embora nesse momento mantivesse mais de cinco mil 
homens sob as suas ordens e dominasse dois estados do litoral, tinha conscincia de 
estar encurralado contra o mar, e metido numa situao poltica to confusa que 


quando ordenou restaurar a torre da igreja arrebentada por um tiro de canho do 
exrcito, o Padre Nicanor comentou no seu leito de enfermo: Isto  um disparate: os 
defensores da f de Cristo destroem o templo e os maons mandam consertar. 
Procurando uma vlvula de escape, passava horas e horas no telgrafo, conferenciando 
com os chefes de outras praas, e cada vez saa com a impresso mais definida de que a 
guerra estava estancada. 

Quando se recebiam notcias de novos triunfos liberais, eles eram proclamados 
com mensagens de jbilo, mas ele media nos mapas o seu verdadeiro alcance, e 
compreendia que as suas hostes estavam penetrando na selva, se defendendo da 
malria e dos mosquitos, avanando no sentido contrrio ao da realidade. Estamos 
perdendo tempo, queixava-se diante dos seus oficiais. Estaremos perdendo tempo 
enquanto os cornos do partido estiverem mendigando um assento no Congresso. Em 
noites de insnia, estendido de peito para cima na rede pendurada no mesmo quarto 
em que esteve condenado  morte, evocava a imagem dos advogados vestidos de negro 
que abandonavam o palcio presidencial no gelo da madrugada com a gola das casacas 
levantada at as orelhas, esfregando as mos, cochichando, refugiando-se nos cafs 
lgubres do amanhecer, para especular sobre o que quis dizer o presidente quando 
disse que sim, ou o que quis dizer quando disse que no, e para supor inclusive o que o 
presidente estava pensando quando disse uma coisa inteiramente diferente, enquanto 
ele espantava os mosquitos a trinta e cinco graus de temperatura, sentindo que se 
aproximava a madrugada temvel em que teria que dar aos seus homens a ordem de se 
atirar ao mar. 

Certa noite de incerteza em que Pilar Ternera cantava no ptio com a tropa, ele 
pediu que lesse o seu futuro no baralho. Cuidado com a boca, foi tudo quanto Pilar 
Ternera tirou a limpo, depois de estender e embaralhar as cartas trs vezes. No sei o 
que quer dizer, mas o sinal  muito claro: cuidado com a boca. Dois dias depois 
algum deu a um ordenana uma caneca de caf sem acar, e o ordenana a passou a 
outro, e este a outro, at que chegou de mo em mo ao escritrio do Coronel 
Aureliano Buenda. No tinha pedido caf, mas j que estava ali, o coronel tomou. 
Levava uma dose de noz vmica suficiente para matar um cavalo. Quando o levarampara casa, estava duro e curvado e tinha a lngua partida entre os dentes. rsula 
disputou-o  morte. Depois de lavar-lhe o estmago com vomitrios, envolveu-o em 
cobertores quentes e lhe deu claras de ovos durante dois dias, at que o corpo 
estragado recobrou a temperatura normal. No quarto dia estava fora de perigo. Contraa sua vontade, pressionado por rsula e os oficiais, permaneceu na cama mais uma 
semana. S ento soube que no tinham queimado os seus versos. No quis meprecipitar, explicou rsula. Naquela noite, quando ia acender o forno, achei que era 
melhor esperar que trouxessem o cadver. Na neblina da convalescena, rodeado 
pelas empoeiradas bonecas de Remedios, o Coronel Aureliano Buenda evocou na 
leitura dos seus versos os instantes decisivos da sua existncia. Voltou a escrever. 
Durante muitas horas, ao lado dos sobressaltos de uma guerra sem futuro, traduziu em 
versos rimados as suas experincias na borda da morte. Ento os seus pensamentos se 
fizeram to claros que os pde examinar pelo direito e pelo avesso. Uma noite 
perguntou ao Coronel Gerineldo Mrquez: 

 Diga uma coisa, compadre: por que voc est brigando? 
 Por que h de ser, compadre.  respondeu o Coronel Gerineldo Mrquez  
pelo grande Partido Liberal. 


 Feliz  voc que sabe disso  respondeu ele.  Eu, de minha parte, s agora 
percebo que estou brigando por orgulho. 
 Isso  ruim  disse o Coronel Gerineldo Mrquez. 
O Coronel Aureliano Buenda se divertiu com o seu sobressalto. 
Naturalmente, disse. Mas em todo caso,  melhor isso que no saber por que se 
briga. Olhou-o nos olhos, e acrescentou sorrindo: 

 Ou brigar como voc, por alguma coisa que no significa nada para ningum. 
Seu orgulho o havia impedido de fazer contatos com os grupos armados do 
interior do pas enquanto os dirigentes do partido no retificassem em pblico a sua 
declarao de que era um bandoleiro. Sabia, entretanto, que logo que deixasse de lado 
esses escrpulos quebraria o crculo vicioso da guerra. A convalescena permitiu-lhe 
refletir. Ento conseguiu que rsula lhe desse o resto da herana enterrada e as suas 
vultosas economias: nomeou o Coronel Gerineldo Mrquez chefe civil e militar de 
Macondo, e foi estabelecer contato com os grupos rebeldes do interior. 

O Coronel Gerineldo Mrquez no s era o homem de mais confiana doCoronel Aureliano Buenda, mas tambm era recebido por rsula como se fosse um 
membro da famlia. Frgil, tmido, de uma boa educao natural, estava entretanto 
melhor capacitado para a guerra que para o governo. Os seus assessores polticos o 
enredavam com facilidade em labirintos tericos. Mas conseguiu impor em Macondo o 
ambiente de paz rural com que sonhava o Coronel Aureliano Buenda para morrer de 
velho, fabricando peixinhos de ouro.

Embora vivesse na casa de seus pais, almoava na de rsula duas ou trs vezes 
por semana. Iniciou Aureliano Jos no manejo das armas de fogo, deu-lhe uma 
instruo militar prematura e durante vrios meses levou-o para viver no quartel, com 

o consentimento de rsula, para que se fosse fazendo homem. Muitos anos antes, 
sendo ainda quase um menino, Gerineldo Mrquez havia declarado o seu amor a 
Amaranta. Ela estava na poca to iludida com a sua paixo solitria por Pietro Crespi 
que se riu dele. Gerineldo Mrquez esperou. Certa vez enviou da priso um bilhetinho 
a Amaranta, pedindo o favor de bordar uma dzia de lenos de cambraia com as 
iniciais do seu pai. Mandou-lhe o dinheiro. Ao fim de uma semana, Amaranta levou-lhe 
na priso a dzia de lenos bordados junto com o dinheiro, e ficaram vrias horas 
falando do passado. Quando eu sair daqui me caso com voc, disse Gerineldo 
Mrquez ao se despedir. Amaranta riu, mas continuou pensando nele enquanto 
ensinava as crianas a ler, e desejou reviver para ele a sua paixo juvenil por Pietro 
Crespi. Aos sbados, dia de visita aos presos, passava pela casa dos pais de GerineldoMrquez e os acompanhava  priso. Um desses sbados, rsula se surpreendeu ao vla 
na cozinha, esperando que sassem os biscoitos do forno para escolher os melhores e 
embrulh-los num guardanapo que bordara especialmente para a ocasio. 
 Case com ele  disse a ela.  Dificilmente voc encontrar outro homem 
como esse. Amaranta fingiu uma reao de desprezo. 
 No preciso de andar caando homens  respondeu. 
 Levo estes biscoitos para Gerineldo porque me d pena saber que mais cedo 
ou mais tarde vo fuzil-lo. 
Falou isso sem pensar, mas foi nessa poca que o governo tornou pblica a 
ameaa de fuzilar o Coronel Gerineldo Mrquez se as foras rebeldes no entregassem 
Riohacha. As visitas foram suspensas. Amaranta se fechou para chorar, angustiada por 
um sentimento de culpa semelhante ao que a atormentara quando da morte de 


Remedios, como se novamente tivessem sido as suas palavras irrefletidas as 
responsveis por uma morte. Sua me a consolou. Assegurou-lhe que o Coronel 
Aureliano Buenda faria alguma coisa para impedir o fuzilamento, e prometeu que ela 
mesma se encarregaria de atrair Gerineldo Mrquez, quando terminasse a guerra. 
Cumpriu a promessa antes do prazo previsto. Quando Gerineldo Mrquez voltou para 
casa investido da sua nova dignidade de chefe civil e militar, recebeu-o como a um 
filho, concebeu refinadas gentilezas para ret-lo, e rogou com todo o nimo do seu 
corao que recordasse o seu propsito de se casar com Amaranta. As suas splicas 
pareciam certeiras. Nos dias em que ia almoar l, o Coronel Gerineldo Mrquezpassava a tarde na varanda das begnias jogando xadrez chins com Amaranta. rsula 
levava para eles o caf com leite e biscoitos e tomava conta das crianas para que no 
os incomodassem. Amaranta, na realidade, se esforava por acender no seu corao as 
cinzas esquecidas da sua paixo juvenil. Com uma ansiedade que chegou a ser 
intolervel, esperava os dias de almoo, as tardes de xadrez chins, e o tempo ia 
voando na companhia daquele guerreiro de nome nostlgico, cujos dedos tremiam 
imperceptivelmente ao mover as peas. Mas no dia em que o Coronel Gerineldo 
Mrquez lhe reiterou a sua vontade de casar, ela o recusou. 

 No vou me casar com ningum  disse  e ainda menos com voc, que 
ama tanto a Aureliano que vai casar comigo porque no pode casar com ele. 
O Coronel Gerineldo Mrquez era um homem paciente. Voltarei a insistir, 
disse. Mais cedo ou mais tarde ela se convence. Continuou freqentando a casa. 
Trancada no quarto, remoendo um pranto secreto, Amaranta tapava os ouvidos com osdedos para no escutar a voz do pretendente que contava a rsula as ltimas notcias 
da guerra, e apesar de estar morrendo de vontade de v-lo, teve foras para no sair ao 
seu encontro. 

O Coronel Aureliano Buenda dispunha ento de tempo para enviar de quinze 
em quinze dias um informe pormenorizado a Macondo. Mas apenas uma vez, quaseoito meses depois de ter partido, rsula lhe escreveu. Um emissrio especial trouxe 
em casa um envelope lacrado, dentro do qual havia um papel escrito com a caligrafiapreciosa do coronel: Tomem muito cuidado com papai porque ele vai morrer. rsula se 
alarmou. Se Aureliano est dizendo, Aureliano sabe, disse. E pediu ajuda para levar 
Jos Arcadio Buenda para o seu quarto. No s estava to pesado como sempre, mas 
tambm na sua prolongada estadia debaixo do castanheiro tinha desenvolvido a 
faculdade de aumentar de peso voluntariamente, a ponto de sete homens no poderem 
com ele e terem de lev-lo arrastado para a cama. Um bafo de fungos novos, de orelhade-
pau, de antiga e concentrada intemprie impregnou o ar do quarto quando 
comeou a respir-lo o velho colossal macerado pelo sol e pela chuva. No dia seguinte 
no amanheceu na cama. Depois de procur-lo por todos os quartos, rsula o 
encontrou outra vez debaixo do castanheiro. Ento o amarraram na cama. Apesar da 
sua fora intacta, Jos Arcadio Buenda no estava em condies de lutar. Tanto fazia 
para ele. Se voltou ao castanheiro no foi por vontade, mas por um costume do corpo.
rsula cuidava dele, dava-lhe de comer, levava-lhe notcias de Aureliano. Mas na 
realidade, a nica pessoa com quem ele podia ter contato, h muito tempo j, era 
Prudencio Aguilar. J quase pulverizado pela profunda decrepitude da morte, 
Prudencio Aguilar vinha duas vezes por dia conversar com ele. Falavam de galos. 
Prometiam fazer uma criao de animais magnficos, no tanto para desfrutar umas 
vitrias que no momento j no lhes fariam falta, mas para ter alguma coisa com que se 


distrair nos tediosos domingos da morte. Era Prudencio Aguilar quem o limpava, quem 
lhe dava de comer e quem lhe levava notcias esplndidas de um desconhecido que se 
chamava Aureliano e que era coronel na guerra. Quando s, ele se consolava com o 
sonho dos quartos infinitos. Sonhava que se levantava da cama, abria a porta e passava 
para outro quarto igual, com a mesma cama de cabeceira de ferro batido, a mesma 
poltrona de vime e o mesmo quadrinho da Virgem dos Remedios na parede do fundo. 
Desse quarto passava para outro exatamente igual, cuja porta abria para passar para 
outro exatamente igual, e em seguida para outro exatamente igual, at o infinito. 
Gostava de ir de quarto em quarto, como numa galeria de espelhos paralelos, at que 
Prudencio Aguilar lhe tocava o ombro. Ento voltava de quarto em quarto, acordando 
para trs, percorrendo o caminho inverso, e encontrava Prudencio Aguilar no quarto 
da realidade. Uma noite, porm, duas semanas depois de o terem levado para a cama, 
Prudencio Aguilar tocou-lhe o ombro num quarto intermedirio, e ele ficou ali para 
sempre, pensando que era o quarto real. Na manh seguinte, rsula lhe levava o caf 
quando viu se aproximar um homem pelo corredor. Era pequeno e atarracado, com um 
terno de fazenda negra e um chapu tambm negro, enorme, enterrado at os olhostaciturnos. Meu Deus, pensou rsula. Eu teria jurado que era Melquades. Era 
Cataure, o irmo de Visitacin, que havia abandonado a casa fugindo da peste da 
insnia, e de quem nunca se tornou a ter notcia. Visitacin perguntou-lhe por que 
tinha voltado, e ele respondeu na sua lngua solene: 

 Vim ao funeral do rei. 
Ento entraram no quarto de Jos Arcadio Buenda, sacudiram-no com toda a 
fora, gritaram-lhe ao ouvido, puseram um espelho diante das fossas nasais, mas no 
puderam despert-lo. Pouco depois, quando o carpinteiro tomava as medidas para o 
atade, viram pela janela que estava caindo uma chuvinha de minsculas flores 
amarelas. Caram por toda a noite sobre o povoado, numa tempestade silenciosa, e 
cobriram os tetos e taparam as portas, e sufocaram os animais que dormiam ao relento. 
Tantas flores caram do cu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha 
compacta, e eles tiveram que abrir caminho com ps e ancinhos para que o enterro 
pudesse passar. 


SENTADA na cadeira de balano de vime, com o trabalho interrompido no colo, 
Amaranta contemplava Aureliano Jos, que tinha o queixo coberto de espuma e afiava 
a navalha numa correia para se barbear pela primeira vez. Sangrou as espinhas, cortou 

o lbio superior tentando modelar um bigode de pelos louros, e depois de tudo ficou 
igual a antes, mas o trabalhoso processo deixou em Amaranta a impresso de que 
naquele instante tinha comeado a envelhecer. 
 Voc est igual a Aureliano quando tinha a sua idade  disse.  J  um 
homem. J o era h muito tempo, desde o dia longnquo em que Amaranta acreditou 
que ainda era um menino e continuou se despindo no banheiro diante dele, como 
fizera sempre, como se acostumara a fazer desde que Pilar Ternera o entregou a ela 
para que acabasse de cri-lo. Na primeira vez em que ele a viu, a nica coisa que lhe 
chamou a ateno foi a profunda depresso entre os seios. Era na poca to inocente 
que perguntou o que havia acontecido, e Amaranta fingiu cavar o peito com a ponta 
dos dedos e respondeu: Tiraram fatias e fatias e fatias. Tempos depois, quando ela se 
restabeleceu do suicdio de Pietro Crespi e voltou a se banhar com Aureliano Jos, este 
j no se fixou na depresso, e sim experimentou um estremecimento desconhecido 
diante da viso dos seios esplndidos de mamilos arroxeados. Continuou a examin-la, 
descobrindo palmo a palmo o milagre da sua intimidade, e sentiu que a sua pele se 
arrepiava na contemplao, como se arrepiava a pele dela ao contato da gua. Desde 
bem garoto tinha o costume de abandonar a rede para amanhecer na cama de 
Amaranta, cujo contato tinha a virtude de dissipar o medo do escuro. Desde o dia, 
porm, em que tomou conscincia da sua nudez, no era o medo do escuro que o 
impulsionava a se meter no seu mosquiteiro e sim o desejo de sentir a respirao 
morna de Amaranta ao amanhecer. Certa madrugada, na poca em que ela recusou o 
Coronel Gerineldo Mrquez, Aureliano Jos acordou com a sensao de falta de ar. 
Sentiu os dedos de Amaranta como uns vermezinhos quentes e ansiosos que 
procuravam o seu ventre. Fingindo dormir mudou de posio para eliminar toda e 
qualquer dificuldade, e ento sentiu a mo sem a atadura negra mergulhando como um 
molusco cego entre as algas da sua ansiedade. Embora aparentassem ignorar o que 
ambos sabiam, e o que cada um sabia que o outro sabia, a partir daquela noite, ficaram 
mancomunados por uma cumplicidade inviolvel. Aureliano Jos no podia conciliar o 
sono enquanto no escutava a valsa das doze no relgio da sala, e a madura donzela 
cuja pele comeava a entristecer no tinha um s instante de sossego enquanto no 
sentia deslizar no mosquiteiro aquele sonmbulo que ela tinha criado, sem pensar que 
seria um paliativo para a sua solido. Ento, no s dormiram juntos, nus, trocando 
carcias extenuantes, como tambm se perseguiam pelos cantos da casa e se fechavam 
nos quartos a qualquer hora, num permanente estado de exaltao sem alvio. Quase 
foram surpreendidos por rsula, uma tarde em que ela entrou na despensa quando 
eles comeavam a se beijar. Voc gosta muito da sua tia? perguntou ela de um modoinocente a Aureliano Jos. Ele respondeu que sim. Faz bem, concluiu rsula e 
acabou de medir a farinha para o po e voltou  cozinha. Aquele episdio tirou 
Amaranta do delrio. Percebeu que tinha ido longe demais, que j no estava brincando 
com uma criana aos beijinhos, e sim chafurdando numa paixo outonal, perigosa e 
sem futuro, e cortou tudo de uma vez. Aureliano Jos, que na poca terminava o 
servio militar, acabou por admitir a realidade e foi dormir no quartel. Aos sbados ia 
com os soldados  taberna de Catarino. Consolava-se da sua abrupta solido, da sua 
adolescncia prematura, com mulheres que cheiravam a flores mortas e que ele 

idealizava nas trevas e transformava em Amaranta, atravs de ansiosos esforos de 
imaginao. 

Pouco depois, comearam a chegar notcias contraditrias da guerra. Enquanto 

o prprio governo admitia os progressos da rebelio, os oficiais de Macondo tinham 
informaes confidenciais da iminncia de uma paz negociada. No princpio de abril, 
um emissrio especial se identificou diante do Coronel Gerineldo Mrquez. 
Confirmou-lhe que, na verdade, os dirigentes do partido tinham estabelecido contato 
com chefes rebeldes do interior, e estavam s vsperas de entrar num acordo para o 
armistcio, em troca de trs ministrios para os liberais, uma representao minoritria 
no Parlamento e a anistia geral para os rebeldes que depusessem as armas. O emissrio 
trazia uma ordem altamente confidencial do Coronel Aureliano Buenda, que no 
estava de acordo com os termos do armistcio. O Coronel Gerineldo Mrquez devia 
selecionar cinco dos seus melhores homens e se preparar para abandonar com eles o 
pas. A ordem foi cumprida dentro do mais absoluto segredo. Uma semana antes que 
se anunciasse o acordo, e no meio de uma saraivada de boatos contraditrios, o 
Coronel Aureliano Buenda e dez oficiais de confiana, entre eles o Coronel Roque 
Carnicero, chegaram sigilosamente a Macondo depois da meia-noite, dispersaram a 
guarnio, enterraram as armas e destruram os arquivos. Ao amanhecer, j haviam 
abandonado o povoado com o Coronel Gerineldo Mrquez e os seus cinco oficiais. Foiuma operao to rpida e confidencial que rsula no soube de nada a no ser na 
ltima hora, quando algum deu umas pancadinhas na janela do seu quarto e 
murmurou: Se a senhora quer ver o Coronel Aureliano Buenda, chegue na portaagora. rsula pulou da cama e saiu na porta de camisola, e s conseguiu perceber o 
galope da cavalaria, que abandonava o povoado no meio de uma silenciosa poeirada. 
Apenas no dia seguinte veio a saber que Aureliano Jos havia ido embora com o pai. 
Dez dias depois que um comunicado conjunto do governo e da oposio 
anunciou o fim da guerra, veio a notcia do primeiro levante armado do Coronel 
Aureliano Buenda na fronteira ocidental. Suas foras escassas e mal armadas foram 
desbaratadas em menos de uma semana. Mas no decurso do ano, enquanto liberais e 
conservadores procuravam fazer o pas acreditar na reconciliao, ele tentou mais sete 
rebelies. Certa noite bombardeou Riohacha de uma escuna, e a guarnio, em 
represlia, tirou da cama os quatorze liberais mais conhecidos da povoao e os 
fuzilou. Durante mais de quinze dias, Aureliano ocupou uma alfndega de fronteira, e 
dali dirigiu  nao um chamado  guerra geral. Outra das suas expedies perdeu trs 
meses na selva, numa disparatada tentativa de atravessar mais de mil e quinhentos 
quilmetros de territrios virgens para proclamar a guerra nos subrbios da capital. 
Certa ocasio, esteve a menos de vinte quilmetros de Macondo, e foi obrigado pelas 
patrulhas do governo a se internar nas montanhas, muito perto da regio encantada 
onde o seu pai encontrara muitos anos antes o fssil de um galeo espanhol. 

Nessa poca, morreu Visitacin. Deu-se ao luxo de morrer de morte natural, 
depois de haver renunciado a um trono por medo da insnia, e a sua ltima vontade foi 
que desenterrassem de debaixo da sua cama o ordenado economizado por mais de 
vinte anos, e o mandassem ao Coronel Aureliano Buenda, para que continuasse aguerra. rsula, porm, no se deu ao trabalho de tirar esse dinheiro, porque naqueles 
dias corria boato de que o Coronel Aureliano Buenda tinha sido morto num 
desembarque perto da capital da provncia. A notcia oficial  a quarta em menos de 
dois anos  foi tida comoverdadeira durante quase seis meses pois nada se voltou a 


saber dele. De repente, quando rsula e Amaranta j haviam superposto um novo luto 
aos anteriores, chegou uma notcia extraordinria. O Coronel Aureliano Buenda 
estava vivo, mas tinha desistido de fustigar o governo do seu pas, se havia agregado ao 
federalismo triunfante em outras repblicas do Caribe. Aparecia com nomes 
diferentes, cada vez mais longe da sua terra. Depois se haveria de saber que a idia que 
ento o animava era a unificao das foras federalistas da Amrica Central, para 
varrer os regimes conservadores, do Alasca  Patagnia. A primeira notcia direta que 
rsula recebeu dele, vrios anos depois de ter partido, foi uma carta amassada e 
apagada que andou de mo em mo, enviada de Santiago de Cuba. 

 Ns o perdemos para sempre  exclamou rsula ao l-la.  Nesse andar, 
vai passar o Natal no fim do mundo. 
A pessoa a quem o disse, que foi a primeira a quem mostrou a carta, era o 
general conservador Jos Raquel Moncada, alcaide de Macondo desde que terminou a 
guerra. Esse Aureliano, comentou o General Moncada, pena que no seja 
conservador. Admirava-o de verdade. Como muitos civis conservadores, Jos Raquel 
Moncada tinha feito a guerra em defesa do seu partido e alcanado o ttulo de general 
no campo de batalha, embora carecesse de vocao militar. Pelo contrrio, como 
acontecia a muitos dos seus correligionrios, era antimilitarista. Considerava o pessoal 
de armas como vagabundos sem princpios, intrigantes e ambiciosos, especialistas em 
enfrentar os civis para cair na desordem. Inteligente, simptico, sanguneo, bom garfo e 
fantico por brigas de galo, foi em certo momento o adversrio mais temvel do 
Coronel Aureliano Buenda. Conseguiu impor a sua autoridade sobre os militares de 
carreira num amplo setor do litoral. Certa vez em que se viu forado, por 
convenincias estratgicas, a abandonar uma praa s foras do Coronel Aureliano 
Buenda, deixou-lhe duas cartas. Numa delas, muito extensa, convidava-o a participar 
de uma campanha em conjunto para humanizar a guerra. A outra carta era para a sua 
esposa, que vivia em territrio liberal, e a deixou com o pedido de faz-la chegar ao seu 
destino. A partir de ento, mesmo nos perodos mais encarniados da guerra, os dois 
comandantes combinaram trguas para trocar prisioneiros. Eram pausas com um certo 
ambiente festivo e que o General Moncada aproveitava para ensinar o Coronel 
Aureliano Buenda a jogar xadrez. Tornaram-se grandes amigos. Chegaram inclusive a 
pensar na possibilidade de coordenar os elementos populares de ambos os partidos 
para acabar com a influncia dos militares e com os polticos profissionais, e instaurar 
um regime humanitrio que aproveitasse o melhor de cada doutrina. Quando terminou 
a guerra, enquanto o Coronel Aureliano Buenda escapulia pelos desfiladeiros da 
subverso permanente, o General Moncada foi nomeado interventor de Macondo. 
Vestiu o seu traje civil, substituiu os militares por agentes da policia desarmados, fez 
respeitar as leis de anistia e auxiliou algumas das famlias dos liberais mortos em 
campanha. Conseguiu que Macondo fosse promovido a municpio e foi o seu primeiro 
alcaide, e criou um ambiente de confiana que fez com que se pensasse na guerra como 
num absurdo pesadelo do passado. O Padre Nicanor, consumido pelas febres 
hepticas, foi substitudo pelo Padre Coronel, a quem chamavam O Cachorrinho,* 

* 

 interessante observar que esta mesma alcunha  a por que se faz conhecida uma das imagens de 
Cristo de maior devoo (El Cachorro), em Sevilha, na poca da Semana Santa. Muitas so as lendas que correm 
para explicar tal apelido, mas nenhuma delas  suficientemente explcita. Cumpre apenas notar que cachorro, 
em espanhol, significa fundamentalmente filhote (de co, lobo, leo etc....). Por outro lado, uma das figuras que 
a superstio traz para o diabo  exatamente o co. A dose de ironia que haveria na alcunha do padre torna-se 


veterano da primeira guerra federalista. Bruno Crespi, casado com Amparo Moscote, e 
cuja loja de brinquedos e instrumentos musicais no parava de prosperar, construiu 
um teatro, que as companhias espanholas incluram nos seus itinerrios. Era um vasto 
salo ao ar livre, com bancos de madeira, uma cortina de veludo com mscaras gregas, 
e trs guichs em forma de cabea de leo por cujas bocas abertas se vendiam os 
bilhetes. Foi tambm por esta poca que se restaurou o edifcio da escola. Encarregou-
se dela o Sr. Melchor Escalona, um velho mestre enviado ao pantanal, que fazia os 
alunos vadios caminharem de joelhos no ptio de pedrinhas, e os malcriados comerem 
pimenta, com a total complacncia dos pais. Aureliano Segundo e Jos Arcadio 
Segundo, os voluntariosos gmeos de Santa Sofia de la Piedad, foram os primeiros a se 
sentar na sala de aula, com sua lousa e seu giz e os copinhos de alumnio marcados com 
os seus nomes. Remedios, herdeira da beleza pura da sua me, comeava a ser 
conhecida como Remedios, a bela. Apesar do tempo, dos lutos superpostos e dos 
aborrecimentos acumulados, rsula se recusava a envelhecer. Ajudada por Santa Sofa 
de la Piedad, tinha dado um novo impulso  sua indstria de doces, e no s recuperou 
em poucos anos a fortuna que o filho gastou na guerra como tambm voltou a entupir 
de ouro puro as cabaas enterradas no quarto. Enquanto Deus me der vida, 
costumava dizer, no h de faltar dinheiro nesta casa de loucos. Assim estavam as 
coisas quando Aureliano Jos desertou das tropas federalista s da Nicargua, engajouse 
na tripulao de um navio alemo e apareceu na cozinha da casa, forte como um 
touro, negro e cabeludo como um ndio, e com a secreta determinao de se casar com 
Amaranta. 

Quando Amaranta o viu entrar, sem que ele houvesse dito nada, soube 
imediatamente por que tinha voltado. Na mesa, no se atreviam a se encarar. Duassemanas depois do regresso, porm, estando rsula presente, ele fixou os olhos nos 
dela e disse: Eu sempre pensava muito em voc. Amaranta fugia dele. Prevenia-se 
contra os encontros casuais. Procurava no se separar de Remedios, a bela. Indignou-
se com o rubor que lhe dourou as faces no dia em que o sobrinho lhe perguntou at 
quando pensava usar a atadura negra na mo, porque interpretou a pergunta como 
uma aluso a sua virgindade. Quando ele chegou, ela passou a chave no quarto, mas 
durante tantas noites ouviu os seus roncos pacficos no quarto contguo que 
descuidou da precauo. Certa madrugada, quase dois meses depois do regresso, 
sentiu-o entrar no quarto. Ento, em vez de fugir, em vez de gritar como havia 
previsto, deixou-se saturar por uma suave sensao de descanso. Sentiu-o deslizar 
para dentro do mosquiteiro, como o fizera quando era garoto, como o fizera sempre, e 
no pde reprimir o suor gelado e o chocalhar dos dentes quando reparou que ele 
estava completamente nu. Vai embora, murmurou, sufocando de curiosidade. Vai 
embora ou eu comeo a gritar. Mas Aureliano Jos sabia ento o que tinha que fazer, 
porque j no era um menino assustado pela escurido, e sim um animal de 
acampamento. Desde aquela noite se reiniciaram as surdas batalhas sem 

mais densa, se o opusermos ao sacerdote anterior de Macondo, a cada momento provando a sua participao 
divina atravs do chocolate  beber chocolate  outro hbito espanhol de cunho popular.  bom no esquecer 
tambm a base militarista da Igreja espanhola, a ordem dos jesutas, fundada por Santo Incio de Loyola, antigo 
guerreiro que transps a disciplina militar  situao eclesistica. A Amrica Espanhola foi colonizada 
basicamente por religiosos-guerreiros, na velocidade adquirida da Reconquista da Pennsula aos rabes. ...Padre 
Coronel a quem chamavam O Cachorrinho , portanto,  mais que explicvel como caricatura cultural de linha 
espanhola. (N. T.) 


conseqncias que se prolongavam at o amanhecer. Eu sou sua tia, murmuravaAmaranta esgotada.  quase como se eu fosse sua me, no s pela idade, mas tambm 
porque a nica coisa que faltou foi dar a voc de mamar. Aureliano fugia ao alvorecer e 
voltava na madrugada seguinte, cada vez mais excitado pela comprovao de que ela 
no se trancava. No deixara de desej-la um s instante. Encontrava-a nos escuros 
quartos das aldeias vencidas, sobretudo nos mais abjetos, e a materializava no bafo de 
sangue seco das ataduras dos feridos, no pavor instantneo do perigo da morte, a toda 
hora e em toda parte. Fugira dela, tentando aniquilar a sua lembrana, no s com a 
distncia mas tambm com um encarniamento confuso que os companheiros de 
armas qualificavam de temeridade; quanto mais, porm, pisoteava a sua imagem na 
estrumeira da guerra, mais a guerra se parecia com Amaranta. Sofreu assim no exlio, 
procurando a maneira de mat-la com a sua prpria morte, at que ouviu algum 
contar a velha histria do homem que se casou com uma tia que, alm disso, era sua 
prima, e cujo filho acabou sendo av de si mesmo. 

 Uma pessoa pode casar com a prpria tia?  perguntou, assombrado. 
 Pode, e no s isso  respondeu-lhe um soldado  pois estamos fazendo 
esta guerra contra os padres para que a pessoa possa se casar at com a prpria me. 
Quinze dias depois desertou. Encontrou Amaranta mais enfeitada que na 
lembrana, mais melanclica e pudica, e j dobrando na realidade o ltimo cabo da 
maturidade, porm mais febril que nunca nas trevas do quarto e mais desafiante que 
nunca na agressividade da sua resistncia. Voc  bobo, dizia Amaranta, acossada 
pelos seus ces de caa. No  ve rdade que se possa fazer isso com uma pobre tia, a 
no ser com licena especial do Papa. Aureliano Jos prometia ir a Roma, prometia 
percorrer a Europa de joelhos e beijar as sandlias do Sumo Pontfice s para que ela 
baixasse a ponte levadia. 

 No  s isso  rebatia Amaranta.   que os filhos nascem com rabo de 
porco. 
Aureliano Jos era surdo para todos os argumentos. 

 Mesmo que nasam tatus  suplicava. 
Certa madrugada, vencido pela dor insuportvel da virilidade reprimida, foi  
taberna de Catarin o. Encontrou uma mulher de seios flcidos, carinhosa e barata, que 
lhe apaziguou o ventre por algum tempo. Tentou aplicar a Amaranta o tratamento do 
desprezo. Via-a na varanda, cosendo numa mquina de manivela que aprendera a 
manejar com habilidade admirvel, e nem sequer lhe dirigia a palavra. Amaranta se 
sentiu livre de um peso, e ela mesma no compreendeu por que voltou a pensar ento 
no Coronel Gerineldo Mrquez, por que evocava com tanta nostalgia as tardes de 
xadrez chins, e por que chegou inclusive a desej-lo como homem de cama. Aureliano 
Jos no imaginava o quanto havia perdido terreno, na noite em que no pde suportar 
mais a farsa da indiferena e voltou ao quarto de Amaranta. Ela o repeliu com uma 
determinao inflexvel, inequvoca, e passou a chave para sempre no quarto. 

Poucos meses depois do regresso de Aureliano Jos, apresentou-se na casa uma 
mulher exuberante, perfumada de jasmim, com um menino de uns cinco anos. Afirmouque era filho do Coronel Aureliano Buenda e o trazia para que rsula o batizasse. 
Ningum ps em dvida a origem daquele menino sem nome: era igual ao coronel na 
poca em que o levaram para conhecer o gelo. A mulher contou que tinha nascido de 
olhos abertos espiando as pessoas com juzo de gente grande, e que a assustava a sua 
maneira de fixar o olhar nas coisas sem pestanejar. E idntico, disse rsula. A nica 


coisa que est faltando  que faa as cadeiras rodarem s de olhar para elas. 
Batizaram-no com o nome de Aureliano, e com o sobrenome da me, porque a lei no 
permitia usar o sobrenome do pai enquanto este no o reconhecesse. O General 
Moncada serviu de padrinho. Embora Amaranta insistisse para que o deixassem com 
ela para acabar de criar, a me se ops.

rsula ignorava na poca o costume de mandar donzelas aos quartos dos 
guerreiros, do mesmo modo como se soltavam galinhas para os galos finos, mas no 
decurso desse ano veio a saber: mais nove filhos do Coronel Aureliano Buenda foram 
trazidos  casa para serem batizados. O mais velho, um estranho moreno de olhos 
verdes que nada tinha que ver com a famlia paterna, j passara dos dez anos. 
Trouxeram crianas de todas as idades, de todas as cores, mas todos vares, e todos 
com um ar de solido que no permitia pr em dvida o parentesco. Apenas dois se 
distinguiram do resto. Um, grande demais para a sua idade, que transformou em cacos 
as floreiras e vrias peas da loua, porque as suas mos pareciam possuir a 
propriedade de espedaar tudo o que tocavam. O outro era um lourinho com os 
mesmos olhos garos da me, cujo cabelo tinha sido deixado comprido e cheio de 
cachos, como de uma mulher. Entrou na casa com muita familiaridade, como se tivesse 
sido criado nela, e foi diretamente para uma arca do quarto de rsula, e exigiu: Euquero a bailarina de corda. rsula se assustou. Abriu a arca, remexeu os antiquados e 
poeirentos objetos do tempo de Melquades e encontrou embrulhada num par de 
meias a bailarina de corda que certa vez Pietro Crespi trouxera, e da qual ningum 
tinha voltado a se lembrar. Em menos de doze anos batizaram com o nome de 
Aureliano, e com o sobrenome da me, a todos os filhos que disseminou o coronel aolongo e ao largo dos seus territrios de guerra: dezessete. No princpio, rsula lhes 
enchia os bolsos de dinheiro e Amaranta tentava ficar com eles. Mas terminaram por se 
limitar a fazer-lhes um presente e servirem de madrinhas. Batizando-os, cumprimos 
com a obrigao, dizia rsula, anotando numa caderneta o nome e o endereo das 
mes e o lugar e a data de nascimento das crianas. Aureliano deve cuidar bem da sua 
vida, de modo que ser ele quem tomar as decises quando voltar. Durante um 
almoo, comentando com o General Moncada aquela desconcertante proliferao, 
expressou o desejo de que o Coronel Aureliano Buenda voltasse alguma vez para 
reunir todos os seus filhos em casa. 

 No se preocupe, comadre  disse enigmaticamente o General Moncada.  
Ele vir mais cedo do que a senhora imagina. 

O que o General Moncada sabia, e que no quis revelar no almoo, era que o 
Coronel Aureliano Buenda j estava a caminho, para se pr  frente da rebelio mais 
prolongada, radical e sangrenta de quantas tinham sido tentadas at ento. 

A situao voltou a ser to tensa como nos meses que precederam a primeira 
guerra. As brigas de galo, animadas pelo prprio alcaid e, foram suspensas. O Capito 
Aquiles Ricardo, comandante da guarnio, assumiu na prtica o poder municipal. Os 
liberais o apontaram como um provocador. Alguma coisa terrvel vai acontecer, dizia 
rsula a Aureliano Jos. No saia na rua depois das seis da tarde. Eram splicas 
inteis. Aureliano Jos, igual a Arcadio em outra poca, deixara de lhe pertencer. Era 
como se o regresso a casa, a possibilidade de existir sem se incomodar com as 
urgncias cotidianas tivessem despertado nele a vocao concupiscente e preguiosa 
do seu tio Jos Arcadio. A sua paixo por Amaranta se extinguiu sem deixar cicatrizes. 
Andava um pouco  deriva, jogando bilhar, entretendo a solido com mulheres 


ocasionais, saqueando os buracos onde rsula esquecia o dinheiro escondido. Acabou 
por no voltar em casa a no ser para mudar de roupa. So todos iguais, rsula se 
lamentava. No comeo so fceis de criar, obedientes e sinceros, e parecem incapazes 
de matar uma mosca; mal aponta a barba se atiram  perdio. Ao contrrio de 
Arcadio, que nunca soube da sua verdadeira origem, ele veio a saber que era filho de 
Pilar Ternera, que tinha pendurado uma rede para que ele fizesse a sesta na sua casa. 
Eram, mais que me e filho, cmplices na solido. Pilar Ternera havia perdido a sombra 
de qualquer esperana. O seu riso tinha adquirido tonalidades de rgos, os seus seios 
tinham sucumbido ao tdio das carcias eventuais, o seu ventre e as suas coxas tinham 
sido vitimas do seu irrevogvel destino de mulher partilhada, mas o seu corao 
envelhecia sem amargura. Gorda, desbocada, com vaidades de matrona em decadncia, 
renunciou  iluso estril das cartas e encontrou um refrigrio de consolo nos amores 
alheios. Na casa onde Aureliano Jos dormia a sesta, as moas da vizinhana recebiam 
os seus amantes casuais. Voc me empresta o quarto, Pilar, diziam simplesmente, 
quando j estavam dentro dele. Claro, dizia Pilar. E se algum estivesse presente, 
explicava: 

 Fico feliz sabendo que as pessoas esto felizes na cama. 
Jamais cobrava o servio. Jamais negava o favor, como no o negara aos 
inumerveis homens que a procuraram at o crepsculo da sua maturidade, sem lhe 
proporcionar nem dinheiro nem amor, apenas, algumas vezes, prazer. As suas cinco 
filhas, herdeiras de uma semente fogosa, perderam-se pelos caminhos da vida desde a 
adolescncia. Dos dois vares que chegou a criar, um morreu lutando nas hostes do 
Coronel Aureliano Buenda e o outro foi ferido e capturado aos quatorze anos, quando 
tentava roubar um engradado de galinhas num povoado do pntano. De certo modo, 
Aureliano Jos foi um homem alto e moreno que durante meio sculo lhe foi anunciado 
pelo rei de copas, e que como todos os enviados pelo baralho chegou ao seu corao 
quando j estava marcado pelo signo da morte. Ela viu isso nas cartas. 

 No saia esta noite  disse a ele.  Fique para dormir aqui, que a Carmelita 
Montiel j cansou de me implorar para que a ponha no seu quarto. 
Aureliano Jos no captou o profundo sentido de splica que tinha aquela 
oferta. 

 Diga a ela que me espere  meia-noite  disse. Foi ao teatro, onde uma 
companhia espanhola anunciava O Punhal do Zorro, que na realidade era a obra de 
Zorrilla com o nome trocado por ordem do Capito Aquiles Ricardo, porque os 
liberais chamavam de godos os conservadores.* Apenas no momento de entregar o 
bilhete na entrada  que Aureliano Jos percebeu que o Capito Aquiles Ricardo, com 
dois soldados armados de fuzis, estava passando em revista a platia. Cuidado, 
capito, advertiu Aureliano Jos. Ainda no nasceu o homem que vai botar as mos 
em cima de mim. O capito tentou revist-lo  fora, e Aureliano Jos, que estava 
desarmado, saiu correndo. Os soldados desobedeceram a ordem de atirar.  um 
Buenda, explicou um deles. Cego de raiva, o capito lhe arrancou o fuzil, abriu espao 
no meio da rua, e apontou. 
 Cornos!  chegou a gritar.  Oxal fosse o Coronel Aureliano Buenda. 
* Jos Zorrilla  um dramaturgo romntico espanhol, autor, entre outras, de duas peas de muito xito e 
bilheteria at hoje: D. Juan Tenorio e El Puflal del Godo. A mudana para Zorro traz tambm a evocao dos 
bang-bang senados, verso moderna do capa e espada romntico. (N. T.) 


Carmelita Montiel, uma virgem de vinte anos, acabava de se banhar em gua de 
flor de laranjeira e estava esparramando folhas de alecrim na cama de Pilar Ternera, 
quando soou o disparo. Aureliano Jos estava destinado a conhecer com ela a 
felicidade que lhe negara Amaranta, a ter sete filhos e a morrer de velhice nos seus 
braos, mas a bala de fuzil que lhe entrou pelas costas e lhe despedaou o peito estava 
dirigida por uma m interpretao das cartas. O Capito Aquiles Ricardo, que era na 
verdade quem estava destinado a morrer nessa noite, morreu realmente quatro horas 
antes de Aureliano Jos. Mal soou o disparo, foi derrubado por dois balaos 
simultneos cuja origem no se aclarou nunca, e um grito da multido estremeceu a 
noite. 

 Viva o Partido Liberal! Viva o Coronel Aureliano Buenda! 
 meia-noite, quando Aureliano Jos acabou de sangrar e Carmelita Montiel 
encontrou em branco as cartas do seu futuro, mais de quatrocentos homens j haviam 
desfilado diante do teatro e descarregado os seus revlveres contra o cadver 
abandonado do Capito Aquiles Ricardo. Foi necessria uma patrulha para colocar 
sobre uma carreta o corpo pesado de chumbo, que se decompunha como um po 
molhado. 

Contrariado pelas impertinncias do exrcito regular, o General Jos Raquel 
Moncada mobilizou as suas influncias polticas, voltou a vestir o uniforme e assumiu 
a chefatura civil e militar de Macondo. No esperava, entretanto, que a sua atitude 
conciliatria pudesse impedir o inevitvel. As notcias de setembro foram 
contraditrias. Enquanto o governo anunciava que mantinha o controle de todo o pas, 
os liberais recebiam informaes secretas de levantes armados no interior. O regime 
no admitiu o estado de guerra enquanto no se proclamou num decreto que se havia 
reunido um conselho de guerra, na ausncia do Coronel Aureliano Buenda, e que ele 
havia sido condenado  morte. Ordenava-se que a primeira guarnio que o capturasse 
cumprisse a sentena. Isto quer dizer que ele voltou, alegrou-se rsula diante do 
General Moncada. Mesmo ele, porm, no sabia ao certo. 

Na realidade, o Coronel Aureliano Buenda j estava no pas havia mais de um 
ms. Precedido por boatos contraditrios, sabido ao mesmo tempo nos lugares mais 
afastados, o prprio General Moncada no acreditou na sua volta a no ser quando se 
anunciou oficialmente que ele se havia apoderado de dois estados do litoral. Parabns,
comadre, disse a rsula, mostrando o te legrama. Dentro em breve h de t-lo aqui. 
rsula se preocupou ento pela primeira vez. E o senhor, que  que vai fazer, 
compadre?, perguntou. O General Moncada j se havia interrogado sobre isto muitas 
vezes. 

 O mesmo que ele, comadre:  respondeu  cumprir com o meu dever. 
No dia primeiro de outubro, ao amanhecer, o Coronel Aureliano Buenda, com 
mil homens bem armados, atacou Macondo, e a guarnio recebeu ordem de resistirat o fim. Ao meio-dia, enquanto o General Moncada almoava com rsula, um tiro de 
canho rebelde, que retumbou pelo povoado inteiro, reduziu a p a fachada da 
tesouraria municipal. Eles esto to bem armados quanto ns, suspirou o GeneralMoncada, e alm disso lutam com mais vontade. s duas da tarde, enquanto a terratremia com os tiros de canho de ambos os lados, despediu-se de rsula com a certeza 
de que estava lutando uma batalha perdida. 

 Rogo a Deus que esta noite voc ainda no tenha Aureliano em casa  disse. 
 Se acontecer, d a ele um abrao meu, porque no espero tornar a v-lo nunca mais. 

Nessa mesma noite foi capturado, quando tentava fugir de Macondo, depois de 
escrever uma extensa carta ao Coronel Aureliano Buenda, na qual lhe recordava os 
propsitos comuns de humanizar a guerra e lhe desejava uma vitria definitiva contra 
a corrupo dos militares e as ambies dos polticos de ambos os partidos. No diaseguinte o Coronel Aureliano Buenda almoou com ele na casa de rsula, onde ele 
tinha sido posto em custdia at que um conselho de guerra revolucionrio decidisse o 
seu destino. Foi uma reunio familiar. Mas enquanto os adversrios esqueciam aguerra para evocar lembranas do passado, rsula teve a sombria impresso de que o 
seu filho era um intruso. Tivera-a desde que o vira entrar protegido por um ruidoso 
aparato militar que revirou os quartos pelo direito e pelo avesso at se convencer de 
que no havia nenhum risco. O Coronel Aureliano Buenda no s aceitou a situao 
como tambm distribuiu ordens de uma severidade extrema, e no permitiu queningum se aproximasse a menos de trs metros de sua pessoa, nem sequer rsula, 
enquanto os membros da sua escolta no acabavam de distribuir as patrulhas em volta 
da casa. Vestia um uniforme de brim ordinrio, sem insgnias de qualquer espcie, e 
umas botas altas com esporas lambuzadas de barro e sangue seco. Levava no cinto uma 
pistola com o coldre desabotoado, e a mo sempre apoiada na coronha revelava a 
mesma tenso vigilante e resoluta do olhar. A sua cabea, agora com entradas 
profundas, parecia cozinhada em fogo lento. O seu rosto gretado pelo sol do Caribe 
tinha adquirido uma dureza metlica. Estava preservado da velhice iminente por uma 
vitalidade que tinha alguma coisa que ver com a frieza das entranhas. Estava mais alto 
do que quando partiu, mais plido e sseo, e manifestava os primeiros sintomas de 
resistncia  saudade. Meu Deus, disse rsula para si, alarmada. Agora parece um 
homem capaz de tudo. E era. A manta asteca que trouxe para Amaranta, as 
recordaes que emitiu no almoo, as divertidas anedotas que contou, eram meros 
resduos do seu humor de outros tempos. Nem bem se cumpriu a ordem de enterrar os 
mortos na fossa comum, designou o Coronel Roque Carnicero para a misso de 
apressar os julgamentos de guerra, e ele prprio ento se empenhou na extenuante 
tarefa de impor as reformas radicais que no deixassem pedra sobre pedra da 
restabelecida estrutura do regime conservador. Ns temos que nos antecipar aos 
polticos do partido, dizia aos seus assessores. Quando abrirem os olhos para a 
realidade, encontraro os fatos consumados. Foi ento que decidiu rever os ttulos de 
propriedade da terra, at cem anos atrs, e descobriu as violncias legalizadas do seu 
irmo Jos Arcadio. Anulou os registros de uma assentada. Num ltimo gesto de 
cortesia, abandonou as suas ocupaes por uma hora e visitou Rebeca para p-la ao 
corrente da sua determrnao. 

Na penumbra da casa, a viva solitria que um dia fora a confidente dos seus 
amores reprimidos, e cuja obstinao lhe salvara a vida, era um espectro do passado. 
Fechada de negro at os punhos, com o corao convertido em cinzas, mal tinha 
notcia da guerra. O Coronel Aureliano Buenda teve a impresso de que a 
fosforescncia dos seus ossos transpassava a pele, e que ela se movia atravs de uma 
atmosfera de fogos-ftuos, num ar estancado onde ainda se percebia um discreto 
cheiro de plvora. Comeou por aconselh-la a que moderasse o rigor do luto, que 
ventilasse a casa, que perdoasse ao mundo a morte de Jos Arcadio. Mas Rebeca j 
estava a salvo de qualquer vaidade. Depois de procur-la inutilmente no sabor da terra, 
nas cartas perfumadas de Pietro Crespi, na cama tempestuosa do marido, encontrara a 
paz naquela casa onde as lembranas se materializaram pela fora da evocao 


implacvel, e passeavam como seres humanos pelos quartos fechados. Ereta na sua 
cadeira de balano de vime, olhando para o Coronel Aureliano Buenda como se fosse 
ele quem parecesse um espectro do passado, Rebeca nem sequer se comoveu com a 
notcia de que as terras usurpadas por Jos Arcadio seriam restitudas aos seus 
legtimos donos. 

 Ser feito o que voc mandar, Aureliano  suspirou. 
 Sempre acreditei, e confirmo agora, que voc  um desnaturado. 
A reviso dos ttulos de propriedade terminou ao mesmo tempo que os 
julgamentos sumrios, presididos pelo Coronel Gerneldo Mrquez, e que concluram 
com o fuzilamento de toda a oficialidade do exrcito regular prisioneira dos 
revolucionrios. O ltimo tribunal de guerra foi o do General Jos Raquel Moncada.
rsula interveio. E o melhor governante que tivemos em Macondo, disse ao Coronel 
Aureliano Buenda. No tenho mesmo nada a dizer do seu bom corao, do afeto que 
nos dedica, porque voc o conhece melhor que ningum. O Coronel Aureliano 
Buenda fixou nela um olhar de reprovao: 

 No posso me arrogar o direito de administrar justia  respondeu.  Se a 
senhora tem alguma coisa a dizer, faa-o diante do tribunal de guerra.
rsula no s o fez como tambm levou para testemunharem todas as mes dos 
oficiais revolucionrios que viviam em Macondo. Uma por uma, as velhas fundadoras 
do povoado, vrias tendo participado da temerria travessia da serra, exaltaram asvirtudes do General Moncada. rsula foi a ltima da fila. A sua dignidade pattica, o 
peso do seu nome, a convincente veemncia da sua declarao fizeram vacilar por um 
momento o equilbrio da justia. Os senhores levaram muito a srio esta brincadeira 
horrvel, e fizeram bem, porque esto cumprindo com o seu dever, disse aos membros 
do tribunal. Mas no se esqueam de que, enquanto Deus nos der vida, ns 
continuamos sendo mes, e por muito revolucionrios que vocs sejam temos o direito 
de lhes abaixar as calas e dar uma boa coa diante da primeira falta de respeito. O 
jri se retirou para deliberar quando ainda ressoavam estas palavras no mbito da 
escola transformada em quartel. A meia-noite, o General Jos Raquel Moncada foi 
condenado  morte. O Coronel Aureliano Buenda, apesar das violentas recriminaesde rsula, negou-se a comutar-lhe a pena. Pouco antes do amanhecer, visitou o 
condenado no quarto do tronco. 

 Lembre-se, compadre  disse a ele  que no sou eu quem o est fuzilando, 
e sim a revoluo. 
O General Moncada nem sequer se levantou do catre ao v-lo entrar. 

 V  merda, compadre  respondeu. 
At aquele momento, desde a sua volta, o Coronel Aureliano Buenda no se 
permitira uma oportunidade de olh-lo com o corao. Assombrou-se de quanto tinha 
envelhecido, do tremor das suas mos, da resignao um pouco rotineira com que 
esperava a morte, e ento experimentou um profundo desprezo por si mesmo, que 
confundiu com um princpio de misericrdia. 

 Voc sabe melhor que eu  disse  que todo tribunal de guerra  uma farsa, 
e que na verdade voc vai pagar os crimes dos outros, porque desta vez ns vamos 
ganhar a guerra a qualquer preo. Voc no meu lugar no teria feito a mesma coisa? 
O General Moncada endireitou o corpo para limpar os grossos culos de 
tartaruga com as fraldas da camisa. Provavelmente, disse. Mas o que me preocupa 
no  que voc me fuzile, porque afinal para gente como ns esta  a morte natural. 


Colocou os culos sobre a cama e tirou o relgio de bolso. O que me preocupa, 
acrescentou,  que de tanto odiar os militares, de tanto combat-los, de tanto pensar 
neles, voc acabou por ficar igual a eles. E no h ideal na vida que merea tanta 
baixeza. Tirou a aliana e a medalha da Virgem dos Remedios e ps junto com os 
culos e o relgio. 

 Nesse ritmo  concluiu  voc no s ser o ditador mais desptico e 
sanguinrio da nossa histria como tambm acabar por fuzilar a minha comadre 
rsula, tentando apaziguar a sua conscincia. 
O Coronel Aureliano Buenda permaneceu impassvel, O General Moncada 
entregou-lhe ento os culos, a medalha, o relgio e a aliana, e mudou de tom. 

 Mas eu no fiz voc vir aqui para repreend-lo  disse.  Queria pedir a 
voc o favor de enviar estas coisas a minha mulher. 
O Coronel Aureliano Buenda guardou-as nos bolsos. 

 Continua em Manaure? 
 Continua em Manaure  confirmou o General Moncada  na mesma casa 
atrs da igreja para onde voc enviou aquela carta. 
 Farei com muito gosto, Jos Raquel  disse o Coronel Aureliano Buenda. 
Quando saiu na brisa azul da neblina, o rosto se lhe umedeceu como no outro 
amanhecer do passado, e s ento compreendeu por que determinara que a sentena se 
cumprisse no ptio, e no no muro do cemitrio. O peloto, formado diante da porta, 
rendeu-lhe as honras de chefe de Estado. 

 J podem traz-lo  ordenou. 

O CORONEL Gerineldo Mrquez foi o primeiro que percebeu o vazio da guerra. 
Na sua condio de chefe civil e militar de Macondo, mantinha duas vezes por semana 
conversas telegrficas com o Coronel Aureliano Buenda. No princpio, essas 
entrevistas determinavam o curso de uma guerra de carne e osso, cujos contornos 
perfeitamente definidos permitiam estabelecer a qualquer momento o ponto exato em 
que se encontrava e prever os seus rumos futuros. Embora nunca se deixasse arrastar 
para o terreno das confidncias, nem sequer pelos seus amigos mais ntimos, o 
Coronel Aureliano Buenda conservava na poca o tom familiar que permitia 
identific-lo no outro extremo da linha. Muitas vezes prolongou a conversa alm do 
tempo previsto e a deixou derivar para comentrios de carter domstico. Pouco a 
pouco, no entanto, e  medida a guerra ia se intensificando e estendendo, a sua imagem 
foi se apagando num universo de irrealidade. Os pontos e traos da sua voz eram cada 
vez mais remotos e incertos, e se uniam e se combinavam para formar palavras que 
paulatinamente foram perdendo todo o sentido. O Coronel Gerineldo limitava-se 
ento a escutar, assustado pela impresso de estar em contato telegrfico com um 
desconhecido do outro mundo. 

 Entendido, Aureliano  conclua no manipulador. Viva o Partido Liberal! 
Acabou por perder todo o contato com a guerra. O que em outros tempos fora 
uma atividade real, uma paixo irresistvel da sua juventude, converteu-se para ele 
numa referncia remota: um vcuo. O seu nico refgio era o quarto de costura de 
Amaranta. Visitava-a todas as tardes. Gostava de contemplar as suas mos enquanto 
franzia babados de cambraia na mquina de manivela que Remedios, a bela, fazia 
girar. Ficavam muitas horas sem falar, satisfeitos com a companhia recproca, mas 
enquanto Amaranta se alegrava intimamente por manter vivo o fogo da sua devoo, 
ele ignorava quais eram os secretos desgnios daquele corao indecifrvel. Quando se 
teve notcia da sua volta, Amaranta sufocou de ansiedade. Quando o viu entrar em 
casa, porm, confundido com a ruidosa escolta do Coronel Aureliano Buendia, e o viu 
maltratado pelo rigor do desterro, envelhecido pela idade e pelo esquecimento, sujo de 
suor e poeira, cheirando a estbulo, feio, com o brao esquerdo na tipia, sentiu-se 
desfalecer de desiluso. Meu Deus, pensou, no era este que eu esperava. No dia 
seguinte, entretanto, ele voltou  casa barbeado e limpo, com o bigode perfumado de 
gua de alfazema e sem a tipia ensangentada. Trazia-lhe um brevirio de capa 
nacarada. 

 Como os homens so esquisitos!  ela disse, porque no encontrava outra 
coisa para dizer.  Levam a vida lutando contra os padres e do livros de orao de 
presente. 
A partir de ento, mesmo nos dias mais crticos da guerra, ele a visitava todas as 
tardes. Muitas vezes, quando Remedios, a bela, no estava presente, era ele quem 
tocava a mquina de costura. Amaranta se sentia perturbada pela perseverana, pela 
lealdade, pela submisso daquele homem investido de tanta autoridade e que no 
entanto se despojava das armas na sala para entrar indefeso no quarto de costura. Mas 
durante quatro anos ele lhe reiterou o seu amor, e ela encontrou sempre a maneira de 
recus-lo sem feri-lo, porque, embora no conseguisse am-lo, j no podia viver sem 
ele. Remedios, a bela, que parecia indiferente a tudo, e de quem se pensava que era 
dbil mental, no foi insensvel a tanta devoo, e interveio em favor do Coronel 
Gerineldo Mrquez. Amaranta descobriu de repente que aquela menina que havia 
criado, que mal despertava para a adolescncia, j era a criatura mais bela que se havia 


visto em Macondo. Sentiu renascer no seu corao o rancor que em outra poca 
experimentara contra Rebeca, e rogando a Deus que no a arrastasse at o extremo de 
lhe desejar a morte, expulsou-a do quarto de costura. Foi por essa poca que o 
Coronel Gerineldo Mrquez comeou a sentir o fastio da guerra. Apelou para as suas 
reservas de persuaso, para a sua imensa e reprimida ternura, disposto a renunciar por 
Amaranta a uma glria que lhe tinha custado o sacrifcio dos seus melhores anos. Mas 
no conseguiu convenc-la. Uma tarde de agosto, agoniada pelo peso insuportvel da 
sua prpria obstinao, Amaranta se trancou no quarto para chorar a sua solido at 
morrer, depois de dar a resposta definitiva ao seu pretendente tenaz: 

 Vamos esquecer isso para sempre  disse a ele  j somos velhos 
demais para estas coisas. 
O Coronel Gerineldo Mrquez atendeu naquela tarde a um chamado telegrfico 
do Coronel Aureliano Buenda. Foi uma conversa de rotina que no havia de abrir 
nenhuma brecha para a guerra estancada. Ao terminar, o Coronel Gerineldo Mrquez 
contemplou as ruas desoladas, a gua cristalizada nas amendoeiras, e se encontrou 
perdido na solido. 

 Aureliano  disse tristemente no manipulador  est chovendo em 
Macondo. 
Houve um longo silncio na linha. De repente, os aparelhos saltaram com os 
signos desapiedados do Coronel Aureliano Buendia. 

 No seja boboca, Gerineldo  disseram os signos.  natural que esteja 
chovendo em agosto. 
Fazia tanto tempo que no se viam que o Coronel Gerineldo Mrquez se 
desconcertou com a agressividade daquela reao. Entretanto, dois meses depois, 
quando o Coronel Aureliano Buenda voltou a Macondo, o desconcerto se transformouem espanto. At rsula se surpreendeu com o quanto havia mudado. Chegou na 
calada, sem escolta, embrulhado numa manta apesar do calor, e com trs amantes que 
instalou numa mesma casa, onde passava a maior parte do tempo estendido numa 
rede. Mal lia os informes telegrficos que falavam de operaes de rotina. Certa 
ocasio o Coronel Gerineldo Mrquez lhe pediu instrues para a evacuao de uma 
localidade fronteiria que ameaava se converter num conflito internacional. 

 No me aborrea com coisinhas midas  ordenou ele.  Consulte a Divina 
Providncia. 
Era talvez o momento mais crtico da guerra. Os proprietrios de terra liberais, 
que no princpio apoiavam a revoluo, entraram em aliana secreta com os 
proprietrios de terra conservadores para impedir a reviso dos ttulos de 
propriedade. Os polticos que capitalizavam a guerra j desde o exlio haviam 
repudiado publicamente as determinaes drsticas do Coronel Aureliano Buenda, 
mas at mesmo essa desautorizao parecia deix-lo sem preocupaes. No voltara a 
ler os seus versos, que ocupavam mais de cinco tomos e que permaneciam esquecidos 
no fundo do ba. De noite, ou na hora da sesta, chamava  rede uma das suas mulheres 
e obtinha dela uma satisfao rudimentar, e logo dormia com um sono de pedra que 
no era perturbado pelo mais leve indcio de preocupao. S ele sabia, naquele 
tempo, que o seu aturdido corao estava condenado para sempre  incerteza. A 
princpio, embriagado pela glria do regresso, pelas vitrias inverossmeis, bordejara o 
abismo da grandeza. Satisfazia-se com trazer  cabeceira o Duque de Marlborough, 
seu grande mestre nas artes da guerra, cujo aparato de peles e unhas de tigre produzia 


o respeito dos adultos e o assombro das crianas. Foi ento que decidiu que nenhum 
ser humano se aproximasse dele a menos de trs metros. No centro do crculo de giz 
que os seus ajud antes de campo traavam onde quer que ele chegasse, e no qual apenas 
ele podia entrar, decidia com ordens breves e inapelveis o destino do mundo. Na 
primeira vez em que esteve em Manaure depois do fuzilamento do General Moncada, 
apressou-se em cumprir a ltima vontade da sua vtima, e a viva recebeu os culos, a 
medalha, o relgio e a aliana, mas no lhe permitiu passar da porta de entrada. 
 No entre, coronel  disse a ele.  O senhor pode mandar na sua guerra, 
mas na minha casa mando eu. 
O Coronel Aureliano Buenda no deu mostras de rancor, mas o seu esprito s 
encontrou sossego quando a sua guarda pessoal saqueou e reduziu a cinzas a casa da 
viva. Cuide do corao, Aureliano, dizia-lhe ento o Coronel Gerineldo Mrquez. 
Voc est apodrecendo vivo. Por essa poca, convocou uma segunda assemblia dos 
principais comandantes rebeldes. Encontrou de tudo: idealistas, ambiciosos, 
aventureiros, ressentidos sociais e at delinqentes comuns. Havia inclusive um antigo 
funcionrio conservador, refugiado na revolta para fugir a um julgamento por desvio 
de fundos. Muitos no sabiam sequer por que lutavam. No meio daquela multido 
heterognea, cujas diferenas de critrio estiveram a ponto de provocar uma exploso 
interna, destacava-se uma autoridade tenebrosa: o General Tefilo Vargas. Era um 
ndio puro, selvagem, analfabeto, dotado de uma malcia taciturna e de uma vocao 
messinica que provocava nos seus homens um fanatismo demente. O Coronel 
Aureliano Buenda convocou a reunio com o propsito de unificar o poder rebelde 
contra as manobras dos polticos. O General Tefilo Vargas adiantou-se s suas 
intenes: em poucas horas desbaratou a coligao dos comandantes melhor 
qualificados e se apoderou do poder central. E uma fera digna de cuidado, disse o 
Coronel Aureliano Buenda aos seus oficiais. Para ns, esse homem  mais perigoso 
que o Ministro da Guerra. Ento, um capito muito jovem que sempre se havia 
distinguido pela timidez levantou o dedo cauteloso:

  muito simples, coronel  props  ns temos de mat-lo. 
O Coronel Aureliano Buenda no se assustou com a frieza da proposta, e sim 
com a forma como ela se antecipou uma frao de segundo ao seu prprio pensamento. 

 No esperem que eu d essa ordem  disse. E no a deu, realmente. Mas 
quinze dias depois o General Tefilo Vargas foi despedaado a golpes de faco numa 
emboscada, e o Coronel Aureliano Buenda assumiu o poder central. Na mesma noite 
em que a sua autoridade foi reconhecida por todos os comandos rebeldes, acordou 
sobressaltado, pedindo aos gritos uma manta. Um frio interior que lhe rachava os 
ossos e o mortificava inclusive em pleno sol impediu-lhe de dormir bem por vrios 
meses, at que se transformou num hbito. A embriaguez do poder comeou a se 
decompor em faixas de tdio. Procurando um remdio contra o frio, mandou fuzilar o 
jovem oficial que props o assassinato do General Tefilo Vargas. As suas ordens eram 
cumpridas antes de serem anunciadas, mesmo antes que ele as concebesse, e sempre 
iam muito mais longe do que ele se atreveria a faz-las chegar. Extraviado na solido 
do seu imenso poder, comeou a perder o rumo. Incomodava-o o povo que o aclamava 
nas aldeias vencidas, e que lhe parecia o mesmo que aclamava o inimigo. Em toda parte 
encontrava adolescentes que o olhavam com os prprios olhos, que falavam com a sua 
prpria voz, que o cumprimentavam com a mesma desconfiana com que ele os 
cumprimentava, e que diziam ser seus filhos. Sentiu-se jogado, repelido, e mais 

solitrio do que nunca. Teve a certeza de que os seus prprios oficiais lhe mentiam. 
Brigou com o Duque de Marlborough. O melhor amigo, costumava dizer ento,  o 
que acaba de morrer. Cansou-se da incerteza, do crculo vicioso daquela guerra eterna 
que sempre o encontrava no mesmo lugar, s que cada vez mais velho, mais acabado, 
mais sem saber por que, nem como, nem at quando. Sempre havia algum fora do 
crculo de giz. Algum que precisava de dinheiro, que tinha um filho com coqueluche 
ou que queria ir dormir para sempre porque j no podia suportar na boca o gosto de 
merda da guerra e que, entretanto, reunia as suas ltimas reservas de energia para 
informar: Tudo normal, coronel. E a normalidade era precisamente o mais terrvel 
daquela guerra infinita: no acontecia nada. Sozinho, abandonado pelos pressgios, 
fugindo do frio que havia de acompanh-lo at a morte, procurou um ltimo refgio 
em Macondo, ao calor das recordaes mais antigas. Era to grave a sua inrcia que 
quando lhe anunciaram a chegada de uma comisso do seu partido, credenciada para 
discutir a encruzilhada da guerra, ele se mexeu na rede sem acordar de todo. 

 Levem-nos s putas  disse. 
Eram seis advogados de palet e chapu que suportavam com duro estoicismo obravo sol de novembro. rsula hospedou-os em casa. Passavam a maior parte do dia 
trancados no quarto, em concilibulos hermticos, e ao anoitecer pediam uma escolta e 
um conjunto de acordees e tomavam conta da taberna de Catarino. No os 
incomodem, ordenava o Coronel Aureliano Buenda. Afinal, eu sei o que querem. 
No incio de dezembro, a entrevista longamente esperada, que muitos tinham previsto 
como uma discusso interminvel, resolveu-se em menos de uma hora. 

Na abafada sala de visitas, junto ao espectro da pianola amortalhada com um 
lenol branco, o Coronel Aureliano Buenda no se sentou desta vez dentro do crculo 
de giz que traaram os seus ajudantes de campo. Ocupou uma cadeira entre os seus 
assessores polticos, e embrulhado na manta de l escutou em silncio as breves 
propostas dos emissrios. Pediam, em primeiro lugar, renunciar  reviso dos ttulos 
de propriedade da terra para recuperar o apoio dos proprietrios liberais. Pediam, em 
segundo lugar, renunciar  luta contra a influncia clerical para obter o suporte do 
povo catlico. Pediam, por ltimo, renunciar s aspiraes de igualdade de direitos 
entre os filhos naturais e os legtimos para preservar a integridade dos lares. 

 Quer dizer  sorriu o Coronel Aureliano Buenda quando terminou a leitura 
 que s estamos lutando pelo poder. 
 So reformas tticas  respondeu um dos delegados. 
 No momento, o essencial  ampliar a base popular da guerra. Depois se v. 
Um dos assessores polticos do Coronel Aureliano Buenda se apressou a 
intervir. 

  um contra-senso  disse.  Se estas reformas so boas, quer dizer que 
bom  o regime conservador. Se com elas conseguimos ampliar a base popular da 
guerra, como dizem os senhores, quer dizer que o regime tem uma ampla base popular. 
Quer dizer, em suma, que durante quase vinte anos estivemos lutando contra os 
sentimentos da nao. 
Ia continuar, mas o Coronel Aureliano Buenda o interrompeu com um sinal. 
No perca tempo, doutor, disse. O importante  que a partir deste momento s 
lutamos pelo poder. Sem deixar de sorrir, tomou os papis que lhe entregaram os 
delegados e se disps a assin ar. 

 J que  assim  concluiu  no temos nenhum inconveniente em aceitar. 

Os seus homens se olharam consternados. 

 Desculpe, coronel  disse suavemente o Coronel Gerineldo Mrquez  
mas isto  uma traio. 

O Coronel Aureliano Buenda deteve no ar a pena com tinta, e descarregou 
sobre ele todo o peso de sua autoridade. 

 Entregue as suas armas  ordenou. 
O Coronel Gerineldo Mrquez se levantou e ps as armas na mesa. 
 Apresente-se no quartel  ordenou-lhe o Coronel Aureliano Buenda.  O 
senhor fica  disposio dos tribunais revolucionrios. 
Assinou logo a declarao e entregou os papis aos emissrios, dizendo: 

 Senhores, a tm o documento. Sirvam-se dele. 
Dois dias depois, o Coronel Gerineldo Mrquez, acusado de alta traio, foi 
condenado  morte. Refestelado na rede, o Coronel Aureliano Buenda foi insensvel s 
splicas de demncia. Na vspera da execuo, desobedecendo  ordem de no serincomodado, rsula o visitou no seu quarto. De luto fechado, investida de uma 
estranha solenidade, permaneceu de p os trs minutos da entrevista. Sei que voc vai 
fuzilar Gerineldo, disse serenamente, e eu no posso fazer nada para impedir. Mas 
uma coisa eu aviso: logo que eu veja o cadver, juro pelos ossos de meu pai e de minha 
me, pela memria de Jos Arcadio Buenda, juro diante de Deus, que vou tir-lo de 
onde voc se meter e mat-lo com as minhas prprias mos. Antes de abandonar o 
quarto, sem esperar nenhuma resposta, concluiu: 

 E a mesma coisa que eu teria feito se voc tivesse nascido com rabo de porco. 
Naquela noite interminvel, enquanto o Coronel Gerineldo Mrquez evocava as 
suas tardes mortas no quarto de costura de Amaranta, o Coronel Aureliano Buenda 
arranhou durante muitas horas, tentando romp-la, a dura casca da sua solido. Os 
seus nicos momentos felizes, desde a tarde remota em que seu pai o levara para 
conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo 
armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos 
os seus pactos com a morte e fuar como um porco na estrumeira da glria, para 
descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilgios da simplicidade. 

Ao amanhecer, modo pela atormentada viglia, apareceu no quarto do 
condenado uma hora antes da execuo. Terminou a farsa, compadre, disse ao 
Coronel Gerineldo Mrquez. Vamos embora daqui antes que os mosquitos te 
executem. O Coronel Gerineldo Mrquez no pde reprimir o desprezo que lhe 
inspirava aquela atitude. 

 No, Aureliano  replicou.  Mais vale estar morto que ver voc 
transformado num general de chanfalho. 
 Voc no vai me ver assim  disse o Coronel Aureliano Buenda.  Ponha 
os sapatos e me ajude a acabar com esta guerra de merda. 
Ao dizer isto, no imaginava que era mais fcil comear uma guerra que 
termin-la. Precisou de quase um ano de rigor sanguinrio para forar o governo a 
propor condies de paz favorveis aos rebeldes, e outro ano para persuadir os seus 
partidrios da convenincia de aceit-las. Chegou a inconcebveis extremos de 
crueldade para sufocar as rebelies dos seus prprios oficiais, que resistiam a 
mercadejar a vitria, e terminou se apoiando em foras inimigas para acabar de 
subjug-los. 


Nunca foi melhor guerreiro do que ento. A certeza de que finalmente lutava 
pela sua prpria libertao e no por ideais abstratos, por ordens que os polticos 
podiam virar para o direito e para o avesso segundo as circunstncias, infundiu-lhe um 
entusiasmo apaixonado. O Coronel Gerineldo Mrquez, que lutou pelo fracasso com 
tanta convico e tanta lealdade como antes lutara pelo triunfo, reprovava a sua 
temeridade intil. No se preocupe, sorria ele. Morrer  muito mais difcil do que se 
acredita. No seu caso era verdade. A certeza de que o seu dia estava marcado investiu-

o de uma imunidade misteriosa, uma imortalidade a prazo fixo que o fez invulnervel 
aos riscos da guerra, e lhe permitiu finalmente conquistar uma derrota que era muito 
mais difcil, muito mais sangrenta e custosa que a vitria. 
Em quase vinte anos de guerra, o Coronel Aureliano Buenda tinha estado 
muitas vezes em casa, mas o estado de urgncia em que chegava sempre, o aparato 
militar que o acompanhava a toda parte, a aura de lenda que dourava a sua presena e qual nem a prpria rsula foi insensvel, terminaram por convert-lo num estranho. 
Na ltima vez que esteve em Macondo e ocupou uma casa com as suas trs 
concubinas, no foi visto na sua a no ser duas ou trs vezes, quando teve tempo para 
aceitar convites para comer. Remedios, a bela, e os gmeos, nascidos em plena guerra, 
mal o conheciam. Amaranta no conseguia conciliar a imagem do irmo que passara a 
adolescncia fabricando peixinhos de ouro com a do guerreiro mtico que havia 
interposto entre ele e o resto da humanidade uma distncia de trs metros. Mas 
quando se soube da proximidade do armistcio e se pensou que ele regressava outra 
vez convertido num ser humano, resgatado por fim para o corao dos seus, os afetos 
familiares adormecidos por tanto tempo renasceram com mais fora do que nunca.

 Finalmente  disse rsula  vamos ter outra vez um homem em casa. 
Amaranta foi a primeira a suspeitar de que o haviam perdido para sempre. Uma 
semana antes do armistcio, quando ele entrou em casa sem escolta, precedido por dois 
ordenanas descalos que depositaram no corredor os arreios da mula e o ba dos 
versos, saldo nico da sua antiga bagagem imperial, ela o viu passar em frente do 
quarto de costura e o chamou. O Coronel Aureliano Buenda pareceu ter dificuldade 
em reconhec-la. 

 Sou Amaranta  disse ela de bom humor, feliz pela sua volta, e lhe mostrou 
a mo com a atadura negra.  Olhe. 
O Coronel Aureliano Buenda dirigiu-lhe o mesmo sorriso da primeira vez em 
que a viu com a atadura, na remota manh em que voltou a Macondo sentenciado  
morte. 

 Que horror  disse  como o tempo passa! 
O exrcito regular teve que proteger a casa. Ele chegara escarnecido, cuspido, 
acusado de ter endurecido a guerra apenas para vend-la mais cara. Tremia de febre e 
de frio e tinha outra vez as axilas cheias de furnculos. Seis meses antes, quando ouviu 
falar do armistcio, rsula abriu e varreu a alcova nupcial, e queimou mirra nos cantos, 
pensando que ele regressaria disposto a envelhecer devagar entre as mofadas bonecas 
de Remedios. Mas na verdade, nos dois ltimos anos ele pagara as suas quotas finais  
vida, inclusive a do envelhecimento. Ao passar diante da oficina de ourivesaria, quersula tinha preparado com especial cuidado, nem sequer percebeu que as chaves 
estavam postas no cadeado. No notou os minsculos e profundos estragos que o 
tempo fizera na casa e que depois de uma ausncia to prolongada teriam parecido um 
desastre a qualquer homem que conservasse vivas as suas recordaes. No o magoou 


a cal descascada nas paredes, nem os sujos algodes de teia de aranha nos cantos, nem 
a poeira das begnias, nem os tneis do cupim nas vigas, nem o musgo das dobradias, 
nem nenhuma das armadilhas insidiosas que lhe estendia a saudade. Sentou-se na 
varanda, embrulhado na manta e sem tirar as botas, como que esperando apenas que 
estiasse, e permaneceu a tarde inteira vendo a chuva cair sobre as begnias. rsula 
compreendeu ento que no o teria em casa por muito tempo. Se no  a guerra, 
pensou, s pode ser a morte. Foi uma suposio to ntida, to convincente, que ela a 
identificou como um pressgio. 

Nessa noite, no jantar, o suposto Aureliano Segundo partiu o po com a mo 
direita e tomou a sopa com a esquerda. Seu irmo gmeo, o suposto Jos Arcadio 
Segundo, partiu o po com a mo esquerda e tomou a sopa com a direita. Era to 
precisa a coordenao dos seus movimentos que no pareciam dois irmos sentados 
um em frente ao outro, e sim um artifcio de espelhos. O espetculo que os gmeos 
tinham concebido desde que tomaram conscincia de que eram iguais foi repetido em 
honra do recm-chegado. Mas o Coronel Aureliano Buenda no percebeu. Parecia to 
alheio a tudo que nem sequer prestou ateno a Remedios, a bela, que passou despida 
para o quarto. rsula foi a nica que se atreveu a perturbar a sua abstrao. 

 Se voc vai embora outra vez  disse-lhe no meio do jantar  pelo menos 
trate de se lembrar de como ramos esta noite. 
Ento o Coronel Aureliano Buenda se deu conta, sem espanto, de que rsula 
era o nico ser humano que tinha conseguido desentranhar a sua misria, e pela 
primeira vez em muitos anos se atreveu a olh-la na cara. Tinha a pele gretada, os 
dentes carcomidos, o cabelo minguado e sem cor, e o olhar atnito. Comparou-a com a 
lembrana mais antiga que tinha dela, na tarde em que ele tivera o pressgio de que 
uma panela de sopa fervendo ia cair da mesa, e a encontrou espedaada. Num instante 
descobriu os arranhes, os verges, os calos, as lceras e as cicatrizes que deixara nela 
mais de meio sculo de vida cotidiana e comprovou que estes estragos no provocavam 
nele sequer um sentimento de piedade. Fez ento um ltimo esforo para procurar no 
seu corao o lugar onde se haviam apodrecido os afetos e no conseguiu encontr-lo. 
Em outra poca, pelo menos, experimentava um confuso sentimento de vergonha 
quando surpreendia na sua prpria pele o cheiro de rsula, e em mais de uma ocasio 
sentira os seus pensamentos interferidos pelo pensamento dela. Mas tudo isso tinha 
sido arrasado pela guerra. A prpria Remedios, sua esposa, era naquele momento a 
imagem apagada de algum que podia ter sido sua filha. As inumerveis mulheres que 
conhecera no deserto do amor, e que espalharam a sua semente em todo o litoral, no 
tinham deixado nenhum rasto nos seus sentimentos. A maioria delas entrava no 
quarto na escurido e ia embora antes da alvorada, e no dia seguinte era apenas um 
pouco de tdio na memria corporal. O nico afeto que prevalecia contra o tempo e a 
guerra foi o que sentiu pelo seu irmo Jos Arcadio quando ambos eram crianas, e 
no estava baseado no amor, mas na cumplicidade. 

 Perdo  desculpou-se diante do pedido de Ursula.
  que esta guerra acabou com tudo. 
Nos dias subseqentes ocupou-se em destruir todas as marcas da sua passagem 
pelo mundo. Reduziu a oficina de ourivesaria at deixar apenas os objetos impessoais, 
deu as suas roupas aos ordenanas e enterrou as suas armas no quintal com o mesmo 
sentido de penitncia com que o seu pai havia enterrado a lana que dera morte aPrudencio Aguilar. Conservou somente uma pistola, e com uma bala apenas. rsula 


no interveio. A nica vez que se meteu foi quando ele estava se preparando para 
destruir o retrato de Remedios que se conservava na sala, iluminado por uma lmpada 
eterna. Esse retrato deixou de pertencer a voc h muito tempo, disse a ele.  uma 
relquia de famlia. Na vspera do armistcio, quando j no havia em casa um s 
objeto que permitisse record-lo, levou  padaria da casa o ba com os versos, no 
momento em que Santa Sofa de la Piedad se preparava para acender o forno. 

 Acenda com isto  disse a ela, entregando-lhe o primeiro rolo de papis 
amarelados.  Arde melhor, porque so coisas muito antigas. 
Santa Sofa de la Piedad, a silenciosa, a condescendente, a que nunca contrariara 
nem os prprios filhos, teve a impresso de que aquele era um ato proibido. 

 So papis importantes  disse. 
 Nada disso  disse o coronel.  So coisas que uma pessoa escreve para si 
mesma. 
 Ento  ela disse  queime o senhor mesmo, coronel. No apenas o fez, 
mas espedaou tambm o ba com uma machadinha e jogou os cavacos no fogo. Horas 
antes, Pilar Ternera o visitara. Depois de tantos anos sem v -la, o Coronel Aureliano 
Buenda se assombrou de quanto havia envelhecido e engordado, e de quanto havia 
perdido o esplendor do seu riso; mas tambm se assombrou da profundidade que havia 
atingido na leitura das cartas. Cuidado com a boca, disse ela, e ele se perguntou se da 
outra vez em que dissera, no apogeu da glria, no havia sido uma viso 
surpreendentemente antecipada do seu destino. Pouco depois, quando o seu mdico 
pessoal acabou de lhe extirpar os furnculos, ele perguntou sem demonstrar interesse 
particular qual era o lugar exato do corao. O mdico o auscultou e pintou-lhe em 
seguida um crculo no peito com um algodo sujo de iodo. 

A tera-feira do armistcio amanheceu fresca e chuvosa. O Coronel Aureliano 
Buenda apareceu na cozinha antes das cinco e tomou o seu caf sem acar habitual.
Num dia como este voc veio ao mundo, rsula disse a ele. Todos se assustaram 
com os seus olhos abertos. Ele no lhe prestou ateno, porque estava alerta aos 
preparos da tropa, aos toques de cometa e s vozes de comando que estragavam a 
alvorada. Ainda que depois de tantos anos de guerra estes rudos lhe devessem parecer 
familiares, desta vez sentiu o mesmo desalento nos joelhos, e o mesmo arrepio da pele 
que tinha sentido na juventude, em presena de uma mulher nua. Pensou 
confusamente, enfim capturado numa armadilha da saudade, que talvez se tivesse se 
casado com ela teria sido um homem sem guerra e sem glria, um arteso sem nome, 
um animal feliz. Esse estremecimento tardio, que no figurava nas suas previses, 
amargou-lhe o caf da manh. As sete horas, quando o Coronel Gerineldo Mrquez foi 
procur-lo em companhia de um grupo de oficiais rebeldes, encontrou-o mais 
taciturno do que nunca, mais pensativo e solitrio. rsula tratou de jogar-lhe sobre os 
ombros uma manta nova. O que  que o governo vai pensar, disse a ele. Vo 
imaginar que voc se rendeu porque j no tinha nem com que comprar uma manta. 
Mas ele no a aceitou. J na porta, vendo que a chuva continuava, deixou que lhe 
pusessem um velho chapu de feltro de Jos Arcadio Buenda. 

 Aureliano  rsula disse a ele ento  prometa-me que se voc encontrar 
por a com a hora difcil, voc vai pensar na sua me. 
Ele lhe deu um sorriso distante, levantou a mo com todos os dedos estendidos, 
e sem dizer uma palavra abandonou a casa e enfrentou os gritos, vituprios eblasfmias que haveriam de persegui-lo at a sada do povoado. rsula colocou a 


tranca no porto, decidida a no tir-la durante o resto da vida. Ns vamos apodrecer 
aqui dentro, pensou. Ns vamos nos transformar em cinza nesta casa sem homens, 
mas no vamos dar a este povo miservel o gosto de nos ver chorar. Passou a manh 
inteira procurando uma lembrana do filho nos cantos mais escondidos e no 
conseguiu encontrar. 

O ato se realizou a vinte quilmetros de Macondo,  sombra de uma paineira 
gigantesca, em torno da qual se haveria de fundar mais tarde o povoado de Neerlndia. 
Os delegados do governo e os do partido e a comisso rebelde que entregou as armas 
foram recebidos por um bulioso grupo de novias de hbitos brancos, que pareciam 
uma revoada de pombas assustadas pela chuva. O Coronel Aureliano Buenda chegou 
numa mula enlameada. Estava barbado, mais atormentado pela dor dos furnculos 
que pelo imenso fracasso dos seus sonhos, pois tinha chegado ao fim de qualquer 
esperana, alm da glria e da saudade da glria. De acordo com o determinado por ele 
mesmo, no houve msica, nem foguetes, nem sinos de jbilo, nem placas 
comemorativas, nem nenhuma outra manifestao que pudesse alterar o carter triste 
do armistcio. Um fotgrafo ambulante, que tirou o nico retrato seu que poderia ser 
conservado, foi obrigado a destruir o filme sem o revelar. 

O ato durou apenas o tempo indispensvel para que se pusessem as assinaturas. 
Ao redor da rstica mesa colocada no centro de uma remendada barraca de circo onde 
sentaram os delegados, estavam os ltimos oficiais que permaneceram fiis ao Coronel 
Aureliano Buenda. Antes de recolher as assinaturas, o delegado pessoal do Presidente 
da Repblica tentou ler em voz alta a ata da rendio, mas o Coronel Aureliano 
Buenda se ops. No vamos perder tempo com formalidades, disse, e se disps a 
assinar os papis sem os ler. Um dos oficiais, ento, rompeu o silncio soporfero da 
tenda. 

 Coronel  disse  faa-nos o favor de no ser o primeiro a assinar. 
O Coronel Aureliano Buenda concedeu. Quando o documento deu a volta 
completa  mesa, em meio a um silncio to ntido que seria possvel decifrar as 
assinaturas pelo puro floreio da pena no papel, o primeiro lugar ainda estava em 
branco. O Coronel Aureliano Buenda se disps a ocup-lo. 

 Coronel  disse ento outro dos seus oficiais  o senhor ainda tem tempo 
para ficar bem. 
Sem se perturbar, o Coronel Aureliano Buenda assinou a primeira cpia. Ainda 
no tinha acabado de assinar a ltima quando apareceu na porta da tenda um coronel 
rebelde, trazendo pelo cabresto uma mula carregada com dois bas. Apesar da sua 
extrema juventude, tinha um aspecto rido e uma expresso paciente. Era o tesoureiro 
da revoluo na circunscrio de Macondo. Fizera uma penosa viagem de seis dias, 
arrastando a mula morta de fome, para chegar em tempo ao armistcio. Com uma 
calma exasperante descarregou os bas, abriu-os, e foi colocando na mesa, uma por 
uma, setenta e duas barras de ouro. Ningum se lembrava da existncia daquela 
fortuna. Na desordem do ano anterior, quando o poder central se partiu em pedaos e 
a revoluo degenerou nu-ma sangrenta rivalidade de caudilhos, era impossvel 
determinar qualquer responsabilidade. O ouro da rebelio, fundido em blocos que 
foram logo cobertos de barro cozido, ficou fora de qualquer controle. O Coronel 
Aureliano Buenda fez com que se inclussem as setenta e duas barras de ouro no 
inventrio da rendio, e fechou o ato sem permitir discursos. O esqulido adolescente 


permaneceu diante dele, olhando-o nos olhos com os seus serenos olhos cor de 
caramelo. 

 Alguma coisa mais?  perguntou-lhe o Coronel Aureliano Buenda. 
O jovem coronel trincou os dentes. 
 O recibo  disse. 
O Coronel Aureliano Buenda estendeu-lhe um, feito do seu prprio punho e 
letra. Em seguida, tomou um copo de limonada e comeu um pedao de biscoito que as 
novias serviram, e se retirou para uma tenda de campanha que lhe haviam preparado 
para quando quisesse descansar. Ali tirou a camisa, sentou-se na beira do catre e, s 
trs e quinze da tarde, desferiu um tiro de pistola no crculo de iodo que o seu mdico 
particular lhe pintara no peito. A essa hora, em Macondo, rsula destampou a panela 
do leite no fogo, estranhando que demorasse tanto a ferver, e encontrou-a cheia de 
vermes. 

 Mataram Aureliano!  exclamou. 
Olhou para o quintal, obedecendo a um costume da sua solido, e viu Jos 
Arcadio Buenda, ensopado, triste de chuva e muito mais velho do que quando morreu. 
Mataram-no  traio, precisou rsula, e ningum fez a caridade de lhe fechar os 
olhos. Ao anoitecer viu atravs das lgrimas os rpidos e luminosos discos alaranjados 
que cruzaram o cu como uma exalao, e pensou que era um sinal da morte. Estava 
ainda debaixo do castanheiro, soluando nos joelhos do marido, quando trouxeram o 
Coronel Aureliano Buenda embrulhado na manta dura de sangue seco e com os olhos 
abertos de raiva. 

Estava fora de perigo. O projtil seguira uma trajetria to desimpedida que o 
mdico lhe enfiou um cordo molhado de iodo pelo peito e tirou-o pelas costas. Esta 
 a minha obra-prima, disse a ele satisfeito. Era o nico ponto por onde podia passar 
uma bala sem atingir nenhum centro vital. O Coronel Aureliano Buenda se viu 
rodeado de novias misericordiosas que entoavam salmos desesperados pelo eterno 
descanso da sua alma, e ento se arrependeu de no ter dado o tiro no cu da boca 
como tinha previsto, s para enganar o prognstico de Pilar Temera. 

 Se eu ainda tivesse autoridade  disse ao mdico  mandava fuzilar o 
senhor sem julgamento. No por me ter salvo a vida, mas por me fazer cair no ridculo. 
O fracasso da morte lhe devolveu em poucas horas o prestgio perdido. Os 
mesmos que inventaram a lorota de que vendera a guerra por um aposento cujas 
paredes estavam construdas com tijolos de ouro definiram a tentativa de suicdio 
como um ato de honra e o proclamaram mrtir. Em seguida, ando recusou a Ordem do 
Mrito que o Presidente da Repblca lhe outorgou, at os seus rivais mais 
encarniados desfilaram no seu quarto, pedindo que desconhecesse os termos do 
armistcio e promovesse uma nova guerra. A casa se encheu de presentes de 
solidariedade. Tardiamente impressionado com o apoio macio dos seus antigos 
companheiros de armas, Coronel Aureliano Buenda no descartou a possibilidade de 
satisfaz-los. Pelo contrrio, em dado momento pareceu to entusiasmado com a idia 
de uma nova guerra que o Coronel Gerineldo Mrquez pensou que ele s esperava um 
pretexto para proclam-la. O pretexto se ofereceu, efetivamente, quando o Presidente 
da Repblica se negou a conceder as penses de guerra aos antigos combatentes, 
liberais ou conservadores, enquanto cada processo no fosse revisto por uma comisso 
especial e a lei das concesses aprovada pelo Congresso. Isto  uma confuso, 
trovejou o Coronel Aureliano Buenda. Vo morrer de velhice esperando o correio. 


Abandonou pela primeira vez a cadeira de balano que rsula comprara para a sua 
convalescena e, andando de um lado para o outro na alcova, ditou uma mensagem 
taxativa para o Presidente da Repblica. Nesse telegrama, que nunca foi publicado, 
denunciava a primeira violao do Tratado de Neerlndia e ameaava proclamar a 
guerra de morte se a concesso das penses no fosse resolvida ao fim de quinze dias. 
Era to justa a sua atitude que permitia contar, inclusive, com a adeso dos antigos 
combatentes conservadores. Mas a nica resposta do governo foi o reforo da guarda 
militar que colocara na porta da sua casa com o pretexto de proteg-la e a proibio de 
toda e qualquer espcie de visitas. Medidas similares foram adotadas em todo o pas, 
com outros caudilhos de cuidado. Foi uma operao to oportuna, drstica e eficaz que 
dois meses depois do armistcio, quando o Coronel Aureliano Buenda teve alta, os 
seus instigadores mais decididos j estavam mortos ou expatriados ou haviam sido 
assimilados para sempre pela administrao pblica. 

O Coronel Aureliano Buenda abandonou o quarto em dezembro, e bastou dar 
uma olhada na varanda para no voltar a pensar na guerra. Com uma vitalidade queparecia impossvel na sua idade, rsula voltou a rejuvenescer a casa. Agora vo ver 
quem sou eu, disse quando soube que o filho viveria. No haver uma casa melhor, 
nem mais aberta a todo o mundo, que esta casa de loucos. Mandou-a lavar e pintar, 
trocou os mveis, restaurou o jardim e semeou flores novas, e abriu as portas e janelas 
para que entrasse at os quartos a deslumbrante claridade do vero. Decretou o fim 
dos numerosos lutos superpostos e ela mesma mudou os velhos trajes rigorosos por 
roupas juvenis. A msica da pianola voltou a alegrar a casa. Ao ouvi-la, Amaranta se 
lembrou de Pietro Crespi, da sua gardnia crepuscular e do seu cheiro de lavanda, e no 
fundo do seu murcho corao floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo. Umatarde em que tentava pr em ordem a sala, rsula pediu ajuda aos soldados que 
custodiavam a casa. O jovem comandante da guarda concedeu-lhes a permisso. Pouco 
a pouco, rsula lhes foi designando novas tarefas. Convidava-os para almoar, 
presenteava-lhes roupas e calados e os ensinava a ler e a escrever. Quando o governo 
suspendeu a vigilncia, um deles ficou morando na casa, e esteve a seu servio por 
muitos anos. No dia de Ano-Novo, enlouquecido pelas grosserias de Remedios, a bela, 

o jovem comandante da guarda amanheceu morto de amor junto  sua janela 

ANOS depois, em seu leito de agonia, Aureliano Segundo haveria de se lembrar 
da chuvosa tarde de junho em que entrou no quarto para conhecer o seu primeiro filho. 
Embora fosse lnguido e choro, sem nenhum trao dos Buenda, no precisou pensar 
duas vezes para lhe dar o nome. 

 Vai se chamar Jos Arcadio  disse. 
Fernanda del Carpio, a formosa mulher com quem se casara no ano anterior,
concordou. rsula, pelo contrrio, no pde esconder um vago sentimento de derrota. 
Na longa histria da famlia, a tenaz repetio dos nomes permitira que ela tirasse 
concluses que lhe pareciam definitivas. Enquanto os Aurelianos eram retrados, mas 
de mentalidade lcida, os Joss Arcadios eram impulsivos e empreendedores, mas 
estavam marcados por um signo trgico. Os nicos casos de classificao impossvel 
eram os de Jos Arcadio Segundo e Aureliano Segundo. Foram to parecidos e 
travessos durante a infncia que nem a prpria Santa Sofa de la Piedad os podia 
distinguir. No dia do batizado, Amaranta colocou neles as pulseiras com os 
respectivos nomes e vestiu-os com roupas de cores diferentes, marcadas com as 
iniciais de cada um, mas quando comearam a ir  escola optaram por trocar a roupa e 
as pulseiras e a se chamarem eles mesmos com os nomes ao contrrio. O mestre 
Melchor Escalona, acostumado a conhecer Jos Arcadio Segundo pela camisa verde, 
perdeu as estribeiras quando descobriu que este trazia a pulseira de Aureliano 
Segundo, e que o outro dizia que se chamava, entretanto, Aureliano Segundo, apesar 
de vestir a camisa branca e trazer a pulseira marcada com o nome de Jos Arcadio 
Segundo. A partir da no se sabia mais com certeza quem era quem. Mesmo quando 
cresceram e a vida os tornou diferentes, Ursula continuava a se perguntar se eles 
mesmos no teriam cometido um erro em algum momento do seu intrincado jogo de 
equvocos e no teriam ficado trocados para sempre. At o princpio da adolescncia, 
foram dois mecanismos sincrnicos. Acordavam ao mesmo tempo, tinham vontade de 
ir ao banheiro na mesma hora, sofriam as mesmas alteraes de sade e at sonhavam 
as mesmas coisas. Em casa, onde se acreditava que coordenavam os seus atos pelo 
mero desejo de confundir, ningum percebeu a realidade at que um dia Santa Sofa de 
la Piedad deu a um deles um copo de limonada e este demorou mais para prov-lo do 
que o outro para dizer que estava faltando acar. Santa Sofa de la Piedad, querealmente se esquecera de pr acar na limonada, contou o fato a rsula. Todos so 
assim, disse ela sem surpresa. Loucos de nascena. O tempo acabou de desarrumar 
as coisas. O que nos jogos de equvoco ficou com o nome de Aureliano Segundo 
tornou-se monumental como o av, e o que ficou com o nome de Jos Arcadio Segundo 
tornou-se sseo como o coronel, e a nica coisa que conservavam de comum foi o ar 
solitrio da famlia. Talvez tenha sido esse entrecruzamento de estaturas, nomes e 
temperamentos o que fez rsula pensar que estavam embaralhados desde a infncia. 

A diferena decisiva se relevou em plena guerra, quando Jos Arcadio Segundo 
pediu ao Coronel Gerineldo Mrquez que o levasse para ver os fuzilamentos. Contra o 
parecer de rsula, os seus desejos foram satisfeitos. Aureliano Segundo, pelo contrrio, 
estremeceu diante da pura idia de presenciar uma execuo. Preferia ficar em casa.
Aos doze anos perguntou a rsula o que havia no quarto trancado. Papis, ela 
respondeu. So os livros de Melquades e as coisas esquisitas que ele escrevia nos seus 
ltimos anos. A resposta, em vez de o tranqilizar, aumentou a sua curiosidade.
Insistiu tanto, prometeu com tanto empenho no estragar as coisas, que rsula lhe 
deu as chaves. Ningum tornara a entrar no quarto desde que levaram o cadver de 


Melquades e puseram na porta o cadeado cujas peas se soldaram com a ferrugem. 
Mas quando Aureliano Segundo abriu as janelas, entrou uma luz familiar que parecia 
acostumada a iluminar o quarto todos os dias, e no havia nele a menor sombra de 
poeira ou teia de aranha, e sim estava tudo varrido e limpo, mais bem varrido e mais 
limpo do que no dia do enterro, e a tinta no secara no tinte iro nem o xido alterara o 
brilho dos metais, nem se extinguira a brasa do alambique onde Jos Arcadio Buenda 
vaporizara o mercrio. Nas prateleiras estavam os livros encadernados de uma matria 
acartonada e plida como pele humana curtida, e estavam os manuscritos intactos. 
Apesar de fechado por muitos anos, o ar parecia mais puro do que no resto da casa.
Tudo era to recente que vrias semanas depois, quando rsula entrou no quarto com 
um balde de gua e uma vassoura para lavar o cho, no teve nada para fazer. 
Aureliano Segundo estava absorto na leitura de um livro. Embora estivesse sem capa e 

o ttulo no aparecesse em lugar nenhum, o menino se divertia com a histria de uma 
mulher que se sentava na mesa e s comia gros de arroz que apanhava com alfinetes, e 
com a histria do pescador que pediu emprestado ao vizinho um peso para a sua rede e 
o peixe com que o recompensou mais tarde tinha um diamante no estmago, e com a 
lmpada que satisfazia os desejos e os tapetes que voavam. Assombrado, perguntou arsula se aquilo tudo era verdade, e ela respondeu que sim, que muitos anos antes os 
ciganos traziam a Macondo as lmpadas maravilhosas e os tapetes voadores. 
 O que acontece  suspirou   que o mundo vai se acabando pouco a 
pouco e essas coisas j no vm. 
Quando acabou o livro, muitos de cujos contos estavam inconclusos porque 
faltavam pginas, Aureliano Segundo se deu o trabalho de decifrar os manuscritos. Foi 
impossvel. As letras pareciam roupas postas para secar num arame e se assemelhavam 
mais  escrita musical que  literria. Um meio-dia ardente, enquanto perscrutava os 
manuscritos, sentiu que no estava sozinho no quarto. Contra a reverberao da 
janela, sentado com as mos nos joelhos, estava Melquades. No tinha mais de 
quarenta anos. Usava o mesmo casaco anacrnico e o chapu de asas de corvo e pelas 
suas tmporas p-lidas gotejava a gordura do cabelo derretida pelo calor, como fora 
visto por Aureliano e Jos Arcadio quando eram crianas. Aureliano Segundo 
reconheceu-o imediatamente, porque aq uela lembrana hereditria se havia 
transmitido de gerao em gerao e tinha chegado a ele partindo da memria do seu 
av. 

 Salve  disse Aureliano Segundo. 
 Salve, jovem  disse Melquades. 
A partir de ento, durante vrios anos, viram-se quase todas as tardes. 
Melquades lhe falava do mundo, tentava infundir-lhe a sua velha sabedoria, mas se 
negou a traduzir os manuscritos. Ningum deve conhecer a sua mensagem enquanto 
no se passarem cem anos, explicou. Aureliano Segundo guardou para sempre o 
segredo daquelas entrevistas. Certa ocasio sentiu que o seu mundo privado sedesmoronava, porque rsula entrou no momento em que Melquades estava no 
quarto. Mas ela no o viu. 

 Com quem voc est falando?  perguntou a ele. 
 Com ningum  disse Aureliano Segundo. 
 O seu bisav era assim  disse rsula.  Ele tambm falava sozinho. 
Jos Arcadio Segundo, enquanto isso, satisfizera o desejo de ver um 
fuzilamento. Recordaria pelo resto da vida o fogaru lvido dos seis disparos 


simultneos e o eco do estampido que se estilhaou pelos montes, e o sorriso triste e os 
olhos perplexos do fuzilado, que permaneceu erecto enquanto a camisa se ensopava de 
sangue, e que continuava sorrindo mesmo quando o desamarraram do poste e o 
jogaram num caixote cheio de cal. Est vivo, pensou ele. Vo enterr-lo vivo. 
Impressionou-se tanto que desde ento detestou as prticas militares e a guerra, no 
pelas execues em si, mas pelo horrvel costume de enterrar os fuzilados vivos. 
Ningum soube ento quando comeou a tocar os sinos na torre e a ajudar missa para 

o Padre Antonio Isabel, sucessor de O Cachorrinho, e a cuidar dos galos de briga no 
quintal da casa sacerdotal. Quando o Coronel Gerineldo Mrquez foi informado, 
repreendeu-o duramente por estar aprendendo ofcios repudiados pelos liberais. O 
problema, respondeu,  que eu acho que sa conservador. Acreditava como se fosse 
uma determinao da fatalidade. O Coronel Gerineldo Mrquez, escandalizado,
contou a rsula. 
 Melhor  aprovou ela.  Tomara que fosse padre, para que finalmente 
Deus entre nesta casa. 
Muito em breve se soube que o Padre Antonio Isabel o estava preparando para a 
primeira comunho. Ensinava-lhe o catecismo enquanto raspava o pescoo dos galos. 
Explicava com exemplos simples, enquanto colocavam nos ninhos as galinhas chocas, 
como ocorrera a Deus, no segundo dia da criao, que os pintos se formassem dentro 
do ovo. J ento o proco manifestava os primeiros sintomas do delrio senil que o 
levou a dizer, anos mais tarde, que provavelmente o diabo tinha ganho a rebelio 
contra Deus e que era aquele quem estava sentado no trono celeste sem revelar a sua 
verdadeira identidade para enganar os incautos. Insuflado pela intrepidez do seu 
preceptor, Jos Arcadio Segundo chegou em poucos meses a ser to sbio em 
artimanhas teolgicas para confundir o demnio como experimentado nas trapaas da 
rinha. Amaranta fez para ele um terno de linho com colarinho e gravata, comprou-lhe 
um par de sapatos brancos e gravou o seu nome com letras douradas no lao do crio. 
Duas noites antes da primeira comunho, o Padre Antonio Isabel se fechou com ele na 
sacristia para confess-lo, com a ajuda de um dicionrio de pecados. Era uma lista to 
comprida que o velho proco, acostumado a se deitar s seis horas, adormeceu na 
poltrona antes de terminar. O interrogatrio foi para Jos Arcadio Segundo uma 
revelao. No o surpreendeu que o padre lhe perguntasse se havia feito coisa feia com 
mulher, e respondeu honradamente que no, mas se desconcertou quando lhe 
perguntou se tinha feito com animais. Na primeira sexta-feira de maio comungou 
torturado pela curiosidade. Mais tarde fez a pergunta a Petronio, o sacristo doente 
que vivia na torre e que conforme diziam se alimentava de morcegos, e Petroniorespondeu:  que h cristos corrompidos que fazem das suas com as burras. Jos 
Arcadio Segundo continuou demonstrando tanta curiosidade, pediu tantas 
explicaes, que Petronio perdeu a pacincia. 

 Eu vou s teras-feiras  noite  confessou.  Se voc promete que no 
conta a ningum, na prxima tera-feira vai comigo. 
Na tera-feira seguinte, realmente, Petronio desceu da torre com um banquinho 
de madeira que ningum soubera at ento para que servia, e levou Jos ArcadioSegundo a uma chcara prxima.  rapaz gostou tanto daquelas incurses noturn as 
que passou muito tempo sem aparecer na taberna de Catarino. Fez-se criador de galos. 
Leve estes animais para outro lugar, ordenou-lhe rsula na primeira vez em que o 
viu entrar com os seus finos animais de briga. Os galos j trouxeram amarguras 


demais a esta casa para que voc agora venha nos trazer outras. Jos Arcadio Segundo 
levou-os sem discusso, mas continuou a cri-los na casa de Pilar Ternera, sua av, que 
ps  sua disposio quanto precisava, em troca de t-lo em casa. Demonstrou logo na 
rinha a sabedoria que lhe infundira o Padre Antonio Isabel, e disps de dinheiro 
suficiente no s para ampliar a sua criao, mas tambm para procurar prazeres dehomem. rsula comparava-o naquele tempo com o irmo e no podia entender como 
os dois gmeos que pareciam uma pessoa s na infncia acabaram sendo to diferentes. 
A perplexidade no durou muito tempo, porque muito brevemente Aureliano Segundo 
comeou a dar mostras de malandragem e dissipao. Enquanto esteve fechado no 
quarto de Melquades foi um homem ensimesmado, como o fora o Coronel Aureliano 
Buenda na juventude. Pouco antes, porm, do Tratado de Neerlndia, uma 
casualidade o arrancou do seu ensimesmamento e o colocou diante da realidade do 
mundo. Uma mulher jovem, que andava vendendo nmeros para a rifa de um acordeo, 
cumprimentou-o com muita familiaridade. Aureliano Segundo no se surpreendeu 
porque acontecia com freqncia confundirem-no com o ir-mo. Mas no esclareceu o 
equvoco, nem sequer quando a moa tratou de lhe amolecer o corao com 
choramingos, e acabou por lev-lo para o seu quarto. Despertou-lhe tanto carinho 
desde aquele primeiro encontro que ela fez trapaa na rifa para que ele ganhasse o 
acordeo. Ao fim de duas semanas, Aureliano Segundo percebeu que a mulher estava 
dormindo alternadamente com ele e com o irmo, acreditando que eram o mesmo 
homem, e em vez de esclarecer a situao deu um jeito de prolong-la. No voltou ao 
quarto de Melquades. Passava as tardes no quintal, aprendendo a tocar de ouvido oacordeo, apesar dos protestos de rsula, que naquele tempo havia proibido a msica 
em casa por causa dos lutos e que alm disso menosprezava o acordeo como um 
instrumento prprio dos vagabundos herdeiros de Francisco, o Homem. Entretanto, 

Aureliano Segundo chegou a ser um virtuose do acordeo e continuou sendo depois que 
se casou e teve filhos e passou a ser um dos homens mais respeitados de Macondo. 

Durante quase dois meses partilhou a mulher com o irmo. Vigiava-o, 
desmanchava os seus planos, e quando estava certo de que Jos Arcadio Segundo no 
visitaria essa noite a amante comum, ia dormir com ela. Certa manh descobriu que 
estava doente. Dois dias depois encontrou o irmo apoiado numa viga do banheiro, 
alagado de suor e chorando de cair lgrimas, e ento compreendeu. Seu irmo 
confessou que a amante o repudiara por lhe haver trazido o que ela chamava de uma 
doena de mulher da vida. Contou-lhe tambm como Pilar Ternera tentava cur-lo. 
Aureliano Segundo submeteu-se s escondidas s ardentes lavagens de permanganato 
e s guas diurticas, e ambos se curaram separadamente aps trs meses de 
sofrimentos secretos. Jos Arcadio Segundo no voltou a ver a mulher. Aureliano 
Segundo obteve o seu perdo e ficou com ela at a morte. 

Chamava-se Petra Cotes. Chegada a Macondo em plena guerra, com um marido 
ocasional que vivia de rifas, e, quando o homem morreu, ela continuou com o negcio. 
Era uma mulata limpa e jovem, com uns olhos amarelos e amendoados que lhe davam 
ao rosto a ferocidade de uma pantera, mas tinha um corao generoso e uma magnfica 
vocao para o amor. Quando rsula soube que Jos Arcadio Segundo era criador de 
galos e Aureliano Segundo tocava acordeo nas festas ruidosas da sua concubina, 
pensou que ia enlouquecer de confuso. Era como se ambos tivessem concentrado os 
defeitos da famlia e nenhuma das suas virtudes. Decidiu ento que ningum mais 


tornaria a se chamar Aureliano e Jos Arcadio. Entretanto, quando Aureliano Segundo 
teve o seu primeiro filho, no se atreveu a contrari-lo. 

 Concordo  disse rsula  mas com uma condio: eu me encarrego de 
cri-lo. 
Embora fosse centenria e estivesse quase cega por causa da catarata, 
conservava intactos o dinamismo fsico, a integridade do carter e o equilbrio mental. 
Ningum melhor do que ela para formar o homem virtuoso que haveria de restaurar o 
prestgio da famlia, um homem que nunca tivesse ouvido falar da guerra, dos galos de 
briga, das mulheres da vida e das empresas delirantes, quatro calamidades que,
conforme pensava rsula, tinham determinado a decadncia de sua estirpe. Este ser 
padre, prometeu solenemente. E se Deus me der vida bastante h de chegar a ser 
Papa. Todos riram ao ouvi-la, no apenas no quarto, mas em toda a casa, onde 
estavam reunidos os barulhentos companheiros de Aureliano Segundo. A guerra, 
relegada ao desvo das ms recordaes, foi momentaneamente evocada com os 
estouros da champanha. 

 A sade do Papa  brindou Aureliano Segundo. Os convidados brindaram 
em coro. Em seguida o dono da casa tocou acordeo, soltaram-se foguetes e se 
ordenaram batucadas de jbilo para o povo. De madrugada, os convidados 
encharcados de champanha sacrificaram seis vacas e as puseram na rua  disposio da 
multido. Ningum se escandalizou. Desde que Aureliano Segundo passou a ser o 
chefe da casa, aquelas festivid ades eram coisa corrente, mesmo que no existisse um 
motivo to justo como o nascimento de um Papa. Em poucos anos, sem esforo, por 
puros golpes de sorte, acumulara uma das maiores fortunas do pantanal, graas  
proliferao sobrenatural dos seus animais. As suas guas pariam trigmeos, as 
galinhas botavam duas vezes por dia, e os porcos engordavam de forma to 
desenfreada que ningum podia explicar uma fecundidade to desordenada a no serpor artes de magia. Economize agora, dizia rsula ao seu bisneto aturdido. Esta 
sorte no vai durar toda a vida. Mas Aureliano Segundo no lhe prestava ateno. 
Quanto mais abria champanha para encharcar os amigos, mais loucamente pariam os 
seus animais, e mais se convencia ele de que a sua boa estrela no era ligada ao seu 
comportamento e sim  influncia de Petra Cotes, sua concubina, cujo amor tinha a 
virtude de exasperar a natureza. To convencido estava de que era essa a origem da sua 
fortuna que nunca possuiu Petra Cotes longe da sua criao, e, mesmo quando se 
casou e teve filhos, continuou vivendo com ela com o consentimento de Fernanda. 
Slido, monumental como os seus avs, mas com um gosto pela vida e uma simpatia 
irresistvel que eles no tiveram. Aureliano Segundo mal tinha tempo de vigiar o seu 
gado. Bastava levar Petra Cotes aos estbulos, e passe-la a cavalo pelas suas terras, 
para que todo animal marcado com o seu ferro sucumbisse  peste irremedivel da 
proliferao. 
Como todas as coisas boas que aconteceram na sua longa vida, aquela fortuna 
atabalhoada teve origem na casualidade. At o final das guerras, Petra Cotes 
continuava se sustentando com o produto das suas rifas, e Aureliano Segundo dava umjeito de saquear de vez em quando os cofres de rsula. Formavam um casal frvolo, 
sem mais preocupaes que a de se deitarem juntos todas as noites, mesmo nas datas 
proibidas, e se divertiam na cama at o amanhecer. Essa mulher tem sido a suaperdio, gritava rsula para o bisneto quando o via entrar em casa como um 
sonmbulo. Traz voc to embeiado que qualquer dia destes vou v -lo se torcendo 


de clica, com um sapo metido na barriga. Jos Arcadio Segundo, que demorou muito 
tempo para descobrir que tinha sido suplantado, no conseguia entender a paixo do 
irmo. Lembrava-se de Petra Cotes como uma mulher convencional, um tanto 
preguiosa na cama e completamente desprovida de recursos para o amor. Surdo aoclamor de rsula e  troa do irmo, Aureliano Segundo s pensava ento em 
encontrar um ofcio que lhe permitisse sustentar uma casa para Petra Cotes, e morrer 
com ela, sobre ela e debaixo dela, numa noite de exaltao febril. Quando o Coronel 
Aureliano Buenda voltou a abrir a oficina, seduzido por fim pelos encantos pacficos 
da velhice, Aureliano Segundo pensou que seria um bom negcio dedicar-se  
fabricao de peixinhos de ouro. Ficou muitas horas no quartinho encalorado vendo 
como as duras lminas de metal, trabalhadas pelo coronel com a pacincia 
inconcebvel do desengano, iam-se convertendo pouco a pouco em escamas douradas. 
O ofcio lhe pareceu to trabalhoso, e era to persistente e urgente a lembrana de 
Petra Cotes que ao fim de trs semanas desapareceu da oficina. Foi por essa poca que 
Petra Cotes cismou de rifar coelhos. Reproduziam-se e se tornavam adultos com tanta 
rapidez que mal davam tempo para vender os nmeros da rifa. No incio, Aureliano 
Segundo no percebeu as alarmantes propores da proliferao. Mas certa noite, 
quando j ningum mais do povoado queria ouvir falar das rifas de coelhos, ouviu um 
estardalhao na parede do quintal. No se assuste, disse Petra Cotes. So os 
coelhos. No puderam dormir mais, atormentados pelo trfego dos animais. Ao 
amanhecer, Aureliano Segundo abriu a porta e viu o quintal entupido de coelhos, azuis 
no resplendor da alvorada. Petra Cotes, morta de rir, no resistiu  tentao de fazer 
uma brincadeira. 

 Esses so os que nasceram esta noite  disse. 
 Que horror!  disse ele.  Por que  que voc no experimenta com as 
vacas? 
Poucos dias depois, tratando de desafogar o quintal, Petra Cotes trocou os 
coelhos por uma vaca, que dois meses mais tarde pariu trigmeos. Assim comearam as 
coisas. Da noite para o dia, Aureliano Segundo se fez dono de terras e gado, e mal tinha 
tempo de ampliar as cavalarias e chiqueiros superlotados. Era uma prosperidade de 
delrio que a ele mesmo causava riso e no podia fazer outra coisa seno assumir 
atitudes extravagantes para descarregar o seu. bom humor. Afastem-se, vacas, que a 
vida  curta, gritava. rsula se perguntava em que trapalhadas se metera, se no 
estaria roubando, se no acabara por se transformar em ladro de gado, e cada vez que 

o via abrindo champanha pelo puro prazer de jogar espuma na cabea, reprovava aos 
berros o desperdcio. Aborreceu-o tanto que, um dia em que Aureliano Segundo 
amanheceu com a pacincia esgotada, apareceu com um caixote de dinheiro, uma lata 
de cola e uma brocha, e cantando a plenos pulmes as velhas cantigas de Francisco, o 
Homem, empapelou a casa por dentro e por fora, e de cima at embaixo, com notas de 
um peso. A antiga manso, pintada de branco desde o tempo em que trouxeram a 
pianola, adquiriu o aspecto equvoco de uma mesquita. Em meio ao alvoroo dafamlia, ao escndalo de rsula, ao jbilo do povo que encheu a rua para presenciar a 
glorificao do esbanjamento, Aureliano Segundo acabou empapelando tudo, da 
fachada at a cozinha, inclusive os banheiros e os quartos, e jogou as notas que 
sobraram no quintal. 
 Agora  disse finalmente  espero que ningum nesta casa venha me falar 
de dinheiro. 

Assim foi. rsula mandou tirar as notas aderidas s grandes placas de cal, e 
voltou a pintar a casa de branco. Meu Deus, suplicava. Faa-nos to pobres como 
ramos quando fundamos este povoado, para que na outra vida no nos cobrem este 
desperdcio. As suas splicas foram escutadas em sentido contrrio. Realmente, um 
dos trabalhadores que descolava as notas tropeou por descuido num enorme So Jos 
de gesso que algum tinha deixado na casa nos ltimos anos da guerra e a imagem oca 
se despedaou contra o cho. Estava entupida de moedas de ouro. Ningum se 
lembrava quem trouxera aquele santo de tamanho natural. Trs homens o 
trouxeram, explicou Amaranta. Pediram-me que o guardssemos enquanto a chuva 
passava e eu lhes disse que o pusessem a no canto, onde ningum fosse tropear nele, 
e a o puseram com o maior cuidado, e a ficou desde ento, porque nunca maisvoltaram para busc-lo. Nos ltimos tempos, rsula lhe acendera velas e se ajoelhara 
diante dele, sem suspeitar que em lugar de um santo estava adorando quase duzentos 
quilos de ouro. A comprovao tardia do seu involuntrio paganismo agravou o seu 
desconsolo. Cuspiu no espetacular monto de moedas, meteu-o em trs sacos de lona e 

o enterrou num lugar secreto,  espera de que mais cedo ou mais tarde os trs 
desconhecidos viessem reclam-las. Muito depois, nos anos difceis da sua 
decrepitude, rsula costumava intervir nas conversas dos numerosos viajantes que 
ento passavam pela casa, e lhes perguntava se durante a guerra no tinham deixado 
ali um So Jos de gesso para que o guardassem enquanto passava a chuva.
Estas coisas, que tanto consternavam rsula, eram comuns naquele tempo. 
Macondo naufragava numa prosperidade de milagre. As casas de sopapo e pau-a-pique 
dos fundadores tinham sido substitudas por construes de tijolo, com persianas de 
madeira e cho de cimento, que tornavam mais suportvel o calor sufocante das duas 
da tarde. Da antiga aldeia de Jos Arcadio Buenda s restavam agora as amendoeiras 
empoeiradas, destinadas a resistir s circunstncias mais rduas, e o rio de guas 
difanas cujas pedras pr-histricas foram pulverizadas pelas enlouquecidas picaretas 
de Jos Arcadio Segundo, quando se empenhou em preparar o leito para instituir um 
servio de navegao. Foi um sonho delirante, comparvel apenas aos do seu bisav, 
porque o leito pedregoso e os numerosos obstculos da correnteza impediam o 
trnsito de Macondo at o mar. Mas Jos Arcadio Segundo, num imprevisto impulso 
de temeridade, obstinou-se no projeto. At ento no dera nenhuma amostra de 
imaginao. Salvo a sua precria aventura com Petra Cotes, nunca se soube de nenhum 
caso seu com mulher. rsula o tinha em conta do exemplar mais apagado que a famlia 
produzira em toda a sua histria, incapaz de se destacar sequer como animador de 
rinhas, quando o Coronel Aureliano Buenda lhe contou a histria do galeo espanhol 
encalhado a doze quilmetros do mar, cuja carcaa carbonizada ele mesmo vira 
durante a guerra. O relato, que para tanta gente durante tanto tempo parecera 
fantstico, foi uma revelao para Jos Arcadio Segundo. Acabou com os galos em 
favor do melhor arrematante, recrutou homens e comprou ferramentas, e se empenhou 
na descomunal empresa de quebrar pedras, escavar canais, limpar escolhos e atnivelar cataratas. Isto eu j sei de cor e salteado, gritava rsula.  como se o tempo 
desse voltas sobre si mesmo e tivssemos voltado ao princpio. Quando considerou o 
rio navegvel, Jos Arcadio Segundo fez ao irmo uma exposio pormenorizada dos 
seus planos, e este lhe deu o dinheiro que faltava para a empresa. Desapareceu por 
muito tempo. J se tinha dito que o seu projeto de comprar um navio no era mais que 

o conto-do-vigrio para dar o fora com o dinheiro do irmo quando se divulgou a 

notcia de que uma estranha nave se aproximava do povoado. Os habitantes de 
Macondo, que j no se lembravam das empresas colossais de Jos Arcadio Buenda, 
precipitaram-se para a margem do rio e viram de olhos pasmados de incredulidade a 
chegada do primeiro e ltimo navio que alguma vez atracou no povoado. No era mais 
que uma balsa de troncos, arrastada mediante grossos cabos por vinte homens que 
caminhavam pela margem. Na proa, com um brilho de satisfao nos olhos, Jos 
Arcadio Segundo dirigia a dispendiosa manobra. Junto com ele chegava um grupo de 
matronas esplndidas que se protegiam do sol abrasador com vistosas sombrinhas e 
traziam nos ombros lindos xales de seda e ungentos coloridos no rosto e flores 
naturais no cabelo e serpentes de ouro nos braos e diamantes nos dentes. A balsa de 
troncos foi o nico veculo que Jos Arcadio Segundo pde levar at Macondo, e 
somente uma vez, mas nunca reconheceu o fracasso da sua empresa e sim proclamou a 
sua faanha como uma vitria da fora de vontade. Apresentou contas escrupulosas ao 
irmo e muito em breve voltou a se ente rrar na rotina dos galos. A nica coisa que 
ficou daquela desventurada iniciativa foi o sopro de renovao que trouxeram as 
matronas da Frana, cujas artes magnficas mudaram os mtodos tradicionais do amor, 
e cujo senso de bem-estar social arrasou com a antiquada taberna de Catarino e 
transformou a rua num bazar de lmpadas japonesas e realejos nostlgicos. Foram elas 
as promotoras do carnaval sangrento que durante trs dias afogou Macondo no delrio, 
e cuja nica conseqncia perdurvel foi ter dado a Aureliano Segundo a oportunidade 
de conhecer Fernanda del Carpio.

Remedios, a bela, foi proclamada rainha. rsula, que estremecia diante da 
beleza inquietante da bisneta, no pde impedir a eleio. At ento conseguira que 
ela no sasse  rua, a no ser para ir  missa com Amaranta, mas a obrigava a cobrir a 
cara com uma mantilha negra. Os homens menos piedosos, os que se fantasiavam de 
padres para dizer missas sacrlegas na taberna de Catarino, iam  igreja com o nico 
propsito de ver, ainda que fosse por um s instante, o rosto de Remedios, a bela, de 
cuja beleza lendria se falava com um fervor recolhido em todo o mbito do pantanal. 
Muito tempo se passou antes de que o conseguissem, e mais lhes teria valido se a 
ocasio no tivesse chegado nunca, porque a maioria deles nunca mais pde recuperar 
a placidez do sono. O homem que tornou o fato possvel, um forasteiro, perdeu para 
sempre a serenidade, enredou-se nas areias movedias da abjeo e da misria, e anos 
depois foi espedaado por um trem noturno quando adormeceu sobre os trilhos. Desde 

o momento em que foi visto na igreja, com um traje de pelcia verde e um casaco 
bordado, ningum ps em dvida que vinha de muito longe, talvez de uma remota 
cidade do exterior, atrado pela fascinao mgica de Remedios, a bela. Era to bonito, 
to galhardo e sereno, de uma excelncia to bem distribuda, que Pietro Crespi junto 
dele pareceria uma criana prematura, e muitas mulheres murmuraram entre sorrisos 
de despeito que era ele quem verdadeiramente merecia a mantilha. No conversou com 
ningum em Macondo. Aparecia nas manhs de domingo, como um prncipe de contos 
de fada, num cavalo com estribos de prata e manta de veludo, e abandonava o povoado 
depois da missa. 
Era tal o poder da sua presena que, desde a primeira vez que foi visto na igreja, 
todo mundo deu por certo que entre Remedios, a bela, se estabelecera um duelo calado 
e tenso, um pacto secreto, um desafio irrevogvel cuja culminncia no podia ser 
somente o amor, mas tambm a morte. No domingo, o cavaleiro apareceu com uma 
rosa amarela mo. Ouviu a missa de p, como fazia sempre, e no final interps no 


caminho de Remedios, a bela, e ofereceu-lhe rosa solitria. Ela a recebeu com um gesto 
natural, como estivesse preparada para aquela homenagem, e ento descobriu o rosto 
por um instante e agradeceu com um sorriso. Foi tudo quanto fez. Mas no apenas 
para o cavaleiro, como todos os homens que tiveram o infeliz privilgio de viv -lo 
aquele foi um instante eterno. 

O cavaleiro instalava, a partir de ento, a banda de msica junto da janela de 
Remedios, a bela, e s vezes at o amanhecer. Aureliano Segundo foi o nico que sentiu 
por ele uma compaixo cordial e tentou abalar a sua perseverana. No perca mais 
tempo, disse a ele uma noite. As mulheres dessa casa so piores do que as mulas. 
Ofereceu-lhe a sua amizade e convidou-o para tomar um banho de champanha, tentou 
faz-lo entender que as fmeas da famlia tinham entranhas de pedra, mas no 
conseguiu vulnerar a sua obstinao. Exasperado pelas interminveis noites de msica, 

o Coronel Aureliano Buenda ameaou-o de lhe curar o sofrimento a tiro de pistola. 
Nada o fez desistir, salvo o seu prprio e lamentvel estado de desmoralizao. De 
garboso e impecvel fez-se vil e esfarrapado. Corria o boato de que abandonara poder e 
fortuna na sua terra distante, embora na verdade nunca soubesse da sua origem. 
Tornou-se homem de briga, arruaceiro de bar, e amanheceu emborcado nas suas 
prprias excrees na taberna de Catarino. O mais triste do seu drama era que 
Remedios, a bela, no lhe dava ateno nem mesmo quando ele se apresentava na igreja 
vestido de prncipe. Recebera a rosa amarela sem a menor malcia, apenas divertida 
pela extravagncia do gesto, e levantara a mantilha para ver melhor a cara dele, e no 
para lhe mostrar a sua. 
Realmente, Remedios, a bela, no era um ser deste mundo. At com a 
puberdade j bem avanada, Santa Sofa de la Piedad teve de lhe dar banho e mudar de 
roupa, e mesmo quando j se pde valer sozinha, tinha que vigi-la para que no 
pintasse animaizinhos nas paredes com uma varinha lambuzada com o seu prprio 
coc. Atingiu os vinte anos sem aprender a ler e escrever, sem se servir dos talheres na 
mesa, passeando nua pela casa, porque a sua natureza reagia contra qualquer espcie 
de convencionalismo. Quando o jovem comandante da guarda lhe declarou o seu amor, 
recusou-o simplesmente porque se assombrou com a sua frivolidade. Olha que bobo 
que ele , disse a Amaranta. Diz que est morrendo por minha causa, como se eu 
fosse uma clica miserere. Quando na verdade o encontraram morto junto  sua 
janela, Remedios, a bela, confirmou a sua impresso inicial. 

 Vejam s  comentou.  Era um bobo total. 
Era como se uma lucidez penetrante lhe permitisse ver a realidade das coisas 
alm de qualquer formalismo. Este era pelo menos o ponto de vista do Coronel 
Aureliano Buenda, para quem Remedios, a bela, no era de modo algum retardada 
mental, como se acreditava, e sim exatamente o contrrio. E como se viesse de volta 
de vinte anos de guerra, costumava dizer. rsula, por seu lado, agradecia a Deus que 
tivesse premiado a famlia com uma criatura de uma pureza excepcional, mas ao 
mesmo tempo a perturbava a sua beleza, porque lhe parecia uma virtude contraditria, 
uma armadilha diablica, no centro da sua candidez. Foi por isso que decidiu separ-la 
do mundo, preserv-la de toda tentao terrena, sem saber que Remedios, a bela, j 
desde o ventre de sua me estava a salvo de qualquer contgio. Nunca lhe passou pela 
cabea a idia de que a elegessem rainha da beleza no pandemnio de um carnaval. 
Mas Aureliano Segundo, animadssimo com a inspirao sbita de se fantasiar de tigre,
trouxe o Padre Antonio Isabel em casa para que convencesse rsula de que o carnaval 


no era uma festa pag, como ela dizia, mas uma tradio catlica. Finalmente 
convencida, embora rosnando de m vontade, deu o consentimento para a coroao. 

A notcia de que Remedios Buenda ia ser a soberana do festival transbordou em 
poucas horas os limites do pantanal, chegou at longnquos territrios onde se 
ignorava o imenso prestgio da sua beleza e provocou a inquietao dos que ainda 
consideravam o seu sobrenome como um smbolo da subverso. Era uma inquietao 
sem fundamento. Se havia algum inofensivo naquele tempo, era o envelhecido e 
desiludido Coronel Aureliano Buenda, que pouco a pouco fora perdendo todo o 
contato com a realidade da nao. Fechado na sua oficina, a sua nica relao com o 
resto do mundo era o comrcio de peixinhos de ouro. Um dos antigos soldados que 
vigiaram a sua casa nos primeiros dias da paz ia vend-los nas povoaes do pantanal e 
voltava carregado de moedas e notcias. Que o governo conservador, dizia, com o apoio 
dos liberais, estava reformando o calendrio para que cada presidente estivesse cem 
anos no poder. Que finalmente se havia assinado o acordo com a Santa S, e que tinha 
vindo de Roma um cardeal com uma coroa de diamantes e um trono de ouro macio, e 
que os ministros liberais se fizeram fotografar de joelhos no ato de lhe beijar o anel. 
Que a corista principal de uma companhia espanhola, de passagem pela capital, fora 
seqestrada no seu camarim por um grupo de mascarados e no domingo seguinte 
danara nua na casa de vero do Presidente da Repblica. No fale de poltica, dizia-
lhe o coronel. O que nos interessa  vender peixinhos. O falatrio pblico de que no 
queria mais saber da situao do pas porque estava ficando rico com a oficinaprovocou as gargalhadas de rsula, quando chegou aos seus ouvidos. Com o seu 
incrvel senso prtico, ela no podia entender o comrcio do coronel, que trocava os 
peixinhos por moedas de ouro, e em seguida transformava as moedas de ouro em 
peixinhos, e assim sucessivamente, de modo que tinha que trabalhar cada vez mais  
medida que vendia, para satisfazer um crculo vicioso exasperante. Na verdade, o que 
interessava a ele no era o negcio e sim o trabalho. Precisava de tanta concentrao 
para engastar escamas, incrustar minsculos rubis nos olhos, laminar barbatanas e 
montar nadadeiras que no sobrava um s vazio para encher com a desiluso da 
guerra. To absorvente era a ateno que lhe exigia o preciosismo da artesania que em 
pouco tempo envelheceu mais do que em todos os anos de guerra, e a posio lhe 
entortou a espinha dorsal e a milimetria lhe gastou a vista, mas a concentrao 
implacvel o premiou com a paz de esprito. A ltima vez em que foi visto atender a 
algum assunto relacionado com a guerra, foi quando um grupo de veteranos de ambos 
os partidos solicitou o seu apoio para a aprovao das penses vitalcias, sempre 
prometida e sempre no ponto de partida. Esqueam isso, disse a eles No vem que 
eu recusei a minha penso para evitar a tortura de ficar esperando at a morte? No 
comeo, o Coronel Gerineldo Mrquez o visitava  tardinha e os dois se sentavam na 
porta da rua para evocar o passado. Mas Amaranta. no pde suportar as lembranas 
que lhe suscitava aquele homem cansado cuja calvcie o precipitava ao abismo de um 
velhice prematura, e o atormentou com indelicadezas injustas, at que ele no voltou 
mais, a no ser em ocasies especiais, e desapareceu por fim anulado pela paralisia. 
Taciturno, silencioso, insensvel ao novo sopro de vitalidade que estremecia a casa, o 
Coronel Aureliano Buenda compreendeu de leve que o segredo de uma boa velhice 
no  outra coisa seno um pacto honrado com a solido. Levantava-se s cinco da 
manh depois de um sono superficial, tomava na cozinha a sua eterna caneca de caf 
amargo, trancafiava-se o dia inteiro na oficina, e s quatro da tarde passava pelo 


corredor arrastando um banquinho, sem observar sequer o incndio da roseiras, nem o 
brilho da hora, nem a impavidez de Amaranta, cuja melancolia fazia um barulho de 
marmita perfeitamente audvel ao entardecer, e se sentava na porta da rua at que o 
permitissem os mosquitos. Algum se atreveu, certa vez, perturbar a sua solido. 

 Como vai, coronel?  disse ao passar. 
 Aqui firme  ele respondeu.  Esperando o meu enterro passar. 
De modo que a inquietao causada pela reapario pblica do seu sobrenome, 
a propsito do reinado de Remedios a bela, carecia de fundamento real. Muitos, 
entretanto, no pensaram assim. Inocente da tragdia que o ameaava, o povo 
transbordou na praa pblica, numa barulhenta exploso de alegria. O carnaval tinha 
alcanado o seu mais alto nvel de loucura, Aureliano Segundo tinha satisfeito por fim 

o seu sonho de se fantasiar de tigre e andava feliz entre a multido exaltada, rouco de 
tanto rugir, quando apareceu vindo pelo caminho do pantanal um bloco enorme 
trazendo num andor dourado a mulher mais fascinante que se podia imaginar. Por um 
momento, os pacficos habitantes de Macondo tiraram as mscaras para ver melhor a 
deslumbrante criatura com coroa de esmeraldas e capa de arminho, que parecia 
investida de uma autoridade legtima e no simplesmente de uma soberania de 
lantejoulas e papel crepom. No faltou quem tivesse a suficiente clarividncia para 
suspeitar de que se tratava de uma provocao. Mas Aureliano Segundo se sobreps 
imediatamente  perplexidade, declarou como hspedes de honra os recm-chegados e 
sentou salomonicamente Remedios, a bela, e a rainha intrusa no mesmo pedestal. At a 
meia-noite, os forasteiros fantasiados de bedunos participaram do delrio e at o 
enriqueceram com uma pirotecnia suntuosa e umas virtudes acrobticas que fizeram 
pensar nas artes dos ciganos. De repente, no paroxismo da festa, algum quebrou o 
delicado equilbrio. 
 Viva o Partido Liberal!  gritou.  Viva o Coronel Aureliano Buenda! 
As descargas de fuzilaria abafaram o esplendor dos fogos de artifcio e os gritos 
de terror anularam a msica e o jbilo foi aniquilado pelo pnico. Muitos anos depois 
continuar-se-ia afirmando que a guarda real da soberana intrusa era um esquadro do 
exrcito regular que debaixo das suas ricas chilabas escondia fuzis de verdade. O 
governo negou a culpa num decreto extraordinrio e prometeu uma investigao 
rigorosa do episdio sangrento. Mas a verdade no se esclareceu nunca e prevaleceu 
para sempre a verso de que a guarda real, sem provocao de nenhuma espcie, tomou 
posies de combate a um sinal do seu comandante e disparou sem piedade contra a 
multido. Quando se restabeleceu a calma, no restava no povoado um s dos falsos 
bedunos, e ficaram estendidos na praa, entre mortos e feridos, nove palhaos, quatro 
colombinas, dezessete reis de baralho, um diabo, trs msicos, dois Pares de Frana e 
trs imperatrizes japonesas. Na confuso do pnico, Jos Arcadio Segundo conseguiu 
pr a salvo Remedios, a bela, e Aureliano Segundo carregou no colo para casa a 
soberana intrusa, com a roupa rasgada e a capa de arminho manchada de sangue. 
Chamava-se Fernanda del Carpio. Haviam-na selecionado como a mais bela entre as 
cinco mil mulheres mais belas do pas e a trouxeram para Macondo com a promessa deproclam-la rainha de Madagscar. rsula cuidou dela como se fosse uma filha. O 
povo, em vez de pr em dvida a sua inocncia, compadeceu-se da sua candidez Seis 
meses depois do massacre, quando os feridos se restabeleceram e murcharam as 
ltimas flores da vala comum, Aureliano Segundo foi procur-la na cidade distante 


onde vivia com o pai e se casou com ela em Macondo, numa fragorosa festana de vinte 
dias. 


O CASAMENTO esteve prestes a naufragar aos dois meses de idade, porque 
Aureliano Segundo, tentando aplacar Petra Cotes, f-la tirar um retrato vestida de 
rainha de Madagscar. Quando Fernanda soube, tornou a arrumar as arcas do enxoval 
de recm-casada e partiu de Macondo sem se despedir. Aureliano Segundo alcanou-a 
na estrada do pantanal. Ao fim de muitas splicas e promessas de emenda, conseguiu 
lev-la de volta para casa e abandonou a concubina. 

Petra Cotes, consciente da sua fora, no demonstrou preocupao. Ela o fizera 
homem. Ainda menino o tirara do quarto de Melquades, com a cabea cheia de idias 
fantsticas e sem nenhum contato com a realidade, e lhe dera um lugar no mundo. A 
natureza o tinha feito reservado e esquivo, com tendncia para a meditao solitria, e 
ela lhe havia moldado o temperamento oposto, vital, expansivo, aberto, e lhe havia 
infundido a alegria de viver e o prazer da farra e da dissipao, at convert-lo, por 
dentro e por fora, no homem com quem havia sonhado para si desde a adolescncia. 
Casara-se, pois, como mais cedo ou mais tarde os filhos se casam. Ele no ousou lhe 
antecipar a notcia. Assumiu uma atitude to infantil diante da situao que fingia 
falsos rancores e ressentimentos imaginrios, procurando um modo de ser Petra Cotes 
quem provocasse o rompimento. Um dia em que Aureliano lhe fez uma censura 
injusta, ela descobriu o jogo e ps as coisas no seu devido lugar. 

 O que acontece  disse   que voc quer se casar com a rainha. 
Aureliano Segundo, envergonhado, fingiu um ataque de raiva, declarou-se 
incompreendido e ultrajado, e no voltou a visit-la. Petra Cotes, sem perder por um s 
instante o seu magnfico domnio de fera em repouso, ouviu a msica e os foguetes do 
casamento, a barulhada enlouquecedora da festana pblica, como se tudo isso no 
fosse nada alm de uma nova travessura de Aureliano Segundo. Aos que se 
compadeceram da sua sorte, tranqilizou-os com um sorriso. No se preocupem, 
disse. As rainhas sempre cumprem as minhas ordens. A uma vizinha que lhe trouxe 
umas velas para que iluminasse com elas o retrato do amante perdido, disse com 
segurana enigmtica: 

 A nica vela que o far vir est sempre acesa. 
Tal como ela havia previsto, Aureliano Segundo voltou  sua casa 
imediatamente aps a lua-de-mel. Trouxe os seus companheiros de sempre, um 
fotgrafo ambulante, e a roupa e a capa de arminho suja de sangue que Fernanda usara 
no carnaval. No calor da farra que se armou essa tarde, vestiu Petra Cotes de rainha, 
coroou-a soberana absoluta e vitalcia de Madagascar e distribuiu cpias do retrato 
entre os seus amigos. Ela no s se prestou  brincadeira como tambm se compadeceu 
intimamente dele, pensando que devia estar muito assustado quando imaginou aquele 
extravagante recurso de reconciliao. s sete da noite, ainda vestida de rainha, 
recebeu-o na cama. Tinha apenas dois meses de casado, mas ela percebeu 
imediatamente que as coisas no andavam bem no leito nupcial e experimentou o 
delicioso prazer da vingana consumada. Dois dias depois, entretanto, quando ele no 
se atreveu a voltar e mandou um intermedirio para que resolvesse os termos da 
separao, ela compreendeu que ia precisar de mais pacincia do que a prevista, 
porque ele parecia disposto a se sacrificar pelas aparncias. Mesmo assim no se 
alterou. Tornou a facilitar as coisas com uma submisso que confirmou a crena 
generalizada de que ela era uma pobre mulher, e a nica lembrana de Aureliano 
Segundo que conservou foi um par de botinas de verniz que, conforme o que ele 


mesmo dissera, eram as que queria ter caladas no atade. Guardou-as embrulhadas 
em trapos no fundo do ba e preparou-se para apascentar uma espera sem desespero. 

 Mais cedo ou mais tarde ter que vir  disse para si mesma  mesmo que 
seja s para calar estas botinas. 
No teve que esperar tanto quanto supunha. Realmente, Aureliano Segundo 
compreendera desde a noite de npcias que voltaria  casa de Petra Cotes muito antes 
de que tivesse necessidade de calar as botinas de verniz: Fernanda era uma mulher 
perdida para o mundo. Nascera e crescera a mil quilmetros do mar, numa cidade 
lgubre por cujas ruelas de pedra chacoalhavam ainda, em noites mal-assombradas, as 
carruagens dos vice-reis. Trinta e dois campanrios davam toques de defunto s seis da 
tarde. Na casa senhorial ladrilhada de lousas sepulcrais jamais se conhecera o sol. O ar 
morrera nos ciprestes do ptio, nas plidas cortinas das alcovas, nas arcadas midas do 
jardim dos nardos. Fernanda no tivera at a puberdade outra notcia do mundo a no 
ser os melanclicos exerccios de piano executados em alguma casa vizinha por 
algum que durante anos e anos se permitiu a liberdade de no fazer a sesta. No quarto 
da me doente, ve rde e amarela debaixo da empoeirada luz dos vitrais, escutava as 
escalas metdicas, tenazes, desanimadas, e pensava que essa msica estava no mundo, 
enquanto ela se consumia tecendo coroas de defunto. Sua me, suando a febre das 
cinco, falava do esplendor do passado. Ainda muito menina, numa noite de lua, 
Fernanda vira uma linda mulher vestida de branco que atravessava o jardim para o 
oratrio. O que mais a angustiou naquela viso fugitiva foi que a sentiu exatamenteigual a ela, como se se tivesse visto a si mesma com vinte anos de antecipao  a tua 
bisav, a rainha, disse-lhe a me numa trgua da tosse. Morreu de um golpe de ar que 
apanhou ao quebrar um talo de nardo. Muitos anos depois, quando comeou se sentir 
igual  bisav, Fernanda ps em dvida a viso infncia, mas a me reprovou a sua 
incredulidade. 

 Somos imensamente ricos e poderosos  disse.  Um dia voc ser rainha. 
Ela acreditou, embora s ocupassem a longa mesa com toalhas de linho e 
baixela de prata para tomar uma xcara de chocolate com gua e um po doce. At o 
dia do casamento sonhou com um reinado de lenda, embora seu pai, D. Fernando, 
tivesse que hipotecar a casa para lhe comprar o enxoval. No era ingenuidade nem 
delrio de grandeza. Fora educada assim. Desde que pde fazer uso da razo que se 
lembrava de ter feito as suas necessidades num peniquinho de ouro com o escudo de 
armas da famlia. Saiu de casa pela primeira vez aos doze anos, num tlburi que teve 
apenas que percorrer dois quarteires para lev-la ao convento. As suas companheiras 
de estudo se surpreenderam de que a pusessem separada, numa cadeira de espaldar 
muito alto, e de que no se misturasse com elas nem durante o recreio. Ela  
diferente, explicavam as freiras. Vai ser rainha. As colegas acreditaram, porque j era 
na poca a donzela mais bela, distinta e discreta que tinham visto na vida. Ao fim de 
oito anos, tendo aprendido a versejar em latim, a tocar o clavicrdio, a conversar sobre 
falcoaria com os cavalheiros e sobre apologtica com os arcebispos, a expor assuntos 
de estado com os governantes estrangeiros e assuntos de Deus com o Papa, voltou para 
a casa de seus pais, para tecer coroas de defunto. Encontrou-a desfalcada. Restavam 
apenas os mveis indispensveis, os candelabros e a baixela de prata, porque os 
utenslios domsticos tinham sido vendidos, um a um, para pagar os gastos da sua 
educao. Sua me sucumbira  febre das cinco. Seu pai, D. Fernando, vestido de 
negro, com um colarinho de babados e uma corrente de ouro atravessada no peito, 


dava-lhe s segundas-feiras uma moeda de prata para os gastos domsticos e levava as 
coroas de defunto terminadas na semana anterior. Passava a maior parte do dia 
trancado no escritrio e, nas poucas ocasies em que saa  rua, voltava antes das seis 
para acompanh-la ao rezar o rosrio. Nunca manteve amizade ntima com ningum. 
Nunca ouviu falar das guerras que sangraram o pas. Nunca deixou de ouvir os 
exerccios de piano s trs da tarde. Comeava inclusive a perder a esperana de ser 
rainha quando soaram duas pancadas firmes no porto e ela o abriu para um militar 
erecto, de gestos cerimoniosos, que tinha uma cicatriz na face e uma medalha de ouro 
no peito. Fechou-se com o seu pai no escritrio. Duas horas depois, o pai foi busc-la 
no quarto de costura. Preparai-vos, disse. Tendes que fazer uma longa viagem. Foi 
assim que a levaram para Macondo. Num s dia, numa bofetada brutal, a vida jogou-
lhe por cima dos ombros todo o peso de uma realidade que durante anos seus pais lhe 
haviam escondido. De volta a casa, fechou-se no quarto para chorar, indiferente s 
splicas e explicaes de D. Fernando, tentando apagar a cicatriz daquele embuste 
inaudito. Prometera a si mesma no abandonar o quarto at a morte, quando Aureliano 
Segundo chegou para busc-la. Foi uma sorte incrvel, porque no aturdimento da 
indignao, na fria da vergonha, ela lhe havia mentido, para que nunca conhecesse a 
sua verdadeira identidade. As nicas pistas reais de que dispunha Aurelano Segundo 
quando saiu para procur-la eram o seu inconfundvel sotaque do pramo e o seu 
ofcio de tecel de coroas fnebres. Procurou-a sem descanso. Com a temeridade atroz 
com que Jos Arcadio Buenda atravessara a serra para fundar Macondo, com o 
orgulho cego com que o Coronel Aureliano Buenda promovera as suas guerras inteis, 
com a tenacidade insensata com que rsula assegurara a sobrevivncia da estirpe, 
assim Aureliano Segundo procurou Fernanda, sem um s instante de desalento. 
Quando perguntou onde se vendiam coroas de defunto, levaram-no de casa em casa 
para que escolhesse as melhores. Quando perguntou onde estava a mulher mais bela 
que j surgira sobre a terra, todas as mes lhe levaram as suas filhas. Perdeu-se nos 
desfiladeiros da nvoa, por tempos reservados ao esquecimento, nos labirintos da 
desiluso. Atravessou um ermo amarelo onde o eco repetia os pensamentos e a 
ansiedade provocava miragens premonitrias. Ao fim de semanas estreis, chegou a 
uma cidade desconhecida onde todos os sinos tocavam a finados. Embora nunca os 
tivesse visto, nem ningum os tivesse descrito, reconheceu imediatamente os muros 
carcomidos pelo sal dos ossos, as decrpitas varandas de madeiras destripadas pelos 
fungos, e pregado no porto e quase apagado pela chuva o cartozinho mais triste do 
mundo: 

VENDEM-SE COROAS FNEBRES 

Desse momento at a manh gelada em que Fernanda abandonou a casa aos 
cuidados da Madre Superiora, mal houve tempo para que as freiras cosessem o enxoval 
e colocassem em seis bas os candelabros, a baixela de prata e o peniquinho de ouro e 
os incontveis e inte is destroos de uma catstrofe familiar que tardara dois sculos 
para se consumar. D. Fernando recusou o convite para acompanh-los. Prometeu ir 
mais tarde, quando acabasse de liquidar os seus compromissos, e a partir do.momento 
em que deu a bno  filha voltou a se trancar no escritrio, a escrever os bilhetes com 
as vinhetas de luto e o escudo de armas da famlia que haveriam de ser o primeiro 
contato humano que Fernanda e seu pai tiveram em toda a vida. Para ela, esta foi a 


data real do seu nascimento. Para Aureliano Segundo foi quase ao mesmo tempo o 
princpio e o fim da felicidade. 

Fernanda trazia um lindo calendrio com chavinhas douradas em que o seu 
diretor espiritual marcara com tinta roxa as datas de abstinncia venrea. 
Descontando a Semana Santa, os domingos, as festas de guarda, as primeiras sextas-
feiras, os retiros, os sacrifcios e os impedimentos cclicos, o seu anurio til ficava 
reduzido a 42 dias esparzidos num emaranhado de cruzes roxas. Aureliano Segundo, 
convencido de que o tempo jogaria por terra aquela muralha hostil, prolongou a festa 
do casamento alm do prazo previsto. Cansada de tanto mandar para o lixeiro as 
garrafas vazias de brandy e de champanha, para que no congestionassem a casa, e ao 
mesmo tempo intrigada pelo fato de os recm-casados dormirem em horas diferentes e 
em quartos separados, enquanto continuavam os foguetes e a msica e os sacrifcios dereses, rsula se lembrou da sua prpria experincia e se perguntou se Fernanda no 
teria tambm um cinto de castidade que mais cedo ou mais tarde provocaria as 
zombarias do povo e daria origem a uma tragdia. Mas Fernanda lhe confessou que 
simplesmente estava deixando passar duas semanas antes de permitir o primeiro 
contato com o seu esposo. Transcorrido o prazo, com efeito, abriu a porta do seu 
quarto com a resignao ao sacrifcio com que o teria feito uma vtima expiatria, e 
Aureliano Segundo viu a mulher mais bela da terra, com os seus gloriosos olhos de 
animal assustado e os longos cabelos cor de cobre estendidos no travesseiro. To 
fascinado estava com a viso que demorou um momento para perceber que Fernanda 
pusera uma camisola branca, comprida at os tornozelos e com mangas at os punhos, 
e com um buraco grande e redondo primorosamente caseado na altura do ventre. 
Aureliano Segundo no pde reprimir um ataque de riso. 

 Isto  a coisa mais obscena que eu j vi na minha vida  gritou, com uma 
gargalhada que ressoou pela casa inteira. 
 Casei-me com uma irmzinha de caridade. 
Um ms depois, no tendo conseguido que a esposa tirasse a camisola, foi fazer 
o retrato de Petra Cotes vestida de rainha. Mais tarde, quando obteve que Fernanda 
voltasse para casa, ela cedeu s suas exigncias na febre da reconciliao, mas no 
soube lhe proporcionar o descanso com que ele sonhava quando foi busc-la na cidade 
dos trinta e dois campanrios. Aureliano Segundo s encontrou nela um profundo 
sentimento de desolao. Uma noite, pouco antes de nascer o primeiro filho, Fernanda 
notou que o marido voltara em segredo ao leito de Petra Cotes. 
  verdade  admitiu ele. E explicou num tom de prostrada resignao:  
Tive que fazer isso para que os animais continuassem parindo. 

Foi preciso um pouco de tempo para convenc-la de recurso to esquisito, mas 
quando por fim o conseguiu, mediante provas que pareceram irrefutveis, a nica 
promessa que Fernanda lhe imps foi a de que no se deixasse surpreender pela morte 
na cama da concubina. Assim continuaram vivendo os trs, sem se atrapalhar, 
Aureliano Segundo pontual e carinhoso com ambas, Petra Cotes se pavoneando com a 
reconciliao e Fernanda fingindo que ignorava a verdade. 

O pacto, entretanto, no fez com que Fernanda se incorporasse  famlia. Emvo rsula insistiu para que ela tirasse a gola de l com que se levantava quando tinha 
feito amor e que provocava os cochichos dos vizinhos. No conseguiu convenc-la a se 
utilizar do banheiro, ou do vaso noturno, e a vender o seu peniquinho de ouro ao 
Coronel Aureliano Buenda para que o transformasse em peixinhos. Amaranta se 


sentiu to incomodada com a sua dico viciosa e com o seu hbito de usar um 
eufemismo para designar cada coisa, que diante dela sempre falava na lngua do p. 

 Espetap  dizia  p daspas quep tmpm nopojop dapa prpopriap 
merperdap. 
Um dia, irritada com a brincadeira, Fernanda quis saber o que  que Amaranta 
estava dizendo e ela no usou de eufemismos para lhe responder. 

 Estou dizendo  disse  que voc  das que confundem o cu com as 
tmporas. 
A partir daquele dia no tornaram a se falar. Quando as circunstncias 
obrigavam, mandavam-se recados ou se diziam as coisas indiretamente. Apesar da 
visvel hostilidade da famlia, Fernanda no renunciou  vontade de impor os hbitos 
de seus antepassados. Acabou com o costume de comer na cozinha e quando cada um 
tinha fome, e imps a obrigao de o fazer em horas certas, na mesa grande da saia de 
jantar arrumada com toalhas de linho e com os candelabros e a baixela de prata. Asolenidade de um ato que rsula sempre tinha considerado como o mais simples da 
vida cotidiana criou um ambiente de formalidade contra o qual se rebelou primeiro 
que ningum o calado Jos Arcadio Segundo. Mas o costume se imps, assim como o 
de rezar o rosrio antes do jantar, e chamou tanto a ateno dos vizinhos que muito em 
breve correu o boato de que os Buenda no se sentavam  mesa como os outros 
mortais, mas que tinham transformado o ato de comer numa missa solene. At assupersties de rsula, surgidas mais por inspirao momentnea que da tradio, 
entraram em conflito com as que Fernanda herdara dos pais e que estavamperfeitamente definidas e catalogadas para cada ocasio. Enquanto rsula desfrutou 
do pleno domnio das suas faculdades, subsistiram alguns dos antigos hbitos e a vida 
da famlia conservou uma certa influncia das suas intuies, mas quando perdeu a 
vista e o peso dos anos a desterrou para um canto, o crculo de rigidez iniciado por 
Fernanda desde o momento em que chegara terminou por se fechar completamente, e 
ningum mais alm dela determinou o destino da famlia. O negcio de doces e 
animaizinhos de caramelo, que Santa Sofia de la Piedad mantinha por vontade de 
rsula, era considerado por Fernanda como uma atividade indigna, e no tardou em 
liquid-lo. As portas da casa, abertas de par em par desde o amanhecer at a hora de 
dormir, foram fechadas durante a sesta, com o pretexto de que o sol esquentava os 
quartos, e finalmente se fecharam para sempre. O ramo de babosa e o po que estavam 
pendurados no marco desde os tempos da fundao foram substitudos por um nicho 
do Corao de Jesus. O Coronel Aureliano Buenda chegou a perceber aquelas 
mudanas e previu as suas conseqncias. Estamos virando gente fina, protestava. 
Neste ritmo, vamos acabar lutando outra vez contra o regime conservador, mas agora 
para colocar um rei no lugar. Fernanda, com muito tato, procurou no ir de encontro a 
ele. Incomodava-a no ntimo o seu esprito independente, a sua resistncia a toda 
forma de rigidez social. Exasperavam-na as suas canecas de caf s cinco da manh, a 
desordem da sua oficina, a sua manta esfiapada e o seu costume de se sentar na porta 
da rua ao entardecer. Teve que permitir, porm, essa pea solta do mecanismo familiar, 
porque tinha a certeza de que o velho coronel era um animal apaziguado pelos anos e 
pela desiluso, que num assomo de rebeldia senil poderia arrancar os cimentos da casa. 
Quando o marido decidiu pr no primeiro filho o nome do bisav, ela no se atreveu a 
fazer oposio, porque s tinha chegado h um ano. Mas quando nasceu a primeira 
filha, expressou sem reservas a sua determinao de que se chamasse Renata, como a 


sua me. rsula tinha resolvido se chamaria Remedios. Ao fim de uma tensa 
controvrsia qual Aureliano Segundo atuou como mediador divertido batizaram-na 
com o nome de Renata Remedios, mas Fernanda continuou chamando a menina de 
Renata puramente quanto que a famlia do marido e todo o povo continuou a cham-la 
de Meme, apelido de Remedios. 

No princpio, Fernanda no falava da sua famlia, com o tempo comeou a 
idealizar o pai. Falava dele na como de um ser excepcional que havia renunciado a toda 
espcie de vaidade e que se estava transformando em santo. Aureliano Segundo, 
espantado com o endeusamento repentino do sogro, no resistia  tentao de fazer 
pequenas zombarias pelas costas da esposa. O resto da famlia seguiu o exemplo. A 
prpria rsula, que era extremamente zelosa da monja familiar e que sofria em segredo 
com os atritos domsticos, permitiu-se dizer certa vez que o pequeno tataraneto tinha 
assegurado o seu futuro pontifical, porque era neto de santo e filho de rainha com 
criador de gados. Apesar daquela sorridente conspirao, as crianas se acostumaram 
a pensar no av como num ser lendrio, que lhes transcrevia versos piedosos nas cartas 
e lhes mandava em cada Natal caixote de presentes que mal passava na porta da rua 
para entrar. Eram, realmente, os ltimos restos do patrimnio senhorial. Com eles se 
construiu, no quarto das crianas, um altar com santos de tamanho natural, cujos 
olhos de vidro lhes imprimiam uma inquietante aparncia de vida e cujas roupas de 
fazenda, artisticamente bordadas, eram melhores que as usadas em qualquer 
circunstncia por qualquer habitante de Macondo. Pouco a pouco, o esplendor 
funerrio da antiga e gelada manso se foi trasladando para a luminosa casa dos 
Buenda. J nos mandaram todo o cemitrio familiar, comentou Aureliano Segundo 
em certa ocasio. Agora s esto faltando os salgueiros e as lousas sepulcrais. Embora 
nos caixotes nunca tivesse chegado nada que servisse para as crianas brincarem, estas 
passavam o ano inteiro esperando dezembro, porque afinal os antiquados e sempre 
imprevisveis presentes constituam uma novidade na casa. No dcimo Natal, quando 

o pequeno Jos Arcadio j se preparava para viajar para o seminrio, chegou com maior 
antecedncia do que nos anos anteriores o enorme caixote do av, muito bem pregado 
e impermeabilizado com breu e endereado com o habitual letreiro de caracteres 
gticos  mui ilustre senhora dona Fernanda del Carpio de Buenda. Enquanto ela lia a 
carta no quarto, as crianas se apressaram em abrir a caixa. Ajudados como de 
costume por Aureliano Segundo, rasparam os lacres de breu, despregaram a tampa, 
tiraram a serragem protetora e encontraram dentro uma comprida arca de chumbo 
fechada com parafusos de cobre. Aureliano Segundo tirou os oito parafusos diante da 
impacincia das crianas e mal teve tempo de soltar um grito e afast-las para o lado 
quando levantou a tampa de chumbo e viu D. Fernando vestido de preto e com um 
crucifixo no peito, com a pele arrebentada em bolhas fedorentas e se cozinhando a 
fogo lento num espumoso e borbulhante caldo de prolas vivas. 
Pouco depois do nascimento da menina, anunciou-se o inesperado jubileu do 
Coronel Aureliano Buenda, ordenado pelo Governo para celebrar um novo aniversrio 
do Tratado de Neerlndia. Foi uma determinao to incongruente com a poltica 
oficial que o coronel se pronunciou violentamente contra ela e recusou a homenagem.
 a primeira vez que ouo a palavra jubileu, dizia. Mas seja o que for que ela 
signifique, no pode deixar de ser zombaria. A estreita oficina de ourivesaria se 
encheu de emissrios. Voltaram, muito mais velhos e muito mais solenes, os advogados 
de terno escuro que em outra poca esvoaavam como corvos em torno do coronel. 


Quando este os viu aparecer, j que em outros tempos chegavam para atrapalhar a 
guerra, no pde suportar o cinismo dos seus panegricos. Ordenou-lhes que o 
deixassem em paz, insistiu no fato de ele no ser um prcer da nao como eles diziam, 
e sim um arteso sem recordaes, cujo nico sonho era morrer de cansao no 
esquecimento e na misria dos seus peixinhos de ouro. O que mais o indignou foi a 
notcia de que o prprio Presidente da Repblica pensava em assistir aos atos de 
Macondo para lhe oferecer a Ordem do Mrito. O Coronel Aureliano Buenda mandou-
lhe dizer, palavra por palavra, que esperava com verdadeira ansiedade aquela tardia 
mas merecida ocasio de lhe dar um tiro, no para cobrar as arbitrariedades e 
anacronismos do seu regime, mas por faltar com o respeito a um velho que no fazia 
mal a ningum. Foi tal a veemncia com que pronunciou a ameaa que o Presidente da 
Repblica cancelou a viagem na ltima hora e mandou a condecorao por um 
representante pessoal. O Coronel Gerineldo Mrquez, assediado por presses de toda 
espcie, abandonou o seu leito de paraltico para persuadir o seu antigo companheiro 
de armas. Quando este viu aparecer a cadeira de balano carregada por quatro homens 
e viu sentado nela, entre grandes almofadas, o amigo que partilhara das suas vitrias e 
infortnios desde a juventude, no duvidou por um s instante de que fazia aquele 
esforo para lhe expressar a sua solidariedade. Mas quando soube do verdadeiro 
propsito daquela visita, fez com que o retirassem da oficina. Tarde demais eu me 
conveno, disse a ele, de que teria feito um grande favor a voc se tivesse deixado que o 
fuzilassem. 

De modo que o jubileu se realizou sem a presena de nenhum dos membros da 
famlia. Foi por acaso que coincidiu com a semana do carnaval, mas ningum 
conseguiu tirar da cabea do Coronel Aureliano Buenda a idia obstinada de que 
tambm aquela coincidncia tinha sido prevista pelo governo para reforar a crueldade 
da zombaria. Da oficina solitria ouviu as msicas marciais, as salvas de artilharia, os 
sinos de Te Deum e algumas frases dos discursos pronunciados defronte da casa 
quando batizaram a rua com o seu nome. Seus olhos se umedeceram de indignao, de 
raivosa impotncia, e pela primeira vez desde a derrota doeu-lhe no possuir mais os 
arroubos da juventude para promover uma guerra sangrenta que apagasse at o ltimo 
vestgio do regime conservador. Ainda no se haviam extinguido os ecos dahomenagem quando rsula bateu na porta da oficina. 

 No aborream  ele disse.  Estou ocupado. 
 Abra  Ursula insistiu com voz cotidiana.  Isto no tem nada que ver com 
a festa. 
Ento o Coronel Aureliano Buenda tirou a tranca e viu na porta dezessete 
homens dos mais variados aspectos, de todos os tipos e cores, mas todos com um ar 
solitrio que teria bastado para identific-los em qualquer lugar da terra. Eram os seus 
filhos. Sem combinar nada, sem se conhecerem, tinham chegado dos mais distantes 
lugares do litoral, cativados pelo barulho do jubileu. Todos usavam com orgulho o 
nome de Aureliano e o sobrenome da me. Durante os trs dias que permaneceram na 
casa, para a satisfao de rsula e o escndalo de Fernanda, ocasionaram transtornosincrveis. Amaranta procurou entre antigos papis a caderneta de contas onde rsula 
anotara os nomes e as datas de nascimento e batismo de todos, e acrescentou no 
espao correspondente a cada um o domiclio atual. Aquela lista teria permitido fazer 
uma recapitulao de vinte anos de guerra. Poder-se-iam reconstituir com ela os 
itinerrios noturnos do coronel, desde a madrugada em que saiu de Macondo  frente 


de vinte e um homens para uma rebelio quimrica at que regressou pela ltima vez 
embrulhado na manta dura de sangue. Aureliano Segundo no perdeu a ocasio de 
festejar os primos com uma estrondosa farra de champanha e acordeo que se 
interpretou como um atrasado ajuste de contas com o carnaval malogrado pelo jubileu. 
Reduziram a cacos metade da loua, quebraram as roseiras perseguindo um touro para 

o mantear, mataram galinhas a tiros, obrigaram Amaranta a danar as valsas tristes de 
Pietro Crespi, conseguiram fazer Remedios, a bela, vestir calas de homem para subir 
no pau-de-sebo e soltaram na sala de jantar um leito lambuzado de gordura que 
nauseou Fernanda, mas ningum lamentou a sua indisposio porque a casa 
estremeceu com um terremoto de boa sade. O Coronel Aureliano Buenda, que a 
princpio os recebeu com desconfiana, e at ps em dvida a filiao de alguns, 
divertiu-se com as suas loucuras e antes que fossem embora presenteou cada um com 
um peixinho de ouro. At o esquivo Jos Arcadio Segundo lhes ofereceu uma tarde de 
rinha, que esteve quase por terminar em tragdia, porque vrios dos Aurelianos eram 
to experimentados em transaes de galos que descobriram no primeiro golpe de 
vista as trapaas do Padre Antonio Isabel. Aureliano Segundo, que viu as ilimitadas 
perspectivas de farra que oferecia aquela animada parentela, decidiu que todos 
ficariam para trabalhar com ele. O nico que aceitou foi Aureliano Triste, um mulato 
grande, com os mpetos e o esprito explorador do av, que j havia tentado a sorte em 
meio mundo e para quem tanto fazia ficar em qualquer parte. Os outros, embora ainda 
fossem solteiros, consideravam resolvido o seu destino. Eram todos artesos hbeis, 
homens de suas casas, gente de paz. Na quarta-feira de cinzas, antes que voltassem a 
se dispersar pelo litoral, Amaranta conseguiu que vestissem roupas de domingo e a 
acompanhassem  igreja. Mais divertidos que piedosos, deixaram-se conduzir at o 
altar onde o Padre Antonio Isabel lhes ps na testa a cruz de cinza. De volta a casa, 
quando o menor quis limpar a testa, descobriu que a mancha era indelvel e que 
tambm o eram as de seus irmos. Experimentaram com gua e sabo, com terra e 
bucha, e por ltimo com pedra-pomes e gua sanitria, e no conseguiram apagar a 
cruz. Em compensao, Amaranta e os outros que foram  missa tiraram-na sem 
dificuldade. Assim vo melhor, despediu-os rsula. De agora em diante ningum 
poder confundi-los. Foram a galope, precedidos pela banda de msica e soltando 
foguetes, e deixaram no povo a impresso de que a estirpe dos Buenda tinha sementes 
para muitos sculos. Aureliano Triste, com a sua cruz de cinza na testa, instalou nos 
arrabaldes do povoado a fbrica de gelo com que sonhara Jos Arcadio Buenda nos 
seus delrios de inventor. 
Meses depois da sua chegada, quando j era conhecido e apreciado, Aureliano 
Triste andava procurando uma casa para mandar vir sua me e uma irm solteira (que 
no era filha do coronel) e se interessou por um casaro decrpito que parecia 
abandonado numa esquina da praa. Perguntou de quem era. Algum lhe disse que era 
uma casa sem dono, onde em outros tempos vivera uma viva solitria que se 
alimentava de terra e cal das paredes e que nos seus ltimos anos s fora vista duas 
vezes na rua, com um chapu de minsculas flores artificiais e uns sapatos cor de prata 
antiga, quando atravessava a praa at a agncia do correio para enviar cartas para o 
Bispo. Disseram-lhe que a sua nica companhia fora uma criada desalmada que matava 
ces e gatos e quanto animal penetrava na casa, e jogava os cadveres no meio da rua 
para aborrecer o povo com a fedentina da putrefao. Tanto tempo passou desde que o 
sol mumificara a carcaa vazia do ltimo animal que todo mundo dava por certo que a 


dona da casa e a criada haviam morrido muito antes de que terminassem as guerras e 
que se a casa ainda estava de p era porque no tinham tido nos ltimos anos um 
inverno rigoroso ou um vento demolidor. As dobradias partidas pela ferrugem, as 
portas mal sustentadas pelo acmulo de teias de aranha, as janelas soldadas pela 
umidade e o cho arrebentado pelo mato e pelas flores silvestres, em cujas gretas se 
aninhavam os lagartos e toda espcie de insetos, pareciam confirmar a verso de que ali 
no estivera um ser humano pelo menos h meio sculo. Ao impulsivo Aureliano Triste 
no eram necessrias tantas provas para agir. Forou com o ombro a porta principal e a 
carcomida armao de madeira caiu sem estrpito, num calado cataclismo de p e terra 
de ninhos de cupim. Aureliano Triste permaneceu no umbral, esperando que se 
desvanecesse a nvoa, e ento viu no centro da sala a esqulida mulher ainda vestida 
com roupas do sculo anterior, com umas poucas fibras amarelas no crnio pelado e 
com uns olhos grandes, ainda belos, nos quais se haviam apagado as ltimas estrelas da 
esperana, e a pele do rosto gretada pela aridez da solido. Comovido pela viso do 
outro mundo, Aureliano Triste mal percebeu que a mulher estava apontando para ele 
uma antiquada pistola militar. 

 Perdo  murmurou. 
Ela permaneceu imvel no centro da sala entulhada de trastes, examinando 
palmo a palmo o gigante de ombros quadrados com uma tatuagem de cinza na testa e 
atravs da neblina da poeira viu-o na neblina de outros tempos, com uma espingarda 
de dois canos tranada nas costas e uma fieira de coelhos na mo. 

 Pelo amor de Deus  exclamou em voz baixa  no  justo que agora me 
venham com esta lembrana! 
 Quero alugar a casa  disse Aureliano Triste. 
A mulher ento levantou a pistola, apontando com pulso firme a cruz de cinza e 
armou o gatilho com uma determinao inapelvel. 

V embora  ordenou. 

Naquela noite, durante o jantar, Aureliano Triste contou o episdio  famlia e

rsula chorou de consternao. Santo Deus, exclamou apertando a cabea entre as 
mos. Ainda est viva! O tempo, as guerras, as incontveis desgraas cotidianas 
tinham feito com que se esquecesse de Rebeca. A nica que no tinha perdido por um 
s instante a conscincia de que estava viva, apodrecendo na sua sopa de larvas, era a 
implacvel e envelhecida Amaranta. Pensava nela ao amanhecer, quando o gelo do 
corao a acordava na cama solitria, e pensava nela quando ensaboava os seios 
murchos e o ventre macilento, e quando vestia as brancas anguas e camisetas de 
cambraia da velhice, e quando trocava na mo a venda negra da terrvel expiao. 
Sempre, a toda hora, adormecida e acordada, nos momentos mais sublimes e nos mais 
abjetos, Amaranta pensava em Rebeca, porque a sua solido havia selecionado as 
lembranas e incinerado as entorpecentes montanhas de lixo nostlgico que a vida 
acumulara no seu corao e havia purificado, magnificado e eternizado as outras, as 
mais amargas. Por ela  que Remedios, a bela, sabia da existncia de Rebeca. Cada vez 
que passavam pela casa decrpita, contava-lhe um incidente ingrato, uma fbula de 
oprbrio, tentando desta forma fazer com que o seu extenuante rancor fosse 
partilhado pela sobrinha e, por conseguinte, prolongado alm da morte, mas no 
conseguiu realizar os seus propsitos porque Remedios era imune a todo tipo desentimentos apaixonados e mais ainda aos alheios. rsula, em compensao, que 
sofrera um processo contrrio ao de Amaranta, evocou Rebeca com uma memria 


limpa de impurezas, pois a imagem da pobre criatura que trouxeram  sua casa com o 
saco dos ossos dos seus pais prevaleceu sobre a ofensa que a fez indigna de continuar 
vinculada ao tronco familiar. Aureliano Segundo resolveu que era preciso traz-la para 
casa e proteg-la, mas o seu bom propsito foi frustrado pela inquebrantvel 
intransigncia de Rebeca, que tinha necessitado de muitos anos de sofrimento e 
misria para conquistar os privilgios da solido e no estava disposta a renunciar a 
eles em troca de uma velhice perturbada pelos falsos encantos da misericrdia. 

Em fevereiro, quando voltaram os dezesseis filhos do Coronel Aureliano 
Buenda, ainda marcados com a cruz de cinza, Aureliano Triste lhes falou de Rebeca 
no barulho da farra e em meio dia restauraram a aparncia da casa, trocaram portas e 
janelas, pintaram a fachada de cores alegres, reforaram as paredes e espalharam 
cimento novo no cho, mas no obtiveram autorizao para continuar as reformas no 
interior. Rebeca nem sequer apareceu na porta. Deixou que terminassem a aturdida 
restaurao e logo fez um clculo dos custos e mandou para eles por Argnida, a velha 
criada que continuava a lhe fazer companhia, um punhado de moedas tiradas de 
circulao desde a ltima guerra, e que Rebeca acreditava que continuassem vlidas. 
Foi ento que se percebeu a que ponto inconcebvel chegara a sua desvinculao com o 
mundo e se compreendeu que seria impossvel resgat-la da sua obstinada clausura 
enquanto lhe restasse um sopro de vida. 

Na segunda visita que os filhos do Coronel Aureliano Buenda fizeram a 
Macondo, outro deles, Aureliano Centeno, ficou trabalhando com Aureliano Triste. 
Era um dos primeiros que tinham vindo  casa para o batismo, e rsula e Amaranta se 
lembravam muito bem dele, porque tinha espedaado em poucas horas quantos 
objetos quebrveis haviam passado pelas suas mos. O tempo tinha moderado o seu 
primitivo impulso de crescimento e era um homem de estatura mediana marcado com 
cicatrizes de varola, mas o seu assombroso poder de destruio manual continuava 
intacto. Tantos pratos quebrou, inclusive sem toc-los, que Fernanda optou por 
comprar para ele um servio de folha-de-flandres antes que liquidasse com as ltimas 
peas da sua loua cara, e mesmo os resistentes pratos metlicos em pouco tempo j 
estavam sem brilho e desbeiados. Compensando, porm, aquele poder irremedivel, 
exasperante inclusive para ele mesmo, possua uma cordialidade que despertava a 
confiana imediata e uma estupenda capacidade de trabalho. Em pouco tempo 
incrementou de tal modo a produo de gelo que estourou o mercado local e Aureliano 
Triste teve que pensar na possibilidade de estender o negcio para as outras povoaes 
do pantanal. Foi ento que imaginou o passo decisivo no s para a modernizao da 
sua indstria, como tambm para vincular a populao ao resto do mundo. 

 E preciso trazer a estrada de ferro  disse. 
Era a primeira vez que se ouvia a expresso em Macondo. Diante do desenho 
que Aureliano Triste traou na mesa, e que era um descendente direto dos esquemascom que Jos Arcadio Buenda ilustrou o projeto da guerra solar, rsula confirmou a 
sua impresso de que o tempo estava dando voltas num crculo vicioso. Mas ao 
contrrio do av, Aureliano Triste no perdia o sono nem o apetite, nem atormentava 
ningum com crises de mau humor, mas concebia os projetos mais desatinados como 
possibilidades imediatas, elaborava clculos racionais sobre custo e prazo e os levava a 
cabo sem intervalos de exasperao. Aureliano Segundo, que se tinha alguma coisa do 
bisav e no tinha do Coronel Aureliano Buenda era uma absoluta impermeabilidade 
para o desengano, soltou o dinheiro para trazer a estrada de ferro com a mesma 


leviandade com que o soltara para a absurda companhia de navegao do irmo. 
Aureliano Triste consultou o calendrio e partiu na quarta-feira seguinte para estar de 
volta quando passassem as chuvas. No se teve mais notcias dele. Aureliano Centeno, 
transbordado pelas abundncias da fbrica, j tinha comeado a experimentar a 
elaborao do gelo com base em sucos de frutas no lugar da gua, e sem o saber, sem 
programar, imaginou os fundamentos essenciais da inveno dos sorvetes, pensando 
desta forma diversificar a produo de uma empresa que supunha sua, porque o irmo 
no dava sinais de regresso depois de passarem as chuvas e transcorrer um vero 
inteiro sem notcias. No incio do outro inverno, entretanto, uma mulher que lavava 
roupa no rio na hora de mais calor atravessou a rua principal fazendo alarido, num 
alarmante estado de comoo. 

 Vem a  conseguiu explicar  um negcio horrvel como uma cozinha 
arrastando uma aldeia. 
Nesse momento a populao foi sacudida por um apito de ressonncias 
pavorosas e uma descomunal respirao ofegante. Nas semanas anteriores viram-se 
grupos de trabalhadores que colocavam dormentes e trilhos, mas ningum prestou 
ateno porque pensaram que era um novo artifcio dos ciganos, que voltavam com a 
sua secular e desprestigiada teimosia de apitos e chocalhos apregoando as excelncias 
de sabe Deus que miservel panacia dos xaroposos gnios hierosolimitanos. Mas 
quando se recuperaram do espanto dos assovios e bufos, todos os habitantes correram 
para a rua e viram Aureliano Triste acenando, com a mo, da locomotiva, e viram 
assombrados o trem enfeitado de flores que, j da primeira vez, chegava com oito 
meses de atraso. O inocente trem amarelo que tantas incertezas e evidencias, e tantos 
deleites e desventuras, e tantas mudanas, calamidades e saudades haveria de trazer 
para Macondo. 


DESLUMBRADO com tantas e to maravilhosas invenes, o povo de Macondo 
no sabia por onde comear a se espantar. Passavam a noite em claro contemplando as 
plidas lmpadas eltricas alimentadas pelo gerador que Aureliano Triste trouxera na 
segunda viagem do trem e a cujo obsessivo tum-tum custou tempo e trabalho se 
acostumar. Indignaram-se com as imagens vivas que o prspero comerciante Sr. Bruno 
Crespi projetava no teatro de bilheterias que imitavam bocas de leo, porque um 
personagem morto e enterrado num filme, e por cuja desgraa haviam derramado 
lgrimas de tristeza, reapareceu vivo e transformado em rabe no filme seguinte. 

O pblico, que pagava dois centavos para partilhar das vicissitudes dos 
personagens, no pde suportar aquele logro inaudito e quebrou as poltronas. O 
alcaide, por insistncia do Sr. Bruno Crespi, explicou num decreto que o cinema era 
uma mquina de iluso que no merecia os arroubos passionais do pblico. Diante da 
desalentadora explicao, muitos acharam que tinham sido vtimas de um novo e 
aparatoso negcio de cigano, de modo que optaram por no voltar ao cinema, 
considerando que j tinham o suficiente com os seus prprios sofrimentos para chorar 
por infelicidades fingidas de seres imaginrios. Alguma coisa de semelhante aconteceu 
com os gramofones de manivela que as alegres matronas da Frana trouxeram, em 
substituio aos antiquados realejos, e que to profundamente afetaram por algum 
tempo os interesses da banda de msica. No princpio, a curiosidade multiplicou a 
clientela da rua proibida, e soube-se at de senhoras respeitveis que se disfararam de 
malandro para observar de perto a novidade do gramofone, mas o observaram tanto e 
de to perto que muito rapidamente chegaram  concluso de que no era um moinho 
de brinquedo, como todos pensavam e como as matronas diziam, mas um truque 
mecnico que no podia se comparar com uma coisa to comovedora, to humana e to 
cheia de verdade cotidiana como uma banda de msica. Foi uma desiluso to sria 
que quando os gramofones se popularizaram, a ponto de haver um em cada casa, no 
foram encarados como objetos para a diverso dos adultos, mas como uma coisa boa 
para as crianas desmontarem. Em compensao, quando algum do povoado teve a 
oportunidade de comprovar a crua realidade do telefone instalado na estao da 
estrada de ferro, que por causa da manivela se considerava como uma verso 
rudimentar do gramofone, at os mais incrdulos se desconcertaram. Era como se Deus 
tivesse resolvido pr  prova toda a capacidade de assombro e mantivesse os 
habitantes de Macondo num permanente vaivm do alvoroo ao desencanto, da dvida 
 revelao, ao extremo de j ningum poder saber com certeza onde estavam os 
limites da realidade. Era uma intrincada maaroca de verdades e miragens, que 
provocou convulses de impacincia no espectro de Jos Arcadio Buenda debaixo do 
castanheiro e o obrigou a vagar toda a casa mesmo em pleno dia. Desde que a estrada 
de ferro foi inaugurada oficialmente e o trem comeou a chegar com regularidade toda 
quarta-feira s onze, e que se construiu a primitiva estao de madeira com um 
escritrio, o telefone e um guich para vender as passagens, eram vistos nas ruas de 
Macondo homens e mulheres que fingiam atitudes comuns e correntes, mas que na 
verdade pareciam gente de circo. Num povo escaldado pela praga dos ciganos, no 
havia um futuro para aqueles equilibristas do comrcio ambulante que com o mesmo 
desembarao ofereciam uma panela de apito e um regime de vida para a salvao da 
alma no stimo dia; mas entre os que se deixavam convencer pelo cansao e os 
incautos de sempre, faziam excelentes negcios. Entre essas criaturas de farndola, 
com culotese polainas, chapu de cortia, culos com armao de ao, olhos de topzio 


e pele galo fino, numa das tantas quartas-feiras, chegou a Macondo e almoou em casa 

o rechonchudo e sorridente Mr. Herbert. 
Ningum o distinguiu na mesa, enquanto no se comeu o primeiro cacho de 
bananas. Aureliano Segundo encontrara-o por acaso, protestando num espanhol 
trabalhoso porque havia um quarto livre no Hotel de Jacob e, como fazia com 
freqncia com muitos forasteiros, levou-o para casa. Tinha um negcio de bales de 
sondagem, que levara  metade do mundo com lucros excelentes, mas no conseguira 
fazer ningum subir em Macondo, porque consideravam esse invento como um 
retrocesso, depois de terem visto e experimentado os tapetes voadores dos ciganos. 
Partia, pois, no prximo trem.Quando trouxeram para a mesa o salpicado cacho de 
bananas que costumavam pendurar na sala de jantar durante o almoo, arrancou a 
primeira fruta sem muito entusiasmo. Mas continuou comendo enquanto falava, 
saboreando, mastigando, mais com distrao de sbio do que com deleite de comedor, 
mas ao terminar o primeiro cacho suplicou que trouxessem outro. Ento, tirou da 
caixa de ferramentas sempre trazia consigo um pequeno estojo de aparelhos ticos. 
Com a incrdula ateno de um comprador de diamantes, minou meticulosamente 
uma banana, seccionando as suas partes com um estilete especial, pesando-as numa 
balancinha de farmacutico e calculando a sua envergadura com um calibrador de 
armeiro. Em seguida, tirou da caixa uma srie de instrumentos com os quais mediu a 
temperatura, o grau de umidade da atmosfera e a intensidade da luz. Foi uma 
cerimnia intrigante que ningum comeu tranqilo, esperando que Herbert emitisse 
por fim um juzo revelador, mas ele no disse nada que permitisse vislumbrar as suas 
intenes. 

Nos dias seguintes foi visto com uma rede e um cestinho caando borboletas 
nos arredores do povoado. Na quarta-feira, chegou um grupo de engenheiros, 
agrnomos, hidrlogos, topgrafos e agrimensores que, durante vrias semanas, 
exploraram os mesmos lugares onde Mr. Herbert caava borboletas.Mais tarde chegou 

o Sr. Jack Brown, num vago suplementar que haviam enganchado no rabo do trem 
amarelo e era todo laminado de prata, com poltronas de veludo episcopal e teto de 
vidros azuis. No vago especial chegaram tambm, voejando em torno do Sr. Brown, os 
solenes advogados vestidos de negro que em outra poca tinham seguido por todas as 
partes o Coronel Aureliano Buenda, e isto fez o povo pensar que os agrnomos, 
hidrlogos, topgrafos e agrimensores, assim como Mr. Herbert com os seus bales de 
sondagem e as suas borboletas coloridas e o Sr. Brown com o seu mausolu sobre rodas 
e os seus ferozes ces policiais, tinham coisa a ver com a guerra. No houve, 
entretanto, muito para pensar no assunto, porque os desconfiados habitantes de 
Macondo mal comeavam a se perguntar que diabo era o que estava acontecendo, 
quando j a aldeia se tinha transformado num acampamento de casas de madeira com 
tetos de zinco, povoado por forasteiros que chegavam de meio mundo no trem, no s 
nos bancos e nos estribos mas at no teto vages. Os americanos, que depois 
trouxeram as suas mulheres lnguidas com roupas de musselina e grandes chapus de 
gaze, fizeram uma aldeia  parte do outro lado da linha do trem, com ruas orladas de 
palmeiras, casas com janelas com tela metlica, mesinhas brancas nos terraos e 
ventiladores de ps pendurados no teto, e extensos prados azuis com paves e 
codornas. O setor estava cercado por uma rede metlica, como um gigantesco 
galinheiro eletrificado que nos frescos meses de vero amanhecia negro de andorinhas 
esturricadas. Ningum sabia ainda o que desejavam, ou se na verdade seriam apenas 

filantropos, e j tinham ocasionado um transtorno colossal, muito mais perturbador 
que o dos antigos ciganos, mas menos transitrio e compreensvel. Dotados de 
recursos que em outra poca estavam reservados  Divina Providncia, modificaram o 
regime das chuvas, apressaram o ciclo das colheitas, e tiraram o rio de onde sempre 
esteve e o puseram com as suas pedras brancas e as suas correntes geladas no outro 
extremo da povoao, atrs do cemitrio. Foi nessa ocasio que construram uma 
fortaleza de cimento armado sobre a descolorida tumba de Jos Arcadio, para que o 
cheiro de plvora do cadver no contaminasse as guas. Para os forasteiros que 
chegavam sem amor, transformaram a rua das carinhosas matronas da Frana num 
povoado mais extenso que o outro e, numa quarta-feira gloriosa, trouxeram um trem 
carregado de putas inverossmeis, fmeas babilnicas adestradas em recursos 
imemoriais e providas de toda espcie de ungentos e dispositivos para estimular os 
inertes, despertar os tmidos, saciar os vorazes, exaltar os modestos, desenganar os 
mltiplos e corrigir os solitrios. A Rua dos Turcos, enriquecida com luminosos 
armazns de comestveis que expulsaram as velhas feiras de canrios-da-terra, 
regurgitava nas noites de sbado com as multides de aventureiros que se 
atropelavam entre as mesas de jogo, os balces de tiro ao alvo, o beco onde se 
adivinhava o futuro e se interpretavam os sonhos, e as mesas de frituras e bebidas, que 
amanheciam no domingo esparramadas pelo cho, entre corpos que s vezes eram de 
bbados felizes e quase sempre de curiosos abatidos pelos disparos, murros, 
navalhadas e garrafadas da briga. Foi uma invaso to tumultuada e intempestiva que 
nos primeiros tempos era impossvel andar na rua com o estorvo dos mveis e dos 
bas e com o tranar da carpintaria dos que erguiam as suas casas em qualquer 
terreno vazio sem a autorizao de ningum, e com o escndalo dos casais que 
penduravam as suas redes entre as amendoeiras e faziam o amor debaixo dos toldos, 
em pleno dia e na vista de todo mundo. O nico reduto de serenidade foi estabelecido 
pelos pacficos negros antilhanos, que construram uma rua marginal com casas de 
madeira sobre estacas, em cujas portas se sentavam ao entardecer cantando hinos 
melanclicos na sua estropiada algaravia. Tantas mudanas ocorreram em to pouco 
tempo que oito meses depois da visita de Mr. Herbert os antigos habitantes de 
Macondo se levantavam cedo para conhecer a sua prpria aldeia. 

 Olhem a confuso em que nos metemos  costumava ento dizer o Coronel 
Aureliano Buenda  s por termos convidado um americano para comer banana. 
Aureliano Segundo, em compensao, no cabia em si de contente com a 
avalancha de forasteiros. A casa se encheu de repente de hspedes desconhecidos, de 
invencveis farristas mundiais, e foi preciso acrescentar quartos no quintal, aumentar 
a sala de jantar e trocar a antiga mesa por uma de dezesseis lugares, com loua nova e 
talheres, e ainda assim foi necessrio estabelecer turnos para almoar. Fernanda teve 
que engolir os seus escrpulos e atender como reis os convidados da pior condio, 
que enlameavam a varanda com as botas, urinavam no jardim, estendiam as suas 
esteiras em qualquer lugar para fazer a sesta e falavam sem se preocupar com 
suscetibilidades de damas nem com gestos de cavalheiros. Amaranta se escandalizou 
de tal modo com a invaso da plebe que voltou a comer na cozinha como nos velhos 
tempos. O Coronel Aureliano Buenda, convencido de que a maioria dos que entravam 
para cumpriment-lo na oficina no o fazia por simpatia ou estima, mas pela 
curiosidade de conhecer uma relquia histrica, um fssil de museu, preferiu se fechar 
a chave e no voltou a ser visto a no ser em muito poucas ocasies, sentado na porta 


da rua. rsula, em compensao, mesmo nos tempos em que j arrastava os ps e 
caminhava tateando nas paredes, experimentava um alvoroo pueril quando seaproximava a chegada do trem.  pre ciso fazer carne e peixe, ordenava s quatro 
cozinheiras que se estafavam para andar em tempo sob a imperturbvel direo deSanta Sofa de la Piedad.  preciso fazer de tudo, insistia, porque nunca se sabe o 
que os forasteiros querem comer. O trem chegava na hora de mais calor. Ao almoo, a 
casa trepidava num alvoroo de mercado e os suarentos comensais, que nem sequer 
sabiam quem eram os seus anfitries, irrompiam em tropel para ocupar os melhores 
lugares da mesa, enquanto as cozinheiras davam encontres umas nas outras, com as 
enormes tigelas; de sopa, os alguidares de carnes, as gamelas de legumes, as travessas 
de arroz, e serviam com a concha inesgotveis barris de limonada. Era tal a desordem, 
que Fernanda se exasperava com a idia de que muitos comessem duas vezes, e em 
mais de uma ocasio quis se desabafar em improprios de verdureira, porque algum 
comensal atnito pedia a conta. Mais de um ano se passara desde a visita de Mr. 
Herbert e a nica coisa que se sabia era que os americanos pretendiam plantar 
bananeiras na regio encantada que Jos Arcadio Buenda e os seus homens tinham 
atravessado, procurando a rota das grandes invenes. Outros dois filhos do Coronel 
Aureliano Buenda, com a sua cruz de cinza na testa, chegaram arrastados por aquele 
arroto vulcnico e justificaram a sua deciso com uma frase que talvez explicasse as 
razes de todos. 

 Ns viemos  disseram  porque todo mundo vem. Remedios, a bela, foi a 
nica que permaneceu imune  peste da companhia bananeira. Estacou numa 
adolescncia magnfica, cada vez mais impermevel aos formalismos, mais indiferente 
 malcia,  desconfiana, feliz num mundo prprio de realidades simples. No 
entendia por que as mulheres complicavam a vida com camisetas e anguas, de modo 
que coseu uma bata de aniagem que enfiava simplesmente pela cabea e resolvia sem 
mais trmites o problema de se vestir, sem desmanchar a impresso de estar nua, que 
no seu modo de entender as coisas era a nica maneira decente de se estar em casa. 
Amolaram-na tanto para que cortasse o cabelo cascateante que j batia na barriga da 
perna e para que fizesse um coque preso com pentes e tranas com laos coloridos que 
simplesmente raspou a cabea e fez perucas para os santos. O assombroso do seu 
instinto simplificador era que quanto mais se desembaraava da moda procurando a 
comodidade e quanto mais passava por cima dos convencionalismos em obedincia  
espontaneidade, mais perturbadora ficava a sua beleza inacreditvel e mais provocante 
o seu comportamento para com os homens. Quando os filhos do Coronel Aureliano 
Buenda estiveram pela primeira vez em Macondo, rsula se lembrou de que levavam 
nas veias o mesmo sangue da bisneta e estremeceu com o horror esquecido. Abra bem 
os olhos, preveniu-a. Com qualquer deles, os filhos sairo com rabo de porco. Ela fez 
to pouco-caso da advertncia que se vestiu de homem e se espojou na areia para subir 
no pau-de-sebo e esteve a ponto de ocasionar uma tragdia entre os dezessete primos 
transtornados pelo insuportvel espetculo. Era por isso que nenhum deles dormia em 
casa quando visitavam o povoado, e os quatro que tinham ficado viviam s expensas dersula em quartos alugados. Entretanto, Remedios, a bela, teria morrido de rir se 
tivesse sabido daquela precauo. At o ltimo instante em que esteve na Terra 
ignorou que o seu irreparvel destino de fmea perturbadora era uma desgraacotidiana. Cada vez que aparecia na sala de jantar, contrariando as ordens de rsula, 
causava um pnico de exasperao entre os forasteiros. Era evidente demais que estava 

inteiramente nua sob a bata grosseira e ningum podia entender que o seu crnio 
pelado e perfeito no fosse um desafio e que no fosse uma criminosa provocao o 
descaro com que descobria as coxas para aliviar o calor e o prazer com que chupava os 
dedos depois de comer com as mos. O que nenhum membro da famlia jamais soube 
foi que os forasteiros no tardaram a perceber que Remedios, a bela, desprendia um 
hlito perturbador, uma brisa de tormento que continuava sendo perceptvel vrias 
horas depois de ela ter passado. Homens experimentados nos transtornos do amor, 
vividos no mundo inteiro, afirmavam no ter padecido nunca de uma ansiedade 
semelhante  que produzia o perfume natural de Remedios, a bela. Na varanda das 
begnias, na sala de visitas, em qualquer lugar da casa, se podia assinalar o lugar exato 
onde estivera e o tempo transcorrido desde que deixara de estar. Era um rastro 
definido, inconfundvel, que ningum da casa podia distinguir porque estava 
incorporado h muito tempo aos cheiros cotidianos, mas que os forasteiros 
identificavam imediatamente. Por isso eram eles os nicos que entendiam que o jovem 
comandante da guarda tivesse morrido de amor e que um cavaleiro vindo de outras 
terras tivesse cado em desespero. Inconsciente da aura inquietante em que se ria do 
insuportvel estado de ntima calamidade que provocava  sua passagem, Remedios, a 
bela, tratava os homens sem menor a malcia e acabava de transtorn-los com as suas 
inocentes complacncias. Quando rsula conseguiu impor a ordem de que comesse 
com Amaranta na cozinha, para que os forasteiros no a vissem, ela se sentiu mais 
cmoda, porque afinal de contas ficava a salvo de qualquer disciplina. Realmente, 
tanto fazia comer em qualquer lugar, e no em horas fixas, mas de acordo com as 
alternativas do seu apetite. s vezes se levantava para almoar s trs da madrugada, 
dormia o dia inteiro, e passava vrios meses com os horrios trocados, at que algum 
incidente casual voltava a p-la em ordem. Quando as coisas andavam melhor, 
levantava-se s onze da manh e se trancava durante duas horas completamente nua 
no banheiro, matando escorpies enquanto espantava o denso e prolongado sono. Em 
seguida, jogava gua em si mesma tirando-a da caixa com uma cuia. Era um ato to 
prolongado, to meticuloso, to rico de situaes cerimoniais, quem no a conhecesse 
bem poderia pensar que estava entregue a uma merecida adorao do seu prprio 
corpo. Para ela, entretanto, aquele rito solitrio carecia de qualquer sensualidade, e era 
simplesmente uma maneira de matar o tempo enquanto no sentia fome. Um dia, 
quando comeava a se banhar, um forasteiro levantou uma telha do teto e ficou sem 
respirao diante do tremendo espetculo de sua nudez. Ela viu os olhos aflitos atravs 
das telhas quebradas e no teve nenhuma reao de vergonha, mas sim de 
preocupao. 

 Cuidado  exclamou.  Voc vai cair. 
 S quero ver voc  murmurou o forasteiro. 
 Ah, bem  ela disse.  Mas tenha cuidado que essas telhas esto podres. 
O rosto do forasteiro tinha uma dolorosa expresso de espanto e parecia lutar 
surdamente contra os seus impulsos primrios, para no dissipar a miragem. 
Remedios, a bela, pensou que ele sofria de medo de que as telhas quebrassem e se 
banhou mais depressa do que de costume, para que o homem no contin uasse em 
perigo. Enquanto se jogava gua, disse a ele que era um problema que o teto estivesse 
naquele estado, pois ela acreditava que a camada de folhas apodrecidas pela chuva era 

o que enchia o banheiro de escorpies. O forasteiro confundiu aquela conversa com 

uma forma de dissimular a complacncia, de modo que quando ela comeou a se 
ensaboar cedeu  tentao de dar um passo adiante. 

 Deixe-me ensabo-la  murmurou. 
 Agradeo a sua boa inteno  disse ela  mas posso perfeitamente faz-lo 
sozinha com as minhas duas mos. 
 S as costas  suplicou o forasteiro. 
 Seria um desperdcio  ela disse.  Nunca se viu ningum ensaboar as 
costas. 
Depois, enquanto se enxugava, o forasteiro implorou com os olhos cheios de 
lgrimas que se casasse com ele. Ela lhe respondeu sinceramente que nunca se casaria 
com um homem to bobo que perdia quase uma hora, e at ficava sem almoar, s para 
ver uma mulher tomar banho. Por fim, quando vestiu a bata, o homem no pde 
suportar a comprovao de que realmente no usava nada embaixo, como todo mundo 
suspeitava, e se sentiu marcado para sempre com o ferro ardente daquele segredo. 
Ento arrancou mais duas telhas para se atirar no interior do banheiro.

  muito alto!  ela o preveniu assustada.  Voc vai se matar! 
As telhas apodrecidas se despedaaram num estrondo de desastre e o homem 
mal conseguiu lanar um grito de terror e fraturou o crnio e morreu sem agonia no 
cho de cimento. Os forasteiros que ouviram o barulho na sala de jantar e se 
apressaram em levar o cadver perceberam na sua pele o sufocante cheiro de 
Remedios, a bela. Estava to entranhado no corpo que as rachaduras do crnio no 
emanavam sangue e sim um leo ambarino impregnado daquele perfume secreto, e 
ento compreenderam que o cheiro de Remedios, a bela, continuava torturando os 
homens alm da morte, at a poeira dos ossos. Entretanto, no relacionaram aquele 
acidente de horror com os outros dois homens que haviam morrido por Remedios, a 
bela. Faltava ainda uma vtima para que os forasteiros e muitos dos antigos habitantes 
de Macondo dessem crdito  lenda de que Remedios Buenda no exalava o sopro de 
amor mas sim um fluxo mortal. A ocasio de comprov-lo se apresentou meses depois, 
numa tarde em que Remedios, a bela, foi com um grupo de amigas conhecer as novas 
plantaes. Para o povo de Macondo, era uma distrao recente percorrer as midas e 
interminveis avenidas ladeadas de bananeiras, onde o silncio parecia trazido de 
outra parte, ainda sem usar, e por isso era to difcil transmitir a voz. As vezes no se 
entendia muito bem o que era dito a meio metro de distncia e que entretanto se 
tornava perfeitamente compreensvel no outro extremo da plantao. Para as moas de 
Macondo aquela brincadeira nova era motivo de risadas e sobressaltos, de sustos e 
zombarias, e de noite se falava do passeio como de uma experincia de sonho. Era tal o 
prestgio daquele silncio que rsula no teve coragem de privar Remedios, a bela, da 
diverso e lhe permitiu ir numa tarde, desde que pusesse um chapu e uma roupa 
adequada. Assim que o grupo de amigas entrou na plantao o ar se impregnou de uma 
fragrncia mortal. Os homens que trabalhavam nas valas se sentiram possudos por 
uma estranha fascinao, ameaados por um perigo invisvel, e muitos sucumbiram  
terrvel vontade de chorar. Remedios, a bela, e suas espantadas amigas conseguiram se 
refugiar numa casa prxima quando estavam j para serem assaltadas por um tropel de 
machos ferozes. Pouco depois foram resgatadas pelos quatro Aurelianos, cujas cruzes 
de cinza infundiam um respeito sagrado, como se fossem marca de casta, selo de 
invulnerabilidade. Remedios, a bela, no contou a ningum que um dos homens, 
aproveitando o tumulto, conseguira agredi-la no ventre com uma mo que mais 


parecia uma garra de guia aferrada aos bordos de um precipcio. Ela enfrentara o 
agressor numa espcie de deslumbramento instantneo e vira os olhos desconsolados 
que ficaram impressos no seu corao como uma brasa de compaixo. Nessa noite, o 
homem se gabou da sua audcia e se vangloriou da sua sorte na Rua dos Turcos, 
minutos antes de que o coice de um cavalo lhe arrebentasse o peito e uma multido de 
forasteiros o visse agonizar no meio da rua, sufocado em vmitos de sangue. 

A suposio de que Remedios, a bela, possua poderes de morte estava agora 
sustentada por quatro fatos irrefutveis. Embora alguns homens levianos de palavra 
sentissem prazer em dizer que bem valia a pena sacrificar a vida por uma noite de 
amor com to perturbadora mulher, a verdade  que nenhum se esforou por conseguilo. 
Talvez, no s para venc-la como tambm para afastar os seus perigos, bastasse um 
sentimento to primitivo e simples como o amor, mas isso foi a nica coisa que noocorreu a ningum. rsula no voltou a se ocupar dela. Em outra poca, quando ainda 
no renunciara ao propsito de salv-la para o mundo, procurou interess-la nos 
assuntos elementares da casa. Os homens so mais exigentes do que voc pensa,
dizia-lhe enigmaticamente.  preciso cozinhar muito, varrer muito, sofrer muito por 
mesquinharias, alm daquilo que voc pensa. No fundo se enganava a si mesma, 
tentando adestr-la para a felicidade domstica, porque estava convencida de que, uma 
vez satisfeita a paixo, no havia um homem sobre a terra capaz de suportar, nem que 
fosse por um dia, uma negligncia que estava alm de qualquer compreenso. O 
nascimento do ltimo Jos Arcadio e a sua inquebrantvel vontade de educ-lo para 
Papa terminaram por faz-la desistir das suas ocupaes com a bisneta. Abandonou-a 
 sua sorte, confiando que mais cedo ou mais tarde aconteceria um milagre e que neste 
mundo onde havia de tudo haveria tambm um homem com suficiente serenidade para 
cuidar dela. Fazia muito tempo que Amaranta tinha renunciado a qualquer tentativa 
de convert-la numa mulher til. Desde as tardes esquecidas do quarto de costura, 
quando a sobrinha mal se interessava por rodar a manivela da mquina de coser, 
chegara  concluso simples de que era boba. Vamos ter que rifar voc, dizia-lhe, 
perplexa diante da sua impermeabilidade  palavra dos homens. Mais tarde, quando 
rsula se empenhou para que Remedios, a bela, assistisse  missa com a cara coberta 
por um vu, Amaranta pensou que aquele recurso misterioso acabaria por ser to 
provocante que muito em breve haveria um homem intrigado o bastante para procurar 
com pacincia o ponto fraco do seu corao. Mas quando viu a forma insensata com 
que desprezou um pretendente que, por muitos motivos, era mais apetecvel que um 
prncipe, renunciou a qualquer esperana. Fernanda no fez sequer a tentativa de 
compreend-la. Quando viu Remedios, a bela, vestida de rainha no carnaval sangrento, 
pensou que ela era uma criatura extraordinria. Mas quando a viu comendo com as 
mos, incapaz de dar uma resposta que no fosse um prodgio de patetice, a nica 
coisa que lamentou foi que os bobos de nascena tivessem uma vida to longa. Apesar 
de o Coronel Aureliano Buenda continuar acreditando e repetindo que Remedios, a 
bela, era na verdade o ser mais lcido que havia conhecido na vida, e que o 
demonstrava a cada momento com a sua assombrosa habilidade para zombar de todos, 
abandonaram-na ao deus-dar. Remedios, a bela, ficou vagando pelo deserto da 
solido, sem cruzes nas costas, amadurecendo nos seus sonos sem pesadelos, nos seus 
banhos interminveis, nas suas refeies sem horrios, nos seus profundos e 
prolongados silncios sem lembranas, at uma tarde de maro em que Fernanda quis 
dobrar os seus lenis de linho no jardim e pediu ajuda s mulheres da casa. Mal 


haviam comeado, quando Amaranta advertiu que Remedios, a bela, chegava a estar 
transparente de to intensamente plida. 

 Voc est se sentindo mal?  perguntou a ela. 
Remedios, a bela, que segurava o lenol pelo outro extremo, teve um sorriso de 
piedade. 

 Pelo contrrio  disse  nunca me senti to bem. 
Acabava de dizer isso quando Fernanda sentiu que um delicado vento de luz lhe 
arrancava os lenis das mos e os estendia em toda a sua amplitude. Amaranta sentiu 
um tremor misterioso nas rendas das suas anguas e tratou de se agarrar no lenol parano cair, no momento em que Remedios, a bela, comeava a ascender. rsula, j quase 
cega, foi a nica que teve serenidade para identificar a natureza daquele vento 
irremedivel e deixou os lenis  merc da luz, olhando para Remedios, a bela, que lhe 
dizia adeus com a mo, entre o deslumbrante bater de asas dos lenis que subiam 
com ela, que abandonavam com ela o ar dos escaravelhos e das dlias e passavam com 
ela atravs do ar onde as quatro da tarde terminavam, e se perderam com ela para 
sempre nos altos ares onde nem os mais altos pssaros da memria a podiam alcanar. 

Os forasteiros, evidentemente, pensaram que Remedios, a bela, sucumbira por 
fim ao seu irrevogvel destino de abelha-mestra e que a sua famlia tentava salvar a 
honra com a mentira da levitao. Fernanda, roda de inveja, acabou por aceitar o 
prodgio e durante muito tempo continuou rogando a Deus para que lhe devolvesse os 
lenis. A maioria acreditou no milagre e at se acenderam velas e se rezaram novenas. 
Talvez no se tivesse voltado a falar de outra coisa por muito tempo, se o brbaro 
extermnio dos Aurelianos no tivesse substitudo o assombro pelo horror. Embora 
nunca o identificasse como um pressgio, o Coronel Aureliano Buenda previa de certo 
modo o trgico fim dos seus filhos. Quando Aureliano Serrador e Aureliano Arcaya, os 
dois que chegaram no tumulto, manifestaram a vontade de ficar em Macondo, o pai 
tentou dissuadi-los. No entendia o que vinham fazer num povoado que da noite para 

o dia se transformara num lugar de perigo. Mas Aureliano Centeno e Aureliano Triste, 
apoiados por Aureliano Segundo, ofereceram trabalho para eles nas suas empresas. O 
Coronel Aureliano Buenda tinha motivos ainda muito confusos para no patrocinar 
aquela determinao. Desde que vira o Sr. Brown no primeiro automvel que chegara a 
Macondo  um conversvel alaranjado com uma buzina que espantava os ces com os 
seus latidos  o velho guerreiro se indignou com as mesuras servis do povo e percebeu 
que alguma coisa mudara na ndole dos homens desde o tempo em que abandonavam 
mulheres e filhos e jogavam uma espingarda ao ombro para ir  guerra. As autoridades 
locais, depois do armistcio de Neerlndia, eram alcaides sem iniciativa, juzes 
decorativos, escolhidos entre os pacficos e cansados conservadores de Macondo. Este 
 um regime de pobres-diabos, comentava o Coronel Aureliano Buenda quando via 
passar os guardas descalos, armados de cassetetes de madeira. Fizemos tantas 
guerras, e tudo para que no nos pintassem a casa de azul. Quando chegou a 
companhia bananeira, entretanto, os funcionrios locais foram substitudos por 
forasteiros autoritrios que o Sr. Brown levou para viver no galinheiro eletrificado, 
para que gozassem, conforme explicou, da dignidade que correspondia ao seu cargo e 
no sofressem o calor e os mosquitos e as incontveis incomodidades e privaes do 
povo. Os antigos guardas foram substitudos por sicrios armados de faces. Fechado 
na oficina, o Coronel Aureliano Buenda pensava nestas mudanas e, pela primeira vez 
nos seus calados anos de solido, atormentou-o a certeza definitiva de que havia sido 

um erro no prosseguir a guerra at as suas ltimas conseqncias. Por esses dias, um 
irmo do esquecido Coronel Magnfico Visbal levou o neto de sete anos para tomar um 
refresco nas carrocinhas da praa e, porque o menino esbarrou por acidente num cabo 
de polcia e lhe derramou o refresco no uniforme, o brbaro fez dele picadinho com o 
faco e decapitou de um s golpe o av, que tentara enfrent-lo. Todo o povo viu o 
decapitado passar quando um grupo de homens o carregava para casa, a cabea 
arrastada por uma mulher que a levava pendurada pelos cabelos e o saco 
ensangentado onde meteram os pedaos do menino. 

Para o Coronel Aureliano Buenda foi o mximo da expiao. Encontrou-se de 
repente padecendo da mesma indignao que sentira na juventude, diante do cadver 
da mulher que fora morta a pauladas porque tinha sido mordida por um co raivoso. 
Olhou para os grupos de curiosos que estavam na frente da casa e, com a sua antiga 
voz trovejante, restaurada por um profundo desprezo por ele mesmo, jogou-lhes em 
cima o peso do dio que j no podia mais suportar no corao. 

 Um dia destes  gritou  vou armar os meus rapazes para acabar com estes 
ianques de merda! 
Ao correr da semana, em diferentes lugares do litoral, os seus dezessete filhos 
foram caados como coelhos por criminosos invisveis que apontaram bem no centro 
das suas cruzes de cinza. Aureliano Triste saa da casa de sua me, s sete da noite, 
quando um disparo de fuzil surgido da escurido perfurou-lhe a testa. Aureliano 
Centeno foi encontrado na rede que costumava armar na fbrica com um furador de 
gelo cravado at o cabo entre as sobrancelhas. Aureliano Serrador tinha deixado a 
namorada na casa dos pais, depois de lev-la ao cinema, e voltava pela iluminada Rua 
dos Turcos quando algum que nunca foi identificado na multido disparou um tiro de 
revlver que o derrubou dentro de um caldeiro de gordura fervendo. Poucos minutos 
depois, algum bateu na porta do quarto onde Aureliano Arcaya estava fechado com 
uma mulher e gritou para ele: Anda logo, que esto matando os teus irmos. A 
mulher que estava com ele contou depois que Aureliano Arcaya pulou da cama e abriu 
a porta e foi esperado com uma descarga de Mauser que lhe despedaou o crnio. 
Naquela noite de matana, enquanto a casa se preparava para velar os quatro 
cadveres, Fernanda percorreu o povoado como uma louca procurando Aureliano 
Segundo, que Petra Cotes trancara num armrio, pensando que a misso de extermnio 
inclua todos os que tivessem o nome do coronel. No o deixou sair at o quarto dia, 
quando os telegramas recebidos de lugares diferentes do litoral permitiram 
compreender que a sanha do inimigo invisvel estava dirigida apenas contra os irmos 
marcados com cruzes de cinza. Amaranta procurou a caderneta de contas onde havia 
anotado os dados dos sobrinhos, e,  medida que chegavam os telegramas, ia riscando 
os nomes, at que s ficou o do mais velho. Lembravam-se muito bem dele, por causa 
do contraste da sua pele escura com os grandes olhos verdes. Chamava-se Aureliano 
Amador, era carpinteiro e vivia numa aldeia perdida nas encostas da serra. Depois de 
esperar duas semanas pelo telegrama da sua morte, Aureliano Segundo mandou um 
emissrio para preveni-lo, pensando que ignorasse a ameaa que pesava sobre ele. O 
emissrio voltou com a notcia de que Aureliano Amador estava salvo. Na noite do 
extermnio, dois homens tinham ido procur-lo em sua casa e tinham descarregado os 
seus revlveres contra ele, mas no lhe haviam acertado a cruz de cinza. Aureliano 
Amador conseguira pular a cerca do quintal e se perdera nos labirintos da serra, que 


conhecia como a palma da mo, graas  amizade dos ndios com quem comerciava 

madeira. No se voltara a saber dele. 

Foram dias negros para o Coronel Aureliano Buenda. 

O Presidente da Repblica endereou-lhe um telegrama de psames no qual 
prometia urna investigao exaustiva e rendia homenagem aos mortos. Por ordem sua, 

o alcaide se apresentou no enterro com quatro coroas fnebres que pretendeu colocar 
sobre os atades, mas o coronel o ps na rua. Depois do enterro, redigiu e levou 
pessoalmente um telegrama violento para o Presidente da Repblica, que o telegrafista 
se negou a transmitir. Ento, enriqueceu-o com expresses de singular agressividade, 
meteu-o num envelope e o ps no correio. Como lhe ocorrera com a morte da esposa, 
como tantas vezes lhe ocorrera durante a guerra com a morte dos seus melhores 
amigos, no experimentava um sentimento de pesar, mas uma raiva cega e sem direo, 
uma extenuante impot ncia. Chegou at a denunciar a cumplicidade do Padre Antonio 
Isabel, por ter marcado seus filhos com cinza indelvel, para que fossem identificados 
pelos inimigos. O decrpito sacerdote, que j no alinhava muito bem as idias e 
comeava a espantar os paroquianos com as disparatadas interpretaes que tentava 
no plpito, apareceu uma tarde na casa com a caneca onde preparava as cinzas da 
quarta-feira e tentou ungir com elas toda a famlia, para demonstrar que saam com 
gua. Mas o terror da desgraa tinha calado to fundo que nem a prpria Fernanda se 
prestou  experincia e nunca mais se viu um Buenda ajoelhado junto ao altar na 
quarta-feira de cinzas. 
Durante muito tempo o Coronel Aureliano Buenda no conseguiu recobrar a 
serenidade. Abandonou a fabricao de peixinhos, comia a duras penas e andava como 
um sonmbulo por toda a casa, arrastando a manta e mastigando uma clera surda. Ao 
fim de trs meses, tinha o cabelo grisalho, o antigo bigode de pontas engomadas 
gotejando sobre os lbios sem cor, mas em compensao os seus olhos eram outra vez 
aquelas duas brasas que haviam assustado aos que o viram nascer e que em outros 
tempos faziam as cadeiras girarem s de olhar para elas. Na fria do seu tormento 
tentava inutilmente provocar os pressgios que haviam guiado a sua juventude pelos 
caminhos do perigo at o desolado ermo da glria. Estava perdido, extraviado numa 
casa alheia, onde j nada nem ningum lhe motivava o menor vestgio de afeto. Uma 
vez abriu o quarto de Melquades, procurando os rastos de um passado anterior  
guerra e s encontrou os escombros, o lixo, os montes de porcaria acumulados por 
tantos anos de abandono. Nas capas dos livros que ningum voltara a ler, nos velhos 
pergaminhos macerados pela umidade, prosperara uma flora lvida, e no ar que havia 
sido o mais puro e luminoso da casa flutuava um insuportvel cheiro de lembranaspodres. Certa manh, encontrou rsula chorando debaixo do castanheiro, nos joelhos 
do marido morto. O Coronel Aureliano Buenda era o nico habitante da casa que no 
continuava a ver o potente ancio angustiado por meio sculo de intemprie.
Cumprimente o seu pai, disse-lhe rsula. Deteve-se um momento diante do 
castanheiro e uma vez mais comprovou que aquele espao vazio tambm no lhe 
inspirava nenhum afeto. 

 O que  que ele diz?  perguntou.
 Est muito triste  rsula respondeu  porque acha que voc vai morrer. 
 Diga a ele  sorriu o coronel  que no se morre quando se deve, mas 
quando se pode. 

O pressgio do pai morto removeu o ltimo ressaibo de soberba que lhe restava 
no corao, mas ele o confundiu com um repentino sopro de fora. Foi por isso que sedirigiu a rsula, para que lhe revelasse em que lugar do quintal estavam enterradas as 
moedas de ouro que tinham encontrado dentro do So Jos de gesso. Voc nunca vai 
saber, disse ela com uma firmeza inspirada num velho castigo. Um dia, acrescentou, 
h de aparecer o dono dessa fortuna e s ele poder desenterr-la. Ningum sabia por 
que um homem que sempre fora to desprendido tinha comeado a cobiar o dinheiro 
com semelhante ansiedade, e no as modestas quantias que lhe haveriam bastado para 
resolver uma emergncia, mas uma fortuna de grandezas desatinadas cuja simples 
meno deixou Aureliano Segundo perdido num mar de assombro. Os velhos 
companheiros de partido a quem acudiu em demanda de ajuda se esconderam para no 
receb-lo. Foi por essa poca que o ouviram dizer: A nica diferena atual entre 
liberais e conservadores  que os liberais vo  missa das cinco e os conservadores  
das oito. Entretanto, insistiu com tanto afinco, suplicou de tal modo, quebrantou de 
tal forma os seus princpios de dignidade que com um pouco daqui e um pouco de l, 
deslizando por todas as partes com uma diligncia sigilosa e uma perseveranadesapiedada, conseguiu reunir em oito meses mais dinheiro do que rsula tinha 
enterrado. Ento, visitou o doente Coronel Gerineldo Mrquez para que o ajudasse a 
promover a guerra total. Em certo momento, o Coronel Gerineldo Mrquez tinha sido 
na verdade o nico que poderia movimentar, mesmo da sua cadeira de balano de 
paraltico, os mofados fios da rebelio. Depois do armistcio de Neerlndia, enquanto o 
Coronel Aureliano Buenda se refugiava no exlio dos seus peixinhos de ouro, ele 
manteve contato com os oficiais rebeldes que lhe haviam sido fiis at a derrota. Fez 
com eles a guerra triste da humilhao cotidiana, das splicas e dos memorandos, do 
volte amanh, do est quase, do estamos estudando o seu caso com a devida ateno; a 
guerra perdida sem salvao contra os mui atenciosos e leais servidores que deviam 
assinar e no assinaram nunca as penses vitalcias. A outra guerra, a sangrenta de 
vinte anos, no lhes causara tantos estragos quanto a guerra corrosiva do eterno 
adiamento. O prprio Coronel Gerineldo Mrquez, que escapara de trs atentados, 
sobrevivera a cinco ferimentos e sara ileso de incontveis batalhas, sucumbiu ao 
assdio atroz da espera e afundou na derrota miservel da velhice, pensando em 
Amaranta entre os losangos de luz de uma casa emprestada. Os ltimos veteranos de 
quem se teve notcia apareceram retratados num jornal, com a cara levantada de 
indignidade, junto a um annimo Presidente da Repblica que os presenteou com uns 
botes com a sua efgie, para que os usassem na lapela, e lhes restituiu uma bandeira 
suja de sangue e de plvora, para que a pusessem sobre os seus atades. Os outros, os 
mais dignos, ainda esperavam uma carta na penumbra da caridade pblica, morrendo 
de fome, sobrevivendo de raiva, apodrecendo de velhos na refinada merda da glria. De 
modo que quando o Coronel Aureliano Buenda o convidou para promover uma 
conflagrao mortal que arrasasse com todos os vestgios de um regime de corrupo e 
de escndalos sustentado pelo invasor estrangeiro, o Coronel Gerineldo Mrquez no 
pde reprimir um estremecimento de compaixo. 

 Ai, Aureliano  suspirou  eu j sabia que voc estava velho, mas s agora  
que percebo que voc est muito mais velho do que aparenta. 

NO ATURDIMENTO dos ltimos anos, rsula dispusera de trguas muito 
escassas para atender  formao papal de Jos Arcadio, quando ele teve que ser 
preparado s carreiras para ir para o seminrio. Meme, sua irm, dividida entre a 
rigidez de Fernanda e as amarguras de Amaranta, chegou quase ao mesmo tempo  
idade prevista para mand-la ao colgio de freiras onde fariam dela uma virtuose do 
clavicrdio. rsula se sentia atormentada por dvidas graves em torno da eficcia dos 
mtodos com que temperara o esprito do lnguido aprendiz de Sumo Pontfice e no 
jogava a culpa na sua tropeante velhice nem nas nuvens que mal lhe permitiam 
vislumbrar o contorno das coisas e sim em alguma coisa que ela mesma no conseguia 
definir mas que imaginava confusamente como um progressivo desgaste do tempo. Os 
anos de agora j no vm como os de antigamente, costumava dizer, sentindo que a 
realidade cotidiana lhe escapava das mos. Antigamente, pensava, as crianas 
demoravam muito para crescer. Bastava recordar todo o tempo que fora necessrio 
para que Jos Arcadio, o mais velho, partisse com os ciganos e tudo o que acontecera 
at que ele voltasse pintado como uma cobra e falando como um astrnomo, e as coisas 
que tinham acontecido em casa at que Amaranta e Arcadio esquecessem a lngua dos 
ndios e aprendessem o castelhano. Que se visse o sol e o sereno que suportara o pobre 
Jos Arcadio Buenda debaixo do castanheiro, e o quanto tivera que chorar a sua morte 
antes que lhe trouxessem moribundo um Coronel Aureliano Buenda que, depois de 
tanta guerra e depois de tanto se sofrer por ele, ainda no tinha feito cinqenta anos. 
Em outra poca, depois de passar o dia inteiro fazendo animaizinhos de caramelo, 
ainda lhe sobrava tempo para se ocupar das crianas, para ver-lhes no branco dos 
olhos que estavam precisando de uma poo de leo de rcino. Agora, pelo contrrio, 
quando j no tinha nada que fazer e andava com Jos Arcadio pregado s saias de 
manh  noite, a qualidade ruim do tempo obrigava-a a deixar as coisas pela metade. A 
verdade era que rsula resistia ao envelhecimento mesmo quando j tinha perdido a 
conta da sua idade e atrapalhava em todos os lugares e tentava se meter em tudo e 
aborrecia os forasteiros com a perguntao de se no tinham deixado ali em casa, no 
tempo da guerra, um So Jos de gesso para que o guardassem enquanto no passava a 
chuva. Ningum soube com certeza quando comeou a perder a vista. Mesmo nos seus 
ltimos anos, quando j no podia se levantar da cama, parecia simplesmente que 
estava vencida pela decrepitude, mas ningum descobriu que estava cega. Ela o 
percebera desde o nascimento de Jos Arcadio. A princpio, pensou que se tratava de 
uma debilidade transitria e tomava escondido xarope de tutano e botava mel de 
abelha nos olhos, mas muito brevemente foi se convencendo de que afundava sem 
salvao nas trevas, a ponto de nunca ter tido uma noo muito clara da inveno da 
luz eltrica, porque quando instalaram os primeiros focos s pde perceber o brilho. 
No disse nada a ningum, pois teria sido um reconhecimento pblico da sua 
inutilidade. Empenhou-se numa calada aprendizagem da distncia das coisas e das 
vozes das pessoas, para continuar vendo com a memria quando j no o permitissem 
as sombras da catarata. Mais tarde havia de descobrir o auxlio imprevisto dos cheiros, 
que se definiram nas trevas com uma fora muito mais convincente do que os volumes 
e a cor e a salvaram definitivamente da vergonha de uma renncia. Na escurido do 
quarto, podia enfiar a linha na agulha e bordar uma casa, e sabia quando o leite estava 
para ferver. Conheceu com tanta certeza o lugar em que se encontrava cada coisa que 
ela mesma se esquecia s vezes de que estava cega. Certa ocasio, Fernanda ps a casaem polvorosa porque tinha perdido a aliana e rsula a encontrou num consolo, no 


quarto das crianas. Simplesmente, enquanto os outros andavam descuidadamente por 
todos os lados, ela os vigiava com os seus quatro sentidos, para que nunca a pegassem 
de surpresa, e ao fim de algum tempo descobriu que cada membro da famlia repetia 
todos os dias, sem notar, os mesmos percursos, os mesmos atos, e que quase repetia as 
mesmas palavras s mesmas horas. S quando saam dessa meticulosa rotina  que 
corriam o risco de perder alguma coisa. De modo que quando viu Fernandaconsternada porque havia perdido a aliana, rsula se lembrou de que a nica coisa 
diferente que ela fizera naquele dia tinha sido arejar as esteiras das crianas, porque 
Meme tinha descoberto um percevejo na noite anterior. Como as crianas assistissem limpeza, rsula pensou que Fernanda havia posto a aliana no nico lugar onde elas 
no a poderiam alcanar: o consolo. Fernanda, pelo contrrio, procurou-a unicamente 
nos trajetos do seu itinerrio cotidiano, sem saber que a procura das coisas perdidas  
dificultada pelos hbitos rotineiros e  por isso que d tanto trabalho encontr-las.

A educao de Jos Arcadio ajudou a rsula na tarefa extenuante de se manter a 
par das mnimas mudanas em casa. Quando percebia que Amaranta estava vestindo 
os santos do quarto, fingia que ensinava ao menino as diferenas entre as cores. 

 Vamos ver  dizia a ele  me conte de que cor est vestido So Rafael 
Arcanjo. 
Dessa forma, o menino lhe dava a informao que lhe negavam os olhos e muitoantes que ele partisse para o seminrio rsula j podia distinguir pela textura as 
diferentes cores da roupa dos santos. As vezes aconteciam acidentes imprevistos. Uma 
tarde, estava Amaranta bordando na varanda das begnias e rsula tropeou nela. 

 Pelo amor de Deus  protestou Amaranta  veja por onde anda. 
  voc  disse rsula  quem est sentada onde no deve. 
Para ela, estava certo. Mas naquele dia comeou a se dar conta de alguma coisa 
que ningum havia descoberto e era que no transcurso do ano o sol ia mudando 
imperceptivelmente de posio e quem se sentava na varanda tinha que ir mudando delugar pouco a pouco e sem o perceber. A partir de ento, rsula tinha apenas que se 
lembrar da data para saber o lugar exato em que Amaranta estava sentada. Embora o 
tremor das mos fosse cada vez mais perceptvel e j no pudesse com o peso dos ps, 
nunca se vira a sua figura miudinha em tantos lugares ao mesmo tempo. Era quase to 
diligente como quando arcava com toda a responsabilidade da casa. Entretanto, na 
impenetrvel solido da velhice, dispunha de tal clarividncia para examinar mesmo os 
mais insignificantes acontecimentos da famlia que pela primeira vez viu com clareza 
as verdades que as suas ocupaes de outros tempos lhe haviam impedido de ver. Na 
poca em que preparavam Jos Arcadio para o seminrio, j tinha feito uma 
recapitulao infinitesimal da vida da casa desde a fundao de Macondo e havia 
mudado completamente a opinio que tivera dos seus descendentes. Percebeu que o 
Coronel Aureliano Buenda no tinha perdido o afeto  famlia por causa do 
endurecimento da guerra, como ela acreditava antes, mas que nunca tinha amado 
ningum, nem sequer a sua esposa Remedios ou as incontveis mulheres de uma noite 
que haviam passado pela sua vida e muito menos ainda os seus filhos. Vislumbrou que 
no tinha feito tantas guerras por idealismo, como todo mundo pensava, nem tinha 
renunciado  vitria iminente por cansao, como todo mundo pensava, mas que tinha 
ganho e perdido pelo mesmo motivo, por pura e pecaminosa soberba. Chegou  
concluso de que aquele filho por quem ela teria dado a vida era simplesmente um 
homem incapacitado para o amor. Uma noite, quando o tinha no ventre, ouviu-o 


chorar. Era um lamento to definido que Jos Arcadio Buenda acordou do seu lado e 
se alegrou com a idia de que a criana ia ser ventrloqua. Outras pessoas 
prognosticaram que seria adivinho. Ela, pelo contrrio, estremeceu com a certeza de 
que aquele bramido profundo era um primeiro indcio do temvel rabo de porco e 
rogou a Deus que lhe deixasse morrer a criatura no ventre. Mas a lucidez da velhice lhe 
permitiu ver, e assim o repetiu muitas vezes, que o choro das crianas no ventre da 
me no  um anncio de ventriloquia nem de faculdade adivinhatria, mas um sinal 
inequvoco de incapacidade para o amor. Aquela desvalorizao da imagem do filho 
despertou-lhe de uma vez toda a compaixo que estava devendo a ele. Amaranta, pelo 
contrrio, cuja dureza de corao a espantava, cuja concentrada amargura a amargava, 
foi revelada no ltimo exame como a mulher mais terna que jamais pudesse haver 
existido e compreendeu com uma penosa clarividncia que as injustas torturas a que 
submetera Pietro Crespi no eram ditadas por uma vontade de vingana, como todo 
mundo pensava, nem o lento martrio com que frustrara a vida do Coronel Gerineldo 
Mrquez tinha sido determinado pelo fel ruim da sua amargura, como todo mundo 
pensava, mas sim que ambas as aes tinham sido uma luta de morte entre um amor 
sem medidas e uma covardia invencvel, e triunfara finalmente o medo irracional que 
Amaranta sempre tivera do seu prprio e atormentado corao. Foi por essa poca quersula comeou a se referir a Rebeca, a evoc-la com um velho carinho exaltado pelo 
arrependimento tardio e pela admirao repentina, tendo compreendido que somente 
ela, Rebeca, a que nunca se alimentara do seu leite e sim da terra e da cal das paredes, a 
que no levara nas veias o sangue do seu sangue e sim o sangue desconhecido de 
desconhecidos cujos ossos continuavam chocalhando na tumba, Rebeca, a do corao 
impaciente, a do ventre arrebatado, era a nica que tinha tido a valentia sem freios quersula desejara para a sua estirpe. 

 Rebeca  dizia, tateando as paredes  que injustos ns fomos com voc! 
Em casa, simplesmente acreditavam que tresvariava, sobretudo desde que dera 
para andar com o brao direito levantado, como o Arcanjo Gabriel. Fernanda se deu 
conta, entretanto, de que havia um sol de clarividncia nas sombras desse desvario, 
pois rsula podia dizer sem titubear quanto dinheiro se havia gasto em casa durante o 
ltimo ano. Amaranta teve uma idia semelhante certo dia em que a me mexia na 
cozinha uma panela de sopa e disse de repente, sem saber que estava sendo ouvida, 
que o moinho de fub que haviam comprado dos primeiros ciganos, e que havia 
desaparecido desde antes que Jos Arcadio desse sessenta e cinco vezes a volta ao 
mundo, ainda estava na casa de Pilar Ternera. Tambm quase centenria, mas s e gil 
apesar da inconcebvel gordura que espantava as crianas como em outros tempos a 
sua risada espantava os pombos, Pilar Ternera no se surpreendeu com o acerto dersula, porque a sua prpria experincia comeava a indicar que uma velhice alerta 
pode ser mais sagaz que as averiguaes das cartas.

Entretanto, quando rsula percebeu que o tempo no lhe havia chegado para 
consolidar a vocao de Jos Arcadio deixou-se aturdir pela consternao. Comeou a 
cometer erros tentando ver com os olhos as coisas que a intuio lhe permitia ver com 
maior claridade. Certa manh jogou na cabea do menino o contedo de um tinteiro, 
pensando que era gua-de-colnia. Ocasionou tantas dificuldades com a teimosia de 
intervir em tudo, que se sentiu transtornada por crises de mau humor, e tentava vencer 
as trevas que finalmente a estavam tolhendo como uma camisa de teias de aranha. Foi 
ento que lhe ocorreu que a sua inabilidade no era a primeira vitria da decrepitude e 


da escurido, mas uma falha do tempo. Pensava que antigamente, quando Deus no 
fazia com os meses e os anos as mesmas trapaas que faziam os turcos ao medir uma 
jarda de percal, as coisas eram diferentes. Agora no apenas as crianas cresciam mais 
depressa, mas at os sentimentos evoluam de outro modo. Nem bem Remedios, a bela, 
subira ao cu de corpo e alma, j Fernanda, sem considerao, andava resmungando 
pelos cantos que ela levara os lenis. Nem bem haviam esfriado os corpos dos 
Aurelianos nas tumbas e j Aureliano Segundo tinha outra vez a casa tomada, cheia de 
bbados que tocavam acordeo e se encharcavam de champanha, como se no tivessem 
morrido cristos e sim cachorros, e como se aquela casa de loucos, que tantas dores de 
cabea e tantos animaizinhos de caramelo tinha custado, estivesse predestinada a se 
converter numa lixeira de perdio. Lembrando-se destas coisas enquanto aprontavam 

o ba de Jos Arcadio, rsula se perguntava se no era prefervel se deitar logo de uma 
vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se 
realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e 
mortificaes; e perguntando e perguntando ia atiando a sua prpria perturbao e 
sentia desejos irreprimveis de se soltar e no ter papas na lngua como um forasteiro e 
de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas 
vezes adiado, para cortar a resignao pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do 
corao os infinitos montes de palavres que tivera que engolir durante um sculo 
inteiro de conformismo. 
 Porra!  gritou. 
Amaranta, que comeava a colocar a roupa no ba, pensou que ela tinha sido 
picada por um escorpio. 

 Onde est?  perguntou alarmada. 
 O qu? 
 O animal!  esclareceu Amaranta. 
rsula ps o dedo no corao. 
 Aqui  disse.
Numa quinta-feira s duas da tarde, Jos Arcadio foi para o seminrio. rsula 
havia de evoc-lo sempre como o imaginou ao se despedir dele, lnguido e srio e sem 
derramar uma lgrima, como ela lhe havia ensinado, sufocando de calor dentro do traje 
de pelcia verde com botes de cobre e um lao engomado no colarinho. Deixou a sala 
de jantar impregnada da penetrante fragrncia de gua-de-colnia que ela lhe jogava 
na cabea para poder seguir o seu rastro pela casa. Enquanto durou o almoo de 
despedida, a famlia dissimulou o nervosismo com expresses de jbilo e celebrou com 
exagerado entusiasmo os casos do Padre Antonio Isabel. Mas quando levaram o ba 
forrado de veludo com cantoneiras de prata foi como se tivessem tirado de casa um 
atade. O nico que se negou a participar da despedida foi o Coronel Aureliano 
Buenda. 

 Esta era a ltima amolao que estava nos faltando  resmungou  um 
Papa! 
Trs meses depois, Aureliano Segundo e Fernanda levaram Meme para o colgio 
e voltaram com um cravo que ocupou o lugar da pianola. Foi por essa poca que 
Amaranta comeou a tecer a sua prpria mortalha. A febre da bananeira tinha 
apaziguado. Os antigos habitantes de Macondo se achavam segregados pelos 
estrangeiros, trabalhosamente reduzidos aos seus precrios recursos de antigamente, 
mas reconfortados em todo caso pela impresso de terem sobrevivido a um naufrgio. 


Em casa, continuaram recebendo convidados para almoar e, realmente, no se 
restabeleceu a antiga rotina enquanto no foi embora, anos depois, a companhia 
bananeira. Entretanto, houve mudanas radicais no tradicional sentido de 
hospitalidade, porque agora era Fernanda quem impunha as suas leis. Com rsula 
relegada s trevas e com Amaranta abstrada no trabalho do sudrio, a antiga aprendiz 
de rainha teve liberdade para selecionar os comensais e lhes impor as rgidas normas 
que os pais lhe haviam inculcado. Sua severidade fez da casa um reduto de costumes 
restaurados, numa aldeia convulsionada pela vulgaridade com que os forasteiros 
desbaratavam as suas fceis fortunas. Para ela, sem mais sutilezas, gente de bem era a 
que no tinha nada que ver com a companhia bananeira. At Jos Arcadio Segundo, 
seu cunhado, foi vtima do seu zelo discriminatrio, porque no arrebatamento da 
primeira hora tornou a leiloar os seus estupendos galos de briga e se empregou de 
capataz na companhia bananeira. 

 Que no volte a pisar nesta casa  disse Fernanda enquanto tiver a sarna 
dos forasteiros. 
Foi tal o recolhimento imposto na casa que Aureliano Segundo se sentiu 
definitivamente mais cmodo com Petra Cotes. Primeiro, com o pretexto de aliviar o 
trabalho da esposa, transferiu as festas. Em seguida, com o pretexto de que os animais 
estavam perdendo a fecundidade, transferiu os estbulos e as cavalarias. Por ltimo, 
com o pretexto de que na casa da concubina fazia menos calor, transferiu o pequeno 
escritrio onde cuidava dos negcios. Quando Fernanda percebeu que era uma viva 
de marido vivo, j era tarde demais para que as coisas voltassem ao seu estado anterior. 
Aureliano Segundo mal comia em casa e as nicas aparncias que continuava 
guardando, como a de dormir com a esposa, no bastavam para convencer ningum. 
Certa noite, por descuido, a manh o surpreendeu na cama de Petra Cotes. Fernanda, 
ao contrrio do que ele esperava, no lhe fez a menor censura nem soltou o mais leve 
suspiro de ressentimento, mas nesse mesmo dia mandou para a casa da concubina os 
seus dois bas de roupa. Mandou-os em pleno sol e com ordens para que fossem 
levados pelo meio da rua, para que todo mundo os visse, acreditando que o marido 
extraviado no pudesse suportar a vergonha e voltasse ao redil com a cabea 
humilhada. Mas aquele gesto herico foi apenas uma prova a mais de quo mal 
Fernanda conhecia no s o gnio de seu marido como tambm a ndole de uma 
comunidade que nada tinha que ver com a de seus pais, porque todos os que viram os 
bas passarem disseram a si mesmos que afinal essa era a culminncia natural de uma 
histria cujas intimidades ningum ignorava, e Aureliano Segundo celebrou a 
liberdade presenteada com uma farra de trs dias. Para maior desvantagem da esposa, 
enquanto ela comeava a entrar numa maturidade pesada com as suas sombrias roupas 
at os tornozelos, os seus camafeus anacrnicos e o seu orgulho fora do lugar, a 
concubina parecia estalar numa segunda juventude, metida em vistosos trajes de seda 
natural e com os olhos pintados pela candeia da reivindicao. Aureliano Segundo 
voltou a se entregar a ela com a fogosidade da adolescncia, como antes, quando Petra 
Cotes no o amava por ele mesmo, mas porque o confundia com o seu irmo gmeo e 
se deitava com ambos ao mesmo tempo, pensando que Deus lhe dera a fortuna de ter 
um homem que fazia o amor como se fossem dois. Era to premente a paixo 
restaurada que em mais de uma ocasio eles se olharam nos olhos quando se 
dispunham a comer e, sem se dizerem nada, tamparam os pratos e foram morrer de 
fome e de amor no quarto. Inspirado nas coisas que tinha visto nas suas furtivas visitas 


s matronas francesas, Aureliano Segundo comprou para Petra Cotes uma cama com 
dossel de arcebispo e ps cortinas de veludo nas janelas e cobriu o teto e as paredes do 
quarto com grandes espelhos de cristal de rocha. Era visto ento como mais farrista e 
desmiolado do que nunca. Pelo trem, que chegava todos os dias s onze, recebia caixas 
e mais caixas de champanha e de conhaque. Na volta da estao arrastava para a 
cumbia* improvisada quanto ser humano encontrava pelo caminho, nativo ou 
forasteiro, conhecido ou por conhecer, sem distines de nenhuma espcie. At o 
fugidio Sr. Brown, que s conversava em lngua estranha, deixou-se seduzir pelos 
tentadores gestos que lhe fazia Aureliano Segundo e vrias vezes se embebedou para 
morrer na casa de Petra Cotes e fez at com que os ferozes ces policiais que o 
acompanhavam a todas as partes danassem canes texanas que ele mesmo mastigava 
de qualquer maneira ao compasso do acordeo. 

 Afastem-se vacas  gritava Aureliano Segundo no paroxismo da festa.  
Afastem-se que a vida  curta. 

Nunca teve melhor semblante, nem foi mais querido, nem esteve mais 
arrebatada a pario dos seus animais. Sacrificaram-se tantas reses, tantos porcos e 
galinhas nas interminveis festas que a terra se tornou negra e lodosa de tanto sangue. 
Aquilo era um eterno depsito de ossos e tripas, um monturo de sobras, e tinha que se 
estar queimando cartuchos de dinamite a toda hora para que os urubus no bicassem 
os olhos dos convidados. Aureliano Segundo tornou-se gordo, violceo, atartarugado, 
em conseqncia de um apetite somente comparvel ao de Jos Arcadio quando 
regressara da volta ao mundo. O prestgio da sua desenfreada voracidade, da sua 
imensa capacidade de esbanjamento, da sua hospitalidade sem precedentes 
ultrapassou os limites do pantanal e atraiu os glutes melhor qualificados do litoral. 
De todas as partes chegavam comiles fabulosos para tomar parte nos irracionais 
torneios de capacidade e resistncia que se organizavam na casa de Petra Cotes. 
Aureliano Segundo foi o garfo invicto at o sbado de infortnio em que apareceu 
Camila Sagastume, uma fmea totmica conhecida no pas inteiro pelo bom nome de A 
Elefanta. O duelo se prolongou at o amanhecer de tera-feira. Nas primeiras vinte e 
quatro horas, tendo despachado uma vitela com aipim, inhame e banana assada e alm 
disso uma caixa e meia de champanha, Aureliano Segundo estava certo da vitria. Via-
se mais entusiasta, mais vital que a imperturbvel adversria, possuidora de um estilo 
evidentemente mais profissional, mas por isso mesmo menos emocionante para o 
amontoado pblico que entupiu a casa. Enquanto Aureliano Segundo comia s 
dentadas, desbocado pela ansiedade do triunfo, A Elefanta seccionava a carne com a 
arte de um cirurgio e a comia sem pressa e at com um certo prazer. Era gigantesca e 
macia, mas contra a corpulncia colossal prevalecia a ternura da feminilidade e tinha 
um rosto to formoso, umas mos to finas e bem cuidadas, e um encanto pessoal to 
irresistvel que quando Aureliano Segundo a viu entrar em casa comentou em voz 
baixa que teria preferido no fazer o torneio na mesa e sim na cama. Mais tarde, 
quando a viu consumir o lombo da vitela sem violar uma s regra da melhor 
urbanidade, comentou seriamente que aquele delicado, fascinante e insacivel 
proboscd eo era de certa maneira a mulher ideal. No estava enganado. A fama de 
chata que precedeu A Elefanta carecia de fundamento. No era trituradora de bois, 

* Cumbia  a dana popular colombiana por excelncia. ( N. T.) 

nem mulher barbada num circo grego, como se dizia, mas diretora de uma academia de 
canto. Tinha aprendido a comer sendo j uma respeitvel me de famlia, procurando 
um mtodo para que os seus filhos se alimentassem melhor e no por meio de 
estimulantes artificiais do apetite, mas por meio da absoluta tranqilidade do esprito. 
A sua teoria, demonstrada na prtica, se fundamentava no princpio de que uma 
pessoa que tivesse perfeitamente arrumados os assuntos da sua conscincia podia 
comer sem trgua at que o cansao a vencesse. De modo que foi devido a razes 
morais, e no por interesse esportivo, que deixou a academia e o lar para competir com 
um homem cuja fama de grande comilo sem princpios tinha dado a volta ao pas. 
Desde a primeira vez que o viu, percebeu que Aureliano Segundo no seria trado pelo 
estmago, mas pelo temperamento. Ao fim da primeira noite, enquanto A Elefanta 
continuava impvida, Aureliano Segundo estava se esgotando de tanto falar e rir. 
Dormiram quatro horas. Ao acordar, cada um bebeu o suco de cinqenta laranjas, oito 
litros de caf e trinta ovos crus. Na segunda madrugada, depois de muitas horas sem 
dormir e tendo despachado dois porcos, um cacho de bananas e quatro caixas de 
champanha, A Elefanta suspeitou que Aureliano Segundo, sem o saber, tinha 
descoberto o mesmo mtodo que ela, mas pelo caminho absurdo da irresponsabilidade 
total. Era, pois, mais perigoso do que ela pensara. Entretanto, quando Petra Cotes 
trouxe para a mesa dois perus assados, Aureliano Segundo estava a um passo da 
congesto. 

 Se no agenta, no coma mais  disse A Elefanta. 
 Ficamos empatados. 
Disse isso de corao, compreendendo que tambm ela no podia comer mais 
sequer um bocado, pelo remorso de estar propiciando a morte do adversrio. Mas 
Aureliano Segundo interpretou aquilo como um novo desafio e engoliu o peru at 
muito alm da sua incrvel capacidade. Perdeu a conscincia. Caiu de bruos sobre o 
prato de ossos, espumando pela boca como um co raivoso e sufocando em grunhidos 
de agonia. Sentiu, em meio s trevas, que o atiravam do alto de uma torre para um 
precipcio sem fundo e, num ltimo claro de lucidez, percebeu que no fim daquela 
interminvel queda a morte o estava esperando. 

 Levem-me para junto de Fernanda  conseguiu dizer. 
Os amigos que o deixaram em casa acreditaram que ele havia cumprido a 
promessa  esposa de no morrer na cama da concubin a. Petra Cotes havia engraxado 
as botinas de verniz que ele queria calar no atade e j estava procurando algum que 
as levasse quando vieram lhe dizer que Aureliano Segundo estava fora de perigo. 
Restabeleceu-se, efetivamente, em menos de uma semana, e quinze dias depois estava 
celebrando com uma festana sem precedentes o acontecimento da sobrevivncia. 
Continuou vivendo na casa de Petra Cotes, mas visitava Fernanda todos os dias e s 
vezes ficava para almoar com a famlia, como se o destino tivesse invertido a situao 
e o tivesse deixado como esposo da concubina e amante da esposa. 

Foi um descanso para Fernanda. No tdio do abandono, as suas nicas 
distraes eram os exerccios de clavicrdio na hora da sesta e as cartas dos seus filhos. 
Nas detalhadas missivas que lhes mandava de quinze em quinze dias, no havia uma s 
linha de verdade. Ocultava-lhes os sofrimentos. Escamoteava-lhes a tristeza de uma 
casa que apesar da luz sobre as begnias, apesar da sufocao das duas da tarde, apesar 
das freqentes brisas de festa que chegavam da rua, ficava cada vez mais parecida com 
a manso colonial de seus pais. Fernanda vagava sozinha entre trs fantasmas vivos e o 


fantasma morto de Jos Arcadio Buenda, que s vezes vinha se sentar com uma 
ateno inquisitiva na penumbra da sala enquanto ela tocava cravo. O Coronel 
Aureliano Buenda era uma sombra. Desde a ltima vez que saiu  rua para propor uma 
guerra sem futuro ao Coronel Gerineldo Mrquez, mal abandonava a oficina para 
urinar debaixo do castanheiro. No recebia outra visita seno a do barbeiro, de trs em 
trs semanas. Alimentava-se de qualquer coisa que rsula levasse para ele uma vez por 
dia e, embora continuasse fabricando peixinhos de ouro com a mesma paixo de 
antigamente, deixou de vend-los quando percebeu que as pessoas no os compravam 
como jias, mas como relquias histricas. Tinha feito no quintal uma fogueira com as 
bonecas de Remedios, que decoravam o seu quarto desde o dia do casamento. Avigilante rsula percebeu o que o filho estava fazendo, mas no pde impedir. 

 Voc tem um corao de pedra  disse a ele. 
 Isto no  caso do corao  disse ele.  O quarto est ficando cheio de 
traas. 
Amaranta tecia a sua mortalha. Fernanda no entendia por que ela escrevia 
cartas ocasionais a Meme e at lhe mandava presentes, mas, pelo contrrio, no queria 
nem ouvir falar de Jos Arcadio. Vo morrer sem saber por que, respondeu Amarantaquando ela lhe fez a pergunta atravs de rsula, e aquela resposta semeou no seu 
corao um enigma que nunca pde esclarecer. Alta, espigada, altiva, sempre vestida 
com abundantes anguas de escumilha e com um ar de distino que resistia aos anos 
e s ms recordaes, Amaranta parecia trazer na testa a cruz da virgindade. 
Realmente a trazia na mo, na venda negra que no tirava nem para dormir e que ela 
mesma lavava e passava. Sua vida se escoava a bordar o sudrio. Afirmava-se que 
bordava durante o dia e desbordava durante a noite, e no com a esperana de vencer 
deste modo a solido, mas, ao contrrio, para sustent-la. 

A maior preocupao que tinha Fernanda nos seus anos de abandono era de que 
Meme viesse passar as primeiras frias e no encontrasse Aureliano Segundo em casa. 
A congesto ps fim a esse temor. Quando Meme voltou, seus pais se tinham posto de 
acordo no s para que a menina acreditasse que Aureliano Segundo continuava sendo 
um esposo domesticado, como tambm para que ela no notasse a tristeza da casa. 
Todos os anos, durante dois meses, Aureliano Segundo representava o papel de marido 
exemplar e promovia festas com sorvetes e biscoitinhos, que a alegre e vivaz estudante 
amenizava com o cravo. Era j evidente que tinha herdado muito pouco do 
temperamento da me. Parecia mais uma segunda verso de Amaranta, quando esta 
ainda no conhecia a amargura e andava alvoroando a casa com os seus passos de 
dana, aos doze, aos quatorze anos, antes que a paixo secreta por Pietro Crespi 
torcesse definitivamente o rumo do seu corao. Mas, ao contrrio de Amaranta, ao 
contrrio de todos, Meme no revelava ainda a sina solitria da famlia e parecia 
inteiramente de acordo com o mundo, mesmo quando se fechava na sala s duas da 
tarde para praticar o clavicrdio com uma disciplina inflexvel. Era evidente que 
gostava de casa, que passava o ano todo sonhando com o alvoroo de adolescentes que 
a sua chegada provocava, e que no andava muito longe da vocao festiva e dos 
desregramentos hospitaleiros do pai. O primeiro signo dessa herana calamitosa se 
revelou nas terceiras frias, quando Meme apareceu em casa com quatro freiras e 
sessenta e oito colegas de classe, a quem convidara para passar uma semana com a 
famlia, por iniciativa prpria e sem avisar. 


 Que desgraa!  lamentou-se Fernanda.  Esta criatura  to brbara 
quanto o pai! 
Foi preciso pedir camas e redes aos vizinhos, estabelecer nove turnos na mesa, 
fixar horrios para o banho e conseguir quarenta banquetas emprestadas para que as 
meninas de uniformes azuis e botinas de homem no andassem o dia inteiro tranando 
de um lado para o outro. O convite foi um desastre, porque as ruidosas colegiais mal 
acabavam de tomar caf j tinham que comear os turnos para o almoo e em seguida 
para o jantar, e em toda a semana s puderam fazer um passeio s plantaes. Ao 
anoitecer, as freiras estavam esgotadas, incapazes de se move r, de dar uma ordem a 
mais, e o tropel de adolescentes incansveis ainda estava no quintal cantandodesafinados hinos escolares. Um dia, por pouco no atropelam rsula, que se 
empenhava em ser til exatamente onde mais atrapalhava. Outro dia, as freiras 
armaram um escndalo porque o Coronel Aureliano Buenda urinou debaixo do 
castanheiro sem se preocupar com o fato de as colegiais estarem no quintal. Amaranta 
esteve a ponto de semear o pnico, porque uma das freiras entrou na cozinha quando 
ela estava temperando a sopa e a nica coisa que lhe ocorreu foi perguntar o que eram 
aqueles punhados de p branco. 

 Arsnico  disse Amaranta. 
Na noite da chegada, as estudantes se atrapalharam de tal maneira tratando de 
ir ao reservado antes de se deitar que  uma da madrugada ainda estavam entrando as 
ltimas. Fernanda ento comprou setenta e dois penicos, mas s conseguiu 
transformar o problema noturno num problema matinal, porque desde o amanhecer 
havia diante do reservado uma longa fila de moas, cada uma com o seu penico na mo, 
esperando a vez para lav-lo. Embora algumas sofressem de febre e vrias ficassem com 
as mordidas dos mosquitos inflamadas, a maioria demonstrou uma resistncia 
inquebrantvel diante das dificuldades mais penosas e mesmo na hora de mais calor 
corriam no jardim. Quando finalmente foram embora, as flores estavam destrudas, os 
mveis partidos e as paredes cobertas de desenhos e letreiros, mas Fernanda perdooulhes 
os estragos diante do alvio da partida. Devolveu as camas e banquetas 
emprestadas e guardou os setenta e dois penicos no quarto de Melquades. O cmodo 
enclausurado, em torno do qual girara em outros tempos a vida espiritual da casa, 
ficou conhecido a partir de ento como o quarto dos penicos. Para o Coronel Aureliano 
Buenda, esse era o nome mais apropriado, porque enquanto o resto da famlia 
continuava se assombrando de que a pea de Melquades fosse imune ao p e  
destruio, ele a via transformada numa lixeira. De qualquer maneira, no lhe parecia 
importar quem estava com razo, e se soube do destino do quarto foi porque Fernanda 
esteve passando e perturbando o seu trabalho durante uma tarde inteira para guardar 
os penicos. 

Por esses dias reapareceu Jos Arcadio Segundo em casa. Passava de longe pela 
varanda, sem cumprimentar ningum, e se trancava na oficina para conversar com o 
coronel. Apesar de no poder v -lo, rsula estudava rudo das suas botas de capataz e 
se surpreendia com a distncia irremedivel que separava da famlia, inclusive do 
irmo gmeo, com quem brincava na infncia os engenhosos truques de confuso e 
com o qual j no tinha nenhum trao em comum. Era comprido, solene, e tinha um ar 
pensativo, e uma tristeza de sarraceno, e um brilho lgubre no rosto cor de outono. Era

o que mais se parecia com a me, Santa Sofa de la Piedad. rsula reprovava em si a 
tendncia a se esquecer dele ao falar da famlia, mas quando o sentiu de novo em casa e 

percebeu que o coronel o admitia na oficina durante as horas de trabalho, voltou a 
examinar as suas velhas lembranas e confirmou a crena de que em algum momento 
da infncia ele se confundira com o irmo gmeo, porque era ele e no o outro quem 
devia se chamar Aureliano. Ningum conhecia os pormenores da sua vida. Em certa 
poca, sabia-se que no tinha residncia fixa, que criava galos na casa de Pilar Ternera 
e que s vezes ficava para dormir ali, mas que quase sempre passava a noite nos 
quartos das matronas francesas. Andava  deriva, sem afetos, sem ambies, como umaestrela errante no sistema planetrio de rsula. 

Realmente, Jos Arcadio Segundo no era membro da famlia, nem o seria 
jamais de outra, desde a madrugada distante em que o Coronel Gerineldo Mrquez o 
levara ao quartel, no para que visse um fuzilamento, mas para que no se esquecesse 
para o resto da vida do sorriso triste e um pouco irnico do fuzilado. Aquela no era 
apenas a sua lembrana mais antiga, mas tambm a nica da sua meninice. A outra, a 
de um ancio com um casaco anacrnico e um chapu de asas de corvo que contava 
maravilhas diante de uma janela deslumbrante, no conseguia situar em nenhuma 
poca. Era uma lembrana incerta, inteiramente desprovida de ensinamentos ou 
saudade, ao contrrio da lembrana do fuzilado que, na realidade, tinha definido o 
rumo da sua vida e regressava  sua memria, cada vez mais ntida  medida que 
envelhecia, como se o transcurso do tempo a viesse aproximando. rsula tratou de 
aproveitar Jos Arcadio Segundo para que o Coronel Aureliano Buenda abandonasse o 
seu enclausuramento. Convena-o a ir ao cinema, dizia a ele. Embora no goste dos 
filmes, ter pelo menos uma ocasio de respirar ar puro. Mas no tardou a perceber 
que ele era to insensvel s suas splicas quanta teria sido o coronel e que estavam 
encouraados pela mesma impermeabilidade aos afetos. Embora nunca soubesse, nem 

o soubesse ningum, do que falavam nas prolongadas entrevistas na oficina, entendeu 
que eram eles os nicos membros da famlia que pareciam vinculados por afinidades. 
A verdade  que nem Jos Arcadio Segundo poderia tirar o coronel do seu 
enclausuramento. A invaso escolar fora demais para os limites da sua pacincia. Com 

o pretexto de que o quarto nupcial estava  merc das traas apesar da destruio das 
apetitosas bonecas de Remedios, pendurou uma rede na oficina e agora s aabandonava para ir ao quintal fazer as suas necessidades. rsula no conseguiu 
alinhavar com ele uma conversa trivial. Sabia que ele no olhava os pratos de comida, 
mas que os punha no canto da mesa enquanto terminava o peixinho e no se 
importava se a sopa criasse crostas de gordura e se a carne esfriasse. Endureceu-se 
cada vez mais desde que o Coronel Gerineldo Mrquez se negou a segui-lo numa 
guerra senil. Fechou-se com tranca dentro de si mesmo e a famlia acabou por pensar 
nele como se tivesse morrido. No se voltou a ver nele nenhuma reao humana at um 
onze de outubro em que saiu  porta da rua para ver o desfile de um circo. Aquele 
tinha sido para o Coronel Aureliano Buenda um dia igual a todos os dos seus ltimos 
anos. As cinco da madrugada foi acordado pelo alvoroo dos sapos e dos grilos do lado 
de fora da parede. A chuvinha persistia desde sbado e ele no teria tido necessidade 
de ouvir o seu minucioso cochicho nas folhas do jardim, porque de todo jeito t-la-ia 
sentido no frio dos ossos. Estava, como sempre, ve stido com a manta de l e com as 
ceroulas de algodo cru que continuava usando por comodidade, embora por causa do 
seu empoeirado anacronismo ele mesmo as chamasse de cuecas de godo. Ps as 
calas justas, mas no deu os laos nem colocou no colarinho da camisa o boto de 
ouro que usava sempre, porque tinha o propsito de tomar um banho. Em seguida ps 

a manta na cabea, como um capuz, penteou com os dedos o bigode cado e foi urinar 
no quintal. Faltava tanto para que sasse o sol que Jos Arcadio Buenda ainda 
cochilava debaixo da coberta de sap j podre por causa da chuva. Ele no o viu, como 
no o havia visto nunca, nem ouviu a frase incompreensvel que lhe dirigiu o espectro 
de seu pai quando acordou sobressaltado pelo jato de urina quente que lhe salpicava os 
sapatos. Deixou o banho para mais tarde, no por causa do frio e da umidade, mas por 
causa da nvoa opressiva de outubro. De volta  oficina sentiu o cheiro de pavio do 
fogo que Santa Sofa de la Piedad estava acendendo e esperou na cozinha que o caf 
fervesse, para levar a sua caneca sem acar. Santa Sofa de la Piedad perguntou-lhe, 
como todas as manhs, em que dia da semana estavam e ele respondeu que era tera-
feira, onze de outubro. Vendo a impvida mulher dourada pelo brilho do fogo, que nem 
nesse nem em nenhum outro momento da sua vida parecia existir por completo, 
lembrou-se de repente de que um onze de outubro, em plena guerra, acordou-o a 
certeza brutal de que a mulher com quem tinha dormido estava morta. Estava, 
realmente, e no se esque cia da data porque ela tambm lhe havia perguntado uma 
hora antes em que dia estavam. Apesar da evocao, desta vez tambm no teve 
conscincia de at que ponto o tinham abandonado os pressgios, e enquanto o caf 
fervia continuou pensando por pura curiosidade, mas sem o mais insignificante trao 
de nostalgia, na mulher cujo nome nunca soube e cujo rosto no viu com vida porque 
tinha chegado  sua rede tropeando no escuro. Entretanto, no vazio de tantas 
mulheres como as que chegaram  sua vida da mesma forma, no se lembrou de que foi 
ela a que no delrio do primeiro encontro estava quase por naufragar nas prprias 
lgrimas e apenas uma hora antes de morrer jurara am-lo at a morte. No voltou a 
pensar nela, nem em nenhuma outra, depois que entrou na oficina com a xcara 
fumegante e acendeu a luz para contar os peixinhos de ouro que guardava num pote de 
lata. Havia dezessete. Desde que decidira no vend-los, continuava fabricando dois 
peixinhos por dia, e quando completava vinte e cinco voltava a fundi-los no crisol para 
comear a faz-los de novo. Trabalhou a manh inteira, absorto, sem pensar em nada, 
sem se dar conta de que s dez aumentara a chuva e algum passava diante da oficina 
gritando que fechassem as portas para que a casa no inundasse, e sem se dar conta 
sequer de si mesmo at que rsula entrou com o almoo e apagou a luz.

 Que chuva!  disse rsula. 
 Outubro  disse ele. 
Ao diz-lo, no levantou a vista do primeiro peixinho do dia, porque estava 
engastando os rubis dos olhos. S quando o terminou e o ps com os outros no pote  
que comeou a tomar a sopa. Em seguida comeu, muito devagar, o pedao de carne 
ensopada com cebola, o arroz branco e as fatias de banana frita, tudo junto no mesmo 
prato. O seu apetite no se alterava nem nas melhores nem nas mais duras 
circunstncias. Ao fim do almoo experimentou a derrota da ociosidade. Por uma 
espcie de superstio cientfica, nunca trabalhava, nem lia, nem tomava banho, nem 
fazia amor, antes de que transcorressem duas horas de digesto, e era uma crena to 
arraigada que vrias vezes atrasou operaes de guerra para no submeter a tropa aos 
riscos de uma congesto. De modo que se deitou na rede, tirando a cera dos ouvidos 
com um canivete e, em poucos minutos, adormeceu. Sonhou que entrava numa casa 
vazia, de paredes brancas, e que se inquietava com a angstia de ser o primeiro ser 
humano que entrava nela. No sonho recordou que havia sonhado o mesmo na noite 
anterior e em muitas noites dos ltimos anos, e soube que a imagem se apagaria de sua 


memria ao acordar, porque aquele sonho teimoso tinha a virtude de no ser 
recordado a no ser dentro do mesmo sonho. Um momento depois, com efeito, quando 

o barbeiro bateu na porta da oficina, o Coronel Aureliano Buenda acordou com a 
impresso de que involuntariamente tinha adormecido por breves segundos e que no 
tinha tido tempo de sonhar nada. 
 Hoje no  disse ao barbeiro.  Volte na sexta-feira. Tinha uma barba de 
trs dias, salpicada de pelos brancos, mas achava melhor no se barbear, pois na sexta-
feira ia cortar o cabelo e podia fazer tudo ao mesmo tempo. O suor pegajoso da sesta 
indesejvel reviveu nas suas axilas as cicatrizes dos furnculos. Havia estiado, mas 
ainda no sara o sol. O Coronel Aureliano Buenda emitiu um arroto sonoro que 
devolveu ao paladar a acidez da sopa e que foi como uma ordem do organismo para 
que jogasse a manta nos ombros e fosse ao reservado. Ali permaneceu mais do que o 
tempo necessrio, agachado sobre a densa fermentao que subia do caixote de 
madeira, at que o costume lhe indicou que era hora de reiniciar o trabalho. Durante o 
tempo que durou a espera voltou a se lembrar de que era tera-feira e de que Jos 
Arcadio Segundo no tinha estado na oficina porque era dia de pagamento nas 
fazendas da companhia bananeira. Essa lembrana, como todas as dos ltimos anos, 
passou sem que viesse ao caso pensar na guerra. Lembrou-se de que o Coronel 
Gerineldo Mrquez lhe havia prometido, certa vez, conseguir um cavalo com uma 
estrela branca na testa e que nunca se voltara a falar disso. Em seguida, derivou para 
episdios dispersos, mas os evocou sem qualific-los, porque de tanto no poder 
pensar em outra coisa tinha aprendido a pensar a frio, para que as lembranas 
iniludveis no lhe estragassem nenhum sentimento. De volta  oficina, vendo que o ar 
comeava a secar, decidiu que era um bom momento para tomar um banho, mas 
Amaranta se havia antecipado a ele. De modo que comeou o segundo peixinho do dia. 
Estava engatando o rabo quando o sol saiu com tanta fora que a claridade rangeu 
como uma canoa. O ar lavado pela chuvinha de trs dias se encheu de tanajuras. Ento 
caiu em si, percebendo que tinha vontade de urinar e estava adiando at que acabasse 
de armar o peixinho. Ia para o quintal, s quatro e dez, quando ouviu os instrumentos 
longnquos, as batidas do bumbo e a alegria das crianas, e pela primeira vez desde a 
juventude pisou conscientemente numa armadilha da saudade e reviveu a prodigiosa 
tarde de ciganos em que o seu pai o levou para conhecer o gelo. Santa Sofa de la 
Piedad abandonou o que estava fazendo na cozinha e correu para a porta.
  o circo  gritou. 
Em vez de se dirigir ao castanheiro, o Coronel Aureliano Buenda foi tambm 
para a porta da rua e se misturou com os curiosos que contemplavam o desfile. Viu 
uma mulher vestida de ouro no cangote de um elefante. Viu um dromedrio triste. Viu 
um urso vestido de holandesa que marcava o compasso da msica com uma concha e 
uma caarola. Viu os palhaos virando cambalhotas no final do desfile e viu outra vez a 
cara da sua solido miservel quando tudo acabou de passar e no ficou seno o 
luminoso espao na rua e o ar cheio de tanajuras e uns quantos curiosos prximos ao 
precipcio da incerteza. Ento foi para o castanheiro, pensando no circo, e enquanto 
urinava tentou continuar pensando no circo, mas j no encontrou a lembrana. Meteu 
a cabea entre os ombros, como um frango, e ficou imvel com a testa apoiada no 
tronco do castanheiro. A famlia no soube de nada at o dia seguinte, s onze da 
manh, quando Santa Sofia de la Piedad foi jogar o lixo no quintal e lhe chamou a 
ateno o fato de estarem baixando os urubus. 


AS LTIMAS frias de Meme coincidiram com o luto pela morte do Coronel 
Aureliano Buenda. Na casa fechada no havia lugar para festas. Falava-se por 
sussurros, comia-se em silncio, rezava-se o rosrio trs vezes por dia e at os 
exerccios de clavicrdio, no calor da sesta, tinham uma ressonncia fnebre. Apesar 
da sua secreta hostilidade contra o coronel, foi Fernanda quem imps o rigor daquele 
luto, impressionada com a solenidade com que o Governo exaltou a memria do 
inimigo morto. Aureliano Segundo, como de costume, voltou a dormir em casa durante 
as frias da filha; e alguma coisa Fernanda deve ter feito para recuperar os seus 
privilgios de esposa legtima, porque no ano seguinte Meme encontrou uma 
irmzinha recm-nascida, a quem batizaram, contra a vontade da me, com o nome de 
Amaranta rsula. 

Meme terminara os estudos. O diploma que a credenciava como concertista de 
clavicrdio foi ratificado pelo virtuosismo com que executou temas populares do 
sculo XVII na festa organizada para celebrar a sua formatura e com a qual se ps fim 
ao luto. Os convidados admiraram, mais do que a arte, a sua estranha dualidade. Seu 
temperamento frvolo e at um pouco infantil no parecia adequado a nenhuma 
atividade sria, mas quando se sentava ao clavicrdio se transformava numa moa 
diferente, a quem a maturidade imprevista trazia um ar de adulto. Sempre fora assim. 
Na verdade no tinha uma vocao definida, mas conseguira as notas altas atravs de 
uma disciplina inflexvel, para no contrariar a me. Poderiam ter-lhe imposto a 
aprendizagem de outro ofcio e os resultados seriam os mesmos. Desde menina a 
incomodava o rigor de Fernanda, o seu costume de decidir pelos outros, e teria sido 
capaz de um sacrifcio muito mais duro que as lies de clavicrdio, s para no 
tropear na sua intransigncia. No ato de encerramento, teve a impresso de que o 
pergaminho com letras gticas e maisculas ornamentadas a liberava de um 
compromisso que tinha aceito no tanto por obedincia quanto por comodidade, e 
acreditou que a partir de ento nem a teimosa Fernanda tornaria a se preocupar com 
um instrumento que at as freiras consideravam como um fssil de museu. Nos 
primeiros anos pensou que os seus clculos estavam errados, porque depois de ter feito 
adormecer meia cidade no s na sala de visitas, mas tambm em quantos saraus 
beneficentes, festas escolares e comemoraes patriticas foram celebrados em 
Macondo, sua me continuou convidando a todo recm-chegado que supunha capaz 
de apreciar as virtudes da filha. S depois da morte de Amaranta, quando a famlia 
voltou a se fechar por algum tempo no luto,  que Meme pde trancar o clavicrdio e 
esquecer a chave em algum armrio, sem que Fernanda se incomodasse em verificar em 
que momento nem por culpa de quem ela se havia extraviado. Meme resistiu s 
exibies com o mesmo estoicismo com que se consagrara  aprendizagem. Era o 
preo da sua liberdade. Fernanda estava to satisfeita com a sua docilidade e to 
orgulhosa da admirao que a sua arte despertava que nunca se ops a que tivesse a 
casa sempre cheia de amigas e passasse a tarde nas plantaes e fosse ao cinema com 
Aureliano Segundo ou com senhoras de confiana, sempre que o filme tivesse sid o 
autorizado no plpito pelo Padre Antonio Isabel. Naqueles momentos de 
descontrao  que se revelavam os verdadeiros gostos de Meme. A sua felicidade 
estava no outro extremo da disciplina, nas festas ruidosas, nos fuxicos de namoro, em 
trancar-se prolongadamente com as amigas em cantos onde aprendiam a fumar e 
conversavam de assuntos de homem, e onde uma vez passaram a mo em trs garrafas 
de rum e acabaram nuas, medindo e comparando as partes do corpo. Meme no se 


esqueceu nunca da noite em que entrou em casa mastigando alcauz e, sem que 
percebessem a sua perturbao, sentou-se  mesa em que Fernanda e Amaranta 
jantavam sem se dirigir a palavra. Tinha passado duas horas tremendas no quarto de 
uma amiga, chorando de rir e de medo, e no outro lado da crise encontrara o estranho 
sentimento de valentia que lhe faltara para fugir do colgio e dizer  me, com estas ou 
com outras palavras, que ela podia muito bem tomar uma lavagem de clavicrdio. 
Sentada na cabeceira da mesa, tomando um caldo de galinha que lhe caa no estmago 
como um elixir de ressurreio, Meme viu, ento, Fernanda e Amaranta envoltas no 
halo acusador da realidade. Teve que fazer um esforo enorme para no jogar na cara 
delas os seus gestos, a sua pobreza de esprito, os seus delrios de grandeza. Desde as 
segundas frias que sabia que o pai s vivia em casa para salvar as aparncias, e 
conhecendo Fernanda como conhecia, e tendo dado um jeito, mais tarde, de conhecer 
Petra Cotes, dera razo ao pai. Ela tambm teria preferido ser filha da concubina. No 
embotamento do lcool, Meme pensava com deleite no escndalo que teria provocado 
se, naquele momento, tivesse expressado os seus pensamentos e foi to intensa a 
satisfao intima da picardia que Fernanda percebeu. 

 O que  que h com voc?  perguntou. 
 Nada  respondeu Meme.   que s agora descobri como eu amo vocs. 
Amaranta assustou-se com a evidente carga de dio que trazia a declarao. 
Mas Fernanda ficou to comovida que pensou que ia ficar louca quando Meme 
acordou  meia-noite com a cabea estalando de dor e sufocando em vmitos de bile. 
Deu-lhe um frasco de leo de rcino, aplicou-lhe cataplasma no ventre e bolsas de gelo 
na cabea, e obrigou-a a seguir a dieta e o repouso de cinco dias ordenados pelo novo e 
extravagante mdico francs que, depois de examin-la durante mais de duas horas, 
chegou  concluso nebulosa de que tinha uma perturbao prpria de mulher. 
Abandonada pela valentia, num miservel estado de desmoralizao, no lhe restououtro recurso seno agentar. rsula, j completamente cega, mas ainda ativa e lcida, 
foi a nica que intuiu o diagnstico exato. Para mim, pensou, estas so as mesmas 
coisas que acontecem com os bbados. Mas no s recusou a idia, como tambm 
reprovou a leviandade do pensamento. Aureliano Segundo sentiu a conscincia doendo 
quando viu o estado de prostrao de Meme e prometeu a si mesmo se ocupar mais 
dela no futuro. Foi assim que nasceu a relao de alegre camaradagem entre o pai e a 
filha, que o livrou por algum tempo da amarga solido das festanas e livrou a ela da 
autoridade de Fernanda sem ter que provocar a crise domstica que j parecia 
inevitvel. Aureliano Segundo passou a adiar qualquer compromisso para estar com 
Meme, para lev-la ao cinema ou ao circo, e lhe dedicava a maior parte do seu cio. Nos 
ltimos tempos, o estorvo da obesidade absurda que j no lhe permitia amarrar os 
cordes dos sapatos, e a satisfao abusiva de toda espcie de apetites, tinham 
comeado a lhe azedar o temperamento. A descoberta da filha restituiu-lhe a antiga 
jovialidade e o prazer de estar com ela o ia afastando pouco a pouco da dissipao. 
Meme despontava para uma idade frutfera. No era bela, como nunca o fora 
Amaranta, mas em compensao era simptica, simples, e tinha a virtude de causar boa 
impresso desde o primeiro momento. Tinha um esprito moderno que feria a 
antiquada sobriedade e o mal dissimulado corao avaro de Fernanda e que, pelo 
contrrio, Aureliano Segundo sentia prazer em patrocinar. Foi ele quem resolveu tirla 
do quarto que ocupava desde menina e onde os olhos assombrados dos santos 
continuavam alimentando os seus terrores de adolescente, e mobiliou para ela um 


aposento com uma cama de dossel, uma penteadeira ampla e cortinas de veludo, sem 
perceber que estava fazendo uma segunda verso do dormitrio de Petra Cotes. Era 
to prdigo com Meme que nem sequer sabia quanto dinheiro lhe dava, porque ela 
mesma o tirava dos seus bolsos; e a mantinha em dia com quanta novidade 
embelezadora chegasse aos armazns da companhia bananeira. O quarto de Meme se 
encheu de pedra-pomes para lustrar as unhas, enroladores de cabelo, polidores de 
dentes, colrios para fazer o olhar lnguido, e tantos e to inovadores cosmticos e 
aparelhos de beleza que cada vez que Fernanda entrava no dormitrio se 
escandalizava com a idia de que a penteadeira da filha devia ser igual  das matronas 
francesas. Entretanto, Fernanda andava nessa poca com o tempo dividido entre apequena Amaranta rsula, que era caprichosa e doentia, e uma emocionante 
correspondncia com os mdicos invisveis. Por isso, quando notou a cumplicidade do 
pai com a filha, a nica promessa que arrancou de Aureliano Segundo foi a de que 
nunca levaria Meme  casa de Petra Cotes. Era uma advertncia sem sentido, porque a 
concubina estava to amolada com a camaradagem do amante com a filha que no 
queria saber de nada com ela. Atormentava-a um temor desconhecido, como se o 
instinto lhe indicasse que Meme, bastando querer, poderia conseguir o que Fernanda 
no pudera: priv-la de um amor que j considerava assegurado at a morte. Pela 
primeira vez, Aureliano Segundo teve que agentar as caras fechadas e as violentas 
ladainhas da concubina, e temeu at que os seus levados e trazidos bas fizessem o 
caminho de volta para a casa da esposa. Isto no aconteceu. Ningum conhecia melhor 
um homem que Petra Cotes o seu amante, e ela sabia que os bas ficariam no lugar 
para onde tivessem sido mandados, porque se havia uma coisa que Aureliano Segundo 
detestava era complicar a vida com retificaes e mudanas. De modo que os bas 
ficaram onde estavam e Petra Cotes se empenhou em reconquistar o homem afiando as 
nicas armas com que a filha no podia lutar. O que foi tambm um trabalho 
desnecessrio, porque Meme nunca tivera o propsito de intervir nos assuntos 
particulares do pai e certamente se o fizesse seria em favor da concubina. No lhe 
sobrava tempo para amolar ningum. Ela mesma varria o quarto e arrumava a cama, 
como lhe ensinaram as freiras. De manh se ocupava da sua roupa, bordando na 
varanda ou cosendo na velha mquina de manivela de Amaranta. Enquanto os outros 
faziam a sesta, praticava o clavicrdio durante duas horas, sabendo que o sacrifcio 
dirio manteria Fernanda calma. Pelo mesmo motivo, continuava oferecendo concertos 
em bazares eclesisticos e festas escolares, embora as solicitaes fossem cada vez 
menos freqentes.  tardinha se arrumava, punha as suas roupas simples e as suas 
duras botinas e, se no tinha nada para fazer com o pai, ia  casa de suas amigas, onde 
ficava at a hora do jantar. Era excepcional que Aureliano Segundo no fosse busc-la 
para lev-la ao cinema. 

Entre as amigas de Meme havia trs jovens norte-americanas que tinham 
rompido o cerco do galinheiro eletrificado e feito amizade com as moas de Macondo. 
Uma delas era Patricia Brown. Agradecido  hospitalidade de Aureliano Segundo, o Sr. 
Brown abriu as portas da sua casa a Meme e a convidou para os bailes de sbado, que 
eram os nicos em que os ianques se misturavam com os nativos. Quando Fernanda 
soube, esqueceu-se por um momento de Amaranta rsula e dos mdicos invisveis e 
armou todo um melodrama. Imagine, disse a Meme, o que vai pensar o coronel notmulo. Procurava,  claro, o apoio de rsula. Mas a anci cega, ao contrrio do que 
todos esperavam, considerou que no havia nada de reprovvel em Meme assistir aos 


bailes e cultivar amizade com as norte-americanas da sua idade, desde que conservasse 
a firmeza do seu carter e no se deixasse converter  religio protestante. Meme 
captou muito bem o pensamento da tatarav e, no dia seguinte aos bailes, se levantava 
mais cedo do que de costume para ir  missa. A oposio de Fernanda persistiu at o 
dia em que Meme a desarmou com a notcia de que os norte-americanos queriam ouvila 
tocar clavicrdio. O instrumento foi tirado uma vez mais de casa e levado para a do 
Sr. Brown, onde efetivamente a jovem concertista recebeu os aplausos mais sinceros e 
as felicitaes mais entusiastas. A partir de ento no s a convidavam para os bailes, 
mas tambm para os banhos dominicais na piscina e para almoar uma vez por 
semana. Meme aprendeu a nadar como uma profissional, a jogar tnis e a comer 
presunto de Virgnia com fatias de abacaxi. Entre bailes, piscina e tnis, viu-se de 
repente falando ingls. Aureliano Segundo se entusiasmou tanto com os progressos da 
filha que comprou de um caixeiro viajante uma enciclopdia inglesa em seis volumes e 
com numerosas ilustraes a cores que Meme lia nas horas vagas. A leitura ocupou a 
ateno que antes destinava aos fuxicos de namoro ou aos segredos experimentais com 
as suas amigas, no porque o impusesse como disciplina, mas porque j tinha perdido 
todo o interesse em comentar mistrios que eram do domnio pblico. Recordava a 
bebedeira como uma aventura infantil e lhe parecia to divertida que contou a 
Aureliano Segundo, a quem pareceu mais divertida ainda. Se a sua me soubesse, 
disse a ela, sufocando de rir, como dizia sempre que ela lhe fazia uma confidncia. Ele 
lhe havia feito prometer que com essa mesma intimidade p-lo-ia a par do seu primeiro 
namoro e Meme lhe havia contado que simpatizava com um cabelo-de-fogo norte-
americano que tinha vindo passar as frias com os pais. Que horror, riu Aureliano 
Segundo. Se a sua me soubesse. Mas Meme contou tambm que o rapaz tinha 
regressado ao seu pas e no dera mais sinal de vida. A sua maturidade de esprito 
assegurou a paz domstica. Aureliano Segundo, ento, dedicava mais horas a Petra 
Cotes e, embora j o corpo e a alma no estivessem para farras como as de antes, no 
perdia ocasio de promov-las e desencafuar o acordeo, que j tinha algumas teclas 
amarradas com cordes de sapatos. Em casa, Amaranta bordava a sua interminvelmortalha e rsula se deixava arrastar pela decrepitude at o fundo das trevas, onde a 
nica coisa que continuava sendo visvel era o espectro de Jos Arcadio Buenda 
debaixo do castanheiro. Fernanda consolidou a sua autoridade. As cartas mensais ao 
filho Jos Arcadio no traziam mais sequer uma linha de mentira e s escondia dele a 
sua correspondncia com os mdicos invisve is, que lhe haviam diagnosticado um 
tumor benigno no intestino grosso e a estavam preparando para uma interveno 
teleptica. 

Ter-se-ia dito que na cansada manso dos Buenda havia paz e felicidade 
rotineira para muito tempo, se a intempestiva morte de Amaranta no tivesse 
promovido um novo escndalo. Foi um acontecimento inesperado. Embora estivesse 
velha e afastada de todos, ainda parecia firme e reta e com a sade de ferro que sempre 
tivera. Ningum mais soube do seu pensamento, desde a tarde em que recusou 
definitivamente o Coronel Gerineldo Mrquez e se trancou no quarto chorando. 
Quando saiu, tinha esgotado todas as suas lgrimas. No foi vista chorando com a 
subida ao cu de Remedios, a bela, nem com o extermnio dos Aurelianos, nem com a 
morte do Coronel Aureliano Buenda, que era a pessoa a quem mais amara neste 
mundo, embora s o pudesse demonstrar quando encontraram o cadver debaixo do 
castanheiro. Ela ajudou a levantar o corpo. Vestiu-o com os seus enfeites de guerreiro, 


barbeou-o, penteou-o, e engomou-lhe o bigode melhor do que ele mesmo o fazia nos 
seus anos de glria. Ningum pensou que houvesse amor naquele ato, porque estavam 
acostumados com a familiaridade de Amaranta para com os ritos da morte. Fernanda 
se escandalizava com o fato de ela no entender as relaes do catolicismo com a vida, 
mas unicamente as suas relaes com a morte, como se no fosse uma religio mas um 
prospecto de convencionalismos funerrios. Amaranta estava perdida por demais no 
labirinto das suas lembranas para entender aquelas sutilezas apologticas. Tinha 
chegado  velhice com todas as suas saudades vivas. Quando escutava as valsas de 
Pietro Crespi sentia a mesma vontade de chorar que tivera na adolescncia, como se o 
tempo e as suas punies no tivessem servido para nada. Os rolos de msica que ela 
mesma jogara no lixo, com o pretexto de que estavam apodrecendo com a umidade, 
continuavam girando e percutindo os marteletes na sua memria. Tinha tentado afoglos 
na paixo pantanosa que se permitira com o seu sobrinho Aureliano Jos e tinha 
tentado se refugiar na proteo serena e viril do Coronel Gerineldo Mrquez, mas no 
conseguira derrot-los nem com o ato mais desesperado da sua velhice, quando 
banhava o pequeno Jos Arcadio, trs anos antes de que o mandassem para o 
seminrio, e o acariciava no como faria uma av com um neto, mas como teria feito 
uma mulher com um homem, como se contava que faziam as matronas francesas, e 
como ela quisera fazer com Pietro Crespi, aos doze, aos quatorze anos, quando o vira 
com a sua malha de bal e a varinha mgica com que marcava o compasso dometrnomo. s vezes lhe doa ter deixado com a sua passagem aquele riacho de 
misria e s vezes sentia tanta raiva que espetava os dedos nas agulhas, porm mais lhe 
doa e com mais raiva ficava e mais lhe amargava o fragrante e bichado goiabal de amor 
que ia arrastando at a morte.* Do mesmo jeito como o Coronel Aureliano Buenda 
pensava na guerra sem o poder evitar, Amaranta pensava em Rebeca. Mas enquanto 
seu irmo tinha conseguido esterilizar as lembranas, ela s tinha conseguido avivlas. 
A nica coisa que rogou a Deus durante muitos anos foi que no lhe impingisse o 
castigo de morrer antes de Rebeca. Cada vez que passava pela sua casa e notava os 
progressos da destruio, se satisfazia com a idia de que Deus a estava ouvindo. Uma 
tarde, quando costurava na varanda, teve a certeza de que estaria sentada nesse lugar, 
nessa mesma posio e sob essa mesma luz quando lhe trouxessem a notcia da morte 
de Rebeca. Sentou-se para esper-la como quem espera uma carta e a verdade  que em 
certa poca arrancava botes para tornar a preg-los de modo a que a ociosidade no 

* Tendo sido impossvel encontrar uma expresso equivalente em portugus ao excelente 
achado literrio de Gabriel Garca Mrquez, feito sobre um emprego regional (Antilhas, Colmbia e 
El Salvador) do guayaba, preferimos manter a imagem, acrescida desta nota: a goiaba  uma fruta que 
bicha com muita freqncia e sem apresentar marcas externas que sirvam de aviso  pessoa que come. 
A partir dai, da conotao afetiva de frustrao que se desenvolveu no seu significado, a palavra 
passou a ser empregada em sentido figurado, nas regies da Amrica Hispnica que assinalamos, com 
a denotao de mentira, embuste. Gabriel Garca Mrquez vai aproveitar a expressividade do uso 
lingstico popular recriando-o analiticamente, atravs, principalmente, da adjetivao contrastante 
fragante y agusanado  no s o desequilbrio entre a caracterizao eticamente positiva fragante e a 
eticamente negativa agusanado entra na conta da expressividade; tambm a prpria escolha das 
palavras na srie sinonmica vem a intensificar o desequilbrio, j que fragrante  um termo que 
pertence  tradio do clich literrio (nobre, portanto), enquanto que agusanado  o termo normal 
da linguagem agrcola sem idealizao esttica. A hiprbole guayabal intensifica grotescamente a 
ironia da adjetivao. (N. T.) 


tornasse mais longa e angustiosa a espera. Ningum se deu conta em casa de que 
Amaranta tecera naquela poca uma linda mortalha para Rebeca. Mais tarde, quando 
Aureliano Triste contou que a havia visto tranformada numa imagem de assombrao, 
com a pele enrugada e umas poucas fibras amareladas no crnio, Amaranta no se 
surpreendeu, porque o espectro descrito era igual ao que ela imaginava h muito 
tempo. Tinha decidido restaurar o cadver de Rebeca, dissimular com parafina os 
estragos do rosto e fazer-lhe uma peruca com o cabelo dos santos. Fabricaria um 
cadver formoso com a mortalha de linho e um atade forrado de veludo com camadas 
de prpura e o poria  disposio dos vermes em funerais esplndidos. Elaborou o 
plano com tanto dio que estremeceu com a idia de que agiria da mesma maneira se 
fosse por amor, mas no se deixou aturdir pela confuso, e sim continuou 
aperfeioando os detalhes to minuciosamente que chegou a ser mais do que uma 
especialista, uma virtuose nos ritos da morte. A nica coisa que no levou em conta no 
seu plano macabro foi que, apesar das splicas a Deus, ela podia morrer primeiro que 
Rebeca. E assim aconteceu, realmente. No instante final, porm, Amaranta no se 
sentiu frustrada, mas pelo contrrio libertada de toda a amargura, porque a morte lhe 
concedera o privilgio de se anunciar com vrios anos de antecedncia. Viu-a num 
meio-dia ardente, costurando com ela na varanda, pouco depois de Meme ir para o 
colgio. Reconheceu-a imediatamente e no havia nada de pavoroso na morte porque 
era uma mulher vestida de azul, com o cabelo comprido, de aspecto um pouco 
antiquado e uma certa semelhana com Pilar Ternera na poca em que ajudava nos 
servios de cozinha. Vrias vezes Fernanda esteve presente e no a viu, apesar de ser 
to real, to humana, que numa ocasio pediu a Amaranta o favor de enfiar-lhe a linha 
na agulha. A morte no lhe disse quando ela ia morrer nem se a sua hora estava 
marcada para antes da de Rebeca, mas sim lhe ordenou que comeasse a tecer a sua 
prpria mortalha no prximo seis de abril. Autorizou-a a faz-la to complicada e 
primorosa quanto quisesse, mas to honradamente como fizera a de Rebeca, e lhe 
avisou que haveria de morrer sem dor nem medo nem amargura, ao anoitecer do dia em 
que a terminasse. Tentando perder a maior quantidade de tempo possvel, Amaranta 
encomendou as meadas de linho e ela mesma teceu a fazenda. F-lo com tanto cuidado 
que somente este trabalho levou quatro anos. Em seguida, iniciou o bordado.  medida 
que se aproximava o fim irremedivel, ia compreendendo que s um milagre permitiria 
que prolongasse o trabalho para alm da morte de Rebeca; mas a prpria concentrao 
lhe proporcionou a calma que lhe faltava para aceitar a idia de uma frustrao. Foi 
ento que entendeu o crculo vicioso dos peixinhos de ouro do Coronel Aureliano 
Buenda. 

O mundo se reduziu  superfcie da sua pele e o interior ficou a salvo de toda a 
amargura. Doeu-lhe no ter tido aquela revelao muitos anos antes, quando ainda 
seria possvel purificar as lembranas e reconstruir o Universo sob uma luz nova e 
evocar sem estremecer o cheiro de alfazema de Pietro Crespi ao entardecer e resgatar 
Rebeca do seu ambiente de misria, no por dio nem por amor, mas pela 
compreenso sem limite da solido. O dio que percebeu certa noite nas palavras de 
Meme no a comoveu porque a ofendesse, mas porque se sentiu repetida em outra 
adolescncia que parecia to limpa como devia ter parecido a sua e que, entretanto, j 
estava viciada pelo rancor. Mas na poca j era to profunda a conformidade com o seu 
destino que nem sequer a inquietou a certeza de que estavam fechadas todas as 
possibilidades de retificao. O seu nico objetivo foi terminar a mortalha. Em vez de 


retard-la com preciosismos inteis, como fizera a princpio, apressou o trabalho. Uma 
semana antes, calculou que daria o ltimo ponto na noite de quatro de fevereiro e, sem 
revelar o motivo, sugeriu a Meme que antecipasse um concerto de clavicrdio que 
tinha previsto para o dia seguinte, mas ela no lhe fez caso. Amaranta procurou ento 
uma maneira de se atrasar quarenta e oito horas e at pensou que a morte a estava 
satisfazendo, porque na noite de quatro de fevereiro uma tempestade desarranjou a 
rede eltrica. Mas no dia seguinte, s oito da manh, deu o ltimo ponto no trabalho 
mais primoroso que mulher alguma terminara jamais e anunciou sem o menor 
dramatismo que morreria ao entardecer. Preveniu no s a famlia como toda a 
populao, porque Amaranta se metera na cabea que poderia reparar toda uma vida 
de mesquinharia com um ltimo favor ao mundo, e pensou que nenhum era melhor do 
que levar cartas aos mortos. 

A notcia de que Amaranta Buenda zarpava ao crepsculo, levando o correio da 
morte, foi divulgada em Macondo antes do meio-dia e, s trs da tarde, j havia na sala 
um caixote cheio de cartas. Os que no quiseram escrever deram a Amaranta recados 
verbais que ela anotou numa caderneta, com o nome e a data de morte do destinatrio. 
No se preocupe, tranqilizava os remetentes. A primeira coisa que farei ao chegar 
ser perguntar por ele, e ento darei o seu recado. Parecia uma farsa. Amaranta no 
revelava nenhuma perturbao, nem o mais leve sinal de dor e at parecia um pouco 
rejuvenescida pelo dever cumprido. Estava to erecta e esbelta como sempre. No 
fossem as mas do rosto endurecidas e a falta de alguns dentes, pareceria muito 
menos velha do que era na realidade. Ela mesma ordenou que se pusessem as cartas 
numa caixa lacrada e indicou a maneira como deveria ser colocada no tmulo para 
preserv-la melhor da umidade. De manh tinha chamado um carpinteiro que lhe 
tomou as medidas para o atade, de p, na sala, como se fossem para um vestido. 
Despertou-se-lhe um tal dinamismo nas ltimas horas, que Fernanda pensou queestivesse zombando de todos. rsula, com a experincia de que os Buenda morriam 
sem doena, no ps em dvida que Amaranta tivesse tido o pressgio da morte, mas 
em todo caso atormentou-a o temor de que na azfama das cartas e na ansiedade de 
que chegassem logo, os ofuscados remetentes no a fossem enterrar viva. De modo que 
se empenhou em esvaziar a casa, brigando aos gritos com os intrusos e, s quatro da 
tarde, tinha conseguido. A essa hora, Amaranta acabava de repartir as suas coisas entre 
os pobres e s tinha deixado sobre o severo atade de tbuas sem lixar a muda de 
roupa e os chinelos simples de pelcia que haveria de calar na morte. No passou por 
alto essa precauo, ao recordar que quando o Coronel Aureliano Buenda morreu 
tinham tido que comprar um par de sapatos novos, porque s lhe restavam as pantufas 
que usava na oficina. Pouco antes das cinco, Aureliano Segundo veio buscar Meme 
para o concerto e se surpreendeu de que a casa estivesse preparada para o funeral. Se 
algum parecia vivo a essa hora era a serena Amaranta, a quem o tempo chegara at 
para tirar os calos. Aureliano Segundo e Meme se despediram dela com adeuses de 
brincadeira e lhe prometeram que no sbado seguinte dariam uma festa de 
ressurreio. Atrado pelas vozes pblicas de que Amaranta Buenda estava recebendo 
cartas para os mortos, o Padre Antonio Isabel chegou s cinco com o vitico e teve que 
esperar mais de quinze minutos para que a moribunda sasse do banho. Quando a viu 
aparecer com uma camisola de morim e o cabelo solto nas costas, o decrpito proco 
pensou que fosse uma brincadeira e despachou o coroinha. Pensou, entretanto, em 
aproveitar a ocasio para confessar Amaranta depois de quase vinte anos de reticncia. 


Amaranta respondeu, simplesmente, que no precisava de assistncia espiritual de 
nenhuma espcie porque tinha a conscincia limpa. Fernanda se escandalizou. Sem se 
importar que a ouvissem, perguntou em voz alta que pecado terrvel teria cometido 
Amaranta para preferir uma morte sacrlega  vergonha de uma confisso. EntoAmaranta se deitou e obrigou rsula a dar testemunho pblico da sua virgindade. 

 Que ningum tenha iluses  gritou, para que a ouvisse Fernanda.  
Amaranta Buenda se vai desde mundo como veio. 

No voltou a se levantar. Recostada em almofades, como se na verdade 
estivesse doente, teceu as suas longas tranas e enrolou-as sobre as orelhas, 
exatamente como a morte lhe dissera que deveria estar no atade. Em seguida pediu arsula um espelho e pela primeira vez em mais de quarenta anos viu o seu rosto 
devastado pela idade e pelo martrio e se surpreendeu do quanto se parecia com aimagem mental que tinha de si mesma. rsula compreendeu pelo silncio da alcova 
que tinha comeado a escurecer. 

 Despea-se de Fernanda  suplicou a ela.  Um minuto de reconciliao 
tem mais mrito do que toda uma vida de amizade. 
 J no vale a pena  respondeu Amaranta. 
Meme no pde deixar de pensar nela quando acenderam as luzes do 
improvisado cenrio e comeou a segunda parte do programa. Na metade da pea 
algum lhe deu a notcia no ouvido e o ato foi suspenso. Quando chegou em casa, 
Aureliano Segundo teve que abrir caminho aos empurres por entre a multido para 
ver o cadver da velha donzela, feia e de m cor, com a venda negra na mo e envolta na 
mortalha primorosa. Estava exposto na sala junto ao caixote do correio.

rsula no voltou a se levantar depois das nove noites de Amaranta. Santa Sofia 
de la Piedad tomou conta dela. Levava-lhe a comida no quarto e a gua da bilha para 
que se lavasse e a mantinha a par de quanto se passava em Macondo. Aureliano 
Segundo a visitava com freqncia e lhe levava roupas que ela punha perto da cama, 
junto com as coisas mais indispensveis para o viver dirio, de modo que em pouco 
tempo tinha construdo para si um mundo ao alcance da mo. Conseguiu despertar umgrande afeto na pequena Amaranta rsula, que era idntica a ela, e a quem ensinou a 
ler. A sua lucidez, a habilidade para se bastar a si mesma faziam pensar que estava 
naturalmente vencida pelo peso dos cem anos mas, embora fosse evidente que andava 
mal da vista, ningum suspeitou que estivesse completamente cega. Dispunha ento de 
tanto tempo e de tanto silncio interior para vigiar a vida da casa que foi ela a primeira 
a perceber a calada angstia de Meme. 

 Venha c  disse a ela.  Agora que estamos sozinhas, confesse a esta 
pobre velha o que h contigo. Meme fugiu da conversa com um riso entrecortado.
rsula no insistiu, mas acabou de confirmar as suas suspeitas porque Meme no 
voltou a visit-la. Sabia que se arrumava mais cedo do que de costume, que no tinha 
um instante de sossego enquanto esperava a hora de sair  rua, que passava noites 
inteiras rolando na cama no quarto contguo e que a atormentava o voejar de uma 
borboleta. Em certa ocasio, ouviu-a dizer que ia se encontrar com Aureliano Segundo 
e rsula se surpreendeu de que Fernanda fosse to curta de imaginao que no 
suspeitasse de nada quando o marido chegou em casa perguntando pela filha. Era 
evidente demais que Meme andava com assuntos sigilosos, com compromissos 
urgentes, com ansiedades reprimidas, desde muito antes da noite em que Fernanda 
alvoroou a casa porque a tinha encontrado aos beijos com um homem no cinema. 

A prpria Meme andava na poca to ensimesmada que acusou rsula de hav la 
denunciado. Na realidade, ela se denunciara a si mesma. H muito tempo que 
deixava  sua passagem um caudal de pistas que teriam despertado o mais adormecido 
e, se Fernanda demorara tanto para descobri-las, foi porque tambm ela estava 
obscurecida pelas suas relaes secretas com os mdicos invisveis. Mesmo assim 
acabou por perceber os profundos silncios, os sobressaltos intempestivos, as 
alternativas de humor e as contradies da filha. Empenhou-se numa vigilncia 
dissimulada, mas implacvel. Deixou-a estar com as suas amigas de sempre, ajudou-a a 
se vestir para as festas de sbado e jamais lhe fez uma pergunta impertinente que 
pudesse alert-la. Tinha j muitas provas de que Meme fazia coisas diferentes das que 
anunciava e, no entanto, no deixou vislumbrar as suas suspeitas na espera da ocasio 
decisiva. Certa noite, Meme avisou que ia ao cinema com o pai. Pouco depois, 
Fernanda ouviu os foguetes da farra e o inconfundvel acordeo de Aureliano Segundo 
no rumo da casa de Petra Cotes. Ento se vestiu, entrou no cinema e, na penumbra das 
cadeiras, reconheceu a filha. A perturbadora emoo do acerto lhe impediu de ver o 
homem que a estava beijando, mas chegou a perceber a sua voz trmula no meio dos 
assovios e das gargalhadas ensurdecedoras do pblico. Sinto muito, amor, ouviu-o 
dizer, e tirou Meme da sala sem lhe dizer uma palavra e submeteu-a  vergonha de 
lev-la pela barulhenta Rua dos Turcos e trancou-a  chave no quarto. 

No dia seguinte, s seis da tarde, Fernanda reconheceu a voz do homem que foi 
visit-la. Era jovem, citrino, com uns olhos escuros e melanclicos que no a teriam 
surpreendido tanto se tivesse conhecido os ciganos e um ar de sonho que a qualquer 
mulher de corao menos rgido teria bastado para entender os motivos da filha. Vestia 
um linho muito usado, sapatos branco-zinco defendidos desesperadamente por solas 
superpostas, e trazia na mo um chapu de palhinha comprado no sbado anterior. Em 
toda a sua vida nunca estivera nem estaria mais assustado do que naquele momento, 
mas tinha uma dignidade e um domnio que o punham a salvo da humilhao e uma 
excelncia legtima que s fracassava nas mos calosas e nas unhas lascadas pelo 
trabalho rude. A Fernanda, entretanto, bastou v-lo uma vez para intuir a sua condio 
de trabalhador braal. Percebeu que usava a sua nica roupa de domingo e que 
debaixo da camisa tinha a pele carcomida pela sarna da companhia bananeira. No 
permitiu que falasse. No permitiu sequer que ele passasse da porta, que um momento 
depois teve de fechar, porque a casa estava cheia de borboletas amarelas. 

 V embora  disse a ele.  No tem nada que fazer no meio de gente 
decente. 
Chamava-se Mauricio Babilonia. Tinha nascido e crescido em Macondo e era 
aprendiz de mecnico nas oficinas da companhia bananeira. Meme o conhecera por 
acaso, numa tarde em que fora com Patricia Brown buscar o automvel para dar um 
passeio pelas plantaes. 

Como o chofer estava doente, encarregaram-no de lev-las e Meme pde por fim 
satisfazer a sua vontade de se sentar junto ao volante para observar de perto o sistema 
de manejo. Ao contrrio do chofer titular, Mauricio Babilonia lhe fez uma 
demonstrao prtica. Isso foi na poca em que Meme comeou a freqentar a casa do 
Sr. Brown e ainda se considerava indigno de damas dirigir um automvel. De modo 
que se conformou com a informao terica e no voltou a ver Mauricio Babilonia por 
vrios meses. Mais tarde haveria de recordar que durante o passeio chamou-lhe a 
ateno a sua beleza varonil, salvo a brutalidade das mos, mas depois tinha 


comentado com Patricia Brown o mal-estar que lhe produzira a sua segurana um 
pouco altiva. No primeiro sbado em que foi ao cinema com seu pai, voltou a ver 
Mauricio Babilonia com o seu costume de linho, sentado a pouca distncia deles, e 
percebeu que ele se desinteressava do filme para se virar para olh-la, no tanto para 
v-la como para que ela notasse que ele a estava olhando. Meme se aborreceu com a 
vulgaridade daquele sistema. Finalmente, Mauricio Babilonia se aproximou para 
cumprimentar Aureliano Segundo e s ento Meme soube que se conheciam, porque 
ele tinha trabalhado na primitiva instalao eltrica de Aureliano Triste e tratava seu 
pai com uma atitude de subalterno. Essa comprovao aliviou-a do desprazer que lhe 
causava a sua altivez. No se tinham visto a ss, nem se tinham dito uma palavra 
diferente do cumprimento, na noite em que sonhou que ele a salvava de um naufrgio e 
ela no experimentava nenhum sentimento de gratido e sim de raiva. Era como lhe ter 
dado uma oportunidade que ele desejava, sendo que Meme queria o contrrio, no s 
com Mauricio Babilonia como tambm com qualquer outro homem que se interessasse 
por ela. Por isso ficou to indignada que depois do sonho, em vez de detest-lo, teria 
experimentado uma urgncia irresistvel de v-lo. A ansiedade se fez mais intensa no 
correr da semana e no sbado j era to premente que teve que fazer um esforo 
enorme para que Mauricio Babilonia no notasse, ao cumpriment-la no cinema, que o 
corao lhe saa pela boca. Ofuscada por uma confusa sensao de prazer e raiva, 
estendeu-lhe a mo pela primeira vez, e s ento Mauricio Babilonia se permitiu 
apert-la. Meme chegou, numa frao de segundo, a se arrepender do impulso mas o 
arrependimento se transfo rmou imediatamente numa satisfao cruel, ao comprovar 
que tambm a mo dele estava suada e gelada. Nessa noite, compreendeu que no teria 
um instante de sossego enquanto no demonstrasse a Mauricio Babilonia quo v era a 
sua aspirao, e passou a semana voejando em torno dessa ansiedade. Recorreu a toda 
espcie de artimanhas inteis para que Patricia Brown a levasse para buscar o 
automvel. Por ltimo, valeu-se do cabelo-de-fogo norte-americano, que por essa 
poca estava passando as frias em Macondo e, com o pretexto de conhecer os novos 
modelos de automveis, fez-se levar s oficinas. Desde o momento em que o viu, Meme 
deixou de enganar a si mesma, e compreendeu que o que acontecia na realidade era 
que no podia mais suportar o desejo de estar a ss com Mauricio Babilonia e se 
indignou com a certeza de que este compreendera isso ao v-la chegar. 

 Vim ver os novos modelos  disse Meme. 
  um bom pretexto  disse ele. 
Meme percebeu que estava se queimando na luz da sua altivez e procurou 
desesperadamente uma maneira de humilh-lo. Mas ele no lhe deu tempo. No se 
assuste, disse em voz baixa. No  a primeira vez que uma mulher fica louca por um 
homem. Sentiu-se to desamparada que abandonou a oficina sem ver os novos 
modelos e passou a noite de extremo a extremo rolando na cama e chorando de 
indignao. O cabelo-de-fogo norte-americano, que realmente comeava a lhe 
interessar, pareceu-lhe um beb de fraldas. Foi ento que entendeu as borboletas 
amarelas que precediam as aparies de Mauricio Babilonia. Vira-as antes, sobretudo 
na oficina mecnica, e pensara que estavam fascinadas pelo cheiro da pintura. Alguma 
vez t-las-ia sentido voejar sobre a sua cabea -na penumbra do cinema. Mas quando 
Mauricio Babilonia comeou a persegui-la como um espectro que s ela identificava na 
multido, compreendeu que as borboletas amarelas tinham alguma coisa que ver com 
ele. Mauricio Babilonia estava sempre na platia dos concertos, no cinema, na missa, e 


ela no necessitava v -lo para descobri-lo, porque o indicavam as borboletas. Uma vez, 
Aureliano Segundo se impacientou tanto com o sufocante movimento de asas que ela 
sentiu o impulso de confiar-lhe o seu segredo como lhe havia prometido, mas o 
instinto lhe indicou que desta vez ele no ia rir como de costume: Que diria a sua me 
se soubesse. Certa manh, enquanto podavam as rosas, Fernanda lanou um grito de 
espanto e quis tirar Meme do lugar em que estava e que era o mesmo lugar do jardim 
de onde Remedios, a bela, subira aos cus. Tivera por um instante a impresso de que o 
milagre ia se repetir na sua filha, porque tinha-se perturbado com um repentino 
movimento de asas. Eram as borboletas. Meme as viu como se tivessem nascido de 
repente na luz e seu corao deu um baque. Nesse momento, entrava Mauricio 
Babilonia com um pacote que, segundo disse, era um presente de Patricia Brown. 
Meme engoliu o rubor, assimilou a perturbao, e at conseguiu um sorriso natural 
para pedir-lhe o favor de coloc-lo no parapeito, porque tinha os dedos sujos da terra. 
A nica coisa que Fernanda notou no homem que poucos meses depois haveria de 
expulsar de casa sem se lembrar de que o tivesse visto alguma vez foi a textura biliosa 
da pele. 

  um homem muito esquisito  disse Fernanda. Est escrito na testa que 
vai morrer. 
Meme pensou que sua me tinha ficado impressionada com as borboletas. 
Quando acabaram de podar o roseiral, lavou as mos e levou o pacote para o quarto 
para abri-lo. Era uma espcie de brinquedo chins; composto de cinco caixas 
concntricas e, na ltima, um carto laboriosamente desenhado por algum que mal 
sabia escrever: A gente se v sbado no cinema. Meme sentiu o terror tardio de que a 
caixa tivesse estado tanto tempo no parapeito, ao alcance da curiosidade de Fernanda, 
e, embora a lisonjeasse a audcia e o engenho de Mauricio Babilonia, comoveu-a a sua 
ingenuidade de esperar que ela no faltasse ao encontro. Meme j sabia que Aureliano 
Segundo tinha um compromisso no sbado  noite. Entretanto, o fogo da ansiedade 
abrasou-a de tal modo no correr da semana que no sbado convenceu o pai a deix-la 
sozinha no cinema e voltar para busc-la no final da sesso. Uma borboleta noturna 
voejou sobre a sua cabea enquanto as luzes estiveram acesas. E ento aconteceu. 
Quando as Luzes se apagaram, Mauricio Babilonia se sentou do seu lado. Meme se 
sentiu debater num pntano de desespero, do qual s poderia ser resgatada, como 
acontecera no sonho, por aquele homem cheirando a leo de motor que mal distinguia 
na penumbra. 

 Se voc no tivesse vindo  ele disse  no teria me visto nun ca mais. 
Meme sentiu o peso da sua mo no joelho e soube que ambos chegavam naquele 
instante ao outro lado do desamparo. 

 O que me choca em voc  sorriu   que sempre diz exatamante o que no 
devia dizer. 
Ficou louca por ele. Perdeu o sono e o apetite e se afundou to profundamente 
na solido que at o pai se transformou num estorvo para ela. Elaborou um intrincado 
n de compromissos falsos para desorientar Fernanda, perdeu de vista as amigas, 
pulou por cima dos convencionalismos para encontrar-se com Mauricio Babilonia a 
qualquer hora e em qualquer parte. No princpio, incomodava-a a sua rudeza. Na 
primeira vez em que se viram a ss, nos prados desertos atrs da oficina mecnica, ele a 
arrastou sem misericrdia a um estado animal que a deixou extenuada. Demorou 
algum tempo para se dar conta de que tambm aquela era uma forma da ternura e foi 


ento que perdeu o sossego e no vivia seno para ele, transtornada pela ansiedade de 
se fundir no seu entorpecedor bafo de leo esfregado com gua sanitria. Pouco antes 
da morte de Amaranta, tropeou de repente com um espao de lucidez dentro da 
loucura e tremeu diante da incerteza do futuro. Ento ouviu falar de uma mulher que 
fazia prognsticos pelas cartas e foi visit-la em segredo. Era Pilar Ternera. Desde que 
esta a viu entrar, soube dos recnditos motivos de Meme. Sente-se, disse-lhe. Eu no 
preciso do baralho para averiguar o futuro de um Buenda. Meme ignorava, e ignorou 
sempre, que aquela pitonisa centenria era sua bisav. Tampouco teria acreditado, 
depois do agressivo realismo com que ela lhe revelou que a ansiedade do namoro no 
encontrava repouso a no ser na cama. Era o mesmo ponto de vista de Mauricio 
Babilonia, mas Meme se recusava a lhe dar crdito, pois no fundo supunha que ele 
estava inspirado em algum mau critrio de operrio braal. Ela pensava ento que uma 
forma de amor derrotava a outra, porque fazia parte da ndole dos homens repudiar a 
fome uma vez satisfeito o apetite. Pilar Ternera no s dissipou o erro como tambm 
lhe ofereceu a velha cama de lona onde ela concebera Arcadio, o av de Meme, e onde 
concebera depois a Aureliano Jos. Ensinou-lhe, alm.disso, como prevenir a 
concepo indesejvel mediante a vaporizao de cataplasmas de mostarda e deu 
receitas de beberagens que em casos de contratempo faziam expulsar at os remorsos 
de conscincia. Aquela entrevista infundiu em Meme o mesmo sentimento de valentia 
que experimentara na tarde da bebedeira. A morte de Amaranta, entretanto, obrigou-a 
a adiar a deciso. Enquanto duraram as nove noites, ela no se afastou um s instante 
de Mauricio Babilonia, que andava confundido com a multido que invadira a casa. 
Vieram logo o luto prolongado e o enclausuramento obrigatrio e se separaram por 
algum tempo. Foram dias de tanta agitao interior, de tanta ansiedade irreprimvel e 
tantos desejos reprimidos, que na primeira tarde em que Meme conseguiu sair foi 
diretamente  casa de Pilar Ternera. Entregou-se a Mauricio Babilonia sem resistncia, 
sem pudor, sem formalismos e com uma vocao to fluida e uma intuio to sbia 
que um homem mais desconfiado que o seu poderia confundir com uma requintada 
experincia. Amaram-se duas vezes por semana durante mais de trs meses, 
protegidos pela cumplicidade inocente de Aureliano Segundo, que acreditava sem 
malcia as meias-liberdades da filha, s para v -la liberada da rigidez da me. Na noite 
em que Fernanda os surpreendeu no cinema, Aureliano Segundo se sentiu angustiado 
pelo peso da conscincia e visitou Meme no quarto onde a trancara Fernanda, 
confiando em que ela se desafogaria com as confidncias que lhe estava devendo. Mas 
Meme se negou a tudo. Estava to segura de si mesma, to aferrada  sua solido, que 
Aureliano Segundo teve a impresso de que j no existia nenhum vnculo entre eles, 
que a camaradagem e a cumplicidade no eram mais do que uma iluso do passado. 
Pensou em falar com Mauricio Babilonia, acreditando que a sua autoridade de antigo 
patro f-lo-ia desistir dos seus propsitos, mas Petra Cotes convenceu-o de que 
aquilo era assunto de mulher, de modo que ficou flutuando num limbo de indeciso, e 
mal sustentado pela esperana de que a clausura terminasse com as angstias da filha. 

Meme no deu nenhuma amostra de aflio. Pelo contrrio, do quarto contguorsula percebeu o ritmo sossegado do seu sono, a serenidade dos seus afazeres, a 
ordem das suas refeies e a boa sade da sua digesto. A nica coisa que intrigoursula depois de quase dois meses de castigo foi que Meme no tomasse banho de 
manh, como todos faziam, mas s sete da noite. Uma vez pensou em preveni-la contra 
os escorpies, mas Meme era to esquiva com ela, pela convico de que a tinha 


denunciado, que preferiu no perturb-la com impertinncias de tatarav. As 
borboletas amarelas invadiam a casa desde o entardecer. Todas as noites, ao sair 
banheiro, Meme encontrava Fernanda desesperada, matando borboletas com a bomba 
de inseticida. Isto  uma desgraa, dizia. Toda a vida me disseram que as borboletas 
noturnas chamam o azar. Certa noite, enquanto Meme estava no banheiro, Fernanda 
entrou no seu quarto por acaso via tantas borboletas que mal se podia respirar. 
Apanhou pano qualquer para espant-las e seu corao gelou de pavor ao relacionar os 
banhos noturnos da filha com os cataplasmas de mostarda que rolaram pelo cho. No 
esperou por momento oportuno, como fizera da primeira vez. No dia seguinte, 
convidou para almoar o novo alcaide que, como tinha descido do pramo, e pediu a 
ele que ordenasse uma guarda noturna para o quintal, porque tinha a impresso de 
estavam roubando as galinhas. Nessa noite, a guarda abateu Mauricio Babilonia 
quando levantava as telhas para entrar banheiro onde Meme o esperava, nua e 
tremendo de amor entre os escorpies e as borboletas, como havia feito quase todas as 
noites dos ltimos meses. Um projtil incrustado coluna vertebral reduziu-o  cama 
pelo resto da vida. Morreu de velho na solido, sem uma queixa, sem um protesto, uma 
s tentativa de deslealdade, atormentado pelas lembranas e pelas borboletas amarelas 
que no lhe concederam um instante de paz e publicamente repudiado como ladro 
galinhas. 


OS ACONTECIMENTOS que haveriam de dar o golpe de morte em Macondo 
comeavam a se vislumbrar quando trouxeram para casa o filho de Meme Buenda. A 
situao pblica estava na poca to incerta que ningum tinha o esprito disposto 
para se ocupar de escndalos particulares, de modo que Fernanda contou com um 
ambiente propcio para manter a criana escondida como se no houvesse existido 
nunca. Teve que receb-la porque as circunstncias em que a trouxeram no tornavam 
possvel a recusa. Teve que suport-la contra a vontade pelo resto da vida, porque na 
hora da verdade faltou a coragem para cumprir a ntima determinao de afog-la na 
caixa-dgua do banheiro. Trancou-a na antiga oficina do Coronel Aureliano Buenda. 
A Santa Sofa de la Piedad conseguiu convencer de que o havia encontrado flutuandonuma cestinha. rsula haveria de morrer sem saber da sua origem. A pequenaAmaranta rsula, que entrou na oficina uma vez, quando Fernanda estava 
alimentando o menino, tambm acreditou na verso da cestinha flutuante. Aureliano 
Segundo, definitivamente distanciado da esposa pela forma irracional com que esta 
conduzira a tragdia de Meme, no soube da existncia do neto a no ser trs anos 
depois que o trouxeram para casa, quando o menino fugiu do cativeiro por um 
descuido de Fernanda e apareceu na varanda por uma frao de segundo, nu, com os 
cabelos emaranhados e com um impressionante sexo de carnculas de peru, como se 
no fosse uma criatura humana e sim a definio enciclopdica de um antropfago. 

Fernanda no contava com aquele mal passo do seu incorrigvel destino. O 
menino foi como a volta de uma vergonha que ela acreditava ter desterrado para 
sempre de casa. Mal levaram Mauricio Babilonia com a espinha dorsal fraturada, 
Fernanda j havia concebido at o detalhe mas nfimo de um plano destinado a 
eliminar qualquer vestgio do oprbrio. Sem consultar o marido, fez no dia seguinte a 
sua bagagem, meteu numa maleta as trs mudas que a filha podia necessitar e foi 
busc-la no quarto, meia hora antes da chegada do trem. 

 Vamos, Renata  disse a ela. 
No deu nenhuma explicao. Meme, por outro lado, no a esperava nem a 
queria. No s ignorava para onde iam como tambm tanto fazia se a tivessem levado 
para o matadouro. No voltara a falar, nem o faria pelo resto da vida, desde que ouvira 

o tiro no quintal e o simultneo uivo de dor de Mauricio Babilonia. Quando a me lhe 
ordenou sair do quarto, no se penteou nem lavou o rosto, e subiu no trem como uma 
sonmbula, sem perceber sequer as borboletas que continuavam a acompanh-la. 
Fernanda nunca soube, nem se deu o trabalho de averiguar, se o seu silncio ptreo era 
uma determinao da vontade ou se tinha ficado muda pelo impacto da tragdia. 
Meme mal se deu conta da viagem atravs da antiga regio encantada. No viu as 
sombrias e interminveis plantaes de banana de ambos os lados da linha. No viu as 
casas brancas dos ianques, nem os seus jardins ridos de poeira e calor, nem as 
mulheres de bermudas e blusas de listras azuis que jogavam cartas nas varandas. No 
viu os carros de boi carregados de cachos nas trilhas empoeiradas. No viu as donzelas 
que pulavam como savelhos nos rios transparentes para deixar nos passageiros do 
trem a amargura dos seios esplndidos, nem os barracos aglomerados e miserveis dos 
trabalhadores onde voejavam as borboletas amarelas de Mauricio Babilonia e em cujas 
portas havia crianas verdes e esqulidas sentadas nos peniquinhos e mulheres 
grvidas que gritavam improprios  passagem do trem. Aquela viso fugaz, que para 
ela era uma festa quando voltava do colgio, passou pelo corao de Meme sem avivlo. 
No olhou pela janela nem sequer quando acabou a umidade ardente das plantaes 

e o trem passou pela plancie de amapolas onde ainda estava o esqueleto carbonizado 
do galeo espanhol e saiu em seguida para o mesmo ar difano e para o mesmo mar 
espumoso e sujo onde quase um sculo antes tinham fracassado as iluses de Jos 
Arcadio Buenda. 

s cinco da tarde, quando chegaram  estao final do pntano, desceu do trem 
porque Fernanda o fez. Subiram num carrinho que parecia um morcego enorme 
puxado por um cavalo asmtico e atravessaram a cidade desolada, em cujas ruas 
interminveis e cortadas pelo salitre ressoava um exerccio de piano igual ao que 
escutara Fernanda nas sestas da adolescncia. Embarcaram num navio fluvial cuja roda 
de madeira fazia um barulho de conflagrao e cujas lminas de ferro carcomidas pelo 
xido reverberaram como a boca de um forno. Meme se trancou no camarote. Duas 
vezes por dia Fernanda deixava um prato de comida junto  cama e duas vezes por dia 
o levava intacto, no porque Meme estivesse resolvida a morrer de fome, mas porque o 
simples cheiro dos alimentos a enjoava, e o seu estmago devolvia at gua. Nem ela 
mesma sabia na poca que a sua fertilidade tinha enganado os vapores de mostarda, 
assim como Fernanda no o soube at quase um ano depois, quando trouxeram o 
menino. No camarote sufocante, transtornada pela vibrao das paredes de ferro e pela 
exalao insuportvel do lodo revolvido pela roda da embarcao, Meme perdeu a 
conta dos dias. Tinha passado j muito tempo quando viu a ltima borboleta amarela 
sendo destroada nas ps do ventilador e admitiu como uma verdade irremedivel que 
Mauricio Babilonia tinha morrido. Entre tanto, no se deixou vencer pela resignao. 
Continuava pensando nele durante a penosa travessia, a lombo de burro, do ermo 
alucinante onde Aureliano Segundo se perdera quando procurava a mulher mais bela 
que havia existido sobre a terra, e quando atravessaram a cordilheira pelas trilhas de 
ndio e entraram na cidade lgubre em cujos despenhadeiros de pedra ressoavam os 
bronzes funerrios de trinta e duas igrejas. Nessa noite, dormiram na abandonada 
manso colonial, sobre as tbuas que Fernanda ps no cho de um aposento invadido 
pelo mato e cobertas com trapos de cortinas que arrancaram das janelas e que se 
desfaziam a cada virada do corpo. Meme soube onde estavam porque no espanto da 
insnia viu passar o cavaleiro vestido de negro que numa distante vspera de Natal 
haviam trazido para casa dentro de um cofre de chumbo. No dia seguinte, depois da 
missa, Fernanda conduziu-a para um edifcio sombrio que Meme reconheceu 
imediatamente pelas evocaes que sua me costumava fazer do convento onde a 
tinham educado para rainha, e ento compreendeu que chegara ao fim da viagem. 
Enquanto Fernanda falava com algum no escritrio contguo, ela ficou num salo 
axadrezado com grandes leos de arcebispos coloniais, tremendo de frio porque ainda 
trazia um vestido de etamine com florezinhas negras e os duros borzeguins inchados 
pelo gelo do pramo. Estava de p no centro do salo, pensando em Mauricio Babilonia 
sob o jato amarelo dos vitrais, quando saiu do escritrio uma novia muito bonita que 
trazia a sua maleta com as trs mudas de roupa. Ao passar junto de Meme estendeu-
lhe a mo sem se deter. 

 Vamos, Renata  disse. 
Meme tomou-lhe a mo e se deixou levar. A ltima vez que Fernanda a viu, 
tentando acertar o passo com a novia, acabava de se fechar detrs dela a grade de 
ferro da clausura. Ainda pensava em Mauricio Babilonia, no seu cheiro de leo e no seu 
mbito de borboletas, e continuaria pensando nele todos os dias de sua vida at a 


remota madrugada de outono em que morreria de velhice, com o nome trocado e sem 
ter dito nunca uma s palavra, num tenebroso hospital de Cracvia. 

Fernanda regressou a Macondo num trem protegido por guardas armados. 
Durante a viagem percebeu a tenso dos passageiros, o aparato militar nos povoados 
da linha e o ar rarefeito pela certeza de que alguma coisa de grave ia acontecer, mas 
careceu de informao enquanto no chegou a Macondo e lhe contaram que Jos 
Arcadio Segundo estava incitando  greve os trabalhadores da companhia bananeira. 
Era s o que faltava, resmungou Fernanda. Um anarquista na famlia. A greve 
estourou duas semanas depois e no teve as conseqncias dramticas que se temiam. 
Os operrios aspiravam a que no os obrigassem a cortar e embarcar banana aos 
domingos, e o pedido pareceu to justo que at o Padre Antonio Isabel intercedeu em 
seu favor, porque o achou de acordo com a Lei de Deus. O triunfo da ao, assim como 
de outras que se promoveram nos meses seguintes, tirou do anonimato o descolorido 
Jos Arcadio Segundo, de quem se costumava dizer que s tinha servido para encher o 
povoado de putas francesas. Com a mesma deciso impulsiva com que vendeu seus 
galos de briga para fundar uma empresa de navegao desatinada, renunciou ao cargo 
de capataz de grupo da companhia bananeira e tomou o partido dos trabalhadores. 
Muito em breve foi apontado como agente de uma conspirao internacional contra a 
ordem pblica. Uma noite, no meio de uma semana obscurecida por boatos sombrios, 
escapou por milagre de quatro tiros de revlver que lhe foram endereados por um 
desconhecido, quando saa de uma reunio secreta. Foi to tensa a atmosfera dos 
meses seguintes que at rsula a percebeu no seu refgio de trevas e teve a impresso 
de estar vivendo de novo os tempos incertos em que seu filho Aureliano carregava no 
bolso as plulas homeopticas da subverso.Tentou falar com Jos Arcadio Segundo 
para faz-lo conhecer esse precedente, mas Aureliano Segundo informou-a de que 
desde a noite do atentado ignorava-se o seu paradeiro. 

 Igual a Aureliano  exclamou rsula.   como se o mundo estivesse 
dando voltas. 
Fernanda permaneceu imune  incerteza desses dias. Carecia de contatos com o 
mundo exterior, desde a violenta discusso que teve com o marido por ter 
determinado a sorte de Meme sem o seu consentimento. Aureliano Segundo estava 
disposto a resgatar a filha, com a polcia se fosse necessrio, mas Fernanda f-lo ver os 
papis em que se provava que tinha ingressado na clausura pela prpria vontade. 
Realmente Meme os havia assinado quando j estava do outro lado da grade de ferro e 

o fez com o mesmo desdm com que se deixara conduzir. No fundo, Aureliano 
Segundo no acreditou na legitimidade das provas, assim como nunca tinha acreditado 
que Mauricio Babilonia tivesse entrado no quintal para roubar galinhas, mas ambos os 
recursos serviram para tranqilizar a sua conscincia e pde ento voltar sem 
remorsos para a sombra de Petra Cotes, onde reiniciou as farras ruidosas e as 
comilanas desenfreadas. Alheia  inquietude do povoado, surda aos terrveisprognsticos de rsula, Fernanda deu os ltimos toques no seu plano consumado. 
Escreveu uma extensa carta a seu filho Jos Arcadio, que j ia receber as primeiras 
ordens, e nela lhe comunicou que sua irm Renata tinha expirado na paz d Senhor,
em conseqncia da febre amarela. Em seguida, deixou Amaranta rsula aos cuidados 
de Santa Sofa de la Piedad e se dedicou a organizar a sua correspondncia com os 
mdicos invisveis, atrapalhada pelo caso de Meme. A primeira coisa que fez foi marcar 
a data definitiva para a adiada interveno teleptica. Mas os mdicos invisveis 

responderam que no era prudente enquanto persistisse o estado de agitao social em 
Macondo. Ela estava to apressada e to mal informada que explicou a eles em outra 
carta que no havia tal estado de agitao e que tudo era fruto das loucuras de um 
cunhado seu, que andava com a veneta sindical, como padecera em outros tempos de 
brigas de galos e de navegao. Ainda no tinham entrado em acordo, na calorenta 
quarta-feira em que bateu na porta de casa uma freira anci que trazia uma cestinha 
pendurada no brao. Ao abrir, Santa Sofa de la Piedad pensou que fosse um presente e 
tentou tirar-lhe a cestinha coberta com um primoroso guardanapo de renda. Mas a 
freira impediu, porque tinha instrues para entreg-la pessoalmente, e na reserva 
mais estrita, a D.Fernanda del Carpio de Buenda. Era o filho de Meme. O antigo 
diretor espiritual de Fernanda lhe explicava numa carta que tinha nascido dois meses 
antes e que se tinham permitido batiz-lo com o nome de Aureliano, como o av, 
porque a me no despregara os lbios para expressar a sua vontade. Fernanda se 
sublevou intimamente contra aquela zombaria do destino, mas teve foras para 
dissimular diante da freira. 

 Diremos que o encontramos flutuando na cestinha sorriu. 
 Ningum vai acreditar  disse a freira. 
 Se acreditaram nas Sagradas Escrituras  replicou Fernanda  no vejo por 
que no vo acreditar em mim. 
A freira almoou em casa, enquanto esperava o trem de volta e, de acordo com a 
discrio que tinham exigido dela, no voltou a mencionar a criana, mas Fernanda viu 
nela uma testemunha indesejvel da sua vergonha e lamentou que se houvesse banido 

o costume medieval de enforcar o mensageiro de ms notcias. Foi ento que decidiu 
afogar a criatura na caixa-dgua, logo que a freira fosse embora, mas o corao no 
agentou e preferiu esperar com pacincia at que a infinita bondade de Deus a 
libertasse do estorvo. 
O novo Aureliano tinha completado um ano quando a tenso pblica estourou 
sem nenhum aviso. Jos Arcadio Segundo e outros dirigentes sindicais que tinham 
permanecido at ento na clandestinidade apareceram intempestivamente num fim de 
semana e promoveram manifestaes nos povoados da zona bananeira. A polcia se 
conformou com manter a ordem, apenas. Mas na noite de segunda-feira, os dirigentes 
foram tirados das suas casas e mandados com grilhes de cinco quilos nos ps para a 
priso da capital da provncia. Entre eles levaram Jos Arcadio Segundo e Lorenzo 
Gaviln, um coronel da revoluo mexicana, exilado em Macondo, que dizia ter sido 
testemunha do herosmo do seu compadre Artemio Cruz. Entretanto, em menos de 
trs meses j estavam em liberdade, porque o Governo e a companhia bananeira no 
conseguiram entrar em acordo sobre quem deveria aliment-los na priso. A revolta 
dos trabalhadores se baseava desta vez na insalubridade das vivendas, na farsa dos 
servios mdicos e na iniqidade das condies de trabalho. Afirmavam, alm disso, 
que no eram pagos com dinheiro de verdade, e sim com vales que s serviam para 
comprar presunto de Virgnia nos, armazns da companhia. Jos Arcadio Segundo foi 
preso porque revelou que o sistema dos vales era um recurso da companhia para 
financiar os seus navios fruteiros que, se no fosse pelo comrcio dos armazns, teriam 
que voltar vazios de Nova Orleans at os portos de embarque da banana. As outras 
acusaes eram do domnio pblico. Os mdicos da companhia no examinavam os 
doentes; apenas os punham em fila indiana diante dos ambulatrios, e uma enfermeira 
lhes colocava na lngua uma plula da cor da pedra-lipes  tivessem impaludismo, 


blenorragia ou priso de ventre. Era uma teraputica to generalizada que as crianas 
entravam na fila vrias vezes e, em vez de engolir as plulas, levavam-nas para casa, 
para marcar com elas os nmeros cantados no jogo de vspora. Os operrios da 
companhia estavam amontoados em barracos miserveis. Os engenheiros, em vez de 
construir latrinas, traziam para os acampamentos, no Natal, um reservado porttil 
para cada cinqenta pessoas e faziam demonstraes pblicas de como utiliz-los para 
que durassem mais. Os decrpitos advogados vestidos de negro, que em outros tempos 
tinham assediado o Coronel Aureliano Buenda e que agora eram procuradores da 
companhia bananeira, desvirtuavam a funo com arbitrariedades que pareciam passes 
de mgica. Quando os trabalhadores redigiram uma lista de pedidos unnime, muito 
tempo se passou sem que pudessem notificar oficialmente a companhia bananeira. 
Imediatamente aps ter conhecido a resoluo, o Sr. Brown enganchou no trem o seu 
suntuoso vago de vidro e desapareceu de Macondo junto com os representantes mais 
conhecidos da sua empresa. Entretanto, vrios operrios encontraram um deles no 
sbado seguinte num bordel e o fizeram assinar uma cpia do ofcio de reivindicaes 
quando estava nu com a mulher que se prestou a lev-lo para a armadilha. Os 
enlutados advogados demonstraram em juzo que aquele homem no tinha nada que 
ver com a companhia e, para que ningum pusesse em dvida os seus argumentos, 
fizeram-no prender como vigarista. Mais ta rde, o Sr. Brown foi surpreendido viajando 
incgnito num vago de terceira classe e lhe fizeram assinar outra cpia da lista de 
reivindicaes. No dia seguinte, compareceu diante dos juzes com o cabelo pintado de 
preto e falando um castelhano fluente. Os advogados demonstraram que no era o Sr. 
Jack Brown, superintendente da companhia bananeira e nascido em Prattville, 
Alabama, mas um inofensivo vendedor de plantas medicinais, nascido em Macondo e 
ali mesmo batizado com o nome de Dagoberto Fonseca. Pouco depois, diante de uma 
nova tentativa dos trabalhadores, os advogados exibiram em lugares pblicos o 
atestado de bito do Sr. Brown, autenticado por cnsules e chanceleres, e no qual se 
dava f de que no ltimo nove de junho ele tinha sido atropelado em Chicago por um 
carro de bombeiros. Cansados daquele delrio hermenutico, os trabalhadores 
repudiaram as autoridades de Macondo e subiram com as suas queixas aos tribunais 
supremos. Foi l que os ilusionistas do direito demonstraram que as reclamaes 
careciam de toda validade, simplesmente porque a companhia bananeira no tinha, 
nem tinha tido nunca nem teria jamais, trabalhadores a seu servio, mas sim que os 
recrutava ocasionalmente e em carter temporrio. De modo que se dissolveu a 
patranha do presunto de Virgnia, das plulas milagrosas e dos reservados natalinos, e 
se estabeleceu por sentena do tribunal, e se proclamou em decretos solenes, a 
inexistncia dos trabalhadores. 

A grande greve estourou. Os cultivos ficaram pelo meio, a fruta apodreceu no p 
e os trens de cento e vinte vages ficaram parados nos desvios. Os operrios ociosos 
atulhavam as aldeias. A Rua dos Turcos reverberou num sbado de muitos dias e no 
salo de bilhar do Hotel de Jacob foi preciso organizar turnos de vinte e quatro horas. 
L estava Jos Arcadio Segundo, no dia em que se anunciou que o exrcito tinha sido 
encarregado de restabelecer a ordem pblica. Embora no fosse homem de pressgios, 
a notcia foi para ele como um anncio de morte que tinha esperado desde a manh 
distante em que o Coronel Gerineldo Mrquez lhe permitira ver um fuzilamento. 
Entretanto, o mau agouro no alterou a sua gravidade. Fez a jogada que tinha prevista 
e no errou a carambola. Pouco depois, as descargas de bumbo, os latidos do clarim, os 


gritos e o tropel do povo lhe indicaram que no s a partida de bilhar, mas tambm a 
calada e solitria partida que jogava consigo mesmo desde a madrugada da execuo, 
tinham, por fim, terminado. Ento, chegou at a rua e viu. Eram trs regimentos cuja 
marcha pautada por tambor de gals fazia a terra trepidar. O seu resfolegar de drago 
multicfalo impregnou de um vapor fedorento a claridade do meio-dia. Eram 
pequenos, macios, brutos. Suavam com suor de cavalo e tinham um cheiro de carne 
viva macerada pelo sol e a impavidez taciturna e impenetrvel dos homens do pramo. 
Embora demorassem mais de uma hora a passar, davam a impresso de ser uns poucos 
pelotes andando em crculo, porque todos eram idnticos, filhos da mesma me, e 
todos suportavam com igual imbecilidade o peso das mochilas e dos cantis, e a 
vergonha dos fuzis com as baionetas caladas, e a ferida da obedincia cega e o sentidoda honra. rsula os ouviu passar do seu leito de trevas e levantou a mo com os dedos 
cruzados. Santa Sofia de la Piedad existiu por um instante, inclinada sobre a toalha 
bordada que acabava de passar a ferro, e pensou em seu filho, Jos Arcadio Segundo, 
que viu passar, pela porta do Hotel de Jacob, sem se perturbar, os ltimos soldados. 

A lei marcial facultava ao exrcito assumir funes de rbitro da controvrsia, 
mas no se fez nenhuma tentativa de conciliao. Imediatamente aps se exibirem em 
Macondo, os soldados puseram de lado os fuzis, cortaram e embarcaram as bananas e 
movimentaram os trens. Os trabalhadores, que at ento se haviam conformado com 
esperar, atiraram-se ao mato sem mais armas que os seus faces de trabalho, e 
comearam a sabotar a sabotagem. Incendiaram fazendas e armazns, destruram os 
trilhos para impedir o trnsito dos trens, que comeavam a abrir caminho a fogo de 
metralhadora, e cortaram os fios do telgrafo e do telefone. Os canais de irrigao 
tingiram-se de sangue. O Sr. Brown, que estava vivo no galinheiro eletrificado, foi 
tirado de Macondo com a sua famlia e as de Outros compatriotas seus, e conduzido 
para territrio seguro sob a proteo do exrcito. A situao ameaava evoluir para 
uma guerra civil desigual e sangrenta quando as autoridades fizeram um apelo aos 
trabalhadores para que se concentrassem em Macondo. O apelo anunciava que o chefe 
civil e militar da provncia chegaria na sexta-feira seguinte, disposto a interceder no 
conflito. 

Jos Arcadio Segundo estava entre a multido que se concentrou na estao 
desde a manh de sexta-feira. Tinha participado de uma reunio de dirigentes 
sindicais e tinha sido encarregado, junto com o Coronel Gaviln, de se confundir com a 
multido e orient-la segundo as circunstncias. No se sentia bem e moldava uma 
massa salitrosa no cu da boca desde que notou que o exrcito tinha colocado ninhos 
de metralhadoras em volta da praa e que a cidade cercada da companhia bananeira 
estava protegida por peas de artilharia. At as doze, esperando um trem que no 
chegava, mais de trs mil pessoas, entre trabalhadores, mulheres e crianas, tinham 
atulhado o espao descoberto em frente da estao e se apertavam nas ruas adjacentes, 
que o exrcito fechara com filas de metralhadoras. Aquilo parecia, ento, mais que uma 
recepo, uma feira jubilosa. Haviam transferido as barraquinhas de frituras e as 
tendas de bebidas da Rua dos Turcos e o povo suportava com muito boa vontade a 
amolao da espera e o sol abrasador. Um pouco antes das trs, correu o boato de que 

o trem oficial no chegaria at o dia seguinte. A multido cansada exalou um suspiro 
de desalento. Um tenente do exrcito subiu em seguida no teto da estao, onde havia 
quatro ninhos de metralhadoras apontadas contra a multido, e deu um toque de 
silncio. Ao lado de Jos Arcadio Segundo estava uma mulher descala, muito gorda, 

com duas crianas de cerca de quatro e sete anos. Pegou o menor no colo e pediu a Jos 
Arcadio, sem reconhec-lo, que levantasse o outro para que ouvisse melhor o que iam 
dizer. Jos Arcadio Segundo acavalou o menino na nuca. Muitos anos depois, esse 
menino haveria de continuar contando, sem que ningum acreditasse, que tinha visto o 
tenente lendo com um megafone de vitrola o decreto Nmero 4 do Chefe Civil e 
Militar da provncia, assinado pelo General Carlos Cortes Vargas e pelo seu secretrio, 

o Major Henrique Garca Isaza, e em trs artigos de oitenta palavras classificava os 
grevistas de quadrilha de malfeitores e facultava ao exrcito o direito de mat-los a bala. 
Lido o decreto, no meio de uma ensurdecedora vaia protesto, um capito 
substituiu o tenente no teto da estao e, com o megafone de vitrola, fez sinal de que 
queria falar.A multido voltou a fazer silncio. 

 Senhoras e senhores disse o capito com uma baixa, lenta, um pouco cansada 
 tm cinco minutos para se retirar. 
A vaia e os gritos repetidos afogaram o toque de que anunciou o princpio do 
prazo. Ningum se mexeu. 

 J passaram os cinco minutos  disse o capito mesmo tom.  Mais um 
minuto e atiramos. 
Jos Arcadio Segundo, suando gelo, desceu o menino ombros e o entregou  
mulher. Esses cornos so capazes disparar, murmurou ela. Jos Arcadio Segundo no 
teve tempo de falar, porque no mesmo instante reconheceu a voz rouca do Coronel 
Gaviln fazendo eco com um grito s palavras da mulher. Embriagado pela tenso, pela 
maravilhosa profundidade do silncio e, alm disso, convencido de que nada faria se 
mover aquela multido pasmada pela fascinao da morte, Jos Arcadio Segundo se 
ergueu acima das cabeas que tinha pela frente, e, pela primeira vez em sua vida, 
levantou a voz. 

 Cornos! gritou. Podem levar de presente o minuto que falta. 
Ao fim do seu grito aconteceu uma coisa que no lhe produziu espanto, mas 
uma espcie de alucinao. O capito deu a ordem de fogo e quatorze ninhos de 
metralhadoras responderam imediatamente. Mas tudo parecia uma farsa. Era como se 
as metralhadoras estivessem carregadas com fogos artifcio, porque se escutava o seu 
resfolegante matraquear se viam as suas cusparadas incandescentes, mas no se 
percebia a mais leve reao, nem uma voz, nem sequer um suspiro entre a multido 
compacta que parecia petrificada por uma invulnerabilidade instantnea. De repente, 
de um lado da estao, um grito de morte quebrou o encantamento: Aaaai, minha 
me. Uma fora ssmica, uma respirao vulcnica, um rugido de cataclismo 
arrebentaram no centro da multido com uma descomunal potncia expansiva. Jos 
Arcadio Segundo mal teve tempo de levantar o menino, enquanto a me e o outro eram 
absorvidos pela multido centrifugada pelo pnico. 

Muitos anos depois, o menino haveria de contar ainda, apesar de os vizinhos 
continuarem a encar-lo como um velho maluco, que Jos Arcadio Segundo o erguera 
por cima da sua cabea e se deixara arrastar, quase no ar, como que flutuando no terror 
da multido, para uma rua adjacente. A posio privilegiada do menino lhe permitiu 
ver que nesse momento a massa ululante comeava a chegar na esquina e a fila de 
metralhadoras abriu fogo. Vrias vozes gritaram ao mesmo tempo: 

 Atirem-se no cho! Atirem-se no cho! 
J os das primeiras linhas o tinham feito, varridos pelas rajadas da metralha. Os 
sobreviventes, em vez de se atirarem no cho, tentaram voltar  praa e o pnico deu 


uma rabanada de drago, e os mandou numa onda compacta contra a outra onda 
compacta que se movimentava em sentido contrrio, despedida pela outra rabanada de 
drago da rua oposta, onde tambm as metralhadoras disparavam sem trgua. Estavam 
encurralados, girando num torvelinho gigantesco que pouco a pouco se reduzia ao seu 
epicentro, porque os seus bordos iam sendo sistematicamente recortados em crculo, 
como descascando uma cebola, pela tesoura insacivel e metdica da metralha. O 
menino viu uma mulher ajoelhada, com os braos em cruz, num espao limpo, 
misteriosamente vedado aos disparos. Ali o colocou Jos Arcadio Segundo, no instante 
de cair com a cara banhada em sangue, antes que o tropel colossal arrasasse com o 
espao vazio, com a mulher ajoelhada, com a luz do alto cu de seca e com o putomundo onde rsula lguarn tinha vendido tantos animaizinhos de caramelo. 

Quando Jos Arcadio Segundo acordou, estava de peito para cima nas trevas. 
Percebeu que ia num trem interminvel e silencioso, e que tinha o cabelo empastado 
pelo sangue seco e que lhe doam todos os ossos. Sentiu um sono insuportvel. 
Disposto a dormir muitas horas, a salvo do terror e do horror, acomodou-se do lado 
que lhe doa menos e s ento descobriu que estava deitado sobre os mortos. No havia 
um espao livre no vago, exceto o corredor central. Deviam ter passado vrias horas 
do massacre, porque os cadveres tinham a mesma temperatura do gesso no outono e a 
sua mesma consistncia de espuma petrificada, e os que os tinham colocado no vago 
tiveram tempo de arrum-los na ordem e no sentido em que se transportavam os 
cachos de banana. Tentando fugir do pesadelo, Jos Arcadio Segundo arrastou-se de 
um vago a outro, na direo em que avanava o trem, e, nos relmpagos que surgiram 
por entre as esquadrias de madeira ao passar pelos povoados adormecidos, via os 
mortos homens, os mortos mulheres, os mortos crianas, que iam talvez ser atirados ao 
mar como as bananas refugadas. S re conheceu uma mulher que vendia refrescos na 
praa e o Coronel Gaviln, que ainda trazia enrolado na mo o cinturo com a fivela. de 
prata mexicana com que tentara abrir caminho atravs do pnico. Quando chegou ao 
primeiro vago deu um salto para a escurido e ficou estendido na vala da estrada at 
que o trem acabou de passar. Era o mais comprido que j tinha visto, com quase 
duzentos vages de carga e uma locomotiva em cada extremo e uma terceira no centro. 
No tinha nenhuma luz, nem sequer os faris vermelhos e verdes de disposio, e 
deslizava numa velocidade noturna e sigilosa. Em cima dos vages se viam os vultos 
escuros dos soldados com as metralhadoras preparadas. 

Depois da meia-noite caiu um aguaceiro torrencial. Jose Arcadio Segundo 
ignorava onde tin ha saltado mas sabia que caminhando em sentido contrrio ao do 
trem chegaria a Macondo. Ao fim de mais de trs horas de marcha, ensopado at os 
ossos, com uma dor de cabea terrvel, divisou as primeiras casas  luz do amanhecer. 
Atrado pelo cheiro do caf, entrou numa cozinha onde uma mulher com uma criana 
no colo estava inclinada sobre o fogo. 

 Bom dia  disse exausto.  Sou Jos Arcadio Segundo Buenda. 
Pronunciou o nome completo, letra por letra, para se convencer de que estava 
vivo. Fez bem porque a mulher tinha pensado que era uma assombrao, ao ver na 
porta a figura esqulida, sombria, com a cabea e a roupa sujas de sangue e tocada pela 
solenidade da morte. Conhecia-o. Trouxe uma manta para que se cobrisse enquanto 
secava a roupa no fogo, esquentou gua para que lavasse a ferida, que era apenas um 
arranho na pele, e lhe deu uma fralda limpa para que vendasse a cabea. Em seguida, 


serviu-lhe uma xcara de caf, sem acar como lhe haviam dito que tomavam os 
Buenda, e estendeu a roupa perto do fogo. 

Jos Arcadio Segundo no falou enquanto no terminou de tomar o caf. 

 Deviam ser uns trs mil  murmurou. 
 O qu? 
 Os mortos  esclareceu ele.  Deviam ser todos os que estavam na estao. 
A mulher mediu-o com um olhar de pena. Aqui no houve mortos, disse. 
Desde a poca do seu tio, o coronel, que no acontece nada em Macondo. Em trs 
cozinhas onde se deteve Jos Arcadio Segundo antes de chegar em casa lhe disseram a 
mesma coisa: No houve mortos. Passou pela praa da estao e viu as mesas de 
frituras amontoadas uma em cima da outra e tampouco ali encontrou algum rastro do 
massacre. As ruas estavam desertas sob a chuva tenaz e as casas fechadas, sem 
vestgios de vida interior. O nico sinal humano era o primeiro toque para a missa. 
Bateu na porta da casa do Coronel Gaviln. Uma mulher grvida, que tinha visto 
muitas vezes, fechou-lhe a porta na cara. Foi-se embora, disse assustada. Voltou 
para a terra dele. A entrada principal do galinheiro entelado estava vigiada, como 
sempre, por dois guardas locais que pareciam de pedra sob a chuva, com capas e 
capacetes de impermevel. Na sua ruazinha marginal, os negros antilhanos cantavam 
em coro os salmos de sbado. Jos Arcadio Segundo pulou a cerca do quintal e entrou 
em casa pela cozinha. Santa Sofia de la Piedad mal levantou a voz. Que Fernanda no 
te veja, disse. Agora mesmo estava se levantando. Como se cumprisse um pacto 
implcito, levou o filho para o quarto dos penicos, arrumou-lhe o arrebentado catre de 
Melquades e s duas da tarde, enquanto Fernanda fazia a sesta, passou-lhe pela janela 
um prato de comida. 

Aureliano Segundo dormira em casa porque a chuva o surpreendera ali e, s trs 
da tarde, ainda continuava esperando que estiasse. Informado em segredo por Santa 
Sofa de la Piedad, a essa hora visitou o irmo no quarto de Melquades. Tampouco ele 
acreditou na verso do massacre nem no pesadelo do trem carregado de mortos que 
viajava para o mar. Na noite anterior tinham lido uma comunicao nacional 
extraordinria, para informar que os operrios tinham obedecido  ordem de evacuar a 
estao e se dirigiram para as suas casas em caravanas pacficas. A comunicao 
informava tambm que os dirigentes sindicais, com um elevado esprito patritico, 
tinham reduzido as suas reivindicaes a dois pontos: reforma dos servios mdicos e 
construo de latrinas nas vivendas. Informou-se mais tarde que, quando as 
autoridades militares obtiveram o acordo dos trabalhadores, apressaram-se em 
comunic-lo ao Sr. Brown e que este no s tinha aceito as novas condies como 
tambm oferecera pagar trs dias de festas pblicas para celebrar o fim do conflito. S 
que quando os militares lhe perguntaram para que data se podia anunciar a assinatura 
do acordo, ele olhou pela janela do cu listrado de relmpagos e fe z um profundo gesto 
de incerteza: 

 Quando estiar  disse.  Enquanto durar a chuva suspendemos todas as 
atividades. 
No chovia h trs meses e era tempo de seca. Mas quando o Sr. Brown 
anunciou a sua deciso, precipitou-se em toda a zona bananeira o aguaceiro torrencial 
que surpreendeu Jos Arcadio Segundo a caminho de Macondo. Uma semana depois 
continuava chovendo. A verso oficial, mil vezes repetida e repisada em todo o pas por 
quanto meio de divulgao o Governo encontrou ao seu alcance, terminou por se 


impor: no houve mortos, os trabalhadores satisfeitos tinham voltado para o seio das 
suas famlias, e a companhia bananeira suspendia as suas atividades at passar a chuva. 
A lei marcial. continuava, prevendo que fosse necessrio aplicar medidas de 
emergncia para a calamidade pblica do aguaceiro interminvel, mas a tropa estava 
aquartelada. Durante o dia, os militares andavam pelas torrentes das ruas, com as 
calas enroladas na metade da perna, brincando de naufrgio com as crianas. De 
noite, depois do toque de recolher, derrubavam as portas a coronhadas, arrancavam os 
suspeitos das camas e os levavam para uma viagem sem regresso. Era ainda a busca e o 
extermnio dos malfeitores, assassinos, incendirios e revoltosos do Decreto Nmero 
Quatro, mas os militares o negavam aos prprios parentes das suas vtimas, que 
atulhavam os escritrios dos comandantes em busca de notcias. Claro que foi um 
sonho, insistiam os oficiais. Em Macondo no aconteceu nada, nem est acontecendo 
nem acontecer nunca.  um povoado feliz. Assim consumaram o extermnio dos 
lideres sindicais. 

O nico sobrevivente foi Jos Arcadio Segundo. Uma noite de fevereiro se 
ouviram na porta as batidas inconfundveis das coronhas. Aureliano Segundo, que 
continuava esperando que estiasse para sair, abriu a seis soldados comandados por um 
oficial. Ensopados de chuva, sem pronunciar uma palavra, revistaram a casa cmodopor cmodo, armrio por armrio, das salas at a despensa. rsula acordou quando 
acenderam a luz do quarto e no exalou um suspiro enquanto durou a revista, mas 
manteve os dedos cruzados, movendo-os para onde os soldados se moviam. Santa Sofa 
de la Piedad conseguiu prevenir Jos Arcadio Segundo que dormia no quarto de 
Melquades, mas ele compreendeu que era tarde demais para tentar a fuga. De modo 
que Santa Sofa de la Piedad tornou a fechar a porta e ele ps a camisa e os sapatos e se 
sentou no catre para esperar que chegassem. Nesse momento estavam revistando a 
oficina de ourivesaria. O oficial tinha feito abrir o cadeado e, com uma rpida passagem 
da lanterna, tinha visto a mesa de trabalho e a prateleira com os frascos de cidos e os 
instrumentos que continuavam no mesmo lugar em que os deixara o seu dono e 
pareceu compreender que naquele quarto no vivia ningum. Entretanto, perguntou 
astutamente a Aureliano Segundo se era ourives e ele lhe contou que aquela tinha sidoa oficina do Coronel Aureliano da. h, fez o oficial e acendeu a luz e ordenou uma 
vista to minuciosa que no lhes escaparam os dezoito peixinhos de ouro que tinham 
ficado sem fundir e que estavam escondidos atrs dos frascos na vasilha de lata. O 
oficial os examinou um por um na mesa de trabalho e ento se humanizou por 
completo. Eu gostaria de levar um para mim, se o senhor permite, disse. Em certa 
poca foram uma senha da subverso, mas agora so uma relquia. Era jovem, um 
adolescente, sem nenhum sinal de timidez e com uma simpatia natural que no tinha 
sido notada at ento. Aureliano Segundo lhe deu o peixinho de presente. O oficial o 
guardou no bolso da camisa, com um brilho infantil nos olhos, e jogou os outros na 
vasilha para coloc-los onde estavam.

  uma lembrana inestimvel  disse.  O Coroa Aureliano Buenda foi um 
dos nossos maiores homens. 
Entretanto, o acesso de humanizao no modificou a conduta profissional. 
Diante do quarto de Melquades, estava outra vez com cadeado, Santa Sofia de la 
Piedad lanou mo de uma ltima esperana. Faz mais ou menos sculo que no vive 
ningum neste quarto, disse. O oficial o fez abrir, percorreu-o com o foco da lanterna, 
e Aureliano Segundo e Santa Sofa de la Piedad viram os olhos rabes de Jos Arcadio 


Segundo no momento em que passou pela cara a rajada de luz e compreenderam que 
aquele era o fim de uma ansiedade e o princpio de outra que s encontraria alvio na 
resignao. Mas o oficial continuou examinando cmodo com a lanterna e no deu 
nenhum sinal de interesse enquanto no descobriu os setenta e dois penicos 
arregimentados nos armrios. Ento acendeu a luz. Jos Arcadio Segundo estava 
sentado na ponta do catre, pronto para sair, mais grave e pensativo do que nunca. Ao 
fundo estavam as prateleiras com os livros escalavrados, os rolos de pergaminho e a 
mesa de trabalho limpa e arrumada e ainda fresca a tinta nos tinteiros. Havia a mesma 
pureza no ar, a mesma diafanidade, o mesmo privilgio contra a poeira e a destruio 
que conhecera Aureliano Segundo na infncia e que s o Coronel Aureliano Buenda 
no pudera perceber. Mas o oficial no se interessou a no ser pelos penicos. 

 Quantas pessoas vivem nesta casa?  perguntou. 
 Cinco. 
O oficial, evidentemente, no entendeu. Deteve o olhar no espao onde 
Aureliano Segundo e Santa Sofia de la Piedad continuavam vendo Jos Arcadio 
Segundo e tambm este se deu conta de que o militar estava olhando para ele sem vlo. 
Em seguida apagou a luz e encostou a porta. Quando falou com os soldados, 
Aureliano Segundo compreendeu que o jovem militar tinha visto o quarto com os 
mesmos olhos com que o vira o Coronel Aureliano Buenda.

  verdade que ningum entra nesse quarto h pelo menos um sculo  disse 
o oficial aos soldados.  Deve ter at cobra. 
Ao se fechar a porta, Jos Arcadio Segundo teve a certeza de que a sua guerra 
tinha terminado. Anos antes, o Coronel Aureliano Buenda lhe falara da fascinao da 
guerra e tratara de demonstr-la com exemplos inumerveis tirados da sua prpria 
experincia. Ele tinha acreditado. Mas na noite em que os militares o olharam sem vlo, 
enquanto pensava na tenso dos ltimos meses, na misria da priso, no pnico da 
estao e no trem carregado de mortos, Jos Arcadio Segundo chegou  concluso de 
que o Coronel Aureliano Buenda no fora mais que um farsante ou um imbecil. No 
entendia que tivesse necessitado tantas palavras para explicar o que se sentia na 
guerra, se uma s bastava: medo. No quarto de Melquades, pelo contrrio, protegido 
pela luz sobrenatural, pelo barulho da chuva, pela sensao de ser invisvel, encontrou 

o repouso que no tinha tido por um s instante na sua vida anterior e o nico medo 
que persistia era o de que o enterrassem vivo. Contou isso para Santa Sofia de la 
Piedad, que lhe trazia as refeies dirias, e ela lhe prometeu lutar para estar viva at 
alm das suas foras, para assegurar-se de que s o enterrariam morto. A salvo de todo 
o temor, Jos Arcadio Segundo se dedicou ento a reler muitas vezes os pergaminhos 
de Melquades, tanto mais satisfeito quanto menos os entendia. Acostumado com o 
barulho da chuva, que ao fim de dois meses se transformou numa nova forma de 
silencio, a nica coisa que perturbava a sua solido eram as entradas e sadas de Santa 
Sofia de la Piedad. Por isso lhe suplicou que deixasse a comida no parapeito da janela e 
pusesse o cadeado na porta. O resto da famlia o esqueceu, inclusive Fernanda, que no 
teve inconveniente em deix -lo ali, quando soube que os militares o tinham visto sem 
reconhecer. Depois de seis meses de clausura, em vista de terem os militares deixado 
Macondo, Aureliano Segundo tirou o cadeado, procurando algum com quem 
conversar enquanto no passava a chuva. Desde que abriu a porta se sentiu agredido 
pelo mau cheiro dos penicos que estavam colocados no cho e todos muitas vezes 
ocupados. Jos Arcadio Segundo, devorado pela careca, indiferente ao ar rarefeito 

pelos vapores nauseabundos, continuava lendo e relendo os pergaminhos 
ininteligveis. Estava iluminado por um brilho serfico. Mal levantou a vista quando 
sentiu que a porta se abria, mas ao irmo bastou aquele olhar para ver repetido nele o 
destino irreparvel do bisav. 

 Eram mais de trs mil  foi tudo quanto disse Jos Arcadio Segundo.  
Agora estou certo de que eram todos os que estavam na estao. 


CHOVEU durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve pocas de 
chuvisco em que todo mundo ps a sua roupa de domingo e comps uma cara de 
convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as 
pausas como anncios de recrudescimento. O cu desmoronou-se em tempestades de 
estrupcio e o Norte mandava furaces que destelhavam as casas, derrubavam as 
paredes e arrancavam pela raiz os ltimos talos das plantaes. Como acontecera 
durante a peste da insnia, que rsula dera para recordar naqueles dias, a prpria 
calamidade ia inspirando defesas contra o tdio. Aureliano Segundo foi um dos que 
mais fizeram para no se deixar vencer pela ociosidade. Tinha vindo em casa por 
algum assunto casual na noite em que o Sr. Brown convocara a tormenta e Fernanda 
tratara de auxili-lo com um guarda-chuva meio desvaretado que encontrou num 
armrio. No h necessidade, disse ele. Fico aqui at estiar. No era, evidentemente, 
um compromisso rgido, mas esteve a ponto de cumpri-lo ao p da letra. Como a sua 
roupa estava na casa de Petra Cotes, de trs em trs dias tirava a que vestia e esperava 
de cuecas enquanto a lavavam. Para no se chatear, entregou-se  tarefa de consertar as 
numerosas imperfeies da casa. Apertou dobradias, lubrificou fechaduras, parafusou 
aldrabas e nivelou ferrolhos. Durante vrios meses foi visto vagando com uma caixa de 
ferramentas que deveria ter sido esquecida pelos ciganos na poca de Jos Arcadio 
Buenda, e ningum soube se foi pela ginstica involuntria, pelo tdio invernal ou pela 
abstinncia obrigada que a pana foi desinchando pouco a pouco como um odre e a 
cara de tartaruga beatfica ficou menos sangunea e a papada menos protuberante, at 
que ele todo acabou por ser menos paquidrmico e pde amarrar outra vez os cordes 
dos sapatos. Vendo-o co-locar os trincos e desmontar os relgios, Fernanda se 
perguntou se no estaria tambm caindo no vcio de fazer para desfazer, como o 
Coronel Aureliano Buenda com os peixinhos de ouro, Amaranta com os botes e amortalha, Jos Arcadio Segundo com os pergaminhos e rsula com as lembranas. 
Mas no era verdade. O ruim era que a chuva atrapalhava tudo e as mquinas mais 
ridas brotavam em flores por entre as engrenagens se no fossem lubrificadas de trs 
em trs dias, e se enferrujavam os fios dos brocados, e nasciam algas de aafro na 
roupa molhada. A atmosfera estava to mida que os peixes poderiam entrar pelasportas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos. Certa manh rsula 
acordou sentindo que se acabava num desmaio de placidez, e j tinha pedido que a 
levassem ao Padre Antonio Isabel, ainda que fosse numa liteira, quando Santa Sofa de 
la Piedad descobriu que ela tinha as costas empedradas de sanguessugas. 
Desprenderam-nas uma por uma, queimando-as com ties, antes que acabassem de 
sangr-la. Foi preciso abrir canais para escorrer a gua da casa e desimpedi-la de sapos 
e caracis, para que pudesse secar o cho, tirar os tijolos dos ps das camas e andar 
outra vez de sapatos. Entretido com as mltiplas mincias que reclamavam a sua 
ateno, Aureliano Segundo no percebeu que estava ficando velho, at uma tarde em 
que se viu contemplando de uma cadeira de balano o entardecer prematuro e 
pensando em Petra Cotes sem estremecer. No teria tido nenhum inconveniente em 
regressar para o amor inspido de Fernanda, cuja beleza tinha repousado com a 
maturidade, mas a chuva o havia posto a salvo de qualquer emergncia passional e lhe 
infundira a serenidade esponjosa da inapetncia. Divertiu-se pensando nas coisas que 
teria podido fazer, em outros tempos, com aquela chuva que j ia para um ano. Tinha 
sido um dos primeiros a trazer folhas de zinco para Macondo, muito antes da 
companhia bananeira p-las em moda, s para forrar com elas o quarto de Petra Cotes 


e gozar a impresso de intimidade profunda que lhe produzia, naquela poca, a 
crepitao da chuva. Mas at essas lembranas malucas da sua juventude extravagante 

o deixavam impvido, como se na ltima farra tivesse esgotado todas as suas quotas de 
libertinagem e s lhe tivesse restado o prmio maravilhoso de poder evoc-las sem 
amargura nem arrependimento. Poder-se-ia imaginar que o dilvio lhe tinha dado a 
oportunidade de se sentar para pensar e que o movimento dos alicates e das latinhas 
de leo lhe havia despertado a saudade tardia de tantos trabalhos teis que poderia ter 
feito e no fez na vida, mas nem uma coisa nem outra era verdade, porque a tentao 
de sedentarismo e domesticidade que o andava rondando no era fruto da recuperao 
nem da expiao. Vinha de muito mais longe, desenterrada pelo ancinho da chuva, dos 
tempos em que lia no quarto de Melquades as prodigiosas histrias dos tapetes 
voadores e das baleias que se alimentavam de navios com tripulaes. Foi por esses 
dias que, num descuido de Fernanda, apareceu na varanda o pequeno Aureliano e o av 
conheceu o segredo da sua identidade. Cortou-lhe o cabelo, vestiu-o, ensinou-lhe a 
perder o medo das pessoas, e muito em breve se viu que era um legtimo Aureliano 
Buendia, com as mas do rosto altas, o olhar de espanto e o ar solitrio. Para Fernanda 
foi um descanso. Havia tempo que tinha moderado a magnitude da sua soberba, mas 
no descobria como remedi-la, porque quanto mais pensava nas solues, menos 
racionais lhe pareciam. Se soubesse que Aureliano Segundo ia encarar as coisas como 
encarou, com uma boa complacncia de av, no teria feito tantas voltas nem tantos 
adiamentos, mas desde o ano anterior que se teria libertado da mortificao. Para 
Amaranta rsula, que j tinha mudado os dentes, o sobrinho foi como um brinquedo 
fugidio que a consolou do tdio da chuva. Aureliano Segundo se lembrou ento da 
enciclopdia inglesa que ningum voltara a tocar no antigo quarto de Meme. Comeou 
por mostrar as gravuras s crianas, especialmente as de animais, e mais tarde os 
mapas e as fotografias de pases remotos e personagens clebres. Como no sabia 
ingls, e como mal podia distinguir as cidades mais conhecidas e as personalidades 
mais correntes, deu para inventar nomes e lendas para satisfazer a curiosidade 
insacivel das crianas. 
Fernanda acreditava mesmo que o marido estava esperando que estiasse para 
voltar para a concubina. Nos primeiros meses de chuva temeu que ele tentasse deslizar 
para o seu quarto e que ela tivesse que passar a vergonha de lhe revelar. que estavaincapacitada para a reconciliao desde o nascimento de Amaranta rsula. Essa era a 
causa da sua ansiosa correspondncia com os mdicos invisveis, interrompida pelos 
freqentes acidentes do correio. Durante os primeiros meses, quando se soube que os 
trens descarrilhavam na tormenta, uma carta dos mdicos invisveis indicou-lhe que as 
suas se estavam perdendo. Mais tarde, quando se interromperam os contatos com os 
seus correspondentes ignotos, pensou seriamente em colocar a mscara de tigre que 
seu marido usara no carnaval sangrento para se fazer examinar, sob nome falso, pelos 
mdicos da companhia bananeira. Mas uma das tantas pessoas que passavam 
freqe ntemente pela casa trazendo as notcias ingratas do dilvio tinha dito a ela que a 
companhia estava botando abaixo os seus ambulatrios para lev-los para as terras de 
estiagem. Ento perdeu a esperana. Resignou-se a aguardar que passasse a chuva e o 
correio se normalizasse e, enquanto isso, aliviava as suas mazelas secretas com 
recursos de inspirao, porque teria preferido morrer a pr-se nas mos do nico 
mdico que restava em Macondo, o francs extravagante que se alimentava com ervasde burro. Aproximara-se de rsula, confiada de que ela conheceria algum paliativo 


para os seus quebrantos. Mas o tortuoso costume de no chamar as coisas pelo prprio 
nome levou-a a colocar o anterior no posterior e a substituir o parido pelo evacuado e a 
mudar secrees por ardores para que tudo ficasse menos vergonhoso, de modo que 
rsula concluiu razoavelmente que as perturbaes no eram uterinas, mas 
intestinais, e aconselhou-a a tomar em jejum uma dose de calomelano. No fosse por 
esse padecimento que nada teria tido de pudendo para algum que no estivesse 
doente tambm de pudiccia, e se no fosse a perda das cartas, Fernanda no teria se 
importado com a chuva, porque afinal de contas toda a sua vida tinha sido como se 
estivesse chovendo. No modificou os horrios nem perdoou os ritos. Quando a mesa 
ainda estava suspensa sobre tijolos e as cadeiras colocadas sobre tbuas para que os 
comensais no molhassem os ps, ela continuava servindo com toalhas de linho e loua 
chinesa, e acendendo os candelabros no jantar, porque achava que as calamidades no 
podiam servir de pretexto para o relaxamento dos costumes. Ningum voltara a 
aparecer na rua. Se tivesse dependido de Fernanda, no voltariam a faz-lo jamais, no 
s desde que comeara a chover, mas desde muito antes, j que ela pensava que as 
portas tinham sido inventadas para serem fechadas, e que a curiosidade pelo que 
acontecia na rua era coisa de rameira. Entretanto, ela foi a primeira a aparecer quando 
avisaram que estava passando o enterro do Coronel Gerineldo Mrquez, embora o que 
visse ento pela janela entreaberta a deixasse em tal estado de angstia que durante 
muito tempo ficou arrependida da sua debilidade. 

No se poderia imaginar um cortejo mais desolado. Tinham colocado o atade 
num carro de boi sobre o qual construram uma coberta de folhas de bananeira, mas a 
presso da chuva era to intensa e as ruas estavam to enlameadas que a cada passo as 
rodas atolavam e a coberta ameaava desmoronar. Os jatos dgua triste que caam 
sobre o atade ensopando a bandeira que tinham colocado por cima e era na realidade 
a bandeira suja de sangue e de plvora, repudiada pelos veteranos mais dignos. Sobre o 
atade tinham posto tambm o sabre com borlas de cobre e seda, o mesmo que o 
Coronel Gerineldo Mrquez pendurava no cabide da sala para entrar desarmado no 
quarto de costura de Amaranta. Atrs do carro, alguns descalos e todos com as calas 
arregaadas na metade da perna, chapinhando na lama, vinham os ltimos 
sobreviventes da capitulao de Neerlndia, trazendo numa das mos um rijo basto 
de madeira e na outra coroa de flores de papel descolorido pela chuva. Aparecera como 
uma viso irreal na rua que ainda trazia o nome Coronel Aureliano Buenda e todos 
olharam a casa ao passar. dobraram a esquina da praa, onde tiveram que pedir ajuda 
para movimentar o carro atolado. rsula se fizera levar at a porta por Santa Sofa de 
la Piedad. Acompanhou com tanta ateno as peripcias do enterro que ningum 
duvidou de que o estava vendo, sobretudo porque a sua levantada mo de arcanjo 
anunciador se movimentava com os cabeceios carro. 

 Adeus, Gerineldo, meu filho  gritou.  Cumprimente a minha gente por 
mim e diga que nos veremos quando estiar. 
Aureliano Segundo ajudou-a a voltar para a cama ecom a mesma informalidade 
com que a tratava sempre perguntou o significado da sua despedida.

  verdade  disse ela.  S estou esperando a chuva passar para morrer. 
O estado das ruas alarmou Aureliano Segundo. Tardia mente preocupado com a 
sorte dos seus animais, jogou na cabea um pedao de oleado e foi  casa de Petra 
Cotes. Encontrou-a no quintal, com gua pela cintura, tentando desencalhar o cadver 
de um cavalo. Aureliano Segundo ajudou-acom uma tranca e o enorme corpo 


tumefacto fez uma volta de sino e foi arrastado pela torrente de barro lquido. Desde 
que comeara a chuva Petra Cotes no tinha feito outra seno desentulhar o quintal 
dos animais mortos. Nas primeiras semanas mandara recados a Aureliano Segundo 
para que tomasse providncias urgentes e ele respondera que no havia pressa, que a 
situao no era alarmante, que j se pensaria em alguma coisa quando estiasse. 
Mandara-lhe dizer que os estbulos estavam se inundando, que o gado fugia para as 
terras altas onde no havia o que comer e que estava  merc das onas e da peste. 
No h nada a fazer, respondera-lhe Aureliano Segundo. Nascero outros quando 
estiar. Petra Cotes os tinha visto morrer s pencas e mal pudera livrar os que ficavam 
atolados. Viu com uma impotncia surda como o dilvio fora exterminando sem 
misericrdia uma fortuna que em certa poca era tida como a maior e mais slida de 
Macondo e da qual no restava nada a no ser o mau cheiro. Quando Aureliano 
Segundo decidiu ir ver o que estava acontecendo, s encontrou o cadver do cavalo e 
uma mula esqulida entre os escombros da cavalaria. Petra Cotes o viu chegar sem 
surpresa, sem alegria nem ressentimento, e mal se permitiu um sorriso irnico. 

 Em boa hora!  disse. 
Estava envelhecida, um feixe de ossos, e seus lanceolados olhos de animal 
carnvoro tinham ficado triste s e mansos de tanto olhar a chuva. Aureliano Segundo 
ficou mais de trs meses na sua casa, no porque no momento se sentisse melhor ali do 
que na de sua famlia, mas porque precisou de todo esse tempo para tomar a deciso de 
jogar  cabea outra vez o pedao de oleado. No h pressa, disse, como tinha dito na 
outra casa. Vamos ver se estia nas prximas horas. No decorrer da primeira semana 
foi se acostumando com os desgastes que o tempo e a chuva tinham feito na sade da 
concubina, e pouco a pouco a foi vendo como era antes, lembrando-se das suas 
exaltaes jubilosas e da fecundidade de delrio que o seu amor provocava nos animais 
e, em parte por amor e em parte por interesse, certa noite da segunda semana, 
despertou-a com carcias prementes. Petra Cotes no reagiu. Durma tranqilo, 
murmurou. A poca no est mais para essas coisas. Aureliano Segundo viu-se a si 
mesmo nos espelhos do teto, viu a espinha dorsal de Petra Cotes como uma fileira de 
carretis enfiados numa meada de nervos murchos e compreendeu que ela tinha razo, 
no por causa da poca, mas por causa deles mesmos, que j no estavam mais para 
essas coisas. 

Aureliano Segundo voltou para casa com os seus bas, convencido de que noapenas rsula, mas todos os habitantes de Macondo estavam esperando que estiasse 
para morrer. Tinha-os visto ao passar, sentados nas salas com o olhar absorto e os 
braos cruzados, sentindo transcorrer um tempo inteirio, um tempo sem desbravar, 
porque era intil dividi-lo em meses e anos, e os dias em horas, j que no se podia 
fazer nada alm de contemplar a chuva. As crianas receberam com alvoroo Aureliano 
Segundo, que voltou a tocar para elas o acordeo asmtico. Mas o concerto no lhes 
chamou tanto a ateno quanto as sesses enciclopdicas, de modo que voltaram 
novamente a se reunir no quarto de Meme, onde a imaginao de Aureliano Segundo 
transformou o dirigvel num elefante voador que procurava um lugar para dormir entre 
as nuvens. Em certa ocasio encontrou um homem a cavalo que apesar de suas vestes 
exticas conservava certo ar familiar e depois de muito examin-lo chegou  concluso 
de que era um retrato do Coronel Aureliano Buenda. Mostrou-o a Fernanda e tambm 
ela admitiu a semelhana do ginete no s com o coronel, mas com todos os membros 
da famlia, embora na verdade fosse um guerreiro trtaro. Assim foi passando o tempo, 


entre o colosso de Rodes e os encantadores de serpentes, at que a esposa lhe anunciou 
que no restavam mais do que seis quilos de carne-seca e um saco de arroz na 
despensa. 

 E o que voc quer que eu faa?  perguntou ele. 
 No sei  respondeu Fernanda.  Isso  problema de homem. 
 Bem  disse Aureliano Segundo  alguma coisa ser feita quando estiar. 
Continuou mais interessado na enciclopdia do que no problema domstico, 
mesmo quando teve que se conformar com uma pelanca e um pouco de arroz no 
almoo. Agora  impossvel fazer qualquer coisa, dizia. No pode chover a vida 
inteira. E quanto mais folga dava s urgncias da despensa, mas intensa se ia fazendo 
a indignao de Fern anda, at que os seus protestos eventuais, as suas queixas pouco 
freqentes transbordaram numa torrente incontida, desatada, que comeou certa 
manh como o montono bordo de uma guitarra e que  medida que avanava o dia 
foi subindo de tom, cada vez mais rico, mais esplndido. Aureliano Segundo no 
tomou conscincia da ladainha at o dia seguinte depois do caf quando se sentiu 
aturdido por um zumbido que j estava mais fluido e mais alto que o barulho da chuva 
e era Fernanda que passeava pela casa inteira se lamentando de que a tivessem 
educado como uma rainha para acabar de criada numa casa de loucos, com um marido 
vagabundo, idlatra, libertino, que ficava de papo para o ar esperando que chovesse 
po do cu, enquanto ela destroncava os rins tentando manter  tona um lar preso com 
alfinetes, onde tinha tanto que fazer, tanto que agentar e corrigir, desde que 
amanhecia o Senhor at a hora de dormir, que j chegava na cama com os olhos 
vidrados, e no entanto nunca ningum lhe dera um bom dia, Fernanda, como passou a 
noite, Fernanda? nem lhe perguntara, mesmo que fosse s por delicadeza, por que 
estava to plida nem por que se levantava com essas olheiras roxas, apesar de ela no 
esperar,  claro, que aquilo sasse do resto de uma famlia que afinal de contas sempre a 
considerara como um estorvo, como o pegador de panelas, como uma bruxinha de 
pano pendurada na parede, e que sempre andavam tresvariando contra ela pelos 
cantos, chamando-a de santarrona, chamando-a de farisia, chamando-a de velhaca, e 
at Amaranta, que Deus tenha, havia dito a viva voz que ela era das que confundiam o 
reto com as tmporas, bendito seja Deus que palavras, e ela agentara tudo com 
resignao pelas intenes do Santo Pai, mas no pudera suportar mais quando o 
malvado do Jos Arcadio Segundo disse que a perdio da famlia tinha sido abrir as 
portas para uma franguinha, imaginem, uma franguinha mandona, valha-me Deus, uma 
franguinha filha de m saliva, da mesma ndole dos frangotes que o Governo tinha 
mandado para matar os trabalhadores, veja voc, e se referia nada mais nada menos do 
que a ela, a afilhada do Duque de Alba, uma dama de tanta classe que deixava as 
esposas dos presidentes no chinelo, uma fidalga de sangue como ela que tinha o direito 
de assinar onze sobrenomes peninsulares e que era o nico mortal desse povoado de 
bastardos que no se sentia atrapalhado diante de dezesseis talheres, para que logo o 
adltero do seu marido dissesse morrendo de rir que tantas colheres e garfos, e tantas 
facas e colherinhas, no eram coisa de cristo, mas de centopia, e a nica que podia 
dizer de olhos fechados quando se servia o vinho branco, e de que lado, em que taa, e 
quando se servia o vinho tinto, e de que lado, e em que taa, e no como a rstica da 
Amaranta, que em paz descanse, que pensava que o vinho branco se servia de dia e o 
vinho tinto de noite, e a nica em todo o litoral que podia se vangloriar de no se ter 
aliviado a no ser em penicos de ouro, para que em seguida o Coronel Aureliano 


Buenda, que em paz descanse, tivesse o atrevimento de perguntar com os seus maus 
bofes de maom a troco de que tinha merecido esse privilgio, por acaso ela no cagava 
merda, e sim orqudeas?, imaginem, com essas palavras, e para que Renata, sua prpria 
filha, que por indiscrio tinha visto o seu nmero dois no quarto, respondesse que 
realmente o penico era de muito ouro e de muita herldica, mas o que tinha dentro era 
pura merda, merda fsica, e pior ainda que as outras, porque era merda de gente metida 
a besta, imaginem, a sua prpria filha, de modo que nunca tivera iluses com o resto da 
famlia, mas de qualquer maneira tinha o direito de esperar um pouco mais de 
considerao da parte do marido, j que bem ou mal era o seu cnjuge de sacramento, o 
seu autor, o seu legtimo prejudicador*, que se encarregara por livre e espontnea 
vontade da grave responsabilidade de tir-la do solar paterno, onde nunca se privara 
de nada nem sofrera por nada, onde tecia coroas fnebres por pura diverso, j que seu 
padrinho tinha mandado uma carta com a sua assinatura e o selo do seu anel impresso 
no lacre, s para dizer que as mos da afilhada no tinham sido feitas para os trabalhos 
deste mundo que no fossem tocar clavicrdio e, entretanto, o insensato do marido a 
tirara de casa, com todas admoestaes e advertncias, e a trouxera para aquela 
caldeira do inferno onde no se podia respirar de tanto calor, e antes de que ela 
acabasse de guardar as suas abstinncias de Pentecostes, j tinha ido embora com os 
seus bas migratrios e o seu acordeo de perdulrio para gozar em adultrio com uma 
desgraada de quem bastava olhar as ndegas, bem, j estava dito, de quem bastava 
olhar as ndegas de potranca para adivinhar que era uma, que era uma, exatamente o 
contrrio dela, que era uma dama no palcio ou na pocilga, na mesa ou na cama, uma 
dama de nascena, temente a Deus, obediente s suas leis e submissa aos seus 
desgnios, e com quem no podia fazer,  claro, as nojeiras e vagabundagens que fazia 
com a outra, que  claro que se prestava a tudo, como as matronas francesas, e pior 
ainda, pensando bem, porque estas pelo menos tinham a honradez de colocar uma luz 
vermelha na porta, semelhantes porcarias, imaginem, s faltava essa, com a filha nica 
e bem-amada de D. Renata Argote e D. Fernando del Carpio, e sobretudo deste,  claro, 
um santo varo, um cristo dos grandes, Cavaleiro da Ordem do Santo Sepulcro, 
desses que recebem diretamente de Deus o privilgio de se conservarem intactos na 
cova, com a pele esticada como cetim de noiva e os olhos vivos e difanos como as 
esmeraldas. 

 Isto  que no  verdade  interrompeu-a Aureliano Segundo  quando o 
trouxeram j estava fedendo. 
Tinha tido a pacincia de escut-la um dia inteiro at surpreend-la em erro. 
Fernanda no lhe deu confiana, mas baixou a voz. Nessa noite, durante o jantar, o 
exasperante zumbido da ladainha venceu o barulho da chuva. Aureliano Segundo 
comeu muito pouco, com a cabea baixa, e se retirou cedo para o dormitrio. No caf 
do dia seguinte Fernanda estava trmula, com jeito de ter dormido mal e parecia 
desafogada por completo dos seus rancores. Entretanto, quando o marido perguntou 
se no seria possvel comer um ovo quente, ela no respondeu simplesmente que desde 
a semana anterior os ovos tinham acabado, mas elaborou uma violenta catilinria 
contra os homens que passavam o tempo adorando o prprio umbigo e de repente 
tinham o topete de pedir fgado de cotovia na mesa. Aureliano Segundo levou as 

* No original: legtimo perjudicador. Explicao do autor  tradutora: Quando um homem possui uma mulher sem 
consentimento ( possvel?), diz-se que a perjudicou. Fernanda quer dizer que Aureliano Segundo a perjudicou, mas 
com todo o direito, porque era seu esposo legal: seu legitimo prejudicador. 

crianas para ver a enciclopdia como sempre e Fernanda fingiu botar em ordem o 
quarto de Meme, s para que ele a ouvisse murmurar que, evidentemente, era preciso 
muita cara dura para dizer aos pobres inocentes que o Coronel Aureliano Buenda 
estava retratado na enciclopdia. 

De tarde, enquanto as crianas faziam a sesta, Aureliano Segundo se sentou na 
varanda e at l Fernanda o perseguiu-o, provocando-o, atormentando-o, girando em 
volta dele com o seu implacvel zumbido de mosca varejeira, dizendo que,  claro, at 
que no restassem mais do que pedras para comer, o seu marido se sentaria como um 
sulto da Prsia a contemplar a chuva, porque no era mais que isso, um galo velho, um 
parasita que no servia para nada, mais frouxo que borla de cortina, acostumado a 
viver  custa das mulheres e convencido de que se casara com a esposa de Jonas, que 
tinha ficado to tranqila com a histria da baleia. Aureliano Segundo ouviu-a por 
mais de duas horas, impassvel, como se fosse surdo. No a interrompeu at a tarde 
estar bem avanada, quando no pde mais suportar a ressonncia de bumbo que lhe 
atormentava a cabea. 

 Cale-se j, por favor  suplicou. 
Fernanda, pelo contrrio, subiu de tom. No tenho por que me calar, disse. 
Quem no quiser ouvir que v embora. Ento, Aureliano Segundo perdeu as 
estribeiras Endireitou-se sem pressa, como se s pensasse em estirar a ossos, e com 
uma fria perfeitamente regulada e metdica foi agarrando um a um os vasos de 
begnias, de fetos, os pote de orgo e, um a um, os foi espedaando contra o cho. 
Fernanda se assustou, pois na realidade no tivera at o momento uma conscincia 
clara da tremenda fora interior da ladainha, mas j era tarde para qualquer tentativa 
de retificao Embriagado pela torrente incontrolvel de desabafo, Aureliano Segundo 
quebrou o vidro da cristaleira, e uma por uma, sem se apressar, foi tirando as peas da 
loua e as reduzindo a p contra o cho. Sistemtico, sereno, com a mesma parcimnia 
com que tinha empapelado a casa de dinheiro, foi quebrando, em seguida, contra as 
paredes, os cristais da Bomia, as jarras pintadas a mo, os quadros de donzelas em 
barcos carregados de rosas, os espelhos de moldura dourada e tudo o que era quebrvel 
da sala  despensa, e terminou com o pote da cozinha, que se arrebentou no centro do 
quintal numa exploso profunda. Em seguida lavou as mos, jogou na cabea o 
encerado e antes da meia-noite voltou com umas pelancas endurecidas de carne-seca, 
vrios sacos de arroz e milho com caruncho, e uns mirrados cachos de banana. A partir 
de ento no voltaram a faltar as coisas de comer. 

Amaranta rsula e o pequeno Aureliano haveriam de recordar o dilvio como 
uma poca feliz. Apesar do rigor de Fernanda, chapinhavam nos lagos do quintal, 
caavam lagartos para esquartejar e brincavam de envenenar a sopa jogando p de asade borboleta durante os descuidos de Santa Sofia de la Piedad. rsula era o brinquedo 
mais divertido. Pensaram que fosse uma grande boneca decrpita que levavam e 
traziam para todos os cantos, fantasiada com trapos coloridos e com a cara pintada de 
fuligem e urucu, e uma vez quase lhe arrancaram os olhos com a tesoura de podar 
como faziam com os sapos. Nada lhes causava tanta excitao quanto os seus 
desvarios. Realmente, alguma coisa devia ter acontecido no seu crebro no terceiro ano 
da chuva, porque pouco a pouco foi perdendo o sentido da realidade e confundia o 
tempo atual com pocas remotas da sua vida, a ponto de numa ocasio ter passado trs 
dias chorando desconsoladamente a morte de Petronila Iguarn, sua bisav, enterrada 
havia mais de um sculo. Afundou num estado de confuso to disparatado que 


acreditava que o pequeno Aureliano era seu filho, o coronel, no tempo em que o 
levaram para conhecer o gelo, e que o Jos Arcadio que estava agora no seminrio era o 
primognito que tinha ido com os ciganos. Tanto falou da famlia que as crianas 
aprenderam a organizar visitas imaginrias para ela com seres que no apenas j 
tinham morrido h muito tempo, mas que tinham existido em pocas diferentes. 
Sentada na cama com o cabelo coberto de cinza e a cara tapada com um lenovermelho, rsula era feliz no meio da parentela irreal que as crianas descreviam sem 
omisso de detalhes, como se a tivessem conhecido de verdade. rsula conversava com 
os seus antepassados sobre acontecimentos anteriores  sua prpria existncia, sentia 
prazer com as notcias que lhe davam e chorava com eles por mortos muito mais 
recentes que os prprios companheiros de tertlia. As crianas no tardaram aperceber que no decorrer dessas visitas fantasmagricas rsula fazia sempre uma 
pergunta destinada a esclarecer quem trouxera para casa durante a guerra um So Jos 
de gesso em tamanho natural para que o guardassem at passar a chuva. Foi assim queAureliano Segundo se lembrou da fortuna enterrada em algum lugar que s rsula 
conhecia, mas foram inteis as perguntas e as manobras astutas que lhe ocorreram, 
porque nos labirintos do desvario ela parecia conservar uma margem de lucidez para 
defender aquele segredo, que s haveria de revelar a quem demonstrasse ser o 
verdadeiro dono do ouro sepultado. Era to hbil e to rgida que quando Aureliano 
Segundo instruiu um dos seus companheiros de farra para que se fizesse passar pelo 
proprietrio da fortuna, ela o enredou num interrogatrio minucioso e cheio de 
armadilhas sutis. 

Convencido de que rsula levaria o segredo para o tmulo, Aureliano Segundo 
contratou um grupo de escavadores com o pretexto de construir canais de escoamento 
no quintal e no jardim e ele mesmo sondou o solo com barras de ferro e com toda 
espcie de detectores de metais, sem encontrar nada que se parecesse com ouro em 
trs meses de exploraes exaustivas. Mais tarde recorreu a Pilar Ternera com a 
esperana de que as cartas vissem mais que os cavadores, mas ela comeou por lheexplicar que seria intil qualquer tentativa se no fosse rsula que cortasse o baralho. 
Por outro lado, confirmou a existncia do tesouro, com a preciso de que eram sete mil 
duzentas e quatorze moedas, enterradas em trs sacos de lona com fechos de cobre, 
dentro de um crculo de cento e vinte e dois metros de raio, tomando por centro acama de rsula, mas advertiu-o de que ele no seria encontrado enquanto no 
acabasse de chover e os sis de trs junhos consecutivos no transformassem em p os 
lamaais. A profuso e a meticulosa vaguido dos dados pareceram a Aureliano 
Segundo to semelhantes s fbulas espritas que insistiu na empresa, apesar de 
estarem em agosto e ser necessrio esperar pelo menos trs anos para satisfazer as 
condies do prognstico. A primeira coisa que lhe causou assombro, embora ao 
mesmo tempo aumentasse a sua confuso, foi comprovar sue havia exatamente cento e 
vinte e dois metros da cama de rsula  cerca do quintal. Fernanda temeu que 
estivesse to louco quanto o seu irmo gmeo, quando o viu tomando as medidas, e 
pior ainda, quando ordenou ao grupo de escavadores que aprofundassem mais um 
metro os canais. Presa de um delrio exploratrio comparvel apenas ao do bisav 
quando procurava a rota das invenes, Aureliano Segundo perdeu as ltimas bolsas 
de gordura que lhe restavam e a antiga semelhana com o irmo gmeo foi outra vez se 
acentuando, no s pelo escorreito do perfil, como tambm pelo ar distante e pela 
atitude ensimesmada. No voltou a se ocupar das crianas. Comia a qualquer hora, 


enlameado dos ps  cabea, e o fazia num canto da cozinha, mal respondendo s 
perguntas ocasionais de Santa Sofia de la Piedad. Vendo-o trabalhar daquela forma 
como nunca sonhara que pudesse faz-lo, Fernanda pensou que a sua temeridade fosse 
diligncia e que a sua cobia fosse abnegao e que a sua teimosia fosse perseverana e 
sentiu o remorso nas entranhas, pela violncia com que verberava a sua inrcia. Mas 
Aureliano Segundo no momento no estava para reconciliaes misericordiosas. 
Afundado at o pescoo num pantanal de ramagens mortas e flores apodrecidas, 
revolveu o direito e o avesso daquele solo do jardim depois de ter acabado com o 
quintal e verrumou to profundamente os cimentos da galeria oriental da casa que 
certa noite acordaram aterrorizados pelo que parecia ser um cataclismo, tanto pelas 
trepidaes quanto pelo pavoroso rangido subterrneo, e eram trs aposentos que 
estavam desmoronando e uma fenda de calafrio que se tinha aberto da varanda ao 
quarto de Fernanda. Aureliano Segundo nem por isso renunciou  explorao. Mesmo 
quando j se haviam extinguido as ltimas esperanas e a nica coisa que parecia ter 
algum sentido era a predio das cartas, reforou os cimentos esburacados, consertou 
a fenda com argamassa e continuou escavando lado ocidental. Ainda estava ali na 
segunda semana de seguinte, quando a chuva comeou a se apaziguar e as foram 
subindo e se viu que de um momento para o outro ia estiar. Assim foi. Numa sexta-
feira, s duas da tarde, iluminou-se o mundo com um sol bobo, vermelho e spero 
como poeira de tijolo e quase to fresco como a gua, e no voltou chover durante dez 
anos. 

Macondo estava em runas. Nas valas das ruas restavam mveis espedaados, 
esqueletos de animais cobertos de vermelhos, ltimas lembranas das hordas de 
imigrantes tinham fugido de Macondo to atabalhoadamente como tinham chegado. 
As casas erguidas com tanta urgncia durante a febre da banana tinham sido 
abandonadas. A companhia bananeira desmantelara as suas instalaes. Da antiga 
cidade cercada s restavam os escombros. As casas de madeira, frescos terraos onde 
transcorriam as serenas tardes de jogo de cartas pareciam arrasados por uma 
antecipao do proftico que anos depois haveria de apagar Macondo da face da terra. 
O nico rastro humano que deixara aquele sopro voraz foi uma luva de Patricia Brown 
no automvel sufocado pelos amores-perfeitos. A regio encantada que Jos Arcadio 
Buenda explorara nos tempos da fundao e onde seguida prosperaram as plantaes 
de banana era um lodaal de razes putrefatas, em cujo horizonte remoto se pde ver 
durante vrios anos a espuma silenciosa do mar. Aureliano Segundo padeceu de uma 
crise de angstia no primeiro domingo em que vestiu roupas secas e saiu para rever o 
povoado. Os sobreviventes da catstrofe, os mesmos que j viviam, antes que Macondo 
fosse sacudido pelo furaco da companhia bananeira, estavam sentados no meio da rua 
gozando primeiros sis. Ainda conservavam na pele o verde de alga e o cheiro de cafua 
que lhes imprimira a chuva, mas no fundo dos seus coraes pareciam satisfeitos por 
terem recuperado o povoado em que nasceram. A Rua dos Turcos era outra vez a de 
antes, a do tempo em que os rabes de pantufas e argolas nas orelhas, que percorriam o 
mundo trocando papagaios por bagatelas, encontraram em Macondo um bom refgio 
para descansar da sua milenria condio de gente errante. Do outro lado da chuva, a 
mercadoria dos bazares estava caindo aos pedaos, os gneros  mostra na porta 
estavam pintados de musgo, os balces escavados pelo cupim e as paredes carcomidas 
pela umidade, mas os rabes da terceira gerao estavam sentados no mesmo lugar e 
com a mesma atitude de seus pais e avs, taciturnos, impvidos, invulnerveis ao 


tempo e  desgraa, to vivos ou to mortos como tinham estado depois da peste da 
insnia e das trinta e duas guerras do Coronel Aureliano Buenda. Era to assombrosa 
a sua fora de vontade diante dos escombros das mesas de jogo, das barraquinhas de 
frituras, das tendinhas de tiro ao alvo e da travessa onde se interpretavam os sonhos e 
se adivinhava o futuro, que Aureliano Segundo perguntou-lhes com a sua 
informalidade habitual de que recursos misteriosos eles se tinham valido para no 
naufragar na tormenta, como diabo tinham feito para no se afogar, e um aps o outro, 
de porta em porta, devolveram-lhe um sorriso ladino e um olhar sonhador, e todos lhe 
deram sem combinao prvia a mesma resposta. 

 Nadando. 
Petra Cotes era talvez o nico nativo que tinha corao de rabe. Tinha visto os 
ltimos destroos dos seus estbulos e cavalarias arrastados pela tormenta, mas 
conseguira manter a casa de p. No ltimo ano, mandara recados prementes a 
Aureliano Segundo e este lhe respondera que ignorava quando voltaria  sua casa, mas 
que em todo caso levaria um caixote de moedas de ouro para revestir o quarto. Ento 
ela escavou o corao procurando a fora que lhe permitisse sobreviver  desgraa e 
encontrou uma raiva reflexiva e justa, com a qual jurou restaurar a fortuna desbaratada 
pelo amante e acabada de extinguir pelo dilvio. Foi uma deciso to inquebrantvel 
que Aureliano Segundo voltou  sua casa oito meses depois do ltimo recado e a 
encontrou verde, desgrenhada, com as faces cavadas e a pele escarchada pela sarna, 
mas escrevendo nmeros em pedacinhos de papel, para fazer uma rifa. Aureliano 
Segundo ficou atnito, e estava to esqulido e to grave que Petra Cotes achou que 
quem voltava a procur-la no era o amante de toda a sua vida, mas seu irmo gmeo. 

 Voc est louca  disse ele.  A menos que esteja pensando em rifar os 
ossos. 
Ento ela disse que desse um pulo no quarto e Aureliano Segundo viu a mula. 
Estava com a pele colada aos ossos, como a dona, mas to viva e decidida quanto ela. 
Petra alimentara-a com a sua raiva, e quando no teve mais capim nem milho, nem 
razes, abrigou-a no prprio quarto e lhe deu de comer os lenis de percal, os tapetes 
persas, as colchas de pelcia, as cortinas de veludo e o dossel bordado com de ouro e 
borlas de seda da cama episcopal. 


RSULA teve de fazer um grande esforo para cumprir a promessa de morrer 
quando estiasse. Os clares de lucidez, to escassos durante a chuva, fizeram-se mais 
freqentes a partir de agosto, quando comeou a soprar o vento rido que sufocava as 
roseiras e petrificava as lagoas e acabou por espalhar sobre Macondo a poeira 
abrasadora que cobriu para sempre os enferrujados tetos de zinco e as amendoeirascentenrias. rsula chorou de tristeza ao descobrir que por mais de trs anos tinha 
servido de brinquedo para as crianas. Lavou a cara borrada de tintas, tirou de cima de 
si os trapos coloridos, as lagartixas e os sapos ressecados, e as camndulas e antigos 
colares rabes que lhe haviam pendurado por todo o corpo, e pela primeira vez desde a 
morte de Amaranta abandonou a cama sem o auxlio de ningum, para se incorporar 
de novo  vida familiar. O nimo do corao invencvel orientava-a nas trevas. Os que 
repararam nos seus tropees e depararam com o seu brao arcanglico sempre 
levantado  altura da cabea pensaram que a muito custo agentava com o corpo, mas 
ainda no acreditaram que estava cega. Ela no precisava ver para notar que os 
canteiros de flores, cultivados com tanto esmero desde a primeira reconstruo, 
tinham sido destrudos pela chuva e arrasados pelas escavaes de Aureliano Segundo, 
e que as paredes e o cimento do cho estavam rachados, os mveis bambos e 
desbotados, as portas desniveladas e a famlia ameaada por um esprito de resignao 
e desgraa que no teria sido concebvel em seu tempo. Movendo-se s apalpadelas 
pelos quartos vazios, percebia o ronco contnuo do cupim furando as madeiras e o 
tesourar da traa no guarda-roupas e o estrpito devastador das enormes formiga 
ruivas que tinham prosperado no dilvio e estavam escavando o cimento da casa. Um 
dia abriu o ba dos santos e teve que pedir auxlio a Santa Sofa de la Piedad para se 
livrar das baratas que pularam de dentro e que j haviam pulverizado a roupa. No  
possvel viver neste desleixo, dizia. Neste caminho vamos acabar sendo devorados 
pelos bichos. A partir da no teve um minuto de descanso. De p antes do amanhecer, 
recorria a quem estivesse disponvel, inclusive s crianas. Ps ao sol as escassas 
roupas que ainda estavam em condies de serem usadas, afugentou as baratas com 
inesperados ataques de inseticida, raspou as veias do cupim nas portas e janelas e 
asfixiou as formigas com cal virgem nas suas galerias. A febre da restaurao acabou 
por lev-la aos quartos esquecidos. Fez desembaraar de escombros e teias de aranha o 
quarto onde Jos Arcadio Buenda tinha queimado os miolos procurando a pedra 
filosofal, colocou em ordem a oficina de ourivesaria, que fora revirada pelos soldados, e 
por fim pediu as chaves do quarto de Melquades para ver em que estado se 
encontrava. Fiel  vontade de Jos Arcadio Segundo, que havia proibido qualquer 
intromisso enquanto no houvesse um indcio real de que tivesse morrido, Santa Sofiade la Piedad recorreu a toda espcie de subterfgios para desorientar rsula. Mas era 
to inflexvel a sua determinao de no abandonar aos insetos nem o mais escondido 
e intil canto da casa que derrubou quantos obstculos lhe puseram pela frente e ao 
fim de trs dias de insistncia conseguiu fazer com que lhe abrissem o quarto. Teve 
que se agarrar no marco da porta para que o mau cheiro no a derrubasse, mas foram 
necessrios apenas dois segundos para que ela se lembrasse de que ali estavam 
guardados os setenta e dois penicos das colegiais e que numa das primeiras noites de 
chuva uma patrulha de soldados tinha revistado a casa procurando Jos Arcadio 
Segundo e no pudera encontr-lo. 


 Bendito seja Deus!  exclamou, como se o estivesse enxergando 
perfeitamente.  Tanto trabalho para lhe ensinar boas maneiras e voc acaba vivendo 
como um porco. 
Jos Arcadio Segundo continuava relendo os pergaminhos. A nica coisa visvel 
na intrincada maranha de cabelo eram os dentes listrados de lama verde e os olhos 
imveis. Ao reconhecer a voz da bisav, virou a cabea para a porta, tratou de sorrir e, 
sem saber, repetiu uma antiga frase de rsula. 

 Que se h de fazer  murmurou  o tempo passa.
  verdade  disse rsula  mas no tanto. 
Ao diz-lo, teve conscincia de estar dando a mesma resp osta que recebera do 
Coronel Aureliano Buenda na sua cela de sentenciado e mais uma vez estremeceu com 
a comprovao de que o tempo no passava, como ela acabava de admitir, mas girava 
em crculo. Nem assim, porm, deu oportunidade  resignao. Ralhou com Jos 
Arcadio Segundo como se ele fosse uma criana e se empenhou em faz-lo tomar 
banho e se barbear e emprestar a sua fora para acabar de restaurar a casa. A simples 
idia de abandonar o quarto que lhe havia proporcionado a paz aterrorizou Jos 
Arcadio Segundo. Gritou que no havia poder humano capaz de faz-lo sair, porque 
no queria ver o trem de duzentos vages carregados de mortos que toda tarde partia 
de Macondo para o mar. So todos os que estavam na estao, gritava. Trs milquatrocentos e oito. S ento rsula compreendeu que ele estava num mundo de 
trevas mais impenetrvel que o seu, to intransponvel e solitrio como o do bisav. 
Deixou-o no quarto, mas conseguiu que no voltassem a botar cadeado na porta, que 
fizessem a limpeza todos os dias, que jogassem os penicos no lixo e s deixassem um, e 
que mantivessem Jos Arcadio Segundo to limpo e apresentvel como estivera o 
bisav no seu longo cativeiro debaixo do castanheiro. No comeo, Fernanda 
interpretava aquela faina como um acesso de loucura senil e a muito custo reprimia a 
exasperao. Mas Jos Arcadio anunciou-lhe de Roma por essa poca que pensava vir a 
Macondo antes de fazer os votos perptuos e a boa notcia infundiu-lhe tal entusiasmo 
que de um momento para outro se viu regando as flores quatro vezes ao dia para que 
filho no fosse ter m impresso da casa. Foi esse mesmo incentivo que a induziu a 
apressar a sua correspondncia com os mdicos invisveis e a repor na varanda os vasosde fetos e orgo e os de begnias, muito antes de rsula perceber que tinham sido 
destrudos pela fria exterminadora de Aureliano Segundo. Mais tarde vendeu a 
baixela de prata e comprou loua de cermica, sopeiras e conchas de folha e talheres de 
alpaca, e empobreceu com eles as cristaleiras acostumadas a loua da Companhia das 
ndias e com os cristais da Bomia. rsula tentava ir sempre mais longe. Abram 
portas janelas, gritava. Faam carne e peixe, comprem as tartarugas maiores, que os 
forasteiros venham estender as esteiras nos cantos e urinar nas roseiras, que se sentem 
a  para comer quantas vezes quiserem e que arrotem e praguejem e sujem tudo de 
lama com as suas botas e faam conosco o que tiverem vontade, porque esta  a nica 
maneira de espantar a runa. Mas era uma iluso v. J estava velha demais e vivendo 
de sobra para repetir o milagre dos animaizinhos de caramelo e nenhum dos seus 
descendentes herdara sua fortaleza. A casa continuou fechada por ordem de Fernanda. 

Aureliano Segundo, que tornara a levar os seus bas para a casa de Petra Cotes, 
mal dispunha de meios para que famlia no morresse de fome. Com a rifa da mula, 
Petra Cotes e ele tinham comprado outros animais com os quais conseguiram montar 
um negcio rudimentar de rifas. Aureliano Segundo andava de casa em casa oferecendo 


os bilhetinhos que ele mesmo pintava com tinta de cor para torn-los mais atraentes e 
convincentes e talvez no percebesse que muitos compravam por gratido e a maioria 
por compaixo. Entretanto, mesmo os mais piedosos compradores adquiriam a 
oportunidade de ganhar um leito por vinte centavos ou uma novilha por trinta e dois 
e se entusiasmavam tanto com a esperana que na noite de tera-feira abarrotavam o 
quintal de Petra Cotes esperando o momento em que uma criana escolhida ao acaso 
tirasse da bolsa o nmero premiado. Aquilo no demorou em se transformar numa 
feira semanal, pois desde o entardecer se instalavam no quintal mesas de frituras e 
tendas de bebidas, e muitos dos favorecidos sacrificavam ali mesmo o animal ganho, 
com a condio de que os outros dessem a msica e a aguardente, de modo que sem tlo 
desejado Aureliano Segundo encontrou-se de repente tocando outra vez o acordeo 
e participando de modestos torneios de voracidade. Estas humildes rplicas das farras 
de outros tempos serviram para que o prprio Aureliano Segundo descobrisse o 
quanto tinha decado o seu nimo e at que ponto tinha secado o seu gnio de tocador 
de cumbia. Era um homem mudado. Os cento e vinte quilos que chegara a ter na poca 
em que fora desafiado pela Elefanta tinham-se reduzido a setenta e oito; a cndida e 
estofada cara de tartaruga se transformara em cara de iguana, e sempre estava prxima 
do aborrecimento e do cansao. Para Petra Cotes, entretanto, nunca tinha sido melhor 
homem do que no momento, talvez porque confundisse com o amor a compaixo que 
ele lhe inspirava e o sentimento de solidariedade que em ambos a misria tinha 
despertado. A cama desmantelada deixou de ser lugar de exaltaes e se transformou 
em refgio de confidncias. Liberados dos espelhos repetidores que tinham vendido 
para comprar animais de rifa e dos damascos e veludos concupiscentes que a mula 
comera, ficavam acordados at muito tarde com a inocncia de dois avs insones, 
aproveitando para fazer clculos e contar centavos o tempo que antes esbanjavam em 
se esbanjarem a si prprios. As vezes eram surpreendidos pelos primeiros galos 
fazendo e desfazendo montinhos de moedas, tirando um pouco daqui para botar ali, de 
modo a que este chegasse para contentar Fernanda, aquele para os sapatos deAmaranta rsula, este outro para Santa Sofia de la Piedad, que no estreava umvestido desde seu tempo de mocinha, este para mandar fazer o caixo se rsula 
morresse, este para o caf que subia um centavo por libra de trs em trs meses, este 
para o acar que cada vez adoava menos, este para a lenha que ainda estava molhada 
pelo dilvio, este outro para o papel a tinta de cores dos bilhetes, e aquele que sobrava 
para ir amortizando o valor da vitela de abril, da qual milagrosamente salvaram a pele, 
porque teve carbnculo sintomtico quando estavam vendidos quase todos os 
nmeros da rifa. Eram to puras aquelas missas de pobreza que sempre destinavam a 
melhor parte a Fernanda, e nunca o fizeram por remorso ou por caridade, mas porque 

o bem-estar dela lhes importava mais que o seu prprio. O que na verdade acontecia, 
embora nenhum dos dois percebesse, era que ambos pensavam em Fernanda como na 
filha que gostariam de ter e no tiveram a ponto de em certa ocasio se terem 
resignado a comer angu durante trs dias para que ela pudesse comprar uma toalha 
holandesa. Entretanto, por mais que se matassem de trabalho, por mais dinheiro que 
surrupiassem e por mais truques que imaginassem, os seus anjos da guarda dormiam 
de cansao enquanto eles punham e tiravam moedas tentando apenas que desse para 
viver. Na insnia que lhes traziam as contas ruins perguntavam-se o que tinha 
acontecido no mundo para que os animais no parissem com o mesmo desconcerto de 
antes por que o dinheiro se esvaa das mos e por que o povo que h pouco tempo 

queimava maos de notas na cumbia considerava um assalto  mo armada cobrar 
doze centavos pela rifa de seis galinhas. Aureliano Segundo pensava sem dizer que o 
mal no estava no mundo, mas em algum lugar oculto do misterioso corao de Petra 
Cotes, onde acontecera alguma coisa durante o dilvio que tornara os animais estreis 
e o dinheiro fugidio. Intrigado com esse enigma, penetrou to profundamente os 
sentimentos dela que procurando o interesse encontrou o amor, pois tentando fazer 
com que ela o amasse acabou por am-la. Petra Cotes, por outro lado, amava-o mais  
medida que sentia aumentar o seu carinho, e foi assim que na plenitude do outono 
voltou a acreditar na superstio juvenil de que a pobreza era uma servido de amor. 
Ambos evocavam agora como um estorvo as farras desatinadas, a riqueza aparatosa e a 
fornicao sem freios, e se lamentavam de quanta vida lhes custara encontrar o paraso 
da solido partilhada. Loucamente apaixonados ao fim de tantos anos de cumplicidade 
estril, gozavam o milagre de se amarem tanto na mesa como na cama, e chegaram a ser 
to felizes que quando j eram dois ancios esgotados continuavam brincando como 
coelhinhos e brigando como cachorros. 

As rifas nunca mais deram nada. No comeo, Aureliano Segundo se ocupava 
durante tr s dias da semana, fechado no seu antigo escritrio de criador de gado em 
desenhar bilhete por bilhete, pintando com um certo primor uma vaquinha vermelha, 
um porquinho verde ou um grupo de galinhas azuis, conforme fosse o animal rifado, e 
modelava com uma boa imitao das letras de imprensa o nome que pareceu bom a 
Petra Cotes para batizar o negcio: Rifas da Divina Providncia. Mas, com o tempo, 
ficou to cansado de desenhar at dois mil bilhetes por semana que mandou fazer os 
animais, o nome e os nmeros em carimbos de borracha, e ento o trabalho se reduziu 
a umedec-los em almofadinhas de cores diferentes. Nos ltimos anos ocorreu-lhes 
substituir os nmeros por adivinhaes, de modo a que o prmio se repartisse entre 
todos os que acertassem, mas o sistema acabou por ser to complicado e se prestar a 
tantas desconfianas que desistiram na segunda tentativa. 

Aureliano Segundo andava to ocupado tentando consolidar o prestgio das 
suas rifas que mal lhe sobrava tempo para ver as crianas. Fernanda colocou Amaranta 
rsula numa escolinha particular onde no se recebiam mais de seis alunas, mas se 
negou a permitir que Aureliano freqentasse a escola pblica. Achava que j tinha 
cedido demais ao aceitar que abandonasse o quarto. Alm disso, nas escolas dessa 
poca s se recebiam filhos legtimos de casamentos catlicos e, na certido de 
nascimento que tinham prendido com um alfinete de fralda na camisolinha de 
Aureliano quando o mandaram para casa, ele estava registrado como enjeitado. De 
modo que ficou trancado,  merc da vigilncia caritativa de Santa Sofia de la Piedad e 
das alternativas mentais de rsula, descobrindo o estreito mundo da casa conforme o 
explicavam as avs. Era fino, orgulhoso, de uma curiosidade que exasperava os 
adultos, mas ao contrrio do olhar inquisitivo e s vezes clarividente que tivera o 
coronel na sua idade, o seu era piscador e um pouco distrado. Enquanto Amarantarsula estava no jardim de infncia, ele caava minhocas e torturava insetos no jardim. 
Mas uma vez em que Fernanda o surpreendeu guardando escorpies numa caixa para 
p-los na esteira de rsula, prendeu-o no antigo quarto de Meme, onde se distraiu das 
suas horas solitrias repassando as figurinhas da enciclopdia. Ali o encontrou rsula 
numa tarde em que andava aspergindo a casa com gua benta e um ramo de urtigas, e 
apesar de ter estado com ele muitas vezes, perguntou-lhe quem era. 

 Sou Aureliano Buenda  disse ele. 

  verdade  ela respondeu.  J  hora de comear a aprender ourivesaria. 
Voltou a confundi-lo com o filho, porque o vento clido que sucedera ao dilvio 
e infundira no crebro de rsula os clares eventuais de lucidez tinha acabado de 
passar. No voltou a recobrar a razo. Quando entrava no quarto, l encontrava 
Petronila Iguarn, com as incmodas anquinhas e o casaquinho de miangas que usava 
nas visitas de cerimnia, e encontrava Tranquilina Maria Miniata Alacoque Buenda, 
sua av, abanando-se com uma pena de pavo na sua cadeira de balano de entrevada, 
e seu bisav Aureliano Arcadio Buenda com o seu falso dlm da guarda vice-real, e 
Aureliano Iguarn, seu pai, que tinha inventado uma orao para que secassem e 
cassem os carrapatos das vacas, e a tmida da sua me, e o primo com o rabo de porco, 
e Jos Arcadio Buenda e seus filhos mortos, todos sentados em cadeiras encostadas na 
parede, como se no estivessem numa visita, mas num velrio. Ela alinhavava uma 
conversa colorida, comentando assuntos de lugares distantes e tempos semcoincidncia, de modo que quando Amaranta rsula voltava da escola e Aureliano se 
cansava da enciclopdia, encontravam-na sentada na cama, falando sozinha, e perdida 
num labirinto de mortos. Fogo!, gritou uma vez aterrorizada e, por um instante, 
semeou o pnico pela casa, mas o que estava anunciando era o incndio de uma 
cavalaria que tinha presenciado aos quatro anos de idade. Chegou a misturar de tal 
modo o passado com a atualidade que nos dois ou trs clares de lucidez que teve 
antes de morrer ningum soube ao certo se falava do que sentia ou do que recordava. 
Pouco a pouco foi-se reduzindo, fetizando-se, mumificando-se em vida, a ponto de nos 
ltimos meses ser uma ameixa seca perdida dentro da camisola, e o brao sempre 
levantado acabou por parecer com a pata de um macaco. Ficava imvel vrios dias e 
Santa Sofia de la Piedad tinha que sacudi-la para se convencer de que estava viva e a 
sentava no colo para aliment-la com colherinhas de gua com acar. Parecia uma 
anci recm-nascida. Amaranta rsula e Aureliano levavam-na e traziam-na pelo 
quarto, deitavam-na no altar para ve r que era pouco maior que o Deus Menino e, numa 
tarde, esconderam-na num armrio da despensa onde as ratazanas poderiam t-la 
comido. Num Domingo de Ramos entraram no quarto enquanto Fernanda estava namissa e carregaram rsula pela nuca e pelos tornozelos.

 Coitada da tataravozinha  disse Amaranta rsula morreu de velhice. 
rsula se sobressaltou. 
 Estou viva!  disse. 
 Olha s  disse Amaranta rsula, escondendo o riso  nem sequer respira. 
 Estou falando!  gritou rsula. 
 Nem sequer fala  disse Aureliano.  Morreu como um passarinho.
Ento rsula se rendeu  evidencia. Meu Deus, exclamou em voz baixa. Quer 
dizer que isto  a morte. Comeou uma orao interminvel, atropelada, profunda, 
que se prolongou por mais de dois dias e que na tera-feira tinha degenerado numa 
barafunda de splicas a Deus e de conselhos prticos para que as formigas ruivas no 
derrubassem a casa, para que nunca deixassem apagar a lmpada diante do retrato de 
Remedios e para que cuidassem de que nenhum Buenda viesse a casar com algum do 
mesmo sangue, porque filhos nasciam com rabo de porco. Aureliano Segundo tratou de 
aproveitar o delrio para que ela lhe confessasse onde estava enterrado o ouro, masoutra vez as splicas foram inteis Quando aparecer o dono, rsula disse, Deus h 
de ilumin-lo para que o encontre. Santa Sofia de la Piedad teve a certeza de que a 
encontraria morta de um momento pa o outro, porque observava por esses dias uma 


certa confuso na natureza: as rosas cheiravam a quenopdio, cara-lhe uma cuia de 
gros-de-bico no cho e os gros ficaram em ordem geomtrica perfeita, em forma de 
estrela-do-mar, e certa noite vira passar no cu uma fila de discos luminosos 
alaranjados 

Amanheceu morta na quinta-feira santa. Na ltima vez em que a ajudaram a 
fazer as contas da sua idade, na poca da companhia bananeira, calcularam-na entre os 
cento e quinze e os cento e vinte e dois anos. Enterraram-na num caixozinho que era 
pouco maior que a cestinha em que fora trazido Aureliano e muito pouca gente 
assistiu ao enterro, em parte porque no eram muitos os que se lembravam dela e em 
parte porque nesse meio-dia fez tanto calor que os pssaros desorientados se 
arrebentavam como perdigotos contra as paredes e rasgavam as telas metlicas das 
janelas para morrer nos quartos. 

No comeo todo mundo pensou que fosse uma peste. As donas-de-casa se 
extenuavam de tanto varrer pssaros mortos, sobretudo na hora da sesta, e os homens 
os jogavam no rio s carradas. No Domingo da Ressurreio, o centenrio Padre 
Antonio Isabel afirmou no plpito que a morte dos pssaros obedecia  m influncia 
do Judeu Errante, que ele mesmo tinha visto na noite anterior. Descreveu-o como um 
hbrido do de bode cruzado com fmea herege, uma besta infernal cujo alento 
calcinava o ar e cuja visita determinaria a concepo de monstros pelas recm-casadas. 
No foram muitos os que prestaram ateno  sua conversa apocalptica, porque o 
povo estava convencido de que o proco tresvariava por causa da idade. Mas uma 
mulher acordou todo mundo na madrugada de quarta-feira, porque encontrara uns 
rastos de bpede de casco fendido. Eram to verdadeiros e inconfundveis que os que 
foram v -los no puseram em dvida a existncia de uma criatura horrvel semelhante 
 descrita pelo proco e se associaram para montar armadilhas nos quintais. Foi assim 
que levaram a efeito a captura. Duas semanas depois da morte de rsula, Petra Cotes e 
Aureliano Segundo acordaram sobressaltados com um choro de bezerro descomunal 
que chegava da vizinhana. Quando se levantaram, j um grupo de homens estava 
soltando o monstro das afiadas varas que tinham posto no fundo de uma fossa coberta 
com folhas secas, e ele j deixara de berrar. Pesava como um boi, apesar da sua estatura 
no ser maior que a de um adolescente, e das suas feridas manava um sangue verde e 
viscoso. Tinha o corpo coberto por um plo spero, cheio de carrapatos midos, e a 
pele petrificada por uma crosta de caracas, mas ao contrrio da descrio do proco, as 
suas partes humanas eram mais de anjo doente do que de homem, porque as mos 
eram limpas e hbeis, os olhos grandes e crepusculares, e tinha nas omoplatas os 
cotocos cicatrizados e calosos de asas potentes, que deve-riam ter sido desbastadas 
com machado de lavrador. Penduraram-no pelos tornozelos numa amendoeira da 
praa para que ningum ficasse sem v -lo e quando comeou a apodrecer incineraram-
no numa fogueira, porque no se pde determinar se a sua natureza bastarda era de 
animal para jogar no rio ou de cristo para sepultar. Nunca se verificou se na realidade 
foi por causa dele que morreram os pssaros, mas as recm-casadas no conceberam os 
monstros anunciados, nem diminuiu a intensidade do calor. 

Rebeca morreu no final desse ano. Argnida, sua criada de toda a vida, pediu 
ajuda s autoridades para derrubar a porta do quarto onde a sua patroa estava 
trancada h trs dias, e a encontraram na cama solitria, enroscada como um camaro, 
com a cabea pelada pela calvcie e o polegar metido na boca. Aureliano Segundo se 
encarregou do enterro e tentou restaurar a casa para vend-la, mas a destruio estava 


to encarniada sobre ela que as paredes descascavam quando se acabavam de pintar e 
no houve argamassa bastante grossa para impedir que o mato triturasse o cho e a 
hera apodrecesse as vigas. 

Tudo estava assim desde o dilvio. A inrcia das pessoas contrastava com a 
voracidade do esquecimento que pouco a pouco ia consumindo sem piedade as 
lembranas, ao extremo de por esses tempos, num novo aniversrio do tratado de 
Neerlndia, chegarem a Macondo uns emissrios do Presidente da Repblica para 
entregar finalmente a condecorao vrias vezes recusada pelo Coronel Aureliano 
Buenda e perderam uma tarde inteira procurando algum que lhes indicasse onde 
poderiam encontrar algum dos seus descendentes. Aureliano Segundo esteve tentado a 
receb-la, pensando que era uma medalha de ouro macio, mas Petra Cotes persuadiu-

o da indignidade quando os emissrios j preparavam as comunicaes oficiais e os 
discursos para a cerimnia. Tambm por essa poca voltaram os ciganos, os ltimos 
herd eiros da cincia de Melquades, e encontraram o povoado to acabado e seus 
habitantes to afastados do resto do mundo que tornaram a entrar nas casas 
arrastando ferros imantados, como se na verdade fossem a ltima descoberta dos 
sbios babilnicos, tornaram a concentrar os raios solares com a lupa gigantesca e no 
faltou quem ficasse de boca aberta vendo carem as panelas e rolarem os caldeires e 
quem pagasse cinqenta centavos para se assombrar com uma cigana que tirava e 
botava a dentadura postia. Um desengonado trem amarelo, que no trazia nem 
levava ningum e que mal se detinha na estao deserta, era a nica coisa que restava 
do trem multitudinrio no qual o Sr. Brown enganchava o seu vago com teto de vidro 
e poltronas de bispo e dos trens fruteiros de cento e vinte vages que demoravam uma 
tarde inteira para passar. Os delegados da Cria que tinham vindo investigar a 
comunicao sobre a estranha mortandade dos pssaros e o sacrifcio do Judeu Errante 
encontraram o Padre Antonio Isabel brincando de cabra-cega com as crianas e, 
pensando que a sua comunicao era produto de uma alucinao senil, levaram-no 
para um asilo. Pouco depois mandaram o Padre Augusto ngel, um cruzado da nova 
fornada, intransigente, audaz, temerrio, que tocava pessoalmente os sinos vrias 
vezes por dia para que no se entorpecessem os espritos e que andava de casa em casa 
acordando os dorminhocos para que fossem  missa, mas antes de completar um ano j 
estava vencido tambm pela negligncia que se respirava no ar, pela poeira ardente que 
envelhecia e obstrua tudo, e pela moleza que causavam as almndegas do almoo no 
calor insuportvel da sesta.
Depois da morte de rsula, a casa voltou a cair num abandono do qual no a 
poderia resgatar nem mesmo uma vontade to resoluta e vigorosa como a de Amaranta 
rsula, que muitos anos depois, sendo uma mulher sem preconceitos, alegre e 
moderna, com os ps bem firmados na terra, abriu portas e janelas para espantar a 
runa, restaurou o jardim, exterminou as formigas ruivas que j andavam em pleno dia 
pela varanda, e tratou inutilmente de despertar o esquecido esprito de hospitalidade. 
A paixo claustral de Fernanda construiu um dique intransponvel nos cem anostorrenciais de rsula. No s se negou a abrir as portas quando passou o vento rido, 
como tambm mandou pregar as janelas com cruzes de madeira, obedecendo  ordem 
paterna de se enterrar em vida. A dispendiosa correspondncia com os mdicos 
invisveis terminou em fracasso. Depois de numerosos adiamentos, trancou-se no 
quarto na data e hora marcadas, coberta somente por um lenol branco e com a cabea 
para o Norte e,  uma da madrugada, sentiu que lhe taparam a cara com um leno 


embebido num lquido gelado. Quando acordou, o sol brilhava na janela e ela tinha 
uma enorme costura em forma de arco que comeava na virilha e terminava no esterno. 
Mas antes de que cumprisse o repouso prescrito recebeu uma carta desconcertada dos 
mdicos invisveis, que diziam t-la revistado durante seis horas sem encontrar nada 
que correspondesse aos sintomas tantas vezes e to escrupulosamente descritos por 
ela. Na realidade, o seu hbito pernicioso de no chamar as coisas pelo nome tinha 
dado origem a uma nova confuso, pois a nica coisa que os cirurgies telepticos 
encontraram foi um caimento de tero que podia ser corrigido com o uso de um 
pessrio. A desiludida Fernanda tentou obter uma informao mais precisa, mas os 
correspondentes ignotos no tornaram a responder as suas cartas. Sentiu-se to 
angustiada pelo peso de uma palavra desconhecida que decidiu amordaar a vergonha 
para perguntar o que era um pessrio e s ento soube que o mdico francs se 
pendurara numa viga trs meses antes e tinha sido enterrado contra a vontade do povo 
por um antigo companheiro de armas do Coronel Aureliano Buenda Ento, confiou-se 
a seu filho Jos Arcadio e este lhe mandou os pessrios de Roma com um folheto 
explicativo, que ela jogou na privada depois de aprend-lo de memria para que 
ningum viesse a conhecer a natureza dos seus quebrantos. uma precauo intil, 
porque as nicas pessoas que viviam casa mal reparavam nela. Santa Sofa de la Piedad 
vagava numa velhice solitria, cozinhando o pouco que comiam e dedicada quase porcompleto ao cuidado de Jos Arcadio Segundo. Amaranta rsula, herdeira de certos 
encantos de Remedios, a bela, ocupava em fazer as suas tarefas escolares o que antes 
perdia em atormentar rsula e comeava a manifestar um bom juzo e uma 
consagrao aos estudos que fizeram renascer em Aureliano Segundo a boa esperana 
que inspirara Meme. Prometera mand-la terminar os estudos e Bruxelas, de acordo 
com um costume estabelecido no tempo da companhia bananeira, e essa iluso levara-
o a tentar ver as terras devastadas pelo dilvio. As poucas vezes em era visto em casaagora, era por causa de Amaranta rsula pois com o tempo se tinha transformado num 
estranho para Fernanda e o pequeno Aureliano ia ficando esquivo e ensimesmado  
medida que se aproximava da puberdade. Aureliano Segundo confiava na velhice para 
abrandar o corao de Fernanda, para que o menino pudesse se incorporar a vida de 
um povoado onde certamente ningum se daria o trabalho de fazer especulaes 
desconfiadas sobre a sua origem. Mas o prprio Aureliano parecia preferir a clausura e 
a solido e no revelava a menor malcia para conhecer o mundo que commeava na 
porta da rua. Quando rsula fez abrir o quarto de Melquades, ele ficou rondando, 
bisbilhotando pela porta entreaberta, e ningum percebeu em que momento terminou 
vinculado a Jos Arcadio Segundo por um afeto recproco. Aureliano Segundo 
descobriu essa amizade muito tempo depois de iniciada, quando ouviu o menino 
falando da matana da estao. Aconteceu num dia em que algum se lamentou na 
mesa da runa em que afundara o povoado desde que a companhia bananeira o 
abandonara e Aureliano contradisse com uma maturidade e um conhecimento de 
adulto. O seu ponto de vista, contrrio  interpretao geral, era que Macondo tinha 
sido um lugar prspero e bem encaminhado at que o perturbasse, corrompesse e 
explorasse a companhia bananeira, cujos engenheiros provocaram o dilvio como um 
pretexto para fugir aos compromissos com os trabalhadores. Falando de maneira to 
racional que a Fernanda pareceu uma pardia sacrlega de Jesus entre os doutores, o 
menino descreveu com detalhes precisos e convincentes como o exrcito metralhara 
mais de trs mil trabalhadores encurralados na estao e como carregara os cadveres 


num trem de duzentos vages e os atirara ao mar. Convencida como a maioria das 
pessoas da verdade oficial de que no tinha acontecido nada, Fernanda se escandalizou 
com a idia de que o menino tivesse herdado os instintos anarquistas do Coronel 
Aureliano Buenda e ordenou-lhe que se calasse. Aureliano Segundo, pelo contrrio, 
reconheceu a verso do seu irmo gmeo. Na realidade, apesar de to do mundo 
consider-lo louco, Jos Arcadio Segundo era naquele tempo o habitante mais lcido 
da casa. Ensinou o pequeno Aureliano a ler e a escrever, iniciou-o no estudo dos 
pergaminhos e incutiu-lhe uma interpretao to pessoal do que significou para 
Macondo a companhia bananeira que muitos anos depois, quando Aureliano se 
incorporasse ao mundo, haveria de se pensar que contava uma verso alucinada, 
porque era radicalmente contrria  falsa que os historiadores tinham admitido e 
consagrado nos textos escolares. No quartinho isolado, aonde nunca chegou o vento 
rido, nem a poeira, nem o calor, ambos recordavam a viso atvica de um ancio de 
chapu de asas de corvo que falava do mundo de costas para a janela, muitos anos 
antes que eles nascessem. Ambos descobriram ao mesmo tempo que ali sempre era 
maro e sempre era segunda-feira, e ento compreenderam que Jos Arcadio Buenda 
no estava to louco como contava a famlia e sim que era o nico que dispusera de 
lucidez bastante para vislumbrar a verdade de que tambm o tempo sofria tropeos e 
acidentes e podia, portanto, se estilhaar e deixar num quarto uma frao eternizada. 
Jos Arcadio Segundo conseguira, alm disso, classificar as letras criptogrficas dos 
pergaminhos. Estava certo de que correspondiam a um alfabeto de quarenta e sete a 
cinqenta e trs caracteres que, separados, pareciam aranhazinhas e carrapatos e que, 
na primorosa caligrafia de Melquades, pareciam peas de roupa postas para secar num 
varal. Aureliano se lembrava de haver visto uma tabela semelhante na enciclopdia 
inglesa, de modo que a levou ao quarto para compar-la com a de Jos Arcadio 
Segundo. Eram iguais, realmente. 

Na poca em que teve a idia da loteria de adivinhaes, Aureliano Segundo 
acordava com um n na garganta, como se estivesse reprimindo a vontade de chorar. 
Petra Cotes interpretou isso como um dos tantos transtornos provocados pela m 
situao e todas as manhs, durante mais de um ano, pincelava-lhe o cu da boca com 
mel de abelha e lhe dava xarope de rbano. Quando o n da garganta se fez to 
apertado que lhe custava esforo respirar, Aureliano Segundo visitou Pilar Ternera 
para ver se ela conhecia alguma erva que lhe trouxesse alvio. A inquebrantvel av, 
que tinha chegado aos cem anos  frente de um bordelzinho clandestino, no confiou 
nas supersties teraputicas, mas consultou as cartas sobre o problema. Viu o cavalo 
de ouro com a garganta ferida pelo ao do valete de espadas e deduziu que Fernanda 
estava tentando fazer o marido voltar para casa mediante o desprestigiado sistema de 
fincar alfinetes no seu retrato, mas provocara-lhe um tumor interno pelo mau 
conhecimento da feitiaria. Como Aureliano Segundo no tinha outros retratos alm 
dos do casamento e as cpias estavam completas no lbum familiar, continuou 
procurando por toda a casa durante as distraes esposa e finalmente encontrou, no 
fundo do guarda-roupa meia dzia de pessrios nas suas caixinhas originais. Pensando 
que as rodinhas de borracha vermelha eram objetos de bruxaria, guardou uma no bolso 
para que Pilar Ternera a visse. Esta no pde explicar a sua natureza, mas lhe pareceu 
to suspeita que por via das dvidas mandou trazer a meia dzia e queimou-a numa 
fogueira que fez no quintal. Para esconjurar o suposto malefcio de Fernanda, ordenou 
a Aureliano Segundo que sangrasse uma galinha choca e a enterrasse debaixo do 


castanheiro, e ele o fez de to boa f que quando acabou de dissimular com folhas secas 
a terra revolvida j sentia que respirava melhor. Por Outro lado, Fernanda interpretou 

o desaparecimento como uma represlia dos mdicos invisveis e coseu na parte 
interior da camisola um bolsinho redobrado onde guardou os pessrios novos que lhe 
mandou o filho. 
Seis meses depois de enterrar a galinha, Aureliano Segundo acordou  meia-
noite com um acesso de tosse e sentindo que o estrangulavam por dentro com presas 
de caranguejo. Compreendeu ento que, por muitos pessrios mgicos que destrusse 
e muitas galinhas de esconjuro que esfaqueasse, a nica e triste verdade era que estava 
morrendo. No disse nada a ningum. Atormentado pelo medo de morrer sem mandar 
Amaranta rsula para Bruxelas, trabalhou como nunca, e em vez de uma, fez trs rifas 
semanais. Desde muito cedo era visto percorrendo o povoado, mesmo nos bairros mais 
afastados e miserveis, tentando vender os bilhetinhos com uma ansiedade que s era 
concebvel num moribundo. Aqui est a Divina Providncia, apregoava. No a 
deixem escapar, que s aparece uma vez em cada cem anos. Fazia comovedores 
esforos para parecer alegre, simptico, loquaz, mas bastava ver o seu suor e a sua 
palidez para saber que no podia com a alma. As vezes se desviava para prdios vazios, 
onde ningum o visse, e se sentava um momento para descansar das tenazes que o 
despedaavam por dentro. Ainda  meia-noite estava no bairro de tolerncia, tentando 
consolar com prdicas de boa sorte as mulheres solitrias que choravam junto s 
vitrolas. Este nmero no sai h quatro meses, dizia, mostrando os bilhetinhos. No 

o deixe escapar, que a vida  mais curta do que a gente pensa. Acabaram por perder-
lhe o respeito, por zombar dele, e j nos ltimos meses no o chamavam de Seu 
Aureliano, como o tinham feito sempre, mas o chamavam, na sua prpria cara, de Seu 
Divina Providncia. A sua voz foi-se enchendo de notas falsas, desafinando, e acabou 
por se apagar num ronco de cachorro, mas ainda assim teve fora de vontade para no 
deixar que decasse a expectativa pelos prmios no quintal de Petra Cotes. Entretanto, 
 medida que ficava sem voz e percebia que em pouco tempo j no poderia suportar a 
dor, ia compreendendo que no era com porcos e cabritos rifados que a sua filha 
chegaria a Bruxelas, de modo que concebeu a idia de fazer a fabulosa rifa das terras 
destrudas pelo dilvio, que bem podiam ser restauradas por quem dispusesse de 
capital. Foi uma iniciativa to espetacular que o prprio alcaide se ofereceu para 
anunci-la por decreto e se formaram sociedades para comprar bilhetes a cem pesos 
cada um, que se esgotaram em menos de uma semana. Na noite da rifa, os ganhadores 
fizeram uma festa aparatosa, comparvel apenas s dos bons tempos da companhia 
bananeira, e Aureliano Segundo tocou no acordeo pela ltima vez as canes 
esquecidas de Francisco, o Homem, mas j no pde cant-las.
Dois meses depois, Amaranta rsula foi para Bruxelas. Aureliano Segundo 
entregou-lhe no s o dinheiro da rifa extraordinria, mas tambm o que tinha 
conseguido economizar nos meses anteriores e o muito escasso que obtivera na venda 
da pianola, do clavicrdio e de outros cacarecos cados em desgraa. Segundo os seus 
clculos, esses fundos chegavam para os estudos, de modo que s ficava faltando o 
valor da passagem de volta. Fernanda se ops  viagem at o ltimo momento, 
escandalizada com a idia de que Bruxelas estivesse to prxima da perdio de Paris, 
mas se tranqilizou com uma carta que o Padre ngel lhe deu para uma penso dejovens catlicos dirigida por religiosas, onde Amaranta rsula prometeu viver at o 
final dos estudos. Alm disso, o proco conseguiu que ela viajasse aos cuidados de um 


grupo de franciscanas que iam para Toledo, onde esperavam encontrar gente de 
confiana para mand-la para a Blgica. Enquanto se adiantava a apressada 
correspondncia que tornou possvel esta coordenao, Aureliano Segundo, ajudado 
por Petra Cotes, ocupou-se da bagagem de Amaranta rsula. Na noite em que 
prepararam um dos bas nupciais de Fernanda, as coisas estavam to bem arrumadas 
que a estudante sabia de cor quais eram as roupas e os chinelos de pelcia com que 
devia fazer a travessia do Atlntico, e o sobretudo de l azul com botes de cobre e os 
sapatos de couro com que devia desembarcar. 

Sabia tambm como devia andar para no cair ngua quando subisse a bordo 
pela prancha, que em nenhum momento devia se separar das freiras nem sair do 
camarote se no fosse para comer e que por nenhum motivo devia responder s 
perguntas que os desconhecidos de qualquer sexo lhe fizessem em alto-mar. Levava 
um vidrinho de gotas para enjo e um caderno escrito pelo prprio punho e letra do 
Padre Angel, com seis oraes para esconjurar a tempestade. Fernanda fabricou-lhe 
um cinturo de lona para que guardasse o dinheiro e indicou-lhe a forma de us-lo 
ajustado ao corpo, de modo que no tivesse que tir-lo nem mesmo para dormir. 
Tentou dar-lhe de presente o penico de ouro lavado com gua sanitria e desinfetado 
com lcool, mas Amaranta rsula recusou-o temendo que as suas companheiras de 
colgio zombassem dela. Poucos meses depois, na hora da morte, Aureliano Segundo 
haveria de se lembrar dela como a vira da ltima vez, tentando abaixar sem conseguir o 
vidro empoeirado do vago de segunda classe, para escutar as ltimas recomendaes 
de Fernanda. Vestia um traje de seda cor-de-rosa com um raminho de flores artificiais 
no broche do ombro esquerdo; os sapatos de couro com fivela e salto baixo, e as meias 
de seda com ligas elsticas na batata da perna. Tinha o corpo mido, o cabelo solto ecomprido e os olhos vivos que rsula tivera na sua idade, e a forma como se despedia 
sem chorar, mas tambm sem sorrir, revelava a mesma fora de carter. Andando junto 
com o vago  medida que acelerava e levando Fernanda pelo brao para que no fosse 
tropear, Aureliano Segundo mal pde corresponder com um aceno de mo, quando a 
filha lhe mandou um beijo com a ponta dos dedos. Os esposos permaneceram imveis 
sob o sol abrasador, olhando como o trem ia se confundindo com o ponto negro do 
horizonte e de brao dado pela primeira vez desde o dia do casamento. 

A nove de agosto, antes que se recebesse a primeira carta de Bruxelas, Jos 
Arcadio Segundo conversava com Aureliano no quarto de Melquades e sem que viesse 
ao caso disse: 

 Lembra-te sempre de que eram mais de trs mil e que os jogaram ao mar. Em 
seguida caiu de bruos sobre os pergaminhos e morreu com os olhos abertos. Nesse 
mesmo instante, na cama de Fernanda, o seu irmo gmeo chegou ao fim do 
prolongado e terrvel martrio dos caranguejos de ferro que lhe carcomiam a garganta. 
Uma semana antes voltara para casa, sem voz, sem flego, e quase s pele e ossos, com 
os seus bas errantes e o seu acordeo de perdulrio, para cumprir a promessa de 
morrer junto  esposa. Petra Cotes ajudou-o a juntar as suas roupas e despediu-o sem 
derramar uma lgrima, mas se esqueceu de lhe dar os sapatos de verniz que ele queria 
trazer no atade. De modo que quando soube que tinha morrido, vestiu-se de negro, 
embrulhou as botinas num jornal e pediu permisso a Fernanda para ver o cadver. 
Fernanda no a deixou passar da porta. 
 Ponha-se no meu lugar  suplicou Petra Cotes. Imagine o quanto eu o amei 
para agentar esta humilhao. 

 No h humilhao que uma concubina no merea  replicou Fernanda.  
De maneira que pode esperar morra outro dos tantos para calar-lhe estas botinas. 

Em cumprimento da sua promessa, Santa Sofa de la Piedad degolou com uma 
faca de cozinha o cadver de Jos Arcadio Segundo para se assegurar de que no o 
enterrassem vivo. Os corpos foram colocados em atades idnticos e ali se viu que 
tornavam a ser idnticos na morte como tinham at a adolescncia. Os velhos 
companheiros de farra de Aureliano Segundo puseram sobre o caixo uma coroa que 
tinha uma fita roxa com um letreiro: Afastem-se, vacas, que a vida  curta. Fernanda se 
indignou tanto com a irreverncia mandou jogar a coroa no lixo. No tumulto da ltima 
hora os bbados tristes que o tiraram de casa confundiram os atades e os enterraram 
em tmulos trocados. 


AMARANTA RSULA voltou com os primeiros anjos de dezembro*, puxada por 
brisas de veleiro, trazendo o marido amarrado pelo pescoo com um cordel de seda. 
Apareceu sem avisar, com um vestido cor de marfim, um colar de prolas que batia 
pelos joelhos, anis de esmeraldas e topzios, e o cabelo redondo e liso, arrematado em 
pontas nas orelhas, como asas de andorinha. O homem com quem se casara seis meses 
antes era um flamengo maduro, esbelto, com ares de navegante. Bastou empurrar a 
porta da sala para compreender que a sua ausncia tinha sido mais prolongada e 
demolidora do que ela supunha. 

 Meu Deus  gritou mais alegre que alarmada  bem se v que no h 
mulher nesta casa! 
A bagagem no cabia na varanda. Alm do antigo ba de Fernanda com que a 
mandaram para o colgio, trazia duas malas-armrios, mais quatro malas grandes, um 
saco para as sombrinhas, oito caixas de chapus, um viveiro enorme com meia centena 
de canrios, e o biciclo do marido desarmado dentro de um estojo especial que 
permitia carreg-lo como a um violoncelo. No se permitiu sequer um dia de descanso, 
ao fim da longa viagem. Vestiu um batido guarda-p de algodo que o marido trouxera 
junto com outros objeto s de uso de motorista e empreendeu uma nova restaurao da 
casa. Expulsou as formigas ruivas que j tinham se apoderado da varanda, ressuscitou 
as roseiras, arrancou as ervas daninhas pela raiz e tornou a semear fetos, orgos e 
begnias nos vasos da amurada. Ps-se  frente de um grupo de carpinteiros, 
serralheiros e pedreiros que consertaram as rachaduras do cho, nivelaram as portas e 
janelas, restauraram os mveis e branquearam as paredes por dentro e por fora, de 
modo que trs meses depois da sua chegada respirava-se outra vez o ar de juventude e 
de festa que tinha existido nos tempos da pianola. Nunca se vira na casa ningum com 
mais bom humor a qualquer hora e em qualquer circunstncia, nem ningum mais 
disposto a cantar e danar e a jogar no lixo as coisas e os costumes deteriorados. Com 
uma vassourada, acabou com as lembranas funerrias e os montes de cacarecos 
inteis e instrumentos de superstio que se amontoavam pelos cantos, e a nica coisaque conservou, por gratido a rsula, foi o retrato de Remedios na sala. Olhem que 
maravilha, gritava morrendo de rir. Uma bisav de quatorze anos! Quando um dos 
pedreiros contou que a casa estava cheia de fantasmas e que a nica maneira de 
espant-los era procurar os tesouros que tinham deixado enterrados, ela respondeu s 
gargalhadas que no acreditava em supersties de homens. Era to espontnea, to 
emancipada, com um esprito to moderno e livre que Aureliano no soube o que fazer 
com o corpo quando a viu chegar. Que gigante!, ela gritou, feliz, com os braos 
abertos. Vejam como cresceu o meu adorado antropfago! Antes que ele tivesse 
tempo de reagir, ela j havia colocado um disco no gramofone que trouxera consigo e 
estava tentando ensinar-lhe as danas da moda. Obrigou-o a trocar as esqulidas 
calas que herdara do Coronel Aureliano Buenda, deu-lhe de presente camisas juvenis 
e sapatos de duas cores e empurrava-o para a rua quando passava muito tempo no 
quarto de Melquades.

Ativa, mida, indomvel como rsula, e quase to bela e provocante como 
Remedios, a bela, era dotada de um estranho instinto para se antecipar  moda. 

* 

No original ngeles de diciembre . Explicao do autor  tradutora: A traduo deve ser literal, porque 
todo mundo sabe que em dezembro chegam os anjos. No os viu nunca? 


Quando recebia pelo correio os figurinos mais recentes, estes lhe serviam apenas para 
comprovar que no tinha errado nos modelos que inventava e que cosia na rudimentar 
mquina de manivela de Amaranta. Era assinante de quanta revista de moda, 
informao artstica e msica popular se publicasse na Europa, e mal passava os olhos 
por elas para perceber que as coisas andavam pelo mundo como ela imaginava. No era 
compreensvel que uma mulher com aquele esprito tivesse vindo de regresso para um 
povoado morto, deprimido pela poeira e pelo calor, e menos ainda com um marido que 
tinha dinheiro de sobra para viver bem em qualquer lugar do mundo e que a amava 
tanto que tinha se submetido a ser levado e trazido por ela na coleira de seda. 
Entretanto,  medida que o tempo passava, tornava-se mais evidente a sua inteno de 
ficar, pois no urdia planos que no fossem de longo prazo, nem tomava decises que 
no estivessem orientadas para a obteno de uma vida cmoda e de uma velhice 
tranqila em Macondo. O viveiro dos canrios demonstrava que esses propsitos no 
eram improvisados. Lembrando-se de que sua me lhe havia contado numa carta o 
extermnio dos pssaros, atrasara a viagem por vrios meses at encontrar um navio 
que fizesse escala nas ilhas Afortunadas e l selecionou vinte e cinco casais dos 
canrios mais finos, para repovoar o cu de Macondo. Essa foi a mais lamentvel das 
suas numerosas iniciativas frustradas. A medida que os pssaros se reproduziam, 
Amaranta rsula os ia soltando aos casais, e demoravam mais para se sentir livres doque para fugir do povoado. Em vo procurou conquist-los com o viveiro que rsula 
construra na primeira restaurao. Em vo falsificou para eles ninhos de esparto nas 
amendoeiras e espalhou alpiste nos telhados e alvoroou os cativos para que os seus 
cantos dissuadissem os desertores, porque estes se espantavam  primeira tentativa e 
davam uma volta pelo cu, s o tempo indispensvel para encontrar o rumo de 
regresso s ilhas Afortunadas. 

Um ano depois da volta, embora no tivesse conseguido fazer nenhumaamizade nem promover nenhuma festa, Amaranta rsula continuava acreditando que 
era possvel salvar aquela comunidade eleita pelo infortnio. Gastn, seu marido, tinha 
cuidado para no contrari-la, embora desde o meio-dia mortal em que descera do 
trem compreendesse que a determinao de sua mulher tinha sido provocada por uma 
miragem de saudade. Certo de que ela seria derrotada pela realidade, no se deu sequer 

o trabalho de armar o biciclo, mas se ps a perseguir os ovos mais visveis das teias de 
aranha que os pedreiros desprendiam e os abria com as unhas e passava horas 
contemplando com uma lupa as aranhinhas minsculas que saam do seu interior.
Mais tarde, acreditando que Amaranta rsula continuava com as reformas para no 
dar o brao a torcer, resolveu armar a aparatosa bicicleta cuja roda anterior era muito 
maior que a posterior e se dedicou a capturar e dissecar quanto inseto aborgine 
encontrava nos arredores, que remetia em vidros de gelia para o seu antigo professor 
de histria natural da Universidade de Luik, onde fizera estudos superiores de 
entomologia, embora a sua vocao dominante fosse a de aeronauta. Quando andava 
de bicicleta usava calas de acrobata, meias de velho gaiteiro e bon de detetive, mas 
quando andava a p vestia linho cru, impecvel, com sapatos brancos, gravata-
borboleta de seda, chapu de palhinha e uma bengala de vime na mo. Tinha umas 
pupilas plidas que acentuavam o seu ar de navegante e um bigodinho de plos de 
esquilo. Embora fosse pelo menos quinze anos mais velho que sua mulher, os seus 
gostos juvenis, a sua vigilante determinao de faz-la feliz e as suas virtudes de bom 
amante compensavam a diferena. Na realidade, quem visse aquele quarento de 

hbitos cautelosos, com o seu cordo de seda no pescoo e a sua bicicleta de circo, no 
poderia pensar que tinha com a sua jovem esposa um pacto de amor desenfreado e que 
ambos cediam s urgncias recprocas no lugares menos adequados e onde os 
surpreendesse a inspirao, como o fizeram desde que comearam a se encontrar, com 
uma paixo que o correr do tempo e as circunstncias cada vez mais inslitas iam 
aprofundando e enriquecendo. Gastn era no s um amante feroz, de uma sabedoria e 
uma imaginao inesgotveis, como tambm talvez fosse o primeiro homem na histria 
da espcie que tinha feito uma aterragem de emergncia e por pouco no se matara 
com a namorada s para fazer amor num campo de violetas. 

Tinham-se conhecido trs anos antes de se casarem quando o biplano esportivo 
em que ele fazia piruetas sobre o colgio em que Amaranta rsula estudava tentou 
uma manobra intrpida para se desviar do mastro da bandeira e a primitiva armao 
de lona e papel de alumnio ficou pendurada pela cauda nos cabos da energia eltrica. 
A partir de ento, sem fazer caso da perna engessada, nos fins de semana ele ia buscarAmaranta rsula na penso de religiosas onde viveu sempre, cujo regulamento no era 
to severo quanto Fernanda desejava e levava-a para o seu clube de esportes. 
Comearam a se amar a 500 metros de altura, no ar dominical das plancies, e se 
sentiam mais compenetrados  medida que mais minsculos iam fazendo os seres da 
terra. Ela falava de Macondo como da aldeia mais luminosa e plcida do mundo e de 
uma casa enorme, perfumada de orgo, onde queria viver at a velhice com um marido 
leal e dois filhos travessos que se chamassem Rodrigo e Gonzalo, e em hiptese alguma 
Aureliano e Jos Arcadio, e uma filha que se chamasse Virginia, e em hiptese alguma 
Remedios. Evocara com uma tenacidade to ansiosa o povoado idealizado pela 
saudade que Gastn compreendeu que ela no ia querer casar se ele no a levasse para 
viver em Macondo. Concordou, como concordou mais tarde com o cordo de seda, 
porque pensou que era um capricho transitrio que mais valia matar com o tempo.
Mas quando j tinham transcorrido dois anos em Macondo e Amaranta rsula 
continuava to contente como no primeiro dia, ele comeou a dar mostras de alarme. 
J por essa poca havia dissecado quanto inseto era dissecvel na regio, falava o 
castelhano como um nativo e tinha decifrado todas as palavras cruzadas das revistas 
que recebiam pelo correio. No tinha o pretexto do clima para apressar o regresso 
porque a natureza o havia dotado de um fgado colonial, que resistia sem problemas ao 
calor da sesta e  gua com micrbios. Gostava tanto da comida crioula que uma vezcomeu de enfiada oitenta e dois ovos de iguana. Amaranta rsula, pelo contrrio, fazia 
vir pelo trem peixes e mariscos em caixas de gelo, carnes em lata e frutas em calda, que 
era a nica coisa que podia comer, e continuava se vestindo  moda europia e 
recebendo figurinos pelo correio, apesar de no ter onde ir nem a quem visitar e de que 
a estas alturas o marid o carecia de humor para apreciar os seus vestidos curtos, os seus 
chapus tombados para o lado e os seus colares de sete voltas. O seu segredo parecia 
consistir em encontrar sempre uma maneira de estar ocupada, resolvendo problemas 
domsticos que ela mesma criava e fazendo mal certas coisas que corrigia no dia 
seguinte, com uma diligncia perniciosa que teria feito Fernanda pensar no vcio 
hereditrio de fazer para desfazer. O seu temperamento festivo continuava agora to 
desperto que quando recebia discos novos convidava Gastn a ficar na sala at muito 
tarde para ensaiar as danas que as suas companheiras de colgio descreviam com 
desenhos e terminavam, geralmente, fazendo amor nas cadeiras de balano austracas 
ou no cho duro. A nica coisa que lhe faltava para ser completamente feliz era o 


nascimento dos filhos, mas respeitava o pacto que tinha feito com o marido de no tlos 
antes de completarem cinco anos de casados. 

Procurando alguma coisa com que encher as horas mortas, Gastn costumava 
passar a manh no quarto de Melquades, com o esquivo Aureliano. Satisfazia-se em 
evocar com ele os lugares mais ntimos da sua terra, que Aureliano conhecia como se 
tivesse estado nela por muito tempo. Quando Gastn lhe perguntou como tinha feito 
para obter informaes que no estavam na enciclopdia, recebeu a mesma posta que 
Jos Arcadio: Tudo se sabe. Alm do snscrito Aureliano tinha aprendido ingls e 
francs e alguma coisa de latim e de grego. Como agora saa todas as tardes e Amarantarsula tinha estabelecido uma soma semanal para os gastos pessoais, o quarto parecia 
uma filial da livraria do sbio catalo. Lia com avidez at altas horas da noite, embora 
pela forma com que se referia s suas leituras Gastn pensasse que ele no comprava 
os livros para se informar, mas verificar a exatido dos seus conhecimentos e que 
nenhum interessava mais que os pergaminhos, aos quais dedicava melhores horas da 
manh. Tanto Gastn quanto sua esposa gostariam de incorpor-lo  vida familiar, 
mas Aureliano era homem hermtico, com uma nuvem de mistrio que o tempo ia 
tornando mais densa. Era uma condio to impenetrvel que Gastn fracassou nos 
seus esforos de fazer intimidade com ele e teve que procurar outro passatempo para 
encher suas horas mortas. Foi por essa poca que concebeu idia de estabelecer um 
servio de correio areo. 

No era um projeto novo. Na realidade, tinha-o j bastante adiantado quando 
conheceu Amaranta rsula, s no era para Macondo mas sim para o Congo Belga, 
onde famlia fazia investimentos no leo de palmeira. O casamento, a deciso de passar 
uns meses em Macondo para satisfazer a esposa obrigaram-no a adi-lo. Mas quando 
viu que Amaranta rsula estava empenhada em organizar um comit melhorias 
pblicas e at ria dele por insinuar a possibilidade de regresso, compreendeu que as 
coisas ainda eram para muito tempo e voltou a entrar em contato com os seus scios 
de Bruxelas, pensando que para ser pioneiro dava mesma ser no Caribe ou na frica. 
Enquanto progrediam as gestes, preparou um campo de aterragem, na antiga regio 
encantada, que agora parecia uma plancie de pedernal esfacelado, e estudou a direo 
dos ventos, a geografia do litoral e as rotas mais adequadas para a navegao area, sem 
saber que a sua diligencia, to parecida com a de Mr.Herbert, estava infundindo no 
povo a perigosa suspeita de que o seu propsito no era planejar itinerrios e sim 
plantar banana. Entusiasmado com um acontecimento que, quanto mais no fosse, 
podia justificar o seu estabelecimento definitivo em Macondo, fez vrias viagens  
capital da provncia, entrevistou-se com as autoridades, obteve licenas e assinou 
contratos de exclusividade. Enquanto isso, mantinha com os scios de Bruxelas uma 
correspondncia parecida com a de Fernanda com os mdicos invisveis e acabou por 
convenc-los a embarcarem no primeiro aeroplano aos cuidados de um mecnico 
experimentado que o armasse no porto mais prximo e o levasse voando para 
Macondo. Um ano depois das primeiras mensuraes e clculos meteorolgicos, 
confiando nas promessas repetidas dos seus correspondentes, adquirira o costume de 
passear pelas ruas olhando o cu, com a ateno voltada para os rumores da brisa, na 
espera de que aparecesse o aeroplano.

Embora ela no tivesse notado, a volta de Amaranta rsula ocasionou uma 
mudana radical na vida de Aureliano. Depois da morte de Jos Arcadio, tornara-se um 
cliente assduo da livraria do sbio catalo. Alm disso, a liberdade de que desfrutava 


agora e o tempo de que dispunha despertaram-lhe uma certa curiosidade pelo 
povoado, que conheceu sem assombro. Percorreu as ruas empoeiradas e solitrias, 
examinando com um interesse mais cientfico do que humano o interior das casas em 
runas, as telas metlicas das janelas, furadas pela ferrugem e pelos pssaros 
moribundos, e os habitantes abatidos pelas lembranas. Tentou reconstruir com a 
imaginao o arrasado esplendor da antiga cidade da companhia bananeira, cuja 
piscina seca estava cheia at a boca de sapatos podres de homem e sapatilhas de 
mulher e em cujas casas devastadas pelo mato encontrou o esqueleto de um co 
policial ainda preso a uma argola com uma corrente de ao um telefone que tilintava, 
tilintava, tilintava, at que ele tirou o fone do gancho, ouviu o que uma mulher 
angustiada remota perguntava em ingls e respondeu que sim, que a greve a 
terminado, que os trs mil mortos tinham sido jogados mar, que a companhia 
bananeira tinha ido embora, e que Macondo finalmente estava em paz, h muitos anos 
j. Aquelas correrias levaram-no ao prostrado bairro de tolerncia, onde em outros 
tempos queimavam-se maos de notas para animar a cumbia e que agora era um 
desfiladeiro de ruas mais angustiosas e miserveis do que as outras, com algumas 
lanternas vermelhas ainda acesas e com os ermos sales de dana enfeitados com 
fiapos de guirlandas, onde as macilentas e gordas vivas de ningum, as bisavs 
francesas e as matriarcas babilnicas continuavam esperando junto s vitrolas. 
Aureliano no encontrou quem se lembrasse da sua famlia, nem mesmo do Coronel 
Aureliano Buenda, salvo o mais antigo dos negros antilhanos, um ancio cuja cabea 
algodoada lhe dava o aspecto de um negativo de fotografia, que continuava cantando 
na porta da casa os salmos lgubres do entardecer. Aureliano conversava com ele no 
arrevesado papiamento* que aprendeu em poucas semanas e s vezes partilhava o 
caldo de cabeas de galo que lhe preparava a bisneta, uma negra grande, de ossos 
slidos, cadeiras de gua e tetas de meles vivos, e uma cabea redonda, perfeita, 
encouraada por um duro capacete de cabelos de arame, que parecia o almofre de um 
guerreiro medieval. Chamava-se Nigromanta. Nessa poca, Aureliano vivia da venda 
de talheres, lampies e outros cacarecos da casa. Quando estava sem um centimo, o 
que era o mais freqente, conseguia que nas cantinas do mercado lhe dessem as 
cabeas de galo que iam jogar no lixo e as levava a Nigromanta para que fizesse as suas 
sopas aumentadas com beldroegas e perfumadas com hortel. Ao morrer o bisav, 
Aureliano deixou de freqentar a casa, mas encontrava Nigromanta sob as escuras 
amendoeiras da praa, atraindo com os seus assovios de animal da montanha os 
escassos noctmbulos. Muitas vezes acompanhou-a, falando em papiamento das sopas 
de cabeas de galo e outros requintes da misria, e teria continuado a faz-lo se ela no 

o tivesse feito perceber que a sua companhia lhe afugentava a clientela. Embora 
* 

Copio em traduo o verbete papiamento do Dicionrio de Trminos Filolgicos de Fernando Lzaro 
Carreter, 3 edio corrigida, Gredos, Madrid, 1968, p. 311: 

Lngua crioula falada na ilha de Curaao, ao norte do litoral venezuelano. Esta ilha foi incorporada  
Espanha pelo seu descobridor, Alonso de Ojeda, em 1499. Em 1634 foi ocupada pelos holandeses. Era habitada, 
na poca, por 1415 ndios e 32 espanhis. Em 1648 comeou o afluxo de escravos negros que os portugueses 
importavam da frica. Em 1795, a ilha passou para o domnio dos franceses; em 1800 foi colocada sob o 
protetorado ingls e, em 1802, voltou para o poderio holands. A sua lngua oficial  o holands, mas a que se usa 

normalmente  o papiamento (<papia, esp. ant. e port. ant. papear falar). A sua base  o crioulo negro-portugus 
que os negros trouxeram da frica, misturado com o espanhol falado nas Antilhas e no litoral venezuelano. 
Contm tambm palavras holandesas (M. L. Wagner). 


algumas vezes sentisse tentao e embora  prpria Nigromanta tivesse parecido uma 
culminncia natural da saudade partilhada, no se deitava com ela. De modo queAureliano continuava sendo virgem quando Amaranta rsula regressou a Macondo e 
lhe deu um abrao fraternal que o deixou sem flego. Cada vez que a via, e pior ainda 
quando ela lhe ensinava as danas da moda, ele sentia o mesmo desamparo de esponjas 
nos ossos que perturbara o seu tatarav quando Pilar Ternera inventou o pretexto das 
cartas na despensa. Tentando sufocar o tormento, mergulhou mais a fundo nos 
pergaminhos e evitou os afagos inocentes daquela tia que envenenava as suas noites 
com eflvios de sofrimento, mas quanto mais a evitava com mais ansiedade esperava o 
seu riso de cascalho, os seus uivos de gata feliz e as suas canes de gratido, 
agonizando de amor a qualquer hora e nos lugares menos pensados da casa. Uma 
noite, a dez metros da sua cama, na mesa de ourivesaria, os esposos de ventre 
alucinado arrebentaram o vidro da prateleira e acabaram se amando num charco de 
cido muritico. Aureliano no s no pde dormir um minuto como passou o dia 
seguinte com febre, chorando de raiva. Fez-se eterna a chegada da primeira noite em 
que esperou Nigromanta  sombra das amendoeiras, atravessado pelas agulhas de gelo 
da insegurana e apertando na mo a moeda de cinqenta centavos que pedira aAmaranta rsula, no tanto por necessit-los como para implic-la, avilt-la e 
prostitu-la de alguma forma com a sua aventura. Nigromanta levou-o para o seu 
quarto iluminado com lamparinas de mentira, para a sua cama de armar com a lona 
manchada pelos maus amores e para o seu corpo de cachorra brava, insensvel, 
desalmada, que se preparou para despach-lo como se fosse um menino assustado e se 
encontrou de repente com um homem cujo poder tremendo exigiu das suas entranhas 
um movimento de reacomodao ssmica. 

Fizeram-se amantes. Aureliano ocupava a manh em decifrar pergaminhos e, na 
hora da sesta, ia para o quarto soporfero onde Nigromanta o esperava para lhe ensinar 
a fazer primeiro como as minhocas, em seguida como os caracis e por ltimo como os 
caranguejos, at que tivesse que abandon-lo para tocaiar amores extraviados. Vrias 
semanas se passaram antes de Aureliano descobrir que ela tinha em volta da cintura 
um cintinho que parecia feito com uma corda de violoncelo, mas que era duro como o 
ao e carecia de arremate, porque tinha nascido e crescido com ela. Quase sempre, 
entre amor e amor, comiam nus na cama, no calor alucinante e sob as estrelas diurnas 
que a ferrugem ia fazendo apontar no teto de zinco. Era a primeira vez que 
Nigromanta tinha um homem fixo, um machucante de planta*, como ela mesma dizia 
morrendo de rir, e comeava at mesmo a ter iluses de corao quando Aureliano lhe 
confiou a sua paixo reprimida por Amaranta rsula, que no tinha conseguido 
remediar com a substituio, mas pelo contrrio, ela ia torcendo cada vez mais as suas 
entranhas,  medida que a experincia alargava o horizonte do amor. Ento, 
Nigromanta continuou a receb-lo com o mesmo calor de sempre, mas fez com que lhe 
pagasse os servios com tanto rigor que, quando Aureliano no tinha dinheiro, punha 
na conta que no era feita com nmeros, mas com riscos que ia traando com a unha 
do polegar atrs da porta. Ao anoitecer, enquanto ela vagava pelas sombras da praa, 

* Explicao do autor  tradutora: O machucante, neste caso,  o homem que sabe proporcionar prazer 
a uma mulher na cama. De planta, neste caso, quer dizer e  permanente e para uso exclusivo de Nigromanta. O 
importante  usar em portugus uma expresso cujo som indique sem qualquer dvida que Nigromanta gosta de 
se deitar com Aureliano devido ao seu sexo enorme. 

Aureliano passava pela varanda como um estranho, mal cumprimentando Amarantarsula e Gastn, que normalmente jantavam a essa hora, e tornava a se fechar no 
quarto, sem poder ler nem escrever, nem sequer pensar, por causa da ansiedade que lhe 
provocavam as risadas, os cochichos, as brincadeiras preliminares e, em seguida, as 
exploses de felicidade agnica que enchiam as noites da casa. Essa era a sua vida dois 
anos antes que Gastn comeasse a esperar o aeroplano e continuava sendo igual na 
tarde em que foi  livraria do sbio catalo e se encontrou com quatro rapazes 
desbocados, encarniados numa discusso sobre os mtodos de matar baratas na Idade 
Mdia. O velho livreiro, conhecendo a estima de Aureliano por livros que s Beda, o 
Venervel, tinha lido, insistiu com uma certa malignidade paternal para que ele fosse o 
rbitro da controvrsia e este nem sequer tomou flego para explicar que as baratas, o 
inseto voador mais antigo sobre a terra, j era a vtima favorita das chineladas do 
Antigo Testamento, mas que como espcie era definitivamente refratria a qualquer 
mtodo de extermnio, desde as rodelas de tomate com brax at a farinha com acar, 
pois as suas mil seiscentas e trs variedades tinham resistido  mais remota, tenaz e 
desapiedada perseguio que o homem jamais empreendera, desde as suas origens, 
contra qualquer ser vivente, inclusive o prprio homem, ao extremo de que assim 
como se atribua ao gnero humano um instinto de reproduo, devia-se atribuir a ele 
tambm outro, mais definido e premente, que era o instinto de matar baratas, e que se 
estas tinham conseguido escapar  ferocidade humana era porque tinham se refugiado 
nas trevas, onde se fizeram invulnerveis pelo medo congnito do homem  escurido, 
mas em compensao tornaram-se susceptveis ao brilho do meio-dia, de modo que na 
Idade Mdia, na atualidade e pelos sculos dos sculos, o nico mtodo eficaz para 
matar baratas era o deslumbramento solar. 

Aquele fatalismo enciclopdico foi o princpio de uma grande amizade. 
Aureliano continuou se reunindo todas as tardes com os quatro debatedores, que sechamavam lvaro, Germn, Alfonso e Gabriel, os primeiros e ltimos amigos que teve 
na vida. Para um homem como ele, encastelado na realidade escrita, aquelas sesses 
atormentadas, que comeavam a livraria s seis da tarde e terminavam nos bordis ao 
amanhecer, foram uma revelao. At ento, no lhe ocorrera pensar que a literatura 
fosse o melhor brinquedo que se inventara para zombar das pessoas, comodemonstrou lvaro numa noite de farra. Algum tempo haveria de passar antes que 
Aureliano se desse conta de que tanta arbitrariedade tinha origem no exemplo do 
sbio catalo, para quem a sabedoria no valia a pena se no fosse possvel se servir 
dela para inventar uma nova maneira de preparar o feijo. 

Na tarde em que Aureliano pontificou sobre as baratas, a discusso terminou na 
casa de umas garotas que se deitavam por fome, um bordel de mentira nos arrabaldes 
de Macondo. A proprietria era uma alcoviteira sorridente, atormentada pela mania de 
abrir e fechar portas. O seu eterno sorriso parecia provocado pela credulidade dos 
clientes, que admitiam como coisa certa um estabelecimento que no existia a no ser 
na imaginao, porque ali at as coisas palpveis eram irreais: os mveis que se 
desarmavam ao sentar, a vitrola destripada em cujo interior havia uma galinha 
chocando, o jardim de flores de papel, os almanaques de anos anteriores  chegada da 
companhia bananeira, os quadros com litografias recortadas de revistas que nunca 
tinham sido editadas. At as putinhas tmidas que vinham das vizinhanas quando a 
proprietria lhes avisava que haviam chegado clientes eram pura inveno. Apareciam 
sem cumprimentar, com os vestidinhos floridos de quando tinham cinco anos a menos, 


e os tiravam com a mesma inocncia com que os tinham vestido, e no paroxismo do 
amor exclamavam assombradas que horror, olha como este teto est caindo, e 
imediatamente depois de ter recebido o seu peso e cinqenta centavos gastavam-no 
num po com um pedao de queijo que a proprietria vendia, mais risonha do que 
nunca, porque s ela sabia que nem essa comida era de verdade. Aureliano, cujo mundo 
atual comeava nos pergaminhos de Melquades e terminava na cama de Nigromanta, 
encontrou no bordelzinho imaginrio uma cura de burro para a timidez. No comeo 
no conseguia chegar a parte alguma, nos quartos onde a dona entrava nos melhores 
momentos do amor e fazia toda espcie de comentrios sobre os encantos ntimos dos 
protagonistas. Mas com o tempo chegou a se familiarizar tanto com aqueles 
contratempos do mundo que certa noite mais aloucada que as outras se despiu na 
saleta de entrada e percorreu a casa equilibrando uma garrafa de cerveja sobre a sua 
masculinidade inconcebvel. Foi ele quem ps em moda as extravagncias que a 
proprietria festejava com o seu sorriso eterno, sem protestar, sem acreditar nelas, nem 
mesmo quando Germn tentou incendiar a casa para demonstrar que ela no existia e 
mesmo quando Alfonso torceu o pescoo do papagaio e jogou-o na panela onde 
comeava a ferver o cozido de galinha. 

Embora Aureliano se sentisse ligado aos quatro amigos por uma mesma 
amizade e uma mesma solidariedade, a ponto de pensar neles como se fossem um s, 
estava mais prximo de Gabriel do que dos outros. O vnculo nasceu na noite que ele 
falou casualmente do Coronel Aureliano Buenda e Gabriel foi o nico que no 
acreditou que ele estivesse zombando de ningum. At a dona, que no costumava 
intervir conversas, discutiu com uma raivosa paixo de verdureira que o Coronel 
Aureliano Buenda, de quem realmente ouviu falar algumas vezes, era um personagem 
inventado pelo governo como pretexto para matar os liberais. Gabriel, pelo contrrio, 
no punha em dvida a realidade do Coronel Aureliano Buenda, porque tinha sido 
companheiro de armas e amigo inseparvel do seu bisav, o Coronel Gerineldo 
Mrquez. Aquelas veleidades da memria eram ainda mais crticas quando se falava da 
matana dos trabalhadores. Cada vez Aureliano tocava neste ponto, no s a 
proprietria, mas tambm algumas pessoas mais velhas do que ela, repudiavam a 
patranha dos trabalhadores encurralados na estao e do trem de duzentos vages 
carregados de mortos, e inclusive se obstinavam em afirmar o que afinal de contas 
tinha ficado estabelecido nos expedientes judiciais e nos textos da escola primria: que 
a companhia bananeira nunca existira. De modo que Aureliano e Gabriel estavam 
ligados por uma espcie de cumplicidade, baseada em fatos reais em que ningum 
acreditava e que tinham afetado as suas vidas a ponto de ambos encontrarem  deriva, 
na ressaca de um mundo acabado que s restava a saudade. Gabriel dormia onde o 
surpreendesse a hora. Aureliano o acomodou vrias vezes na oficina de ourivesaria, 
mas ele passava as noites em viglia, perturbado pelo trfego dos mortos que andavam 
pelos quartos at amanhecer. Mais tarde recomendou-o a Nigromanta, que levava para 

o seu quartinho multitudinrio quando estava livre e anotava-lhe as contas com 
risquinhos porta, nos poucos espaos disponveis que as dvidas de Aureliano tinham 
deixado. 
Apesar da sua vida desorganizada, o grupo inteiro tentava fazer alguma coisa de 
perdurvel, por insistncia do catalo. Fora ele, com a sua experincia de antigo 
professo de letras clssicas e o seu depsito de livros raros, quem os tinha posto em 
condies de passar uma noite inteira procurando a trigsima stima situao 


dramtica, num povoado onde ningum mais tinha interesse nem possibilidades de. 
alm da escola primria. Fascinado pela descoberta da amizade, aturdido pelos feitios 
de um mundo que lhe fora vedado pela mesquinharia de Fernanda, Aureliano 
abandonou o escrutnio dos pergaminhos precisamente quando comeavam a se 
revelar para ele como predies em versos cifrados. Mas a comprovao posterior de 
que o tempo chegava para tudo, sem que fosse necessrio renunciar aos bordis, deu-
lhe nimo para voltar ao quarto de Melquades, decidido a no fraquejar no seu 
empenho at descobrir as ltimas chaves. Isso foi pelos dias em que Gastn comeava 
a esperar o aeroplano, e Amaranta rsula se encontrava to sozinha que certa manh 
apareceu no quarto. 

 Ol, antropfago  disse a ele.  Outra vez caverna. 
Estava irresistvel, com o seu vestido inventado e um longos colares de 
vrtebras de savelhas que ela mesma fabricava. Tinha desistido do cordo de seda, 
convencida da fidelidade do marido, e pela primeira vez desde o regresso parecia 
dispor de um momento de lazer. Aureliano no precisaria v-la para saber que tinha 
chegado. Ela se debruou na mesa de trabalho, to prxima e indefesa que Aureliano 
escutou o profundo rumor dos seus ossos, e se interessou pelos pergaminhos. 
Tentando vencer a perturbao, ele segurou a voz que lhe. fugia, a vida que se esvaa, a 
memria que se transformava num plipo petrificado, e falou do destino levtico do 
snscrito, possibilidade cientfica de se ver o futuro feito transparente no tempo, como 
se v contra a luz o escrito no verso de papel, da necessidade de cifrar as predies 
para que no se derrotassem a si mesmas, e das Centrias de Nostradamus e da 
destruio da Cantbria anunciada por S. Milln. De repente, sem interromper a 
conversa, movido por um impulso que dormia nele desde as suas origens, Aureliano 
colocou sua mo sobre a dela, pensando que aquela deciso final punha ao 
desmoronamento. Entretanto, ela lhe agarrou o indicador com a inocncia carinhosa 
com que o fizera muitas vezes na infncia e o manteve agarrado enquanto ele 
continuava respondendo s suas perguntas. Permaneceram assim, ligados por um 
indicador de gelo que no transmitia nada em nenhum sentido, at que ela acordou do 
seu sonho momentneo e deu um tapa na testa. As formigas!, exclamou. E ento se 
esqueceu dos manuscritos, chegou at a porta com um passo de dana e de l mandou 
a Aureliano com a ponta dos o mesmo beijo com que se despedira de seu pai na tarde 
que a mandaram para Bruxelas. 

 Depois voc me explica  disse.  Eu tinha esquecido que hoje  dia de 
jogar cal nos formigueiros. 
Continuou indo ao quarto ocasionalmente, quando tinha alguma coisa que 
fazer por aqueles lados, e permanecia ali uns breves minutos, enquanto o marido 
continuava perscrutando o cu. Iludido com aquela mudana, Aureliano ento ficava 
para comer em famlia, como no o fazia desde os primeiros meses do regresso de 
Amaranta rsula. Gastn gostou. Nas conversas de sobremesa, que costumavam se 
prolongar por mais de uma hora, queixava-se de que os seus scios o estavam 
enganando. Haviam-lhe anunciado o embarque do aeroplano num navio que no 
chegava e, embora os seus agentes martimos insistissem no fato de que ele no 
chegaria nunca .porque no figurava nas listas de navios do Caribe, os scios teimavam 
em dizer que o despacho estava correto e at insinuavam a possibilidade de que 
Gastn mentisse nas cartas. A correspondncia atingiu tal grau de desconfiana mtua 
que Gastn optou por no escrever mais e comeou a sugerir a possibilidade de uma 


viagem rpida a Bruxelas, para esclarecer coisas e regressar com o aeroplano.
Entretanto, o projeto se desvaneceu to rapidamente quanto Amaranta rsula reiterou 
a sua deciso de no se mexer de Macondo ainda que ficasse sem marido. Nos 
primeiros tempos, Aureliano partilhou da idia generalizada de que Gastn era um 
bobo de bicicleta e isso lhe provocou um vago sentimento de piedade. Mais tarde, 
quando obteve nos bordis uma informao mais profunda sobre a natureza dos 
homens, pensou que a mansido de Gastn tinha origem na paixo desatinada. Mas 
quando o conheceu melhor e se deu conta de que o seu verdadeiro temperamento 
entrava em contradio com a sua conduta submissa, imaginou a maliciosa suspeita de 
que at a espera do aeroplano era uma farsa. Ento, pensou que Gastn no era to 
bobo quanto parecia, mas pelo contrrio, era um homem de uma firmeza, uma 
habilidade e uma pacincia infinitas, que se propusera a vencer a esposa pelo cansao 
da eterna complacncia, do nunca lhe dizer no, do simular um assentimento sem 
limites, deixando-a se enredar em sua prpria teia de aranha, at o dia em que no 
pudesse mais suportar o tdio das iluses ao alcance da mo e ela mesma fizesse as 
malas para voltar  Europa. A antiga piedade de Aureliano se transformou numa 
averso violenta. Pareceu-lhe to perverso o sistema de Gastn, mas ao mesmo tempoto eficaz, que se atreveu a prevenir Amaranta rsula. Entretanto, ela zombou da sua 
desconfiana, sem vislumbrar sequer a desagregadora carga de amor, de incerteza e de 
cimes que trazia dentro de si. No lhe ocorrera pensar que provocara em Aureliano 
alguma coisa a mais que um afeto fraternal at que cortou o dedo tentando abrir uma 
lata de pssegos em calda e ele se precipitou para chupar-lhe o sangue com uma avidez 
e uma devoo que lhe eriaram a pele. 

 Aureliano!  ela riu, inquieta.  Voc  malicioso demais para ser um bom 
vampiro. 
Ento Aureliano transbordou. Dando beijinhos desamparados no cncavo da 
mo ferida, abriu os atalhos mais escondidos do corao e tirou uma tripa interminvel 
e macerada, o terrvel animal parasitrio que incubara no martrio. Contou-lhe como se 
levantava  meia-noite para chorar de abandono e de raiva na roupa ntima que ela 
deixava secando no banheiro. Contou-lhe com quanta ansiedade pedia a Nigromanta 
que gemesse como uma gata e soluasse no seu ouvido gastn gastn gastn, e com 
quanta astcia roubava os seus vidros de perfume para encontr-los no pescoo das 
garotas que se deitavam com ele por causa da fome. Espantada com a paixo daqueledesabafo, Amaranta rsula foi fechando dedos, contraindo-os como um molusco, at 
que a sua mo ferida, liberta de toda a dor e de todo vestgio de misericrdia, 
converteu-se num n de esmeraldas e topzios e ossos ptreos e insensveis. 

 Depravado!  disse, como se estivesse cuspindo. ou para a Blgica no 
primeiro navio que sair.
lvaro chegara numa dessas tardes  livraria do sbio catalo, apregoando em 
altas vozes a sua ltima descoberta: um bordel zoolgico. Chamava-se O Menino de Ouro 
e era um imenso salo ao ar livre, por onde passeavam  vontade no menos do que 
duzentos socs que davam as horas com um cacarejo ensurdecedor. Nos currais de 
arame farpado que rodeavam a pista de dana e entre grandes camlias amaznicas 
havia garas coloridas, jacars cevados como porcos, serpentes de doze chocalhos e 
uma tartaruga de casco dourado que mergulhava num minsculo oceano artificial. 
Havia um cachorro branco, manso e pederasta, que no entanto prestava servios de 
reprodutor para que lhe dessem de comer. O ar tinha uma densidade ingnua, como se 


o tivessem acabado de ventar, e as belas mulatas, que esperavam sem esperana entre 
ptalas sangrentas e discos fora de moda, conheciam ofcios de amor que o homem 
deixara esquecidos no paraso terreno. Na primeira noite em que o grupo visitou 
aquela estufa de iluses, a esplndida e taciturna anci que vigiava a entrada numa 
cadeira de balano de cip sentiu que o tempo regressava s suas fontes primrias, 
quando entre os cinco que chegavam descobriu um homem sseo, citrino, de pmulos 
trtaros, marcado para sempre e desde o princpio do mundo pela varola da solido. 
 Ai  suspirou  Aureliano! 
Estava vendo outra vez o Coronel Aureliano Buenda, como o vira  luz de um 
lampio muito antes das guerras, muito antes da desolao da glria e do exlio do 
desencanto, na remota madrugada em que ele fora ao seu quarto para comunicar a 
primeira ordem da sua vida: a ordem de que lhe dessem sem amor. Era Pilar Ternera. 
Anos antes, quando completou os cento e quarenta e cinco, renunciou ao pernicioso 
costume de fazer as contas da sua idade e continuava vi vendo no tempo esttico e 
marginal das lembranas, num futuro perfeitamente revelado e estabelecido, alm dos 
futuros perturbados pelas tocaias e pelas suposies insidiosas das cartas. 

A partir daquela noite, Aureliano se refugiou na ternura e na compreenso 
compassiva da tatarav ignorada. Sentada na cadeira de balano de cip, ela evocava o 
passado, reconstrua a grandeza e o infortnio da famlia e o arrasado esplendor deMacondo, enquanto lvaro assustava os jacars com as suas gargalhadas de 
estardalhao e Alfonso inventava a histria truculenta dos socs que arrancaram a 
bicadas os olhos de quatro clientes que tinham se portado mal na semana anterior, e 
Gabriel estava no quarto da mulata pensativa que no cobrava o amor com dinheiro, 
mas com cartas para um namorado contrabandista que estava preso do outro lado do 
Orenoco, porque os guardas da fronteira lhe tinham dado um purgante e o tinham 
sentado em seguida num penico que ficou cheio de merda com diamantes. Aquele 
bordel de verdade, aquela dona maternal, era o mundo com que Aureliano sonhara no 
seu prolongado cativeiro. Sentia-se to bem, to prximo da companhia perfeita, que 
no pensou em outro refugio na tarde em que Amaranta rsula esfarinhou-lhe as 
iluses. Foi disposto a desabafar com palavras, a que algum que lhe desembaraasse 
os ns que lhe oprimiam o peito mas s conseguiu se soltar num pranto fluido e clido 
e reparador, no colo de Pilar Ternera. Ela o deixou terminar, acariciando-lhe a cabea 
com a ponta dos dedos, e sem que ele lhe tivesse revelado que estava chorando de 
amor, ela reconheceu imediatamente o pranto mais antigo da histria do homem. 

 Bem, meu filho  consolou-o  agora me diga quem  voc. 
Quando Aureliano disse, Pilar Ternera emitiu um riso fundo, o velho riso 
expansivo que terminara por parecer um arrulho de pombo. No havia nenhum 
mistrio no corao de um Buenda que fosse impenetrvel para ela, porque um sculo 
de cartas e de experincia lhe ensinara que a histria famlia era uma engrenagem de 
repeties irreparveis, uma giratria que continuaria dando voltas at a eternidade,se 
no fosse pelo desgaste progressivo e irremedivel do eixo. 

 No se preocupe  sorriu.  Em qualquer lugar que esteja agora, est 
esperando voc.
Eram quatro e meia da tarde quando Amaranta rsula saiu do banho. Aureliano 
a viu passar diante do seu quarto,com um robe de pregas delicadas e uma toalha 
enrolada na cabea como um turbante. Seguiu-a quase na ponta dos ps, cambaleando 
da bebedeira, e entrou no quarto nupcial no momento em que ela abria o robe e 


tornava a fechar espantada. Fez um gesto silencioso para o quarto contguo, cuja porta 
estava entreaberta, e onde Aureliano sabia que Gastn comeava a escrever uma carta. 

 V embora  disse sem voz. 
Aureliano sorriu, levantou-a pela cintura com as duas mos como um vaso de 
begnias, e jogou-a de frente na cama. Com um puxo brutal, despojou-a do roupo de 
banho antes de que ela tivesse tempo de impedi-lo e se aproximou do abismo de uma 
nudez recm-lavada que no tinha um matiz de pele, uma re gio de plos, um sinal 
escondido que ele tivesse imaginado nas trevas de outros quartos. Amaranta rsula se 
defendia sinceramente, com astcias de fmea sbia esquivando o escorregadio e 
flexvel e cheiroso corpo de doninha, enquanto tentava destroncar-lhe os rins com os 
joelhos e picava-lhe a cara com as unhas, mas sem que ele ou ela emitissem um suspiro 
que no se pudesse confundir com a respirao de algum que contemplasse o 
econmico crepsculo de abril pela janela aberta. Era uma luta feroz, uma batalha de 
morte, que entretanto parecia desprovida de qualquer violncia, porque estava feita de 
agresses contorcidas e evasivas espectrais, lentas, cautelosas, solenes, de modo que 
entre uma e outra havia tempo para que voltassem a florescer as petnias e Gastn se 
esquecesse dos seus sonhos de aeronauta no quarto vizinho, como se fossem dois 
amantes inimigos tentando se reconciliar no fundo de um lago difano. No fragor do 
encarniado e cerimonioso forcejar, Amaranta rsula compreendeu que a 
meticulosidade do seu silncio era to irracional que poderia despertar as suspeitas do 
marido contguo, muito mais do que os estrpitos de guerra que tentavam evitar. 
Ento comeou a rir com os lbios fechados, sem renunciar  luta, mas se defendendo 
com mordidas falsas e desesquivando o corpo pouco a pouco, at que ambos tiveram 
conscincia de ser ao mesmo tempo adversrios e cmplices, e a briga degenerou numa 
excitao convencional e as agresses se tornaram carcias. De repente, quase 
brincando, como uma travessura a mais, Amaranta rsula descuidou da defesa e, 
quando tentou reagir, assustada do que ela mesma tinha feito possvel, j era tarde 
demais. Uma comoo descomunal imobilizou-a no seu centro de gravidade, plantou-a 
no lugar, e a sua vontade defensiva foi demolida pela ansiedade irresistvel de descobrir 

o que eram os apitos alaranjados e os bales invisveis que a esperavam do outro lado 
da morte. Mal teve tempo de esticar a mo e procurar s cegas a toalha e meter uma 
mordaa entre os dentes, para que no sassem os gemidos de gata que j estavam 
rasgando as suas entranhas. 

PILAR TERNERA morreu na cadeira de balano de cip, numa noite de festa, 
guardando a entrada do seu paraso. De acordo com a sua ltima vontade, enterraram-
na sem atade, sentada na cadeira de balano, que foi descida com cordas por homens 
num buraco enorme, cavado no centro da pista de dana. As mulatas vestidas de preto, 
plidas de pranto, improvisavam ofcios de trevas enquanto tiravam os brincos, os 
broches e os anis, e os iam jogando na fossa, antes de que a selassem com uma lpide 
sem nome nem datas e lhe colocassem por cima uma montanha de camlias 
amaznicas. Depois de envenenar os animais, fecharam portas e janelas com tijolos e 
argamassa e se dispersaram pelo mundo com os seus bas de madeira, atapetados por 
dentro com figuras de santos, recortes de revista e retratos de namorados efmeros, 
remotos e fantsticos, que cagavam diamantes ou comiam canibais ou eram coroados 
como reis de baralho em alto-mar. 

Era o fim. No tmulo de Pilar Ternera, entre salmos e miangas de putas, 
apodreciam os escombros do passado, os poucos que restavam depois que o sbio 
catalo liquidou a livraria e voltou  aldeia mediterrnea onde nascera, derrotado pela 
saudade de uma primavera teimosa. Ningum poderia pressentir a sua deciso. 
Chegara a Macondo durante o. esplendor da companhia bananeira, fugindo de uma 
das tantas guerras, e no lhe ocorrera nada mais prtico do que instalar aquela livraria 
de incunbulos e edies originais em vrios idiomas, que os clientes casuais 
folheavam com receio, como se fossem livros de lixeira, enquanto esperavam a vez para 
que interpretassem os seus sonhos na casa em frente. Esteve metade da vida no 
abafado fundo da loja, garranchando a sua letra preciosista em tinta violeta e em folhas 
que arrancava de cadernos escolares, sem que ningum soubesse ao certo o que 
escrevia. Quando Aureliano o conheceu, tinha dois caixotes cheios daquelas pginas 
disparatadas que de algum modo faziam pensar nos pergaminhos de Melquades, e 
dessa poca at quando foi embora deve ter enchido um terceiro, de modo que era 
razovel pensar que no tinha feito nada alm disso, durante a sua permanncia em 
Macondo. As nicas pessoas com quem se relacionou foram os quatro amigos, cujos 
pies e papagaios trocou por livros e os ps a ler Sneca e Ovdio quando ainda 
estavam na escola primria. Tratava os clssicos com uma familiaridade caseira, como 
se todos tivessem sido em alguma poca seus companheiros de quarto, e sabia muitas 
coisas que simplesmente no se devia saber, como por exemplo que Santo Agostinho 
usava debaixo do hbito um gibo de l que no tirou durante quatorze anos, e que 
Arnaldo de Villanova, o nigromante, ficou impotente desde menino por causa de uma 
mordida de escorpio. O seu fervor pela palavra escrita era uma urdidura de respeito 
solene e irreverncia folgaz. Nem os seus prprios manuscritos estavam a salvo dessa 
dualidade. Tendo aprendido catalo para traduzi-los, Alfonso meteu um rolo de 
pginas nos bolsos, que sempre andavam cheios de recortes de jornal e manuais de 
profisses estranhas, e certa noite perdeu-os na casa das garotas que se deitavam com 
eles por fome. Quando o av sbio soube, em vez de fazer o escndalo temido 
comentou morrendo de rir que aquele era o destino natural da literatura. Em 
compensao, no houve poder humano capaz de persuadi-lo a no levar os trs 
caixotes quando regressou  sua aldeia natal, e soltou improprios cartagineses* contra 
os inspetores da estrada de ferro que tentavam mand-los como carga, at que 

* Explicao do autor  tradutora:  uma arbitrariedade minha: suponho que a lngua catal  a mesma 
que se usava em Cartago, lngua fencia de mercadores malcriados. A traduo deve ser literal. 

conseguiu ficar com eles no vago de passageiros. O mundo ter acabado de se foder, 
disse ento, no dia em que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no 
vago de carga. Isso foi a ltima coisa que o ouviram dizer. Tinha passado uma 
semana negra com os preparativos finais da viagem, porque  medida que a hora se 
aproximava o seu humor ia-se decompondo e mudavam-se as intenes e as coisas que 
colocava num lugar apareciam noutro, assediado pelos mesmos duendes que 
atormentavam Fernanda. 

 Collons  maldizia.  Estou cagando para a Lei 27 do snodo de Londres. 
Germn e Aureliano tomaram conta dele. Ajudaram-no como a um menino, 
prenderam nos seus bolsos, com alfinetes de gancho, as passagens e os documentos de 
viagem, escreveram uma lista pormenorizada do que ele devia fazer desde que sasse de 
Macondo at desembarcar em Barcelona, mas assim mesmo ele jogou no lixo, sem 
perceber, um par de calas com a metade do seu dinheiro. Na vspera da viagem, 
depois de pregar os caixotes e meter a roupa na mesma mala com que tinha chegado, 
franziu as plpebras de marisco, apontou com uma espcie de bno atrevida os 
montes de livros com que havia sobrevivido ao exlio e disse aos amigos: 

 Deixo para vocs essa merda! 
Trs meses depois receberam um envelope grande com vinte e nove cartas e 
mais de cinqenta retratos, que tinham se acumulado nos cios do alto-mar. Embora 
no pusesse datas, era evidente a ordem em que tinha escrito as cartas. Nas primeiras, 
contava com o seu humor habitual as peripcias da travessia, a vontade que lhe dera de 
atirar pela amurada o comissrio que no lhe permitira trazer os trs caixotes no 
camarote, a imbecilidade lcida de uma senhora que se aterrava com o nmero 13, no 
por superstio mas porque lhe parecia um nmero que ficara por terminar, e a aposta 
que ganhara no primeiro jantar porque reconhecera na gua de bordo o gosto das 
beterrabas noturnas das fontes de Lrida. Com o correr dos dias, entretanto, a 
realidade de bordo interessava-o cada vez menos e at os acontecimentos mais 
recentes e triviais lhe pareciam dignos de saudade, porque  medida que o navio se 
afastava a memria ia se tornando triste. Aquele processo de nostalgizao progressiva 
era tambm evidente nos retratos. Nos primeiros parecia feliz, com a sua camisa de 
invlido* e o seu topete nevado, no encapelado outubro do Caribe. Nos ltimos, era 
visto com um sobretudo escuro e um cachecol de seda, plido por natureza e taciturno 
pela ausncia, na coberta de um navio de angstia que comeava a sonambular por 
oceanos outonais. Germn e Aureliano respondiam as suas cartas. Escreveu tantas nos 
primeiros meses que agora se sentiam mais perto dele do que quando estava em 
Macondo e quase se aliviavam da raiva de que tivesse ido embora. No princpio, 
mandava dizer que tudo continuava igual, que na casa onde nascera ainda havia o 
caracol rosado, que os arenques secos tinham o mesmo sabor sobre a torrada, que as 
cascatas da aldeia continuavam se perfumando ao entardecer. Eram outra vez as folhas 
de cadernos retomadas com garranchinhos roxos*, nas quais dedicava um pargrafo 

* Explicao do autor  tradutora: Vi a foto e juro que a camisa parecia de invlido, mas no sei por que:
era branca, de colarinho muito grande e talvez de um nmero maior que o seu.  como os pijamas que vestem nas 
pessoas nos hospitais, como os camisoles dos bobos, enfim, como voc quiser.
* 

Ao empregar garrapatitas moradas, Gabriel Garca Mrquez faz um jogo verbal: garrapatas  carrapato, 
enquanto que garrapato  garrancho.  interessante notar que para este mesmo significado existe a palavra 
escarabajo, que quer dizer tambm escaravelho. Pginas atrs, o autor se referia ao alfabeto snscrito como 
aranhnhinhas e carrapatos. A importncia contrapontstica existencial dos insetos no romance  facilmente 

verificvel. Basta lembrar as borboletas amarelas de Mauricio Babilonia, os escorpies que rondavam o banho de 


especial para cada um. Entretanto, e embora ele mesmo no parecesse perceber, 
aquelas cartas de recuperao e estmulo se iam transformando pouco a pouco em 
pastorais de desengano. Nas noites de inverno, enquanto fervia a sopa no fogo, 
desejava o calor dos fundos da loja, o zumbido do sol nas amendoeiras empoeiradas, o 
apito do trem na sonolncia da sesta, da mesma forma como desejava em Macondo a 
sopa de inverno no fogo, os preges do vendedor de caf e as cotovias fugazes da 
primavera. Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a outra como 
dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade at que terminou por 
recomendar a todos que fossem embora de Macondo, que esquecessem tudo o que ele 
ensinara do mundo e do corao humano, que cagassem para Horcio e que em 
qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, 
que a memria no tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era 
irrecupervel e que o amor mais desatinado e tenaz no passava de uma verdade 
efmera. 

lvaro foi o primeiro a seguir o conselho de abandonar Macondo. Vendeu tudo, 
at a ona cativa que zombava dos transeuntes no quintal da sua casa, e comprou uma 
passagem eterna num trem que nunca acabava de viajar. Nos cartes postais que 
mandava das estaes intermedirias, descrevia aos gritos as imagens instantneas que 
tinha visto pela janela do vago, e era como ir rasgando em tiras e jogando ao 
esquecimento o longo poema da fugacidade: os negros quimricos nos algodoais da 
Louisiana, os cavalos alados na grama azul de Kentucky, os amantes gregos no 
crepsculo infernal do Arizona, a moa de suter vermelho que pintava aquarelas nos 
lagos de Michigan e que lhe deu com os pincis um adeus no era de despedida mas de 
esperana, porque ela ignorava que estava vendo passar um trem sem regresso. Em 
seguida foram Alfonso e Germn, num sbado, com a idia de voltar na segunda-feira, e 
no se soube mais deles. Um ano depois da partida do sbio catalo, o nico que 
restava era Gabriel ainda vivendo  deriva,  merc da eventual caridade de 
Nigromanta, e respondendo aos questionrios do concurso de uma revista francesa, 
cujo maior prmio era uma viagem a Paris. Aureliano, que era quem recebia a 
assinatura, ajudava-o a encher os formulrios, s vezes na sua casa, e quase entre os 
potes de loua e o cheiro de valeriana da nica farmcia que restava em Macondo, onde 
vivia Mercedes, a sigilosa namorada de Gabriel. Era a ltima coisa que ia ficando de um 
passado cujo aniquilamento no se consumava, que continuava se aniquilando 
indefinidamente, consumindo-se dentro de si mesmo, se acabando a cada minuto mas 
sem acabar de se acabar nunca. O povoado chegara a tais extremos de inatividade que 
quando Gabriel ganhou o concurso e para Paris com duas mudas de roupa, um par de 
sapatos e as obras completas de Rabelais, teve que fazer sinal ao maquinista a fim de 
que o trem se detivesse para apanh-lo. A antiga Rua dos Turcos era agora um lugar de 

Meme e de Rebeca, a entomologia de Gastn, as formigas ruivas decisivas neste captulo final, as sanguessugas 

que quase matam rsula (v. a sua relao com os carrapatos), a mordida de escorpio que deixa Arnaldo de 
Vilanova impotente etc... Por outro lado, a importncia existencial dos manuscritos no romance  decisiva  
fundamentalmente os pergaminhos de Melquiades  e os escritos do sbio catalo, assim como a sua prpria 
figura, funcionalmente no passam de variaes dos primeiros. De modo que as garrapatitas moradas de Gabriel 
Garca Mrquez assumem um significado tico na cosmoviso do romance, que ultrapassa de longe a mera 
metfora sensorial da semelhana de forma expressa pelo equvoco verbal.  a no gratuidade de estilo da 
expresso, intraduzvel, que nos obriga a esta nota. (N. T.) 


abandono, onde os ltimos rabes se deixavam levar para a morte pelo costume 
milenar de se sentar  porta, embora fizesse muitos anos tinham vendido a ltima 
jarda de diagonal e nas vitrinas sombrias s restassem os manequins decapitados. A 
cidade da companhia bananeira, que talvez Patricia Brown tentasse evocar para os 
netos nas noites de intolerncia e pepinos no vinagre de Prattville, Alabama, era uma 
plancie de capim selvagem. 

O padre ancio que substituira o Padre Angel, e cujo nome ningum se deu o 
trabalho de averiguar, esperava a piedade de Deus estendido de papo para o ar numa 
rede, atormentado pela artrite e pela insnia da dvida, enquanto os lagartos e as 
ratazanas disputavam a herana do templo vizinho. Naquele Macondo esquecido at 
pelos pssaros, onde a poeira e o calor se fizeram to tenazes que dava trabalho 
respirar, enclausurados pela solido e pelo amor e pela solido do amor puma casa 
onde era quase impossvel dormir por causa do barulho das formigas ruivas, Aurelianoe Amaranta rsula eram os nicos seres felizes, e os mais felizes sobre a terra. 

Gastn voltara a Bruxelas. Cansado de esperar o avio,um dia meteu numa 
maleta as coisas indispensveis e o arquivo da correspondncia, e foi com o propsito 
de voltar por antes de que os seus privilgios fossem cedidos a um grupo de aviadores 
alemes que tinham apresentado s autoridades provinciais um projeto maisambicioso que o seu. Desde a tarde do primeiro amor, Aureliano e Amaranta rsula 
tinham continuado a aproveitar os escassos descuidos do esposo , a se amar com 
ardores amordaados em encontros ocasionais, e quase sempre interrompidos por 
regressos imprevistos. Mas quando se viram sozinhos na casa sucumbiram no lrio dos 
amores atrasados. Era uma paixo insensata, alucinada, que fazia tremerem de pavor 
na cova os ossos de Fernanda e os mantinha num estado de excitao perptua. Osgemidos de Amaranta rsula, as suas canes agnicas, estavam do mesmo jeito s 
duas da tarde na mesa da sala de estar e s duas da madrugada na despensa. O que 
mais me aborrece, ria,  o tempo enorme que perdemos. No aturdimento da paixo, 
viu as formigas devastando o jardim, saciando a sua fome pr-histrica nas madeiras 
da casa, e viu a torrente de lava viva se apoderando outra vez da varanda, s se 
preocupou em combat-la quando a encontrou no quarto. Aureliano abandonou os 
pergaminhos, no tornou a sair de casa, e respondia de qualquer maneira s cartas 
sbio catalo. Perderam o sentido da realidade, a noo tempo, o ritmo dos hbitos 
cotidianos. Tornaram a fechar portas e janelas para no demorarem nos trmites de 
desnudamento, e andavam pela casa como Remedios, a bela, sempre quis estar, e se 
espojavam em plo nos barreiros do quintal, e uma tarde por pouco no se afogaram 
quando se amavam na caixa-dgua. Em pouco tempo fizeram mais que as formigas 
ruivas: quebraram os mveis da sala, rasgaram com as suas loucuras a rede que 
resistira aos tristes amores de acampamento do Coronel Aureliano Buenda e abriram 
os colches e os esvaziaram no cho, para se sufocar em tempestades de algodo. 
Embora Aureliano fosse um amante to feroz como o seu rival, era Amaranta rsula 
quem comandava com o seu engenho disparatado e a sua voracidade lrica aquele 
paraso de desastres, como se tivesse concentrado no amor a indomvel energia que a 
tatarav consagrara  fabricao de animaizinhos de caramelo. Alm disso, enquanto 
ela cantava de alegria e morria de rir das suas prprias invenes, Aureliano ia se 
tornando mais absorto e calado, porque a sua paixo era ensimesmada e calcinante. 
Entretanto, ambos chegaram a tais extremos de virtuosismo que quando se esgotavam 
na exaltao tiravam melhor partido do cansao. Entregaram-se  idolatria dos corpos, 


ao descobrir que os tdios do amor tinham possibilidades inexploradas, muito mais 
ricas que as do desejo. Enquanto ele amaciava com claras de ovo os seios erteis deAmaranta rsula, ou suavizava com gordura de coco as suas coxas elsticas e o seu 
ventre de pssego, ela brincava de boneca com a portentosa criatura de Aureliano e 
pintava-lhe olhos de palhao com batom e bigodes de turco com lpis de sobrancelhas 
e armava-lhe laos de organza e chapeuzinhos de papel prateado. Uma noite se 
lambuzaram dos ps  cabea com pssegos em calda, lamberam-se como ces e se 
amaram como loucos no cho da varanda, e foram acordados por uma torrente de 
formigas carnvoras que se dispunham a devor-los vivos.

Nas pausas do delrio, Amaranta rsula respondia s cartas de Gastn. Sentia-o 
to distante e ocupado que o seu regresso lhe parecia impossvel. Numa das primeiras 
cartas, ele contou que na realidade os scios tinham mandado o aeroplano, mas que 
uma agncia martima de Bruxelas o embarcara por equvoco com destino a Tanganica, 
onde o entregaram  dispersa comunidade dos Macondos. Aquela confuso ocasionou 
tantos contratempos que s a recuperao do aparelho podia demorar dois anos.
Assim, Amaranta rsula descartou  possibilidade de um regresso inoportuno. 
Aureliano, por outro lado, no tinha outro contato com o mundo seno as cartas do 
sbio catalo e as notcias de Gabriel que recebia atravs de Mercedes, a farmacutica 
silenciosa. No princpio eram contatos reais. Gabriel pedira o reembolso da passagem 
de volta para ficar em Paris, vendendo os jornais velhos e as garrafas vazias que as 
camareiras tiravam de um hotel lgubre da Rua Dauphine. Aureliano podia imagin-lo 
ento com um suter de gola alta que s tirava quando os terraos de Montparnasse se 
enchiam de namorados primaveris, e dormindo de dia e escrevendo de noite para 
enganar a fome, no quarto cheirando a espuma de couve-flor fervida onde haveria de 
morrer Rocamadour. Entretanto, as notcias se foram fazendo pouco a pouco to 
incertas, e to espordicas e melanclicas as cartas do sbio, que Aureliano seacostumou a pensar neles pomo Amaranta rsula pensava no marido, e ambos ficaram 
boiando num universo vazio, onde a nica realidade cotidiana e eterna era o amor.De 
repente, como um estampido naquele mundo de inconscincia feliz, chegou a notcia

da volta de Gastn. Aureliano e Amaranta rsula abriram os olhos, sondaram as 
almas, se olharam na cara com a mo no corao e compreenderam que estavam to 
identificados que preferiam a morte  separao. Ento, ela escreveu ao marido uma 
carta de verdades contraditrias, na qual reiterava o seu amor e as suas nsias de 
tornar a v-lo, ao mesmo tempo que admitia como desgnio fatal a impossibilidade de 
viver sem Aureliano. Ao contrrio do que ambos esperavam, Gastn mandou uma 
resposta tranqila, quase paternal, com duas folhas inteiras consagradas a preveni-los 
contra as veleidades da paixo e um grafo final com votos inequvocos de que fossem 
to felizes como ele o tinha sido na sua breve experincia conjugal.

Era uma atitude to imprevista que Amaranta rsula se sentiu humilhada 
diante da idia de ter proporcionado ao marido pretexto que ele desejava para 
abandon-la  sua sorte. 

O rancor agravou-se seis meses depois, quando Gastn tornou a escrever de 
Leopoldville, onde por fim recebera o aeroplano s para pedir que lhe mandassem o 
biciclo que, de tudo o que havia deixado em Macondo, era a nica coisa que tinha para 
ele um valor sentimental. Aureliano suportou com pacincia o despeito de Amarantarsula, esforou-se em demonstrar-lhe que podia ser to bom marido na bonana 
como na adversidade, e as urgncias cotidianas que os assediavam quando acabou o 


ltimo dinheiro de Gastn criaram entre eles um vnculo de solidariedade que no era 
to deslumbrante e caprichoso como a paixo, mas que serviu para que eles se 
amassem tanto e fossem to felizes como nos tempos alvoroados da libertinagem. 
Quando Pilar Ternera morreu estavam esperando um filho.

Na sonolncia da gravidez, Amaranta rsula tentou fazer uma indstria de 
colares de vrtebras de peixe. Mas, exceo feita a Mercedes, que lhe comprou uma 
dzia, no encontrou a quem vend-los. Aureliano tomou conscincia pela primeira 
vez de que o seu dom para lnguas, a sua sabedoria enciclopdica, a sua estranha 
faculdade de se lembrar dos pormenores de fatos e lugares remotos e desconhecidos 
eram to inteis como o cofre de pedraria legtima de sua mulher, que na poca devia 
valer tanto quanto todo o dinheiro de que poderiam dispor, juntos, os ltimoshabitantes de Macondo. Sobreviviam por milagre. Embora Amaranta rsula no 
perdesse o bom humor, nem o engenho para as travessuras erticas, adquiriu o 
costume de se sentar na varanda depois do almoo, numa espcie de sesta insone e 
pensativa. Aureliano a acompanhava. As vezes permaneciam em silncio at o 
anoitecer, um defronte do outro, olhando-se nos olhos, amando-se no sossego com 
tanto amor como antes se amaram no escndalo. A incerteza do futuro fez com que o 
corao voltasse ao passado. Viram-se a si mesmos no paraso perdido do dilvio, 
patinhando nos charcos do quintal, matando lagartixas para pendur-las em rsula, 
brincando de enterr-la viva, e aquelas evocaes lhes revelaram a verdade de que 
tinham sido felizes juntos desde que tinham memria. Aprofundando o passado,
Amaranta rsula recordou a tarde em que entrou na oficina de ourivesaria e a me lhe 
contou que o pequeno Aureliano no era filho de ningum porque tinha sido 
encontrado boiando numa cestinha. Embora a verso lhes parecesse inverossmil, 
careciam de informaes para substitu-la pela verdadeira. A nica coisa de que 
estavam certos, depois de examinar todas as possibilidades, era de que Fernanda no 
tinha sido a me de Aureliano. Amaranta rsula inclinou-se a pensar que era filho de 
Petra Cotes, de quem s se lembrava de histrias de infmia, e aquela suposio lhe 
produziu na alma uma toro de horror. 

Atormentado pela certeza de que era irmo da sua mulher, Aureliano deu uma 
fugida at a casa paroquial para procurar nos arquivos sebentos e furados de traas 
alguma pista certa da sua filiao. A certido de batismo mais antiga que encontrou foi 
a de Amaranta Buenda, batizada na adolescncia pelo Padre Nicanor Reyna, na poca 
em que este andava tratando de provar a existncia de Deus pela prova do chocolate. 
Chegou a iludir-se com a possibilidade de ser um dos dezessete Aurelianos, cujas 
certides de nascimento perseguiu atravs de cinco tomos, mas as datas de batismo 
eram remotas demais para a sua idade. Vendo-o perdido em labirintos de sangue, 
trmulo de incerteza, o padre artrtico que o observava da rede perguntou-lhe 
compassivamente qual era o seu nome. 

 Aureliano Buenda  disse ele. 
 Ento no se mate de procurar  exclamou o proco com uma convico 
decisiva.  H muitos anos houve por aqui uma rua que se chamava assim e por essa 
poca o povo tinha o hbito de pr nos filhos os nomes das ruas. 
Aureliano tremeu de raiva. 

 Ah!  disse  ento o senhor tambm no acredita. 
 Em qu? 

 Que o Coronel Aureliano Buenda fez trinta e duas guerras civis e perdeu 
todas  respondeu Aureliano.  Que o exrcito encurralou e metralhou trs mil 
trabalhadores e que levou os cadveres para jog-los no mar num trem de duzentos 
vages. 
O proco mediu-o com um olhar de pena. 

 Ai, filho  suspirou.  Para mim bastaria estar certo de que voc e eu 
existimos neste momento. 
De modo que Aureliano e Amaranta rsula aceitaram a verso da cestinha, no 
porque acreditassem nela, mas porque os punha a salvo dos seus terrores. A medida 
que avanava a gravidez iam-se transformando num ser nico, integravam-se cada vez 
mais na solido de uma casa a que s faltava um ltimo sopro para desmoronar. 
Reduziram-se a um espao essencial, que ia do quarto de Fernanda, onde 
vislumbraram os encantos do amor sedentrio, at o princpio da varanda, onde 
Amaranta Ursula se sentava tricotando sapatinhos e touquinhas de recm-nascido e 
Aureliano respondia as cartas ocasionais do sbio catalo. O resto da casa se rendeu ao 
assdio tenaz da destruio. A oficina de ourivesaria, o quarto de Melquades, os remos 
primitivos e silenciosos de Santa Sofa de la Piedad ficaram no fundo de uma selva 
domstica que ningum teria a coragem de desbastar. Cercados pela voracidade danatureza, Aureliano e Amaranta rsula continuavam cultivando o orgo e as 
begnias e defendiam o seu mundo com demarcaes de cal, construindo as ltimas 
trincheiras da guerra imemorial entre o homem e as formigas. O cabelo comprido e 
descuidado, as equimoses que lhe amanheciam na cara, a inchao das pernas, a 
deformao do antigo e amoroso corpo de doninha tinham mudado em Amarantarsula a aparncia juvenil de quando chegara em casa com o viveiro de canrios 
desafortunados e o esposo cativo, mas no lhe alteraram a vivacidade de esprito. 
Merda, costumava rir, quem havia de pensar que ns iramos realmente acabar 
vivendo como antropfagos! O ltimo fio que os atava ao mundo rompeu-se no sexto 
ms de gravidez, quando receberam uma carta que evidentemente no era do sbio 
catalo. Tinha sido selada em Barcelona, mas o envelope estava escrito com tinta azul 
convencional, numa caligrafia administrativa, e tinha o aspecto inocente e impessoal 
dos recados inimigos. Aureliano arrancou-a das mos de Amaranta rsula quando ela 
se dispunha a abri-la. 

 Esta no  disse a ela.  No quero saber o que diz. 
Tal como ele pressentia, o sbio catalo no tornou a escrever. A carta alheia, 
que ningum leu, ficou  merc das traas no consolo onde Fernanda esquecera uma 
vez o seu anel de casamento e l continuou se consumindo no fogo interior da sua m 
notcia, enquanto os amantes solitrios navegavam contra a corrente daqueles tempos 
de despedidas, tempos impenitentes e aziagos, que se desgastavam no empenho intil 
de faz-los derivar para o deserto do desencanto e do esquecimento. Conscientes 
daquela ameaa, Aureliano e Amaranta rsula passaram os ltimos meses de mos 
dadas, terminando com amores de lealdade o filho comeado com exaltaes e 
fornicao. De noite, abraados na cama, no se amedrontavam com as exploses 
terrestres das formigas, nem com o ragor das traas, nem com o silvo constante e 
ntido do crescimento da erva daninha nos quartos vizinhos. Muitas vezes foramacordados pelo trfego dos mortos. Ouviram rsula lutando contra as leis da criao 
para preservar a estirpe, e Jos Arcadio Buenda procurando a verdade quimrica dos 
grandes inventos, e Fernanda rezando, e o Coronel Aureliano Buenda se 


embrutecendo com os enganos da guerra e os peixinhos de ouro, e Aureliano Segundo 
agonizando de solido no aturdimento das farras, e ento aprenderam que as 
obsesses dominantes prevalecem contra a morte e tornaram a ser felizes com a 
certeza de que eles continuariam a se amar m as suas naturezas de fantasmas, muito 
depois de que as outras espcies de animais futuros arrebatassem dos insetos o paraso 
da misria que os insetos estavam acabando de arrebatar dos homens.

Num domingo, s seis da tarde, Amaranta rsula sentiu a premncia do parto. 
A sorridente parteira das garotas que deitavam por causa da fome fez com que ela 
subisse na mesa da sala de jantar, montou a cavalo no seu ventre e a maltratou com 
galopes selvagens at que seus gritos foram silenciados pelo choro de um varoformidvel. Atravs das lgrimas, Amaranta rsula viu que era um Buenda dos 
grandes, socado e voluntarioso como os Joss Arcadios, com os olhos abertos e 
clarividentes dos Aurelianos e predisposto a comear a estirpe outra vez do princpio e 
purific-la dos seus vcios perniciosos e da sua vocao solitria, porque era o nico em 
um sculo que tinha sido engendrado com amor. 

 E um antropfago perfeito  disse.  Vai se chamar Rodrigo. 
 No  contradisse o marido.  Vai se chamar Aureliano e ganhar trinta e 
duas guerras. 
Depois de cortar o umbigo, a parteira ps-se a remover com um trapo o 
ungento azul que lhe cobria o corpo, iluminada por Aureliano com uma lmpada. S 
quando o viraram de costas  que perceberam que ele tinha alguma coisa a mais que o 
resto dos homens e se inclinaram para examin-lo. Era um rabo de porco.

No se alarmaram. Aureliano e Amaranta rsula no conheciam o precedentefamiliar nem se lembravam das pavorosas admoestaes de rsula, e a parteira acabou 
de tranqiliz-los com a suposio de que aquele rabo intil poderia ser cortado 
quando o menino mudasse os dentes. Depois no tiveram mais ocasio de tornar apensar nisso, porque Amaranta rsula sangrava um manancial inesgotvel. Tentaram 
socorr-la com ataduras de teia de aranha e cinza socada, mas era como querer tapar 
uma fonte com as mos. Nas primeiras horas, ela fazia esforos para conservar o bom 
humor. Pegava na mo do assustado Aureliano e suplicava que no se preocupasse, que 
gente como ela no tinha sido feita para morrer contra a vontade e rolava de rir dos 
recursos truculentos da parteira. Mas  medida que as esperanas abandonavam 
Aureliano, ela ia se fazendo menos visvel, como se a estivessem apagando da luz, at 
que se afundou na sonolncia. Na madrugada da segunda-feira trouxeram uma mulher 
que rezou junto  cama oraes de cauterizao, infalveis em homens e animais, mas osangue apaixonado de Amaranta rsula era insensvel  qualquer artifcio diferente do 
amor. De tarde, depois de vinte e quatro horas de desespero, souberam que estava 
morta porque o caudal se extinguiu sem auxlios e o seu perfil se afilou e as floraes 
da cara se desvaneceram numa aurora de alabastro e tornou a sorrir. 

Aureliano no compre endera at ento quanto gostava de seus amigos, quanta 
falta lhe faziam e quanto teria dado para estar com eles naquele momento. Colocou o 
menino na cestinha que a me tinha preparado para ele, tapou a cara do cadver com 
uma manta e vagou sem rumo pelo povoado deserto, procurando um desfiladeiro de 
volta ao passado. Bateu na porta da farmcia, onde no tinha estado nos ltimos 
tempos, e o que encontrou foi uma oficina de carpintaria. A anci que abriu a porta 
com uma lmpada na mo compadeceu-se do seu desvario e insistiu em que no, que 
ali nunca tinha havido uma farmcia, nem nunca havia conhecido uma mulher de colo 


esbelto e olhos sonhadores que se chamasse Mercedes. Chorou com a testa apoiada na 
porta da antiga livraria do sbio catalo, consciente de que estava pagando os prantos 
atrasados de uma morte que no quisera chorar no seu devido tempo para no quebrar 
os feitios do amor. Quebrou os punhos contra os muros de argamassa de O Menino de 
Ouro, clamando por Pilar Ternera, indiferente aos luminosos discos alaranjados que 
cruzavam o cu e que tantas vezes tinha contemplado com uma fascinao pueril, nas 
noites de festa, do ptio dos socs. No ltimo salo aberto do desmantelado bairro de 
tolerncia, um conjunto de acordees tocava as canes de Rafael Escalona, o sobrinho 
do bispo, herdeiro dos segredos de Francisco, o Homem. O dono da cantina, que tinha 
um brao seco e como que torrado por t-lo levantado contra a me, convidou 
Aureliano a tomar uma garrafa de aguardente, e Aureliano convidou-o a tomar outra. O 
dono da cantina falou da desgraa do seu brao. Aureliano falou da desgraa do seu 
corao, seco e como que torrado por hav-lo erguido contra a irm. Acabaram 
chorando juntos e Aureliano sentiu por um momento que a dor tinha terminado. Mas 
quando tornou a ficar sozinho na ltima madrugada de Macondo, abriu os braos na 
metade da praa, disposto a acordar o mundo inteiro e gritou com toda a sua alma: 

 Os amigos so uns filhos da puta! 
Nigromanta resgatou-o de um charco de vmito e lgrimas. Levou-o para o seu 
quarto, limpou-o, fez com que tomasse uma xcara de caldo. Acreditando que isso o 
consolava, riscou com um trao de carvo os inumerveis amores que ele continuava 
lhe devendo e evocou voluntariamente as suas tristezas mais solitrias para no deixlo 
sozinho no pranto. Ao amanhecer, depois de um sono ruim e breve, Aureliano 
recobrou a conscincia da sua dor de cabea. Abriu os olhos e se lembrou da criana. 

No a encontrou na cestinha. No primeiro impacto, experimentou umaexploso de alegria, pensando que Amaranta rsula tinha despertado da morte para se 
ocupar da criana. Mas o cadver era uma montanha de pedras sob a manta. 
Consciente de que ao chegar tinha encontrado aberta a porta do quarto, Aureliano 
atravessou a varanda saturada pelos suspiros matinais do orgo e chegou  sala de 
jantar, onde ainda estavam os escombros do parto: a panela grande, os lenis 
ensangentados, os cestos de cinza e o torcido umbigo da criana numa fralda aberta 
sobre a mesa, junto  tesoura e ao fio de seda. A idia de que a parteira voltara por 
causa do menino no decorrer da noite proporcionou-lhe uma pausa de sossego para 
pensar. Jogou-se na cadeira de balano, a mesma em que se sentara Rebeca nos tempos 
originais da casa, para dar aulas de bordado, e em que Amaranta jogava xadrez chins 
com o Coronel Gerineldo Mrquez, e em que Amaranta rsula costurava a roupinha 
da criana; e naquele relmpago de lucidez teve conscincia de que era incapaz de 
agentar sobre a sua alma o peso esmagador de tanta coisa acontecida. Ferido pelas 
lanas mortais das tristezas prprias e alheias, admirou a impavidez da teia de aranha 
nas roseiras mortas, a perseverana do mato, a pacincia do ar na radiante manh de 
fevereiro. E ento viu a criana. Era uma pelasca inchada e ressecada que todas as 
formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente para os seus canais pelo caminho 
de pedras do jardim. Aureliano no conseguiu se mover. No porque estivesse 
paralisado pelo horror, mas porque naquele instante prodigioso revelaram-se as chaves 
definitivas de Melquades e viu a epgrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no 
tempo e no espao dos homens: O primeiro da estirpe est amarrado a uma rvore e o 
ltimo est sendo comido pelas formigas. 


Em nenhum ato da sua vida Aureliano tinha sido mais lcido do que quando 
esqueceu os seus mortos e a dor dos seus mortos e tornou a pregar as portas e as 
janelas com as cruzes de Fernanda, para no se deixar perturbar por nenhuma 
tentao do mundo, porque agora sabia que nos pergaminhos de Melquades estava 
escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pr-histricas e os 
charcos fumegantes e os insetos luminosos que tinham desterrado do quarto qualquer 
vestgio da passagem dos homens pela terra, e no teve serenidade para lev-los para a 
luz, mas ali mesmo, de p, sem a menor dificuldade, como se estivessem escritos em 
castelhano sob o brilho deslumbrante do meio-dia, comeou a decifr-los em voz alta. 
Era a histria da famlia, escrita por Melquades inclusive nos detalhes mais triviais, 
com cem anos de antecipao. Redigira-a em snscrito, que era a sua lngua materna, e 
cifrara os versos pares com o cdigo privado do imperador Augusto e os mpares com 
os cdigos militares lacedemnios. A proteo final, que Aureliano comeava avislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta rsula, radicava em 
Melquades ter ordenado os fatos no no tempo convencional dos homens, mas 
concentrando tudo em um sculo de episdios cotidianos, de modo que todos 
coexistiram num mesmo instante. Fascinado pela descoberta, Aureliano leu em voz 
alta, sem saltos, as encclicas cantadas que o prprio Melquades fizera Arcadio 
escutar e que, na realidade, eram as predies da sua execuo, e encontrou anunciado 

o nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo ao cu de corpo e 
alma, e conheceu a origem de dois gmeos pstumos que renunciavam a decifrar os 
pergaminhos, no s por incapacidade e inconstncia, mas porque as suas tentativas 
eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhe cer a sua prpria origem, 
Aureliano deu um salto. Ento comeou o vento, fraco, incipiente, cheio de vozes do 
passado, de murmrios de gernios antigos, de suspiros de desenganos anteriores s 
nostalgias mais persistentes. No o percebeu porque naquele momento estava 
descobrindo os primeiros indcios do seu ser, num av concupiscente que se deixava 
arrastar pela frivolidade atravs de um ermo alucinado, em busca de uma mulher 
formosa a quem no faria feliz. Aureliano o reconheceu, perseguiu os caminhos ocultos 
da sua descendncia e encontrou o instante da sua prpria concepo entre os 
escorpies e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um operrio 
saciava a sua luxria com uma mulher que se entregava a ele por rebeldia. Estava to 
absorto que tambm no sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potncia ciclnica 
arrancou das dobradias as portas e as janelas, esfarelou o teto da galeria oriental edesprendeu os cimentos. S ento descobriu que Amaranta rsula no era sua irm, 
mas sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha s para que eles pudessem 
se perseguir pelos labirintos mais intrincados do sangue, at engendrar o animal 
mitolgico que haveria de pr fim  estirpe. Macondo j era um pavoroso rodamoinho 
de poeira e escombros, centrifugado pela clera do furaco bblico, quando Aureliano 
pulou onze pginas para no perder tempo com fatos conhecidos demais e comeou a 
decifrar o instante que estava vivendo, decifrando-o  medida que o vivia, 
profetizando-se a si mesmo no ato de decifrar a ltima pgina dos pergaminhos, como 
se estivesse vendo a si mesmo num espelho falado. Ento deu Outro salto para se 
antecipar s predies e averiguar a data e as circunstncias da sua morte. Entretanto, 
antes de chegar ao verso final j tinha compreendido que no sairia nunca daquele 
quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada 
pelo vento e desterrada da memria dos homens no instante em que Aureliano 

Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era 
irrepetvel desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem 
anos de solido no tinham uma segunda oportunidade sobre a terra. 

*** 
FIM 



